Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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26/10/2026 05h00
Aquilo que Nyxara deixou em mim...

 

A taça de vinho repousa ao lado do teclado, perigosamente próxima de uma pilha de livros antigos. Se algum acidente acontecer, provavelmente terei de explicar à posteridade como uma escritora conseguiu afogar séculos de conhecimento oculto em uma bebida de qualidade duvidosa. Seria um epitáfio bastante adequado...

 

Passa das duas da madrugada. Meu escritório está mergulhado naquela escuridão familiar que somente o abajur de caveira se atreve a perturbar. Sua luz amarelada alcança algumas lombadas gastas, ilumina a poeira suspensa e deixa as teias de aranha nos cantos entregues à própria arquitetura. Não tenho nenhuma intenção de removê-las. Há criaturas que trabalham silenciosamente para preservar a atmosfera deste lugar, e seria indelicado demiti-las...

 

Acabo de finalizar mais um livro.

Escrevo essa frase e fico observando-a, como se precisasse confirmar que é verdadeira.

O Grimório de Nyxara está pronto.

Por alguns segundos, mantive as mãos sobre o teclado, esperando alguma reação extraordinária. Uma alteração na temperatura, talvez. O estalo de uma madeira antiga. Qualquer manifestação minimamente sobrenatural que justificasse tantas noites dedicadas a uma bruxa cuja existência ocupa uma parcela cada vez mais inconveniente dos meus pensamentos.

Nada aconteceu.

Apenas o silêncio.

E descobri que o silêncio, depois de concluir um livro, possui uma natureza muito diferente daquele que antecede a primeira página. O primeiro parece oferecer possibilidades. O último exige que eu me despeça de algo que, durante tanto tempo, viveu dentro de mim.

 

Sirvo mais um pouco de vinho.

Hoje tenho motivos para comemorar, embora minha celebração seja tão discreta que qualquer observador provavelmente a confundiria com uma reunião de uma única pessoa à espera de um fantasma atrasado. Gosto assim. Nunca precisei de uma multidão para reconhecer minhas próprias conquistas. Aliás, multidões costumam transformar acontecimentos íntimos em espetáculos de uma vulgaridade impressionante.

Prefiro brindar com meus mortos literários. São excelentes ouvintes e raramente interrompem.

 

Na próxima noite de Halloween, 31 de outubro de 2026, O Grimório de Nyxara será lançado oficialmente.

Faltam poucos dias.

Escrevo a data com uma satisfação difícil de disfarçar. Há algo deliciosamente apropriado em entregar ao mundo uma obra como essa justamente quando as pessoas se permitem brincar com aquilo que temem durante o restante do ano.

 

Mas Nyxara não nasceu para brincar.

Neste livro, acompanho sua peregrinação obscura até o lendário Templo dos Vampiros, aprofundando sua presença na saga Ordo Umbrae. Durante a travessia, ela registra conhecimentos que a humanidade aprendeu a esconder atrás de símbolos, proibições e silêncios cuidadosamente preservados.

Rituais vampíricos, cerimônias coletivas, simbologias ancestrais, métodos secretos do vampirismo, fragmentos filosóficos e profecias que atravessaram os séculos como documentos de uma inquietação humana persistente.

 

A obra se alimenta de práticas reais, estudadas e transfiguradas pela literatura. Sempre me fascinou essa fronteira incômoda entre o conhecimento e aquilo que as pessoas preferem chamar de superstição. Às vezes, a diferença entre os dois depende exclusivamente de quem está segurando o livro.

Minha intenção foi construir um relicário amaldiçoado disfarçado de literatura.

Talvez eu tenha exagerado na hospitalidade oferecida aos seus habitantes.

Sobre a mesa está a ilustração de Nyxara que preparei para transformar em um quadro e colocar neste escritório, substituindo o quadro de Baudelaire que está atualmente na parede. Observo o rosto de Nyxara na ilustração, enquanto giro lentamente o vinho na taça. Inicialmente, imaginei que seria apenas uma bela maneira de homenagear minha personagem. Agora, diante daquela imagem, começo a desconfiar de que escolhi uma companhia bastante exigente.

 

Existe uma estranha intimidade entre uma escritora e aquilo que inventa.

Conheço os pensamentos de Nyxara, suas intenções mais cruéis, a inteligência que orienta suas escolhas e até os desejos que ela jamais confessaria. Ainda assim, às vezes, sinto que a compreendo menos do que deveria.

Talvez porque algumas personagens sejam construídas com materiais que retiramos de lugares nossos aos quais preferiríamos nunca retornar.

Essa é uma confissão que dificilmente faria em público.

Tenho medo de terminar certos livros.

Não pelo julgamento dos leitores, embora conheça perfeitamente a capacidade humana de transformar uma opinião medíocre em uma sentença definitiva. O que me assusta é aquela pequena ausência que surge quando uma história deixa de precisar de mim.

Durante a escrita, sou indispensável. Decido quem atravessa a porta, quem permanece nas sombras, quem conhece a verdade e quem será condenado a procurá-la. Depois da última página, tudo muda. A personagem pertence à imaginação de outras pessoas, e eu perco o privilégio de ser sua única testemunha.

