
A lua cheia estava presa entre dois prédios quando saí da festa.
Meus amigos ficaram para trás, misturados à música, ao cheiro de bebida e às conversas que só parecem importantes enquanto duram. Preferi caminhar sozinha. Entrei por um beco estreito, desses que o Rio preserva como se a cidade precisasse manter algumas cicatrizes à mostra. O chão ainda guardava umidade. Havia água acumulada perto do meio-fio, uma lâmpada defeituosa piscando sobre uma porta metálica e aquele silêncio incompleto das madrugadas urbanas, sempre interrompido por algum motor distante.
Senti medo.
Não daquele medo cinematográfico, organizado, que vem acompanhado de trilha sonora e criatura identificável. Era outro. A sensação de que a noite estava entrando em mim por lugares que eu normalmente mantenho fechados.
Talvez por isso eu tenha pensado nas redes sociais...
Ultimamente, aparecer nelas tem sido um martírio.
Não gosto de me mostrar. Gosto de mostrar o que escrevo. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas, embora o algoritmo, esse pequeno gerente de necrotério da atenção humana, aparentemente não tenha sido informado.
Se eu quiser divulgar meus livros, preciso aparecer. Rosto, voz, bastidores, fotografias, pequenos fragmentos da vida. O mercado editorial vive uma guerra silenciosa por visibilidade. Só no Brasil, cerca de 45 mil títulos foram produzidos em 2025, e a própria Câmara Brasileira do Livro inclui autores e influenciadores entre os agentes que ajudam a movimentar o ecossistema de leitura. Naquele ano, 18% dos adultos brasileiros compraram ao menos um livro. Há leitores. O problema é conseguir que, entre milhares de capas implorando atenção, alguém encontre justamente a sua.
Em resumo: para vender histórias sobre fantasmas, aparentemente preciso provar periodicamente que ainda possuo um rosto.
A humanidade aperfeiçoou a literatura durante séculos para depois chegar ao vídeo vertical de quinze segundos. Uma evolução admirável.
Foi por causa disso que me lembrei de uma conversa com um amigo escritor.
Ele me disse:
“Luna, para você é fácil. Você é rica. Veio de uma família rica. Tem tudo. Eu preciso trabalhar porque não dá para viver de literatura.”
Não fiquei ofendida.
O pior tipo de privilégio é aquele que finge não existir.
Meus pais me deixaram uma herança que me permite viver sem depender de um emprego para pagar minhas necessidades básicas. Tenho minha casa no Brasil. Estudei em excelentes universidades em Portugal. Posso dedicar horas à literatura que outros escritores precisam roubar do sono depois de um dia inteiro de trabalho.
Seria indecente comparar nossos pontos de partida.
E, quando pensei em Portugal, por um instante o beco desapareceu.
Vi as calçadas molhadas, fachadas antigas marcadas pelo tempo, azulejos cobertos por uma película fina de chuva, cafés pequenos ainda iluminados no fim da tarde, vitrines de livrarias e aquele cheiro de pedra úmida que algumas cidades parecem guardar nos ossos. Gostava de caminhar sob a chuva sem abrir o guarda-chuva. Sentia a água escorrendo pelos cabelos e tinha a impressão de que podia atravessar uma cidade inteira sem precisar explicar quem eu era.
Tenho saudade disso.
E tenho medo dessa saudade...
Porque Portugal também guarda a pior versão da minha vida.
Meu casamento não foi uma história triste (histórias tristes ainda possuem alguma delicadeza, acreditem).
Aquilo foi violência.
Uma parte chegou aos meus livros, especialmente a Retrato Falado. Outra continua enterrada onde ainda não consigo tocar sem sentir o corpo inteiro reagir.
Dentro do meu casamento, fui vítima de violência doméstica. Houve estupros, uma costela fraturada, um dente quebrado e marcas de faca que a pele aprendeu a carregar melhor do que a memória.
E as humilhações que eu passava... tenho até vergonha de mencionar!
No início, ele parecia um príncipe, mas após o casamento se revelou um verdadeiro monstro.
Meu ex-marido morreu durante uma briga em que finalmente o enfrentei.
Foi um acidente.
Mas existe uma verdade que quase nunca digo: alguma parte de mim queria que ele morresse.
Demorei anos para conseguir escrever essa frase sem tentar corrigi-la depois.
Fui condenada. Passei cinco anos presa. Cinco anos têm uma anatomia própria quando são retirados de uma vida. Meu advogado, pago por minha família, conseguiu impedir que fossem ainda mais.
Mais uma vez: privilégio existe.
Ele pode salvar alguém de certas consequências, apesar de não apagar aquilo que aconteceu antes.
Continuei andando pelo beco. Minha sombra seguia alongada diante de mim pela luz irregular dos postes. A lua aparecia entre os telhados como uma testemunha que decidira não prestar depoimento.
Meu ex-marido tinha uma habilidade pior do que bater.
Sabia reduzir.
Ele era o tipo de pessoa capaz de nos diminuir metodicamente, até começarmos a pedir desculpas por ocupar espaço demais.
Durante muito tempo fui uma espécie de lixo dentro dos olhos de alguém.
Certas humilhações ainda me visitam. Tenho ansiedade. Tenho crises de pânico. Minha casa continua sendo um território difícil de compartilhar. Não recebo visitas com facilidade. Organizei parte dos meus compromissos, correspondências e assuntos bancários longe do lugar onde moro.
