
Hoje o sol se afogou no mar com a lentidão cruel de um amante que sabe que vai partir. Caminhei pela orla como quem percorre um reino interditado, com a barra do vestido bebendo a espuma negra que restava da maré. O pôr do sol estava vermelho, um vermelho tão denso que parecia derramado à mão por algum deus antigo que não sabe perdoar. Gosto quando o céu sangra assim. Me sinto menos estranha no mundo, como se o céu finalmente confessasse que também carrega suas sombras.
No horizonte, as gaivotas eram apenas silhuetas tortas riscadas contra a brasa do crepúsculo. A luz morria, mas não sem lutar. E eu… eu respirava como se cada sopro fosse uma carta de liberdade. Ali, naquela fronteira entre o sal e o silêncio, descobri que a beleza é sempre mais feroz quando nasce do fim de algo. Nenhuma catedral me ensina tanto quanto a praia no instante em que o sol sucumbe.
Coloquei nos fones uma trilha que combinava com essa coreografia de luz moribunda: “Red Water” do Type O' Negative. A melodia arrasta a alma para um lado onde o vento parece mais sábio, onde cada nota ruge como uma onda carregando memórias que ninguém ousa admitir. Recomendo que ouçam essa música enquanto leem este registro. Ela abre portas internas que o mundo prefere manter fechadas.
Quero que meu diário seja um porto para todos que carregam tempestades no peito. Então deixo um convite: escrevam nos comentários outras músicas que queimam devagar, outras canções góticas que transformam o pôr do sol em ritual. Quero ouvir o que move a alma de vocês, o que faz o sangue pulsar como o horizonte quando decide incendiar a própria existência.
Hoje o mar me disse que a escuridão também sabe ser bela. E eu acreditei.

Sob a tormenta, minha pele finalmente respira.
Existe algo de profundamente visceral naquele instante em que decido não correr, não me proteger, não buscar abrigo algum. Deixo que a chuva desabe sobre mim como um veredicto antigo, uma sentença que eu mesma escolho aceitar. Talvez por isso eu a ame tanto: porque é um caos que não pede licença, mas que também não impõe joelhos no chão.
Dizem que a arte nasce do sofrimento. Mentem. Arte nasce da coragem.
Da ousadia de se colocar sob o céu carregado e dizer ao mundo: “eu não temo o escuro que me atravessa.” É fácil criar quando a vida oferece sol. Difícil é transformar trovão em palavra, relâmpago em poesia, enxurrada em verdade.
Quando a chuva começa, meu vestido negro se cola ao corpo como uma segunda pele, pesado, fiel, quase ritualístico. Sinto as gotas descendo pela coluna como pequenos presságios. As ruas vazias, as janelas fechando, os passos apressados… e eu ali, imóvel por dentro, infinita por fora.
É nesse instante que descubro aquilo que nenhum templo jamais me deu: vida.
É nesse instante que encontro o que palácios nunca puderam me oferecer: liberdade.
A água me invade como um chamado antigo, como se a própria noite quisesse limpar de mim tudo o que não sou, tudo o que tentaram me ensinar, tudo o que tentaram me transformar.
Na chuva, eu renasço sem pedir permissão.
Na chuva, eu me torno a mulher que sempre fui, antes que o mundo tentasse me domesticar.
E lembro, com a força de um relâmpago, que ninguém controla a alma de quem dança com tempestades. Que só quem enfrenta a fúria do céu de olhos abertos é capaz de fazer da própria existência um ato de criação.
Então permaneço.
Deixo a tempestade me atravessar como lâmina, como bênção, como renascimento.
E quando a última gota cai, eu sei: é de dentro da tormenta que a minha arte respira. É na fúria do céu que minha liberdade floresce. É sob a chuva que a minha alma escolhe viver.

