
Esta noite, o vento trouxe Portugal de volta.
Não o Portugal dos cartões-postais, das ruas fotografadas por turistas ou das varandas cobertas de flores. Trouxe o outro. O que vive escondido entre as pedras úmidas das vielas antigas. O que permanece enterrado sob a poeira dos anos e só desperta quando a memória decide abrir seus túmulos.
Passei parte da madrugada sentada diante da janela, observando as luzes dispersas do Rio de Janeiro cintilarem ao longe como pequenos cadáveres de estrelas. Há algo profundamente melancólico nas cidades que não dormem. Elas parecem pessoas tentando fugir de si mesmas.
Talvez por isso eu tenha me lembrado de quem fui.
Nem sempre fui Luna Bela Morte.
Antes dos livros. Antes dos leitores. Antes das fotografias sombrias e dos sonetos que hoje percorrem o mundo carregando fragmentos da minha alma.
Antes de tudo isso, existiu Luna Alfonso Bellamont.
Filha de uma névoa francesa e de um incêndio espanhol.
Uma criança que atravessou fronteiras cedo demais e encontrou abrigo nas ruas antigas de Portugal. Cresci entre bibliotecas silenciosas, jornais modestos e o perfume envelhecido dos livros que pareciam guardar segredos mais importantes do que aqueles que os vivos costumavam contar.
Mas nem toda história de amor conduz à luz.
Algumas conduzem ao fogo.
Durante muito tempo vivi dentro de um relacionamento que lentamente transformou minha existência numa espécie de inverno permanente.
Não foi uma destruição rápida.
Foi pior.
Foi lenta.
Como ferrugem.
Como água infiltrando-se nas paredes de uma casa antiga.
Dia após dia.
Palavra após palavra.
Humilhação após humilhação.
Existem prisões construídas sem grades. Prisões erguidas com culpa, medo e silêncio. Prisões tão eficientes que a própria vítima passa a acreditar que merece habitá-las.
Durante anos caminhei por corredores invisíveis.
E o mais terrível não era a dor.
Era o esquecimento.
O esquecimento de quem eu era.
O esquecimento da mulher que existia antes das feridas.
Hoje compreendo algo que naquela época eu desconhecia.
Algumas pessoas não desejam amar.
Desejam possuir.
Desejam apagar.
Desejam transformar o outro numa sombra obediente que reflita suas próprias misérias.
Mas existe algo curioso sobre as sombras.
Quando pressionadas contra a escuridão absoluta, elas acabam encontrando a própria forma.
E foi exatamente isso que aconteceu comigo.
O fogo veio.
Consumiu certezas.
Consumiu ilusões.
Consumiu promessas.
Consumiu a mulher que eu acreditava ser.
E quando as chamas terminaram seu trabalho cruel, restaram apenas cinzas.
Foi então que algo nasceu.
Em 2023, atravessei o oceano.
Vim ao Brasil para uma visita breve.
Uma viagem.
Um desvio.
Uma pequena pausa.
Ao menos era o que eu pensava.
Mas o destino raramente pede autorização.
O Rio de Janeiro me encontrou.
As águas de Angra dos Reis me encontraram.
As luas tropicais me encontraram.
E, pela primeira vez em muitos anos, senti que respirava sem correntes.
Fiquei.
E permanecer foi o ato mais corajoso que já cometi.
Pouco a pouco, meu sotaque começou a dissolver-se como uma carta antiga esquecida sob a chuva.
Pouco a pouco, a mulher ferida começou a desaparecer.
Pouco a pouco, uma criatura nova abriu os olhos.
Foi nesse processo que compreendi algo essencial.
Eu precisava renomear minha própria existência.
Precisava criar uma identidade que carregasse não apenas minha história, mas também minha sobrevivência.
Assim nasceu Luna Bela Morte.
Não como personagem.
Mas como revelação.
Troquei nomes.
Troquei peles.
Troquei destinos.
E descobri que a verdadeira transformação nunca acontece quando encontramos a felicidade.
Ela acontece quando sobrevivemos ao inferno.
Hoje, quando observo o dragão azul tatuado em meu braço, quando termino mais um soneto à luz da madrugada, quando embalo livros para leitores espalhados pelo Brasil ou quando escuto o mar respirando sob a lua, lembro-me daquela mulher perdida que um dia caminhou entre ruínas.
Tenho ternura por ela.