Talvez eu tenha vindo para o Brasil também para criar distância entre meu corpo e determinadas lembranças.
E encontrei Angra dos Reis...
Ilhas...
Muitas...
Talvez por isso eu goste tanto delas. Cada ilha parece um mundo que conseguiu sobreviver separado do continente.
Eu compreendo isso.
Meu amigo escritor, aquele que acreditava que minha vida havia sido gentil porque viu apenas a superfície financeira dela, certa vez me disse que já não encontrava sentido em continuar vivendo.
Não respondi com poesia.
Quando alguém fala em desaparecer, frases bonitas podem ser uma forma muito sofisticada de não escutar.
Disse a ele para continuar escrevendo, sim. Disse para proteger o sonho, criar rotina, aprender o que pudesse, continuar mesmo quando o mercado parecesse uma porta fechada. Mas vontade de morrer não é falta de disciplina. É dor. E dor desse tamanho merece ajuda concreta, presença e cuidado, não um sermão sobre produtividade.
A dificuldade financeira que ele descrevia também não era imaginação. Em uma ampla pesquisa da Authors Guild com 5.699 autores nos Estados Unidos, a renda mediana vinda apenas dos livros para autores em tempo integral foi de US$ 10 mil em 2022; entre todos os autores pesquisados, incluindo os que escreviam em tempo parcial, a mediana obtida com livros foi de apenas US$ 2 mil. Não é um retrato estatístico do Brasil, mas mostra uma realidade internacional pouco romântica: escrever livros e viver deles são duas atividades que, irritantemente, nem sempre acontecem na mesma pessoa.
Meu dinheiro me deu tempo, não me deu os livros prontos (essa parte eu fiz sozinha).
Aprendi fotografia e comprei câmera e tripé porque fotografar a mim mesma é mais confortável do que transformar minha casa em estação turística para conhecidos. Eu monto os cenários, acendo as velas, organizo objetos, faço as fotografias. Aprendi edição. Faço capas, diagramação, revisão, sites, marketing, redes sociais e grande parte da administração das minhas próprias obras.
Tenho horror a erro ortográfico. Algumas pessoas temem demônios. Cada um escolhe o inferno que merece.
Nunca dependi de editora para existir como escritora.
No entanto, contratei um funcionário, amigo meu, para ser meu agente lierário, e com ele tenho apoio profissional para contatos e questões financeiras e processuais porque descobri que existe uma diferença importante entre independência e estupidez. Fazer tudo sozinha apenas para poder dizer que faço tudo sozinha seria trocar liberdade por vaidade.
Talvez seja isso que eu gostaria que meu "amigo suicida" entendesse.
Dinheiro altera brutalmente as possibilidades de uma carreira. Negar isso é obsceno. Mas recursos e criação continuam sendo coisas diferentes.
Meu ex-marido tentou destruir quase tudo em mim. Mas ele cometeu um erro:
Tentou destruir também o meu sonho.
Na época, quando minha dignidade parecia ter sido reduzida a alguma coisa pequena demais para ser encontrada, eu ainda escrevia. Às vezes mentalmente. Às vezes escondida. Às vezes apenas construindo frases que ninguém leria.
Era um lugar onde ele não entrava.
Hoje publico aquilo que durante anos viveu fechado em gavetas.
Tenho tempo para organizar manuscritos, revisar poemas, cuidar dos livros, estudar, escrever de madrugada e construir o meu trabalho sem pedir autorização.
A literatura não curou tudo.
Não gosto dessa mentira.
Ela me deu uma linguagem para aquilo que antes existia apenas como sintoma.
Já é muito.
Cheguei ao fim do beco.
A avenida reapareceu diante de mim com seus faróis, postes e ruídos. A festa estava longe. O medo havia diminuído.
Olhei para cima.
A lua cheia continuava lá.
Pensei no meu amigo, em todos os escritores que trabalham durante o dia e escrevem quando o corpo já pediu rendição, nos talentos que morrem porque alguém lhes convenceu de que começar pequeno é o mesmo que ser pequeno.
Eu não tenho uma frase milagrosa para eles.
Tenho, sim, algo menos bonito:
Continuem enquanto ainda existir dentro de vocês alguma coisa que queira continuar. Procurem ajuda quando a dor ultrapassar aquilo que conseguem carregar sozinhos. Aprendam o que ninguém ensinou. Protejam o tempo. Protejam a mente. Protejam a obra.
Porque já vi coisas demais serem enterradas antes da hora.
E o talento não passa de um cadáver particularmente triste.

A colher bateu três vezes na borda da xícara antes que eu percebesse que minha mão ainda tremia.
Eram quase três da manhã.
A camomila já tinha perdido parte do calor, mas eu continuava segurando a porcelana entre as mãos como quem segura um pequeno animal assustado. Talvez o animal fosse eu. Não gosto muito dessa hipótese, por isso vou deixá-la aqui e seguir adiante antes que ela adquira confiança.
Vim para o escritório depois de cometer aquele erro tão contemporâneo quanto voluntário: acompanhar notícias demais.
Crimes. Violência. Gente filmando a desgraça alheia. Gente opinando sobre cadáveres como quem escolhe cobertura de pizza. Uma notícia levava à outra e, quando percebi, meu coração havia decidido interpretar sozinho o fim do mundo.
