Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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03/05/2026 18h00
Onde a forma sangra: notas de uma tarde no MAM.

 

3 de maio.

Alguns lugares não foram feitos para abrigar arte.

Foram feitos para conter aquilo que escapa dela.

 

Semana passada atravessei os dias com uma inquietação específica; dessas que não se explicam, apenas conduzem. Quando percebi, meus passos já me levavam ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Como se algo antigo, datado de 1948, ainda me chamasse pelo nome.

A ata de sua fundação foi assinada há décadas… mas certas assinaturas não envelhecem. Elas continuam ecoando, como um pacto firmado entre o tempo e a necessidade humana de criar sentido onde não há.

Entrei.

O espaço me recebeu com aquele silêncio peculiar dos lugares que já testemunharam demais. O concreto de Affonso Eduardo Reidy não é frio; é honesto. Ele não tenta seduzir. Apenas sustenta. Como se dissesse: “traga sua inquietação, eu cuido do resto”.

Caminhei devagar.

Obras penduradas como órgãos expostos. Fotografias que não pedem compreensão, apenas permanência. Estruturas que parecem ter sido construídas não para serem vistas… mas para serem sentidas no corpo, como uma presença incômoda.

E ali, entre formas e vazios, pensei na origem de tudo isso...

* * *

  1.  

Pós-guerra.

Um mundo tentando se reorganizar depois de provar o próprio gosto da destruição. E, no meio disso, alguém decide criar um espaço para a arte moderna. Como se dissesse: “já que não conseguimos evitar o caos… vamos ao menos dar forma a ele”.

Há algo de profundamente humano nisso.

E profundamente inútil também.

Mas é exatamente essa inutilidade que salva.

Passei a mão sobre uma superfície áspera de uma das obras. Não deveria. Não era permitido. Mas a arte, quando é real, pede transgressão. Ela não quer ser observada à distância segura. Ela quer invadir.

Assim como a escrita.

Assim como tudo que importa.

Sentei por um tempo, observando outras pessoas atravessarem o espaço. Algumas fingiam entender. Outras fingiam sentir. A maioria apenas passava. Como quem visita um lugar sem jamais realmente entrar.

E então percebi: o museu não é um abrigo para a arte.

É um filtro.

Ele revela quem está disposto a ser tocado… e quem prefere continuar intacto.

Voltei para casa ao cair da noite, carregando comigo aquela sensação de que algo havia sido deslocado. Não em mim como indivíduo… mas na forma como percebo aquilo que faço.

Porque escrever, no fundo, não é diferente do que vi hoje.

É tentativa.

É ruína organizada.

É gesto inútil que insiste em permanecer.

Acendi uma vela. Abri meu caderno. E por um instante, hesitei.

Porque depois de caminhar entre obras que atravessaram décadas, qualquer palavra parece pequena demais. Insuficiente. Quase ridícula.

Mas ainda assim… escrevi.

Porque há algo que nem museus, nem guerras, nem o tempo conseguem conter:

A necessidade de deixar marcas.

E talvez seja isso que me une àqueles que, em 1948, decidiram fundar algo que ainda pulsa.

Não a arte em si.

Mas o impulso.

A falha bela de tentar eternizar o que nasceu para desaparecer.

A noite toma o céu por completo em meus devaneios. E eu continuo aqui, entre o silêncio e a linguagem, tentando dar forma a algo que escapa a cada linha.

Talvez seja esse o único trabalho que me interessa.

E talvez… seja o único que ainda vale a pena.

Publicado por Luna Bela Morte
em 03/05/2026 às 18h00
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
01/05/2026 11h30
O ofício de sangrar em silêncio

1º de maio.

O mundo acorda falando de trabalho.
Planilhas, cansaço, produtividade… esse culto moderno à exaustão que as pessoas insistem em chamar de dignidade.

Mas há algo mais hoje. Algo que passa despercebido pela maioria; como quase tudo que realmente importa.

Hoje também é o Dia da Literatura Brasileira.

E isso… isso me interessa.

Acordei tarde, como sempre. O sol já alto, invadindo o quarto sem ser convidado, como um intruso vulgar. Afastei a luz com as cortinas, devolvendo o ambiente ao estado que me pertence: meia-sombra, silêncio, respiração contida.