Ela não sabia.
Não fazia ideia.
Mas estava atravessando as chamas que a transformariam numa fênix.
E toda fênix carrega uma verdade terrível.
Ela não renasce porque quer.
Ela renasce porque não existe outra escolha.
Hoje não sou a mulher que saiu de Portugal.
Também não sou a mulher que chegou ao Brasil.
Sou a soma das minhas cinzas.
Sou a cicatriz que aprendeu a florescer.
Sou a prova viva de que algumas feridas não nos matam.
Elas nos escrevem.
E talvez seja por isso que continuo produzindo poemas, romances e sonetos como quem realiza um ritual antigo.
Porque escrever nunca foi apenas arte para mim.
Escrever sempre foi sobrevivência.
Cada palavra que publico é uma cinza transformada em asa.
Cada livro é uma fogueira que se recusou a apagar.
Cada leitor que encontra abrigo em minhas páginas é uma confirmação silenciosa de que a dor pode ser convertida em beleza.
E que algumas mulheres não voltam das sombras.
Elas aprendem a governá-las.
Porque no fim, meus queridos...
A fênix não vence o fogo.
Ela se torna parte dele.

Florbela Espanca partence à espécie de mulheres que transformam a própria feria em altar.
Esta noite sentei-me no meu sofá velho enquanto o vento atravessava lentamente as cortinas do quarto. O Rio rugia ao longe com suas luzes febris, seus bares cheios, suas almas cansadas fingindo felicidade sob néons e excessos. E eu, no meio daquela madrugada úmida, pensava em Portugal.
Pensava na charneca.
Pensava em Florbela.
Curioso como certas escritoras nunca morrem completamente. Elas continuam respirando dentro das mulheres que as leem tarde demais, intensamente demais. Talvez por isso eu sempre tenha sentido uma espécie de familiaridade dolorosa ao mergulhar nos versos dela. Como se suas palavras carregassem o perfume antigo de algo que minha alma já conhecia antes mesmo do nascimento.
Hoje decidi falar dessa conterrânea que tanto admiro.
E talvez seja impossível falar de Florbela sem falar também de melancolia.
Ela nasceu em Vila Viçosa, filha ilegítima numa época em que o mundo fazia questão de transformar origem em sentença. Cresceu entre silêncios, ausências e afetos incompletos. E penso frequentemente em como certas dores de infância nunca abandonam um escritor. Apenas mudam de roupa e passam a habitar os livros.
Florbela escrevia como quem aprende a escrever através do sofrimento.
Com uma intensidade quase imprudente.
Sua poesia sempre me pareceu febril, sensual, excessiva… como uma vela queimando rápido demais dentro de um quarto fechado. Existe algo profundamente feminino e devastador em seus sonetos. Uma fome emocional que não pede licença ao leitor. Ela amava demais, desejava demais, sofria demais. E talvez por isso continue tão viva enquanto tantos escritores tecnicamente impecáveis já foram esquecidos pela poeira do tempo.
Os grandes escritores raramente são equilibrados.
Equilíbrio demais produz textos mornos.
Enquanto lia alguns poemas dela esta madrugada, senti aquela velha inquietação silenciosa percorrendo meu corpo. A mesma sensação que tenho quando encontro escritores capazes de tocar regiões da alma que normalmente permanecem trancadas.
A solidão feminina.
O desejo impossível.
A carência de absoluto.
A busca desesperada por plenitude.
O cansaço emocional de existir intensamente dentro de um mundo incapaz de compreender certas sensibilidades.
Florbela carregava tudo isso.
E carregava com elegância.
Penso nela muitas vezes quando escrevo meus próprios sonetos durante a madrugada. A casa inteira silenciosa. O teclado iluminado como um pequeno altar eletrônico diante de mim. E então, em algum momento da noite, as palavras começam a sangrar.
Porque escrever sonetos não é apenas técnica.
É pulsação.
É música emocional presa dentro de uma estrutura rígida, tentando escapar sem perder beleza. E nisso Florbela era monstruosamente brilhante. Cada verso dela parece conter um coração batendo em desespero elegante.
Talvez eu a admire tanto porque reconheço nela algo que raramente encontro na literatura contemporânea:
Verdade emocional sem covardia.
Hoje muitos escritores escondem seus sentimentos atrás de ironias, cinismos performáticos ou experimentalismos vazios. Florbela não se escondia. Ela se oferecia inteira ao poema, mesmo sabendo que isso a destruiria lentamente.