Fechei tudo.
Ou quase tudo.
Certas imagens não obedecem ao botão de desligar.
Agora Angra dos Reis está silenciosa do lado de fora. Pela janela, vejo apenas algumas luzes distantes e uma escuridão espessa cobrindo o relevo. O mar não aparece daqui como deveria, mas eu sei que está lá. Gosto disso. Há coisas cuja existência me tranquiliza mais quando não consigo vê-las.
Foi por isso que procurei meus livros.
Minha estante ocupa quase uma parede inteira. Passei os dedos pelas lombadas sem procurar nada específico até encontrar Florbela.
Ela veio para a mesa comigo.
Charles Baudelaire já estava me esperando na parede.
Tenho um quadro com sua fotografia pendurado ao lado de uma das estantes. Às vezes, durante a madrugada, levanto os olhos e encontro aquela expressão severa me observando trabalhar. Imagino que ele desaprovaria metade das minhas escolhas e desprezaria cordialmente a outra metade. É uma relação saudável. Nenhum de nós exige aprovação.
Florbela é diferente.
Abro o livro e sinto aquela intimidade quase indecente de quem escreveu como se cada verso tivesse sido retirado de uma região do corpo que deveria permanecer coberta. Seus sonetos fizeram do amor, da solidão, da saudade e da dor matéria pessoal, numa poesia confessional que ainda conserva sua ferocidade. Livro de Mágoas apareceu em 1919; depois vieram outras metamorfoses daquela mulher portuguesa que se recusava a sentir pela metade.
Talvez seja isso que me prende nela.
Florbela é sentimento puro de forma ingênua, sem culpa nenhuma por expresar o que sente. Eu amo essa mulher!
E como ela, eu nunca aprendi a controlar meus sentimentos.
Durante anos achei que deveria corrigir essa espécie de excesso, como se sensibilidade fosse uma falha de caráter que pudesse ser disciplinada com agenda, café e convívio social suficiente. Mas Portugal me ensinou o contrário.
Na faculdade, eu passava horas cercada de pessoas. Corredores, vozes, conversas (muitas vezes vazias), perguntas, encontros (também vazios), e aquela sucessão interminável de pequenas negociações que chamamos de convivência. Eu até conseguia participar... Falava. Sorria. Fazia tudo que se espera de uma criatura razoavelmente domesticada. Depois voltava para casa exausta como se tivesse passado o dia carregando móveis.
Nunca contei isso com facilidade.
Pessoas me cansam.
Não porque eu as odeie. O ódio exigiria uma dedicação que francamente não pretendo oferecer a tanta gente.
Elas me atravessam.
Percebo mudanças de tom, silêncios estranhos, pequenas hostilidades disfarçadas de brincadeira, a tristeza escondida atrás de uma resposta rápida. Há dias em que uma sala cheia parece formada por dezenas de rádios sintonizados ao mesmo tempo dentro da minha cabeça.
Por isso a lembrança da Bienal do Livro de São Paulo voltou esta noite.
Os corredores tomados por gente. Filas. Corpos tentando passar por espaços onde mal cabiam outros corpos. No primeiro fim de semana, ingressos chegaram a esgotar, e houve relatos de filas longas e corredores tão congestionados que simplesmente circular se tornou difícil.
Há algo deliciosamente humano em organizar uma celebração aos livros e torná-los quase inacessíveis por excesso de humanidade.
Imagino Baudelaire apreciando a ironia.
Talvez não a fila do banheiro.
Nem as polêmicas.
Até um homem mascarado como Ghostface acabou no centro de uma controvérsia após aparecer num estande ligado ao dark romance, interagir de modo sexualizado com visitantes e beijar frequentadoras. A organização afirmou que aquilo não fazia parte da programação oficial e notificou a editora responsável pelo espaço. Ao mesmo tempo, o próprio gênero virou assunto de debates sobre erotismo, fantasia e limites dentro da feira.
Fiquei pensando nisso enquanto mexia a camomila.
Talvez minha relação com Baudelaire venha justamente daí: do desconforto diante de uma sociedade que ama condenar aquilo que secretamente deseja observar.
Les Fleurs du mal também enfrentou seu tribunal. Em 1857, Baudelaire e seus editores foram condenados por ofensa à moral pública, e seis poemas foram suprimidos; essa censura só seria revogada muitas décadas depois.
A moralidade costuma ter uma curiosa obsessão por espiar através da fechadura antes de mandar fechar a porta.
Olho novamente para a fotografia dele.
Depois para Florbela aberta diante de mim.
E percebo que boa parte daquilo que escrevo nasceu nesse espaço estreito entre os dois.
Florbela me ensinou, sem saber, que uma mulher pode transformar aquilo que a fragiliza em linguagem sem pedir desculpas pela intensidade. Baudelaire me mostrou que a beleza não precisa nascer limpa. Pode crescer no desconforto, no artificial, na doença das cidades, naquilo que a sociedade empurra para debaixo do tapete e depois finge não reconhecer pelo cheiro.
Eu vim depois deles.
Muito depois.
Com meu computador, minhas redes sociais, meus leitores invisíveis, notificações piscando enquanto tento escrever sobre fantasmas num século que fabrica fantasmas em escala industrial.
Talvez aqui esteja a confissão que eu normalmente esconderia.
Minha solidão não é consequência da tristeza.