Fiquei alguns minutos imóvel, encarando o teto, como se esperasse que algum pensamento digno viesse até mim. Não veio.

Então levantei.

Ser escritora não tem nada de romântico; apesar do que insistem em repetir. Não é sobre inspiração divina ou momentos de beleza etérea. É trabalho. Mas não esse trabalho que se mede em horas. É um tipo mais insidioso.

Escrever é um labor que corrói.

Você senta diante de si mesmo e começa a escavar. E cava fundo o suficiente até encontrar algo que preferia não ter visto. E então… transforma isso em linguagem. Organiza o caos. Dá forma ao que deveria permanecer disforme.

José de Alencar nasceu em um dia como este.

Curioso, não?

Enquanto o mundo celebra o esforço físico, a produção visível, alguém decidiu também marcar a existência de um homem que trabalhou com o invisível. Que construiu não com as mãos… mas com a palavra.

Iracema. O Guarani. Senhora.

Obras que ainda respiram.

E isso me faz pensar no tipo de permanência que escolhemos.

Passei a tarde relendo trechos antigos. Não por nostalgia (isso seria um erro), mas por reconhecimento. Há algo na literatura brasileira que pulsa de forma própria. Uma identidade que não pede aprovação. Que não se curva.

E, ainda assim, é constantemente ignorada.

Como tudo que não grita.

Ao cair da noite, vou acender uma vela. Não por ritual. Mas porque gosto da forma como a chama hesita. Como se também estivesse pensando em desistir, mas continuasse ali… por teimosia.

Vou abrir meu caderno.

E irei escrever.

Escrever como quem cumpre uma função inevitável. Como quem aceita que esse é o único tipo de trabalho que faz sentido: transformar a própria inquietação em algo que atravesse o outro.

Porque, no fim… é isso.

Escrever não é produzir conteúdo.

É contaminar.

É deixar marcas.

É fazer com que alguém, em algum lugar, pare por um instante e sinta algo que não estava preparado para sentir.

E você… que lê isso agora… já está envolvido.

Talvez não perceba ainda.

Mas a literatura tem esse efeito tardio. Ela se instala devagar. Como uma presença discreta… até que se torna impossível ignorá-la.

Hoje, entre o Dia do Trabalho e o da Literatura, fico com essa conclusão incômoda:

Alguns trabalham para sobreviver.

Outros… escrevem para não desaparecer.

Se quiser conhecer aquilo que tenho construído nesse ofício silencioso; não espere encontrar conforto. Mas talvez encontre algo mais raro:

Verdade.

👉 aprendizdastrevas.com

E uma vez que ela te encontre…
não há feriado que te devolva à ignorância anterior.

Publicado por Luna Bela Morte
em 01/05/2026 às 11h30
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29/04/2026 08h00
O corpo que a noite ensina a dançar

29 de abril.

Dizem que hoje se celebra a dança.

Como se o corpo precisasse de autorização para se mover… como se o gesto precisasse de calendário para existir.

Acordei tarde, ou cedo demais para quem nunca dorme por completo. Havia um peso leve no ar, desses que antecedem algo que ainda não tem nome. Abri a janela e deixei o Rio entrar: barulho, calor, respiração desordenada. A cidade dança o tempo todo, mesmo quando insiste em chamar isso de sobrevivência.

Passei o dia com uma inquietação estranha nos músculos.

Não era cansaço.

Era impulso.

Como se algo dentro de mim quisesse se expressar sem palavras; o que, confesso, me incomoda. Sempre confiei mais no verbo do que no corpo. Palavras são lâminas precisas. O corpo… o corpo é um território mais perigoso. Ele revela antes que você decida.

Talvez por isso a dança me fascine.

E me irrite.

Pensei em Jean-Georges Noverre, esse homem que ousou transformar o balé em narrativa, dar intenção ao movimento, fazer do corpo uma linguagem. Há algo de profundamente subversivo nisso. Tirar o gesto da ornamentação… e colocá-lo no campo da verdade.

Porque quando alguém dança de verdade; não para ser visto, mas para se esvaziar, algo se rompe.

E o que escapa… não volta.

À noite, fui até um pequeno teatro. Nada grandioso. Nada digno de aplausos vazios. Um espaço íntimo, onde o suor ainda tem cheiro e o erro ainda é permitido. Sentei no fundo, como convém a quem observa melhor nas sombras.