E destruiu.
Os casamentos falhados. As desilusões amorosas. A morte brutal do irmão Apeles, despencando do céu junto de seu avião sobre o Tejo. Os abismos psicológicos crescendo silenciosamente dentro dela como raízes escuras.
Até que finalmente veio a morte.
Oficialmente um edema pulmonar.
Mas certas mulheres não morrem apenas do corpo.
Morrem também de excesso de sentimento acumulado.
Enquanto escrevo isso, a madrugada avança lentamente. Há uma vela acesa ao meu lado projetando sombras trêmulas pelas paredes do quarto. O café já perdeu temperatura. O céu começa a clarear num azul frio e melancólico que sempre me lembra Portugal.
E penso que Florbela compreenderia perfeitamente este instante.
A beleza triste das madrugadas.
O silêncio das mulheres que escrevem enquanto o mundo dorme.
A sensação de nunca pertencer completamente a lugar algum.
A estranha necessidade de transformar dor em linguagem antes que ela nos devore inteiramente.
Talvez seja isso que une certas escritoras através do tempo.
Não a nacionalidade.
Não a estética.
Não a fama.
Mas a capacidade rara de fazer da própria ruína uma forma de eternidade.
E Florbela conseguiu.
Porque algumas poetisas não são enterradas.
São semeadas.
Abaixo, seguem alguns sonetos da poetisa:

Florbela Espanca
Desejos vãos
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é ate da morte!
Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!
E o sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras... essas... pisá-as toda a gente!...
* * *
Vaidade
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo ! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo ...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho ... E não sou nada! ...
* * *
Só
Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!...
As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas
Só a triste, coitadinha...
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha ...
Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua...
E fico a chorar com ela! ...
* * *
Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
* * *
Tédio
Passo pálida e triste. Oiço dizer
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...
Que diga o mundo e a gente o que quiser!
-O que é que isso me faz?... o que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!
O que é que isso me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!
E é tudo sempre o mesmo,eternamente...
O mesmo lago plácido, dormente,
E os dias,sempre os mesmos,a correr...

Hoje é o Dia da Língua Nacional.
E passei a madrugada pensando no peso estranho que as palavras carregam. Pequenos cadáveres sonoros capazes de atravessar séculos intactos, sobrevivendo a guerras, doenças, impérios e cemitérios. Há algo profundamente sobrenatural na literatura. Um escritor morre… mas continua sussurrando dentro da cabeça de desconhecidos muitos anos depois.
Talvez seja a forma mais elegante de assombração.
A chuva fina tamborilava contra minha janela enquanto eu organizava alguns livros antigos espalhados pela cama. O quarto estava mergulhado naquela penumbra azulada que antecede o amanhecer. Velas queimavam lentamente ao lado de uma taça esquecida de vinho escuro, e o cheiro de papel envelhecido pairava no ar como um perfume de sepultura antiga.
Foi então que pensei em Álvares de Azevedo.
Curioso como um poeta morto há mais de um século consegue parecer mais vivo do que tantas pessoas que encontro diariamente.
Vocês sabem que sou portuguesa. Cresci ouvindo sobre autores da minha terra, cercada pela melancolia marítima de nossa literatura europeia. Fernando Pessoa, Florbela, Bocage… fantasmas belíssimos acompanhando minha juventude entre noites silenciosas e bibliotecas frias.
Mas para conhecer profundamente a literatura brasileira, precisei atravessar o oceano das palavras por conta própria.
E foi nesse percurso que encontrei Álvares de Azevedo.
Ou talvez tenha sido ele quem me encontrou.
Aquele romantismo sombrio, decadente, quase vampírico. A obsessão pela morte, pela noite, pela beleza triste das coisas impossíveis. Ele escrevia como alguém que já intuía a própria brevidade. E talvez intuísse mesmo.
Nascido em 1831, sensível, brilhante e adoentado, atravessou a juventude como uma vela queimando rápido demais. Mudou-se para São Paulo para estudar Direito, mergulhou nos círculos boêmios, cercou-se de poetas, rumores satânicos, noites excessivas e lendas que o transformariam mais tarde no chamado “Byron brasileiro”.
E sinceramente?
Consigo enxergar perfeitamente o motivo.
Existe algo profundamente byroniano em homens que transformam a própria autodestruição em estética.