É um prazer.
Isso me assusta um pouco.
Há noites em que fechar a porta do escritório me dá uma satisfação física. O clique da fechadura. O celular virado para baixo. Nenhuma conversa exigindo resposta. Nenhum rosto pedindo interpretação. Apenas madeira, papel, chá e mortos.
Sinto alívio.
E existe culpa nesse alívio.
Porque fomos educados para tratar sociabilidade como prova de saúde, popularidade como evidência de valor e disponibilidade como virtude. Quem recua precisa justificar-se. Quem prefere silêncio deve apresentar defesa.
Eu não apresento mais.
Talvez meu verdadeiro medo nunca tenha sido ficar sozinha.
Talvez tenha sido descobrir o quanto gosto disso.
A ansiedade já diminuiu. Minha respiração voltou ao corpo. A camomila está fria agora, abandonada ao lado de Florbela.
O mundo continua lá fora fazendo o que sabe fazer melhor: produzindo ruído, desejo, crueldade, escândalo e manchetes suficientes para adoecer qualquer pessoa que insista em engolir tudo antes de dormir.
Aqui dentro, Baudelaire continua imóvel na parede.
Florbela repousa aberta sobre minha mesa.
E percebo por que volto tantas vezes aos mortos quando os vivos ficam insuportáveis...
Os mortos não fazem barulho.

A chuva começou fina, quase educada, e terminou ocupando a varanda inteira.
Estou sentada aqui há tempo suficiente para que o café tenha perdido o calor e adquirido aquele gosto amargo de coisa abandonada. Não me incomoda.
No horizonte, nuvens escuras avançam sobre Angra dos Reis e apagam aos poucos os contornos das ilhas. Uma depois da outra desaparece atrás da água suspensa no ar. Primeiro as mais distantes. Depois aquelas que costumo reconhecer mesmo de madrugada.
Gosto de observá-las assim.
Quando a tempestade chega, as ilhas não vão embora. Apenas deixam de ser visíveis.
É uma diferença que demorei anos para aprender também sobre pessoas.
O mar está inquieto esta noite. As ondas chegam à praia perto de casa com uma regularidade quase cruel. Escuto uma quebrar, outra recuar, outra ocupar exatamente o mesmo lugar alguns segundos depois.
Tenho vivido com esse som há tanto tempo que às vezes só percebo sua existência quando ele muda.
Talvez aconteça o mesmo com a solidão.
Quando ela chega, estranhamos;
Quando permanece, reorganizamos os móveis para lhe dar espaço;
Quando fica tempo demais, já não sabemos dizer se é visita ou moradora.
Hoje percebi que faz muito tempo que estou sozinha.
Não escrevo isso com tristeza suficiente para comover ninguém. Seria até um pouco humilhante dramatizar a própria companhia quando metade da humanidade passa a vida inteira procurando desesperadamente alguém que a distraia de si mesma.
Eu, ao menos, tive o mau gosto de aprender a permanecer.
Ainda assim, algumas madrugadas possuem uma habilidade desagradável para tocar exatamente naquilo que preferimos manter sem nome.
Esta é uma delas.
Deixei o caderno aberto sobre a pequena mesa da varanda. Algumas gotas alcançaram a borda da página e deformaram duas palavras que eu havia escrito. Não tentei salvá-las. Fiquei olhando a tinta se espalhar pelas fibras do papel até que as letras perdessem a forma.
É curioso o quanto uma palavra se parece com um corpo quando começa a desaparecer.
Foi então que me lembrei de Baudelaire.
Daquela ideia que sempre me perseguiu: escrever para os mortos.
Há uma perversidade delicada nisso.
Escrever para quem não responderá, ou não entenderá errado deliberadamente só porque compreender exige mais trabalho. Os mortos não precisam de reputação, cargo, casamento, sobrenome, versão oficial dos acontecimentos... nada disso. Os mortos possuem uma vantagem insuportável sobre nós.
Já perderam tudo o que os obrigava a fingir.
Talvez seja por isso que sempre me senti tão confortável diante deles. E aqui, devo explicar que, apesar de ser uma autora que publica "para ser lida no cemitério", não estou falando de cadáveres, mas sim daquilo que desaparece quando alguém deixa de precisar representar a própria personagem.
Passei parte da noite escrevendo uma página que provavelmente ninguém lerá. Não era poema, conto ou anotação para algum livro. Era apenas uma conversa.
Não coloquei nome no destinatário.
Talvez porque eu não soubesse.
Ou soubesse bem demais.
Escrevi sobre pequenas coisas que jamais colocaria numa entrevista. Sobre o cansaço de conhecer pessoas cuja gentileza termina exatamente onde começa a inconveniência. Sobre aqueles que dizem amar nossa profundidade até descobrirem que profundidade não é decoração estética. Ela exige mergulho. E humanos, apesar de todo o entusiasmo com oceanos, preferem relacionamentos onde ainda consigam tocar o chão.
Escrevi que sinto falta de certas pessoas.
Apaguei.
Escrevi novamente.
Deixei.
Essa talvez tenha sido a frase mais obscena da noite.
Não gosto de admitir saudade.
Saudade concede importância retroativa.
Há quem não mereça sequer esse privilégio.
Mas alguma coisa na chuva tornou inúteis certas elegâncias.
Olhei novamente para as ilhas.