Os corpos no palco não eram perfeitos.

Graças a tudo que ainda pulsa neste mundo.

Havia tremor, havia hesitação, havia uma beleza desconfortável na forma como se moviam; como se cada passo fosse uma tentativa de dizer algo que não cabia mais dentro deles. E ali, naquele instante, entendi.

Dançar é uma forma de exorcismo.

Assim como escrever.

Ambos exigem entrega. Ambos expõem. Ambos deixam resíduos.

Enquanto assistia, pensei nas minhas próprias coreografias invisíveis. Nos rituais que repito ao escrever. Na forma como minha mão percorre o papel como se seguisse uma partitura que ninguém além de mim escuta.

Talvez eu também dance.

Mas com palavras.

Cada verso é um movimento. Cada pausa, uma respiração contida. Cada texto, uma apresentação silenciosa onde o público… é você.

E você nem sempre percebe o que está assistindo.

Há dias em que escrevo com delicadeza.
Hoje não.

Hoje escrevo com o peso de quem sabe que o corpo também guarda memórias. Que cada gesto é um arquivo vivo. Que cada escolha (até a mais sutil) deixa marcas na carne do tempo.

Voltei para casa com essa sensação grudada na pele.

Tirei os sapatos. Deixei a música baixa preencher o espaço. E, por um instante, quase cedi.

Quase deixei o corpo conduzir.

Mas então sentei. Abri o caderno. E fiz o que sempre faço: traduzi o indizível em linguagem. Transformei movimento em palavra. Dança em permanência.

Talvez seja essa a minha forma de sobreviver ao excesso.

Não dançando.

Mas escrevendo até que o corpo se cale.

Ainda assim… há algo que permanece inquieto.

Porque no fundo, eu sei:

Existem verdades que só o corpo consegue dizer.

E quando elas vierem… não haverá verso capaz de contê-las.

Publicado por Luna Bela Morte
em 29/04/2026 às 08h00
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26/04/2026 08h26
O silêncio que ainda brilha sob a pele do mundo

 

26 de abril.

Existem datas que não passam.
Elas permanecem… como radiação.

Hoje o mundo finge lembrar de Chernobyl. Publicam números, repetem fatos, prestam homenagens com a delicadeza artificial de quem toca um cadáver usando luvas. Mas eu sei (e você também deveria saber) que certos desastres não pertencem ao passado. Eles continuam acontecendo, lentamente, dentro daquilo que fingimos ser seguro.

Passei a manhã em silêncio.

Não por respeito protocolar, mas porque há tragédias que exigem escuta. Escutei o vento atravessando a janela como se carregasse ecos de um lugar onde o tempo parou de obedecer. Imaginei o reator 4 abrindo seu ventre luminoso naquela madrugada de 1986… não como um erro, mas como uma revelação.

O homem nunca soube lidar com o que cria.

Sempre foi assim.

Constrói deuses com as próprias mãos… e depois se assusta quando eles respondem.

A explosão não foi apenas física. Foi simbólica. Um rasgo na ilusão de controle. Uma ferida invisível que se espalhou por corpos, por árvores, por gerações inteiras. A morte ali não foi imediata para todos. Foi lenta. Paciente. Elegante até.

Como certas verdades.

Caminhei esta manhã, deixando a cidade me envolver com seu caos habitual. O Rio segue vivo, ruidoso, pulsante;  ignorante de que também carrega suas próprias formas de contaminação. Não radioativas… mas igualmente corrosivas.

Observei as pessoas.

Elas sorriem, trabalham, se tocam… sem perceber o quanto estão expostas. Não à radiação de Chernobyl, mas à repetição. À negação. À escolha constante de não ver.

E talvez seja isso que mais me inquieta.

O desastre não foi apenas um evento.

Foi um espelho.

Voltei para casa quando o dia já se insinuava como uma promessa inevitável. Acendi uma luz baixa. Abri meu caderno. E, por um instante, hesitei.

Porque escrever também é perigoso.

Cada palavra que registro é uma forma de exposição. Eu mesma me torno reator (instável, carregada de matéria sensível, à beira de liberar algo que não pode ser contido depois de revelado.).

Talvez por isso eu entenda, de forma quase íntima, o que aconteceu ali.

Não em escala. Mas em essência.

O excesso.

A falha.