Mas o que mais me perturba nele não é a morbidez.
É a lucidez emocional.
Álvares compreendia a tristeza humana de maneira quase íntima demais. Como se observasse o mundo através de um véu escuro que revelava aquilo que as pessoas normais preferem ignorar.
A solidão.
O desejo impossível.
A decadência do corpo.
A beleza breve da juventude.
O fascínio silencioso da morte.
Enquanto lia alguns de seus poemas esta noite, senti aquela estranha sensação de companhia que apenas grandes escritores conseguem provocar. Como se a madrugada deixasse de ser vazia por alguns instantes.
Talvez seja isso que a literatura faz conosco.
Ela cria pontes entre cadáveres e sobreviventes.
E pensar na morte de Álvares sempre me causa desconforto. A queda do cavalo pelas ruas do Rio. O tumor rompido. A cirurgia brutal sem anestesia. Quarenta e seis dias de sofrimento até morrer jovem demais, no Domingo de Páscoa de 1852.
Vinte anos.
Apenas vinte anos.
É assustador perceber que algumas almas produzem eternidade antes mesmo de aprenderem a envelhecer.
Fiquei imaginando seu quarto nos últimos dias. Os delírios febris. O cheiro medicinal da dor. Os pensamentos atravessando a madrugada enquanto o corpo lentamente desistia da vida.
E no entanto… seus versos sobreviveram.
Talvez porque certos escritores nunca pertençam completamente ao mundo dos vivos.
Enquanto escrevo isso, o céu lá fora começa lentamente a clarear. Os primeiros ruídos da cidade atravessam a janela como pequenas agressões modernas contra o silêncio da madrugada. Caminhões. Ônibus. Pessoas correndo atrás de horários e salários enquanto poetas mortos continuam respirando dentro de livros esquecidos.
Que ironia bela e cruel.
A humanidade constrói prédios.
A literatura constrói fantasmas.
E talvez seja por isso que eu ame tanto as palavras.
Porque elas apodrecem mais lentamente do que nós.
Hoje, no Dia da Língua Nacional, decidi abrir espaço para um dos espíritos mais melancólicos que já caminharam pela literatura brasileira.
Nas próximas páginas, deixarei que Álvares de Azevedo fale.
E aconselho que o leiam à meia-noite.
Alguns poetas parecem mais sinceros quando o mundo inteiro adormece.

Álvares de Azevedo
Adeus, meus sonhos!
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
* * *
Lembrança de morrer
|
No more! o never more! |
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—
Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!
* * *
O poeta moribundo
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antideluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela.
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que no Céu sofrer os tolos!
Ora! e forcem um'alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
* * *
Se eu morresse amanhã
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
* * *
Um cadáver de poeta
|
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu |
I
De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
Resta um poeta morto!
Morrer! e resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões — no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!...
II
Morreu um trovador — morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!
Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta — um pobre louco
Que leva os dias a sonhar — insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
(...)

A madrugada estava úmida, silenciosa e febril.
Daquelas noites em que a cidade parece respirar lentamente pela janela, como um animal exausto tentando sobreviver ao próprio caos. O ventilador girava preguiçoso acima da minha cabeça enquanto eu deslizava o dedo pelo feed do celular, observando o desfile melancólico de egos fantasiados de genialidade.
E então encontrei os literatos ornamentais.
Criaturas curiosas.
Escrevem como quem monta um altar para si mesmos. Empilham palavras raras, expressões rebuscadas e frases tão infladas que parecem prestes a explodir antes mesmo de comunicar alguma emoção real. Alguns imitam autores famosos de maneira quase necromântica, costurando pedaços de estilos alheios sobre o próprio vazio criativo. Outros escrevem como se estivessem tentando convencer desconhecidos da internet de que possuem um intelecto inalcançável.
Mas há um detalhe perturbador nisso tudo:
Quando a vaidade entra na escrita, a alma sai pela porta dos fundos.
Fiquei lendo alguns daqueles textos na penumbra do quarto, iluminada apenas pela luz fria do celular e pelo meu abajur de caveira que "queimava" sobre minha mesa. Confesso que senti uma tristeza genuína. Não desprezo. Tristeza.
Porque muitos daqueles escritores parecem ter esquecido o motivo primordial da literatura.
Comunicação.
Sentimento.
Presença.