Há noites em que me descubro caminhando por ruas que não são minhas e, ainda assim, me pertencem mais do que quaisquer paredes que já ocupei. Ser nômade digital (essa etiqueta bonita que alguns usam como desculpa para cafés chiques) foi para mim uma pequena revolução íntima: liberdade para escrever, estudar e viver sem ter que pedir permissão à boca alheia. Ando por cidades, sento em praças, frequento bibliotecas antigas com cheiro de papel e mofo, leio até que os olhos ardam; e escrevo enquanto o mundo insiste em gritar sobre política vazia, dogmas e futilidades que nada ensinam.
A leitura me salvou antes mesmo de eu entender o verbo salvar. Livros foram pontes para longe da ignorância que quase me prendeu; portas por onde pude entrar em mundos, ideias e argumentos; eles deram forma ao meu pensamento e arma à minha liberdade. A ciência confirma o que a experiência intuiu: ler com regularidade protege e estimula o cérebro, reduz o estresse e fortalece a memória; uma armadura intelectual e emocional que não se compra em prateleiras de promessas fáceis.
Ser nômade digital não é um capricho estético; é uma estratégia de sobrevivência emocional. Viajar e trocar de cenário liberam o corpo das rotinas de ansiedade e abrem espaço para novas narrativas; o contato com diferentes culturas, paisagens e bibliotecas faz bem à saúde mental e nivela a alma com o mundo. Estudos mostram que experiências de viagem e deslocamento, quando saudáveis e intencionais, reduzem o estresse e enriquecem a vida emocional; e eu poderia concordar com cada página dessa pesquisa enquanto folheio um velho livro em uma estação qualquer.
Também aprendi a não alimentar o monstro da polarização. A cidade tem zonas de silêncio onde política e crenças em excesso não passam de vento. A pesquisa contemporânea demonstra que a polarização política é um fator real de estresse e prejuízo para a saúde coletiva; um motivo a mais para eu preferir as prateleiras das bibliotecas às timelines enfurecidas. Ler me ensinou a perguntar, a desconfiar das certezas prontas, a respirar antes de aceitar as frases que a mídia sussurra.
Há ainda outro fato que me sustenta: envolver-se com arte, cultura e conhecimento não é luxo; é remédio. Participar de leituras, ouvir música, visitar exposições e consumir cultura com curiosidade tem benefícios mensuráveis para o bem-estar: melhora do humor, redução da depressão e aumento da capacidade cognitiva. Não é por acaso que eu prefiro noites em bibliotecas a debates inflamados que não acrescentam nada à lucidez.
Mas não confundam: a liberdade nômade não é fuga covarde. É disciplina. Exige rotinas de escrita, horários, pesquisa, disciplina intelectual. Minha vida nômade é uma biblioteca ambulante: cada cidade empresta-me um acento, um sotaque de luz que eu traduzo em versos, contos e estudos. E essa vida me deu algo que o mundo com suas buzinas e seus pregões não dá: tempo. Tempo para estudar autores, para revisar manuscritos, para aprender formatos novos, para transformar o desassossego em forma.
Por isso escrevo para vocês, leitores: se estão sufocados pela insignificância que viraliza, se a vida parece reduzida a brigas de meia-tigela entre politizados e dogmáticos, conheçam um remédio simples e antigo: leiam. Leiam com voracidade. Leiam para pensar melhor, para se sentirem melhor, para serem melhores e livres. Busquem bibliotecas, andem pelas ruas como quem procura versos escondidos nas fachadas, voltem para o silêncio que ainda mente menos do que a tela.
Sou grata por cada passo que dei fora do mapa seguro. Sou grata por cada livraria onde deixei um coração desenhado entre páginas. Ser nômade digital me libertou do ruído e me deu a chance de cultivar um silêncio fecundo, onde a arte e a leitura fazem brotar novas perguntas e, com isso, uma vida mais íntegra.
A quem pergunta se é prático ou cômodo: não é sempre. Mas é verdadeiro. E verdade, para mim, tem mais valor do que conforto fingido.

Há noites em que me esqueço de respirar quando penso no que quase fui. Não por magia, não por maldição ancestral, mas por algo muito mais comum e, por isso mesmo, mais perigoso: a ignorância travestida de cuidado.
Cresci cercada por tias que, apesar de acreditarem estar me protegendo, tentaram moldar minha alma à força. Eu era jovem demais para entender o peso disso, mas velha o suficiente para sentir a corda sendo puxada em direção a um abismo onde nenhuma pergunta era permitida. Elas repetiam versos decorados com o fervor de quem mal sabia ler, mas acreditavam compreender o mundo inteiro por meio de um único livro. E eu, menina ainda, quase fui arrastada para dentro daquele círculo onde toda dúvida era pecado e todo conhecimento externo era ameaça.
Lembro-me de como falavam da minha “salvação” como quem negocia um animal para o abate: se eu me convertesse, se eu seguisse suas regras, se eu renunciasse aos livros que tanto amava, então talvez me ajudassem. Era estranho perceber como tinham tudo: casas confortáveis, geladeiras cheias, presentes caros, graças ao trabalho incansável dos maridos. E, ainda assim, viviam numa prisão emocional. Uma prisão que tentavam, docemente, oferecer a mim como herança.
Mas havia algo dentro de mim que queimava mais do que o medo. Um chamado silencioso e antigo, talvez nascido da própria Noite. A leitura foi minha fuga, minha espada, minha salvação. Cada livro que eu abria era uma janela, e cada janela me mostrava que existiam mundos demais para viver trancada no pequeno cômodo das certezas alheias.
Enquanto minhas primas repetiam frases prontas, eu devorava romances, poemas, tratados, histórias proibidas. E assim, enquanto elas eram moldadas para depender de maridos, pastores ou parentes, eu escolhia o caminho árduo e luminoso do estudo. Me formei em Letras. Depois em Marketing. Depois em Jornalismo. Três coroas para a minha cabeça que elas diziam ser rebelde demais.
Hoje, quando olho para trás, vejo o corte exato do fio que me libertou. Não foi milagre, não foi promessa. Foi a palavra. Foi a leitura. Foi a fome por saber. O que chamavam de rebeldia era, na verdade, minha recusa em ser domada. E se isso as ofendia, paciência. Melhor ofender do que morrer em silêncio.
Ainda me lembram que eu lia “coisas que não eram a Bíblia”, como se isso fosse crime. A ironia é que li a Bíblia inteira. Li com atenção, com espírito crítico, com curiosidade; e não me tornei sua serva. Não entreguei minha alma a nenhum homem, a nenhuma mulher, a nenhum templo. Acredito na liberdade. Acredito na lucidez. Acredito que a mente deve ser vasta demais para caber num dogma.
E repito isso para quem quiser ouvir: uma mulher precisa ser livre. Livre para pensar, para questionar, para aprender, para existir fora das grades que o medo constrói. Quem se curva sem perguntar por quê acaba escravizado por qualquer autoridade que se imponha em nome do divino.
Eu escapei. Escapei pela força das palavras, pelo brilho ácido do conhecimento. Nunca pertencerei a ninguém. Nem a elas. Nem a seus maridos. Nem ao fantasma das crenças que tentaram me impor.
Minha alma é minha. Minha noite é minha. E ninguém acenderá luz alguma em mim que eu mesma não deseje carregar.