Quase todas haviam desaparecido atrás da tempestade.
E pensei em quantas pessoas continuam existindo assim dentro de nós: territórios inteiros ocultos por uma camada de tempo. Sabemos que estão lá. Conhecemos suas praias, seus acidentes, as partes onde naufragamos. Apenas deixamos de visitá-las.
A memória tem sua própria geografia.
Alguns mortos nunca morreram.
Alguns vivos estão enterrados há anos.
Continuei escrevendo.
A caneta começou a correr mais depressa quando percebi para quem aquela página realmente era dirigida.
Não para alguém específico.
Para todos aqueles que já não poderiam me responder.
E isso me assustou por um motivo menos romântico do que eu gostaria.
Descobri que gosto da impossibilidade da resposta.
Os mortos não interrompem. Não tentam transformar nossa dor numa competição com a própria, dizendo que exageramos porque nossos sentimentos atrapalham a narrativa confortável que construíram sobre nós.
Diante dos mortos posso ser inteira porque eles não possuem nenhuma necessidade de me corrigir.
Talvez eu tenha ficado sozinha tempo suficiente para começar a considerar isso uma forma de intimidade.
E esta é a parte que eu jamais diria em voz alta.
Tenho medo de estar me tornando melhor em amar ausências do que presenças.
Há segurança demais no que não pode partir novamente.
Uma pessoa morta pode assombrar, mas não pode abandonar.
A frase ficou diante de mim por alguns minutos...
Não consegui continuar.
A chuva engrossou.
Uma rajada de vento lançou gotas frias contra meu rosto e meus braços. Não me levantei. Fechei os olhos e escutei o mar.
Uma onda.
Outra...
Outra.
Percebi então que talvez escrever para os mortos nunca tenha sido exatamente escrever para aqueles que morreram, mas sim para o que resta das pessoas depois que tudo aquilo que era performance se desfaz.
O leitor morto não possui vaidade e nem pressa, porque não está tentando provar que entendeu melhor do que o autor. Ele chega à página sem biografia para defender, e talvez seja esse leitor impossível que procuro toda vez que escrevo: a versão de alguém que já perdeu a necessidade de parecer alguma coisa.
Inclusive eu.
Porque existe uma Luna que escreve e outra que um dia será apenas aquilo que deixou escrito.
Pensar nisso não me entristece.
Estranhamente, me acalma.
Os livros sempre souberam algo que os seus autores demoram a aceitar: permanecem porque não precisam do corpo que os escreveu.
Um dia minhas mãos não estarão aqui.
Esta varanda será ocupada por outra pessoa ou demolida, porque humanos têm uma devoção impressionante por destruir lugares para construir imóveis piores.
As ilhas continuarão no horizonte.
O mar continuará repetindo sua frase interminável contra a praia.
Talvez algum desconhecido encontre uma página minha numa madrugada qualquer.
Talvez me leia sem saber exatamente quem fui.
E, sinceramente, espero que seja assim.
Biografias atrapalham certas intimidades.
Levantei para buscar outro café. Quando voltei, as nuvens haviam engolido a última ilha.
O horizonte parecia vazio.
Mas eu sabia.
Ela ainda estava lá.
Foi então que fechei o caderno.
Talvez eu escreva para os mortos porque eles compreendem a única coisa que os vivos insistem em esquecer:
desaparecer não é o mesmo que deixar de existir.

Saí da festa com o gosto amargo de vinho ainda preso à língua e a música batendo longe, abafada pelas paredes do prédio, como um coração que já não me pertencia. Meus amigos ficaram para trás entre risadas, copos erguidos e conversas que provavelmente morreriam antes do amanhecer. Eu disse que queria caminhar um pouco. Não expliquei por quê.
Não havia explicação bonita. Eu apenas... precisava ficar sozinha.
O beco surgiu entre dois prédios antigos, estreito, úmido, iluminado por uma lâmpada que piscava com uma insistência quase ofensiva. O asfalto conservava a água de uma chuva recente, e o cheiro era uma mistura de concreto molhado, lixo esquecido e alguma flor noturna que eu não consegui identificar. O Rio tem dessas crueldades delicadas: coloca perfume ao lado da podridão e deixa que você decida qual dos dois merece confiança.
Entrei.
Talvez eu não devesse.
A lua cheia permanecia acima dos telhados, enorme demais para parecer inocente. Entre fios elétricos, caixas-d’água e antenas, ela parecia um olho branco observando a cidade cometer seus pequenos crimes particulares.
Meus passos faziam um som seco no chão.
Depois ouvi outro.
Parei.
O outro passo também parou.
Olhei para trás.
Nada.
Só a entrada do beco, alguns metros distante, e a avenida respirando luz artificial do outro lado. Um carro passou. Depois outro. Alguém buzinou. A cidade seguia viva, vulgarmente viva, enquanto eu começava a sentir aquela velha mudança dentro de mim: primeiro na nuca, depois nos ombros, depois naquele lugar sem anatomia onde o medo costuma nascer.
Continuei.
À esquerda havia uma parede parcialmente destruída. Tijolos expostos, reboco caído, ferragens enferrujadas aparecendo como nervos de uma criatura mal restaurada.
Passei a mão sobre ela.
A superfície áspera feriu de leve meus dedos, e... senti alívio.