Eles escrevem para serem admirados. Não para serem sentidos.
E existe uma diferença brutal entre essas duas coisas.
Conheço milhares de palavras difíceis. Li centenas de livros ao longo da vida. Vivi cercada por literatura desde muito cedo. Poderia transformar meus textos em labirintos arrogantes de referências acadêmicas, simbolismos excessivos e frases inalcançáveis.
Mas para quê?
Para massagear meu ego?
Para receber comentários de meia dúzia de pseudo-intelectuais dizendo “magnífico” enquanto o leitor comum abandona o texto na terceira linha sentindo-se pequeno demais para compreendê-lo?
Isso não é arte.
É masturbação intelectual.
E quase sempre extremamente insegura.
Escrever não deveria ser um ato de exclusão. A literatura verdadeira atravessa pessoas. Ela entra pelos olhos e se espalha dentro do corpo como febre, lembrança ou maldição. Pouco importa se o leitor estudou em universidades prestigiadas ou se lê escondido durante o intervalo do trabalho.
Se o texto não alcança carne humana… ele fracassou.
Há escritores que usam palavras difíceis como castelos. Se escondem atrás delas porque têm medo de serem vistos de verdade. Medo da simplicidade. Medo da clareza. Medo de descobrirem que talvez não tenham tanto conteúdo assim sem os adornos linguísticos.
E sinceramente?
A maioria desses textos soa como um delírio desconexo escrito às três da manhã depois de vinho barato, pretensão estética e crises narcísicas mal resolvidas. A internet está cheia deles. Cemitérios inteiros de frases bonitas sem alma alguma.
Enquanto isso, as palavras mais devastadoras que já li na vida eram simples.
Diretas.
Humanas.
Porque escrever não é parecer inteligente.
Escrever é possuir coragem suficiente para arrancar algo vivo de dentro de si e entregar ao leitor sem anestesia.
Escrever é abrir o peito no escuro.
É transformar dor em linguagem.
Desejo em incêndio.
Solidão em presença.
Memória em fantasma.
Escrever é perceber beleza até na decomposição das coisas.
É ouvir o barulho emocional do mundo enquanto todos os outros estão distraídos demais para perceber.
Um verdadeiro escritor não escreve para humilhar o leitor com vocabulário ornamental.
Ele escreve para possuir o leitor emocionalmente.
Para fazê-lo sentir algo que continuará ecoando horas depois do texto terminar.
Porque no fim… palavras difíceis impressionam por alguns segundos.
Mas sentimentos verdadeiros permanecem apodrecendo docemente dentro da alma por anos.
E talvez seja exatamente isso que tantos falsos literatos jamais entenderão:
Literatura não é um desfile de inteligência.
É um ritual de permanência.

Hoje a noite começou antes do pôr do sol. E sinceramente, já perdi completamente a noção do tempo, não sei mais o que é dia ou noite depois de tanto trabalho, trancada no meu quarto, montando cenários para fotos e preparando minha câmera fotográfica (uso uma Canon Eos R10 4k 24,2 Mp). Se eu não fosse escritora, talvez trabalhasse com fotografia, minha segunda paixão.
Fiz a impressão do livro, uma cópia apenas, para efeitos de trabalho e revisão. Eu gosto de revisar o trabalho impresso, porque sou meio antiquada mesmo (risos). E depois publico a edição definitiva com os contos dos autores convidados (participem!). As inscrições começam hoje.
Percebi que a noite está se fazendo mais presente enquanto organizava manuscritos espalhados pela mesa, cercada pelo cheiro de papel antigo, cera derretida e café frio esquecido ao lado de velas que queimavam lentamente como pequenas oferendas silenciosas. Há dias em que meu quarto deixa de parecer um lugar habitável e se transforma em algo entre biblioteca profana e ruína ritualística.
Ontem (sábado) foi um desses dias.
Porque os preparativos para o Halloween da Luna 2026 começaram! Sim, meus amores! O portal está oficialmente aberto!
E sinto no corpo aquela inquietação específica que antecede certas aberturas. Não ansiedade exatamente. Algo mais antigo. Como se alguma parte invisível do mundo estivesse começando a mover suas engrenagens lentamente, preparando terreno para Outubro.
Há noites que pertencem ao calendário.
Outras pertencem às trevas.
E este Halloween… não será apenas um evento.
Será passagem.