Há noites em que o café tem o gosto exato do presságio. Hoje, enquanto o vapor subia da xícara como um espírito recém-desperto, senti o chamado familiar das páginas que venho tecendo para minha saga Ordo Umbrae. Não é apenas um conjunto de livros; é um território espiritual onde deixo que minhas próprias sombras caminhem, observem, sangrem e sussurrem. Cada palavra que escrevo nessa obra me atravessa como um ritual, um sacramento invertido cujos ecos continuam por horas depois que fecho o manuscrito.
Venho trabalhando nesses textos com uma devoção que beira o profano. Talvez porque Ordo Umbrae não nasceu de um momento impulsivo, mas de anos de pesquisa, noites inteiras de estudo, leituras antigas sobre vampirismo, simbologia religiosa, magia proibida e as mitologias que se infiltram na pele da humanidade. Passei incontáveis horas mergulhada em grimórios digitais, manuscritos, fóruns esquecidos e artigos acadêmicos que tratam das sombras com surpreendente seriedade. Cada detalhe da saga é costurado com esses fios: o que é lido, o que é sabido e o que apenas ouso sentir.
O primeiro volume, O Aprendiz das Trevas, já pulsa livre para quem desejar conhecê-lo. Disponível gratuitamente em minha página, aprendizdastrevas.com, ele apresenta Castor, essa alma ferida que perdeu Elena para a morte e para o destino. Castor sempre foi, para mim, a metáfora viva do luto que vira loucura; e do amor que se corrompe lentamente, como uma vela consumida pelo próprio pavio. Sua chegada ao mosteiro, suas penitências silenciosas e a descoberta do nome proibido, Cael, são apenas o prelúdio de um canto mais profundo, mais trágico. Ele é a primeira porta do labirinto. Quem entra por ela não volta igual.
Depois, em O Beijo e a Maldição, retornei ao mesmo mosteiro, mas por outra porta. Ali habita o nascimento da tragédia de Cael e Isolda. Ele, tocado pela fome das sombras. Ela, marcada pela audácia de amar o impossível. Entre rituais proibidos e traições acesas sob a lua sangrenta, o destino de ambos se enrosca como duas serpentes que jamais deveriam dividir a mesma respiração. Enquanto isso, Castor (sempre ele) busca nas páginas d’O Cântico da Balança (livro de ocultismo que criei, inspirado em um outro real) uma forma de enfrentar aquilo que ultrapassa a carne, o tempo e a misericórdia.
Confesso que escrever esses livros tem sido como atravessar um mosteiro em ruínas segurando uma vela prestes a se apagar. Mas é justamente isso que me move. Ordo Umbrae não pretende ser apenas uma saga gótica. Ela foi criada como um convite ao exílio, uma travessia para os reinos onde o amor e o horror caminham de mãos dadas. Não escrevo para entreter. Escrevo para provocar fissuras. Para acender velas vermelhas no cemitério do mundo.
E, no entanto, há algo ainda mais profundo: a certeza de que essa saga não termina aqui. Na gaveta, repousam silenciosos mais quatro manuscritos; todos em revisão minuciosa, todos exigindo de mim um cuidado quase cirúrgico. Há noites em que sinto que esses livros respiram. Às vezes penso ouvir seus capítulos se rearranjando sozinhos, como se a própria narrativa reclamasse seu formato final. Sei que ainda me dedicarão ao longo dos próximos meses, talvez até o último dia do ano que vem. Mas não temo a jornada. Aceito o pacto.
Meu novo livro; aquele que presenteará meus leitores góticos no início de 2026, também já começou a pulsar. Ele será um fragmento especial dessa mesma escuridão, um filho literário que venho preparando com zelo e devoção. Enquanto escrevo, sinto a presença de vocês, meus leitores, caminhando ao meu lado como sombras queridas. É por vocês que ascendo mais essa chama.
Agora, fecho este registro enquanto o café termina de esfriar. Há rituais a completar, capítulos a lapidar, destinos a selar. A saga continuará. E eu também. Sempre ao lado das trevas que escolhi cultivar.
Até a próxima noite.

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