Sabe...há dias em que me encosto nas ruínas só para confirmar que ainda sinto alguma coisa, e talvez esta seja uma das coisas que eu nunca deveria confessar. Não tenho fascínio pela destruição porque queira ser destruída, é quase o contrário; gosto das coisas quebradas porque elas perderam a obrigação de parecer inteiras, entende?
Uma parede rachada não mente...
Uma casa abandonada não diz que está tudo bem...
Uma janela sem vidro não inventa transparência...
O curioso é que paredes quebradas costumam demonstrar mais honestidade emocional do que certas pessoas inteiras.
Fiquei ali alguns segundos, com a palma da mão apoiada no concreto frio, enquanto lembrava da festa...
Sorrisos... abraços... fotografias...
Gente dizendo que estava com saudade sem conseguir lembrar da última vez em que perguntou se eu estava bem (trágico se não fosse cômico rsrs), e ainda tinha gente falando sobre outras pessoas assim que elas saíam de perto, com uma naturalidade quase profissional.
Humanos são impressionantes. Inventaram telescópios capazes de olhar para galáxias mortas e ainda não descobriram uma maneira de conversar sem dissecar alguém ausente. Talvez seja por isso que eu pareça fria.
Conviver demais com a falsidade humana transforma silêncio em mecanismo de sobrevivência.
Foi então que ouvi novamente...
Um passo. Mais perto.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Os dedos se afastaram da parede. A respiração ficou pequena, e olhei para o fundo do beco.
Nada se movia.
E ainda assim tive a impressão absurda de que alguma coisa estava vindo.
Não atrás de mim. De dentro!
A lua desapareceu por alguns segundos atrás de uma nuvem, o beco escureceu. Senti uma pressão estranha no peito, como se a noite tivesse encontrado uma fresta em mim e começasse a entrar.
Não foi exatamente medo de ser atacada. Isso seria simples.
Era medo de me reconhecer naquele escuro. Porque há uma parte de mim que funciona melhor quando tudo ao redor perde definição. Uma parte silenciosa, quase sem rosto, que não sente necessidade de agradar, explicar, sorrir ou traduzir o que pensa para que outras pessoas durmam confortáveis. Naquela noite, essa parte pareceu acordar.
Continuei andando.
A cada passo, os ruídos da festa ficavam menores...
A cada passo, eu me sentia menos parecida com a mulher que havia estado lá dentro...
Aquela Luna sabia conversar;
Sabia sorrir quando precisava;
Sabia aceitar elogios sem perguntar o que havia por trás deles;
Sabia circular entre pessoas como quem atravessa uma sala cheia de móveis frágeis, cuidando para não quebrar nada.
A Luna daquele beco queria quebrar alguma coisa.
Não uma janela.
Não um rosto.
Uma obrigação: a obrigação de continuar oferecendo acesso a quem só sabe entrar para procurar defeitos.
Essa foi a confissão que me assustou, eu não estava com medo da escuridão, estava gostando dela!
Parei novamente.
O ar parecia mais frio junto às paredes. Um filete de água descia por uma rachadura no concreto, brilhando sob a luz instável. Passei os dedos ali e senti a umidade escorrer pela minha mão.
Pensei em quantas vezes tentei encontrar humanidade onde havia apenas um comportamento.
Quantas vezes confundi uma presença com um vínculo.
E quantas vezes permaneci perto de alguém depois que meu instinto já havia começado a recuar...
E eu tenho vergonha disso. Não de ter confiado, sabe? Mas de ter percebido antes e ficado mesmo assim.
Meu maior medo nunca foi o de ser enganada, foi o de saber que eu estava sendo e mesmo assim permanecer parada.
Talvez algumas pessoas chamem isso de esperança, porém eu tenho nomes menos gentis.
A lua reapareceu.
Sua luz caiu no final do beco e revelou uma porta metálica coberta de ferrugem. Sobre ela havia camadas de tinta velha, anúncios rasgados, nomes escritos por desconhecidos. Pensei na escrita. Em como passo madrugadas tentando transformar aquilo que me atravessa em alguma coisa que possa ser deixada numa página sem continuar apodrecendo dentro de mim. Talvez eu escreva pelo mesmo motivo que toquei aquela parede: para verificar a sensibilidade; para pressionar a ferida e descobrir se o corpo ainda responde.
Escrever nunca foi uma espécie de cura - essa palavra me parece limpa demais.
Escrever é como se fosse uma autópsia realizada em algo que ainda respira.
Foi então que percebi que meus passos já não tinham companhia. O som que eu julgara ouvir havia desaparecido.
Nenhuma figura.
Nenhuma criatura.
Nenhum estranho escondido na sombra.
Somente eu.
E isso deveria ter me tranquilizado.
Não tranquilizou.
Porque compreendi que durante todo aquele percurso eu procurara um monstro externo para justificar o medo.
Alguma presença atrás de mim.
Alguma coisa no escuro.
Qualquer coisa que pudesse receber a culpa.
Mas a noite não estava me seguindo.
Ela estava me revelando...
Voltei para a avenida alguns minutos depois. Os faróis cortaram meus olhos. Um ônibus passou espalhando água junto à calçada. Duas pessoas riam diante de um bar. Um entregador conferia o celular sobre a motocicleta.
Tudo normal.
A humanidade adora essa palavra.
Normal.
Serve para esconder cadáveres emocionais em plena luz do dia.