Minha personagem preferida, a bruxa Nyxara, retornará! Parece que foi ontem que a criei para fazer parte do meu universo literário que denomino "Ordo Umbrae".
Enquanto escrevo isso, ainda consigo visualizar fragmentos dela espalhados pelas páginas abertas diante de mim. Sua presença atravessando corredores esquecidos da Ordo Umbrae, carregando o grimório junto ao peito como quem transporta uma criatura viva. Talvez seja isso que mais me perturba nesse livro: ele nunca pareceu completamente fictício.
Algumas obras são inventadas.
Outras… parecem recuperadas.
O Grimório de Nyxara nasceu assim. Como um arquivo proibido encontrado tarde demais. Cada página construída não apenas para narrar, mas para contaminar lentamente quem a atravessa. Rituais vampíricos. Símbolos ancestrais. Fragmentos filosóficos escondidos sob camadas de sombra. Conhecimentos antigos o suficiente para carregarem cheiro de sepultura úmida.
E quanto mais o livro cresce… mais sinto que ele me observa de volta.
Talvez isso soe absurdo para quem nunca viveu verdadeiramente dentro da literatura. Mas escritores conhecem esse fenômeno silencioso: chega um momento em que a obra deixa de obedecer completamente ao autor.
Ela adquire fome própria.
Passei boa parte da tarde de ontem revisando detalhes da edição física. A capa premium. O miolo inteiramente colorido. As ilustrações ritualísticas criadas por meu amigo ilustrador Thorne Sepulcro, tão belas quanto desconfortáveis. Tudo precisa parecer exatamente aquilo que o livro é:
Um relicário amaldiçoado disfarçado de objeto literário. Aliás, sigam o Instagram dele: @thornesepulcro
Enquanto eu revisava meu livro, pensei nos leitores que receberão os exemplares em Outubro. Dez nomes escolhidos entre aqueles que atravessarem o Oráculo da Lua Negra durante este ciclo de Samhain.
Gosto dessa ideia.
A ideia de que certos livros não devem simplesmente ser comprados… mas conquistados através de travessias.
E talvez o próprio Oráculo compreenda isso melhor do que eu.
Há algo profundamente simbólico nas consultas que chegam até mim. Pessoas oferecendo fragmentos íntimos de suas dores, desejos, ruínas emocionais. E em troca recebem símbolos, caminhos, advertências… pequenas lanternas acesas dentro da própria escuridão.
Mas Samhain altera tudo.
Durante Outubro, o véu enfraquece.
As respostas chegam mais próximas da carne.
E algumas consultas deixam marcas que permanecem muito depois das cartas serem recolhidas.
Os leitores que alcançarem dez consultas até Outubro sequer precisarão depender do sorteio. Serão reconhecidos diretamente pelo Oráculo. Acho bela essa mecânica quase ritualística de permanência. Como se insistir na travessia acabasse abrindo caminhos que leitores comuns jamais enxergariam.
E então existem os Cães Fantasmas.
A matilha.
Gosto de imaginar essas almas espalhadas pelo Brasil, reunidas não fisicamente, mas pelo mesmo chamado obscuro. Pessoas que ainda escutam os uivos da noite enquanto o restante do mundo continua anestesiado pela banalidade cotidiana.
Porque é disso que se trata, no fundo.
Resistência.
Resistir à superficialidade. Resistir à domesticação da imaginação. Resistir à ideia miserável de que literatura deve apenas entreter em vez de transformar.
Esta noite o vento entrou forte pela janela enquanto eu escrevia. As velas vacilaram por um instante, e confesso que senti aquele arrepio familiar percorrendo os braços. O mesmo arrepio que sinto quando certas histórias se aproximam demais da realidade.
Talvez Nyxara já esteja atravessando.
Talvez certas portas tenham começado a se abrir antes mesmo de Outubro chegar.
E talvez alguns leitores já estejam sendo observados sem perceber.
Agora a madrugada avança lentamente. O quarto permanece iluminado apenas por velas e pela tela fria do computador. Em volta de mim, páginas abertas parecem respirar sob a penumbra.
E quanto mais olho para elas… mais compreendo uma verdade perigosa:
Algumas obras desejam ser lidas.
Outras desejam possuir espaço dentro de quem as abriu.
O Grimório de Nyxara pertence à segunda categoria.
E honestamente?
Talvez já seja tarde demais para fechá-lo outra vez.
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