A consequência inevitável de brincar com forças que exigem respeito.

Hoje não escrevo para consolar.
Escrevo para lembrar.

Que nem tudo que mata é visível.
Que nem toda destruição acontece de uma vez.
E que algumas zonas contaminadas… parecem normais à primeira vista.

Mas não são.

Nunca foram.

E, no fundo, todos nós carregamos pequenas Chernobyls internas; áreas interditadas, memórias que evitamos tocar, emoções que vazam lentamente e alteram tudo ao redor.

A diferença é que não há evacuação possível.

O céu caiu por completo agora. E há uma beleza estranha nisso. Uma beleza que não pede aprovação. Apenas existência.

Talvez seja isso que me mantém escrevendo.

A necessidade de iluminar (ainda que brevemente) aquilo que insiste em permanecer oculto.

 

—

A cidade fantasma de Pripyat, agora usada para estudar os padrões de precipitação radioativa, fica a menos de 3km do reator nuclear de Chernobyl. O reator que falhou no histórico acidente foi construído na década de 1970 para a equipe da usina. Os 50 mil habitantes de Pripyat foram evacuados 36 horas após o acidente.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 26/04/2026 às 08h26
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12/04/2026 17h30
O mar não enterra. Ele devolve!

Fim de tarde.
Aquele instante em que o céu parece hesitar entre viver e morrer.

 

Sentei-me diante do mar como quem se coloca diante de um confessor antigo; não por fé, mas por cansaço. O horizonte sangrava em tons diluídos, e o sol descia lentamente, como se tivesse vergonha de permanecer entre nós.

Há algo no mar que me perturba.

Ele nunca guarda nada. Apenas engole… e depois devolve, deformado, salgado, irreconhecível. Talvez por isso eu confie mais nos cemitérios. Eles sabem manter silêncio. Já o mar… o mar sussurra demais.

Fiquei ali, observando.

Casais caminhavam como se o amor fosse suficiente. Crianças corriam sem saber que a inocência é uma fase terminal. E eu, imóvel, sentia aquela familiar distância entre mim e o resto do mundo; como se estivesse sempre um passo fora da realidade, olhando tudo através de um véu fino de estranhamento.

O vento trouxe memórias que eu não pedi.

Rostos. Toques. Palavras que ainda ecoam como promessas quebradas. Tudo aquilo que um dia foi vivo e agora existe apenas como resíduo emocional. Engraçado como certas lembranças não morrem… apenas aprendem a se esconder melhor.

E então pensei naquilo que faço.

Escrever não é um gesto bonito. É uma forma de necromancia. Eu trago de volta o que deveria permanecer enterrado. Dou voz ao que apodrece em silêncio. Transformo ausência em presença; e pago o preço disso todas as noites.

Mais cedo, antes de vir até aqui, embalei mais alguns exemplares de Poesia para ser lida no cemitério. Eles estavam alinhados sobre a mesa, silenciosos, como pequenas urnas esperando destino.

Enviei cada um pelo correio.

Gosto de imaginar esse percurso. Meus livros atravessando o país enquanto eu permaneço aqui, à beira de um mar que não sabe guardar segredos. Eles seguem viagem como mensagens seladas… carregando dentro de si aquilo que eu nunca diria olhando nos olhos de alguém.

E você que já recebeu o seu (ou que ainda está esperando) faz parte disso agora.

Há algo profundamente íntimo em permitir que minhas palavras entrem na sua casa. Talvez na sua noite. Talvez no exato momento em que você estiver mais vulnerável, mais aberto… mais real.

Você não comprou apenas um livro.

Você aceitou carregar um fragmento daquilo que me atravessa.

O sol desapareceu por completo. A noite começa a se erguer com aquela elegância inevitável, como uma rainha que não precisa anunciar sua chegada. E eu continuo aqui, sentindo o peso suave de existir entre dois mundos: o que se vê… e o que se sente.

Talvez seja por isso que escrevo.

Porque o mar devolve.

Mas eu… eu transformo.

Se ainda não atravessou esse território, ainda há tempo; embora eu não recomende esperar demais:

👉 aprendizdastrevas.com

 

Algumas leituras não afogam.

Mas também não permitem que você volte à superfície o mesmo.

Publicado por Luna Bela Morte
em 12/04/2026 às 17h30
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