Olhei uma última vez para o beco.
Lá dentro, a parede quebrada permanecia exatamente como antes.
Sem tentar parecer inteira.
A lua cheia ainda estava acima dela.
E, pela primeira vez naquela noite, senti inveja das ruínas.
Elas não precisam fingir que sobreviveram intactas.

Apaguei o travessão e permaneci olhando o espaço vazio que ele deixou.
Passava das duas da madrugada. O cursor pulsava na tela com a insolência de quem sabe que sobreviverá a todos nós, enquanto o Rio diminuía seus ruídos atrás da janela. Ainda havia um ônibus atravessando o asfalto, o gemido metálico de algum portão e um aparelho de ar-condicionado respirando no prédio vizinho. Hoje é Dia do Artista. Comecei a data amputando um hábito da minha escrita.
Há ironias que dispensam qualquer esforço literário...
Uso travessões desde antes de alguém transformar a inteligência artificial na nova possessão demoníaca do século. Eles faziam parte do meu ritmo, marcavam interrupções, abriam pequenas fendas por onde uma frase podia revelar sua segunda voz. Então apareceu um fiscal da literatura, desses que recebem uma lupa imaginária junto com o acesso às redes sociais, afirmando que o uso do travessão denunciava texto produzido por máquina.
O travessão, um sinal empregado por escritores muito antes de existirem telas, prompts ou especialistas formados pela Universidade do Comentário, tornou-se prova criminal.
Retirei-o.
É isso que me incomoda nesta madrugada. Não a ignorância alheia, pois ela sempre foi uma praga resistente. O que me perturba é ter permitido que entrasse em meu texto e movesse os móveis.
A inteligência artificial não inventou a desconfiança. Apenas ofereceu uma nova fantasia aos velhos inquisidores. Agora, qualquer frase bem organizada desperta suspeita. Um vocabulário menos miserável parece artificial. Uma construção elaborada vira indício. Uma pontuação correta passa por perícia conduzida por pessoas incapazes de interpretar um parágrafo, mas estranhamente preparadas para julgar sua origem.
O escritor contemporâneo precisa criar e, em seguida, provar que criou. Deve exibir rascunhos, tropeços, versões, cicatrizes e talvez uma testemunha ocular do instante em que a ideia nasceu. Sua palavra deixou de ser uma obra e passou a ser um corpo no instituto médico-legal.
O mais curioso é que os acusadores raramente desejam descobrir a verdade, porque o que eles desejam mesmo é experimentar o prazer de condenar. A dúvida exige investigação; a acusação rende comentários. Simples assim. E o algoritmo, esse pequeno deus alimentado por conflitos nas redes sociais, oferece mais alcance ao apedrejamento do que à leitura cuidadosa, infelizmente.
Já me atribuíram pensamentos políticos que eu nunca tive. Examinaram meus poemas, minhas fotografias e até as legendas à procura de uma bandeira escondida sob minhas palavras. E, por incrível que pareça, até um verso meu sobre dor social virou uma espécie de apoio a determinado lado. Uma crítica ao comportamento humano foi sequestrada pelo lado oposto. Até o meu silêncio recebeu uma filiação partidária.
Sou apolítica (é preciso salientar isso aqui). Não entreguei minha imaginação a partidos, facções ou cartilhas ideológicas. Isso não significa ausência de consciência, como alguns gostam de insinuar. Significa que me recuso a alugar minha voz a grupos que exigem obediência. Observo o mundo, reconheço suas violências e escrevo sobre suas feridas. E acredito que nenhuma legenda partidária possui exclusividade sobre a dor humana.
Mas os haters do meio literário não leem para compreender. Eles leem como agentes de alfândega, procurando ideias proibidas na bagagem do autor. Se a obra não repete o credo deles, torna-se inimiga. Se não se ajoelha perante a crença deles, é suspeita. A literatura, que deveria ampliar o desconforto e multiplicar perguntas, acaba reduzida a um teste de fidelidade ideológica elaborado por pessoas que acreditam que a convicção é uma espécie de inteligência.
Na madrugada do Dia do Artista, penso na delicada perversidade dessa homenagem. Durante vinte e quatro horas, publicam frases sobre a importância da arte. No restante do ano, pedem livros gratuitos, tratam divulgação como favor, confundem crítica com humilhação e exigem que o escritor produza, apareça, sorria e agradeça por alguma migalha de visibilidade. É uma merda...
O problema é que valorizam demais a imagem romântica do artista. Mas o artista real, com limites, vaidade, contas, escolhas e uma voz própria, costuma ser menos conveniente.
Abro uma pasta de fotografias minhas no computador, prontas para postar, mas fico com receio. Nelas, há filtros, maquiagem, sombras cuidadosamente escolhidas e uma versão de mim que decidi oferecer ao mundo. Nunca escondi que gosto de editar minhas imagens. Escolher uma luz não falsifica um rosto, assim como revisar uma frase não falsifica um pensamento. Nenhum retrato é neutro. Até o espelho edita conforme a iluminação e a crueldade da manhã.
Ainda assim, uma editora já me desaprovou para participar de um projeto sob a alegação de que eu talvez nem fosse real.
A desculpa seria cômica se não revelasse algo tão pequeno: o problema nunca foi minha existência; o problema foi a possibilidade de uma mulher considerada bonita entrar naquele espaço e, pasmem, atrair uma atenção em um projeto que ela tratava como propriedade particular. (Fiquei sabendo através de outros autores do próprio projeto dela).
Patético.
Há mulheres que defendem a presença feminina até surgir outra mulher capaz de dividir a luz. Então a sororidade fecha a porta, retoca o próprio discurso e, para disfarçar sua insegurança, diz que se trata de um critério editorial. Então a beleza passa a ser entendida como uma fraude, ameaça ou prova de superficialidade. Será que gente assim ainda espera que uma escritora séria tenha que ter, obrigatoriamente, a aparência de uma alma castigada? Se cuida do rosto, provavelmente não cuida dos livros; se conhece o poder da própria imagem, deve pedir desculpas antes de pronunciar qualquer ideia.
Não peço, nunca pedi, e jamais pedirei.
Raramente participo de projetos e antologias por esse motivo. Muitos deles anunciam que são uma comunidade, mas organizam pequenas cortes. Há tronos invisíveis, hierarquias frágeis e egos que precisam ser alimentados com elogios periódicos. Convidam artistas para uma obra coletiva, desde que ninguém brilhe mais do que o organizador, venda mais do que o editor ou desperte mais interesse do que os habituais sacerdotes daquele círculo.
A literatura deveria ser uma casa de muitas vozes, mas transformaram parte dela num condomínio administrado por síndicos ressentidos.
E quase sempre, quando o argumento começa a apodrecer, alguém traz Deus para a conversa. Essa é a pior parte!
Não desconfio da fé. Desconfio de quem usa a fé como certificado de caráter. Existem escritores religiosos profundamente honestos, assim como existem descrentes virtuosos e devotos cruéis. Mas nenhuma crença imuniza uma pessoa contra inveja, mentira, vaidade ou abuso. A religião revela aquilo que alguém afirma professar; somente a conduta revela o que essa pessoa faz quando nenhuma plateia está olhando.
Quando um escritor invoca Deus para sustentar o próprio exemplo de vida, coloca uma autoridade absoluta a serviço de sua reputação particular. O mecanismo é conveniente: discordar dele passa a parecer discordar do sagrado. A crítica deixa de enfrentar um argumento humano e é empurrada contra uma divindade que não pode comparecer à conversa, apresentar provas ou corrigir a versão de quem fala em seu nome.
Isso não é fé. É blindagem moral, porra!
Também desconfio porque bondade anunciada não equivale a bondade praticada. Quem precisa declarar constantemente a própria pureza costuma desejar que a propaganda seja examinada no lugar dos atos. Ética não se comprova com versículos na legenda, citações religiosas na biografia ou personagens que repetem sermões. Comprova-se na maneira como alguém trata quem não pode oferecer prestígio, dinheiro, obediência ou aplauso.
Usar Deus como argumento para vencer uma disputa ainda reduz o sagrado a uma ferramenta de poder. A religião vira um selo de autenticidade, estratégia de autoridade e cosmético para o ego.
Se uma crença é verdadeira para alguém, ela não precisa tornar essa pessoa inalcançável à responsabilidade. Ao contrário, deveria aumentar sua disposição de responder pelos próprios atos. Toda fé que serve para impedir perguntas já deixou de orientar a consciência e começou a proteger o personagem.
Talvez por isso eu prefira os pecadores que não escondem as mãos.
Volto ao documento. A frase permanece diante de mim, limpa do sinal acusado. Está correta, fluida e absolutamente covarde.
Esta é a confissão que eu não gostaria de fazer no Dia do Artista: às vezes, cedo. Retiro uma pontuação, suavizo uma opinião, escolho uma fotografia menos editada, explico que sou apolítica e antecipo acusações que talvez nem cheguem. Acho que comecei a imaginar o tribunal antes de terminar a obra...
E os haters, bom... esses alcançaram uma região mais profunda do que meus comentários. Tornarem-se uma espécie de revisores literários, para desgraça da literatura.
Esse é o dano que ninguém fotografa. É um dano lento... A violência contra o artista nem sempre destrói o trabalho diante do público. Ela vem de mansinho, senta-se ao lado dele durante a criação, examina cada escolha, faz com que duvide do próprio gesto antes que o gesto tenha forma, até que a censura (bastante eficiente), em vez de rasgar as páginas, ensina a mão do artista a hesitar.
Tenho medo de que o tempo que o artista perde defendendo-se consuma a energia da sua obra. Tenho medo de passar tanto tempo provando que sou real, humana, independente e autora das minhas palavras que reste pouca vida para escrever. Uma escritora que morre sem abandonar a mesa... Basta que sua voz seja substituída por uma sucessão de justificativas.
Hoje o Dia do Artista amanhecerá coberto por homenagens. Receberei frases sobre inspiração e talvez algum elogio sincero, agradecerei aos que realmente leem. Quanto aos tribunais, já conheço sua fome. Nunca quiseram literatura, queriam réus.
Antes de fechar o documento, retorno ao ponto em que fiz a amputação. Digito o sinal outra vez. Um único risco escuro reaparece entre as palavras, pequeno e firme, como um osso devolvido ao corpo.
Talvez amanhã eu o retire de uma legenda por estratégia, exaustão ou simples falta de vontade de discutir com analfabetos ornamentais. Aqui, nesta página escondida, ele fica.
O cursor pisca depois dele.
— Eu ainda estou escrevendo.