É uma espécie de abandono consentido.

Talvez por isso eu continue escrevendo.

 

Olho novamente para Nyxara e me lembro de quando tudo começou, com a publicação do meu e-book O aprendiz das Trevas. A lembrança desperta uma nostalgia particular. Naquela época, eu ainda não poderia imaginar todas as passagens que se abririam a partir daquela primeira publicação.

Hoje, contemplando o universo de Ordo Umbrae, percebo quanto uma ideia pode crescer quando lhe permitimos desenvolver suas próprias consequências.

E não pretendo encerrar essa travessia.

Já estou trabalhando em novas publicações sobre Nyxara, incluindo outro e-book gratuito, dedicado a revelar a origem da bruxa. Existem acontecimentos anteriores aos que narrei, escolhas que ajudaram a formar sua identidade e segredos que ainda precisam encontrar seu lugar nas páginas.

 

A origem de uma criatura sempre me pareceu mais perturbadora do que seus crimes.

O horror realmente interessante começa quando compreendemos as circunstâncias que tornaram determinadas escolhas possíveis. É fácil condenar um monstro depois de conhecer suas vítimas. Muito mais desconfortável é reconhecer nele algum mecanismo profundamente humano.

 

Volto à taça.

O vinho perdeu um pouco do frescor. A madrugada avançou sem pedir licença, e a luz do abajur continua projetando uma sombra irregular sobre a ilustração.

Penso na obsessão de Nyxara pela imortalidade.

Talvez meu interesse por esse tema revele algo que passei anos disfarçando com elegância. Escrever também é uma maneira de negociar com o desaparecimento. Empilhamos palavras, damos nomes às nossas inquietações e esperamos que alguma parte de nós permaneça legível quando nossa voz já não estiver presente.

Não considero isso uma aspiração nobre. Existe bastante vaidade nessa tentativa de sobreviver através da própria obra.

Mas existe amor também.

Amor pelas histórias que ainda desconheço, pelos leitores que encontrarão algo de si onde escondi alguma coisa minha, pelas criaturas que construí e que, inexplicavelmente, continuam me fazendo companhia.

 

Levanto a taça diante da ilustração.

Brindo à conclusão de O Grimório de Nyxara, ao seu lançamento no Halloween e às páginas de Ordo Umbrae que ainda me esperam.

Sinto uma satisfação tranquila, dessas que dispensam testemunhas. O trabalho está concluído. Cumpri o que prometi a mim mesma.

Poderia apagar a luz e descansar.

Entretanto, antes de fechar o arquivo, releio a última página. Meus olhos percorrem as palavras com uma familiaridade quase física. Conheço cada passagem, cada hesitação corrigida, cada silêncio deliberadamente preservado.

E então compreendo o que realmente me incomoda.

Não estou triste por ter terminado o livro.

Estou inquieta porque, enquanto escrevia sobre uma bruxa disposta a atravessar o desconhecido para alcançar a imortalidade, comecei a reconhecer o quanto ainda desejo descobrir o que existe depois da próxima porta.

A minha curiosidade continua perigosamente viva.

Deixo a taça vazia sobre a mesa e observo, uma última vez, a imagem preparada para ocupar a parede do escritório.

 

Nyxara permanece imóvel, naturalmente.

Sou eu quem já não consegue ficar parada.

Sim, eu terminei de escrever seu grimório, mas ela ainda não terminou de escrever em mim...

Publicado por Luna Bela Morte
em 26/10/2026 às 05h00
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
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19/10/2026 05h00
A sombra que aprendeu meu nome

 

A água ainda escorria das calhas quando saí de casa, pouco depois das duas da madrugada. A chuva havia terminado, mas Angra dos Reis conservava aquele cheiro de terra revolvida, maresia e paredes antigas que passaram horas absorvendo o céu. Sob minhas botas, pequenas poças reproduziam pedaços de janelas, fios elétricos e fachadas adormecidas. Era como caminhar sobre uma cidade partida, cuja outra metade permanecia enterrada na água.

 

A noite sempre me parece mais honesta depois da chuva. Talvez porque ninguém consiga esconder o que ficou molhado. Caminho devagar por lugares antigos, e algumas ruas ainda lembram quem tentou esquecê-las.

Não sei explicar por que certos lugares me provocam essa impressão. Há muros cobertos de umidade que parecem conservar conversas interrompidas. Portas fechadas cuja madeira envelheceu de maneira desigual, denunciando mãos que as abriram milhares de vezes. Uma janela, particularmente, sempre me incomoda. Nunca vi ninguém atrás dela, mas frequentemente sinto que alguém observa a rua através dos vidros escurecidos.

Hoje, entretanto, não foi a janela que me perturbou.

Foi aquilo que passou diante dela.

Uma silhueta comprida, feminina, reconhecível pela inclinação dos ombros e pelo movimento dos cabelos. Atravessou o reflexo da vidraça enquanto eu permanecia imóvel na calçada.

Naturalmente, olhei para trás.

Nada.

Sorri discretamente. Tenho uma imaginação que deveria pagar aluguel pela quantidade de problemas que inventa. Ser escritora de terror tem suas desvantagens. A principal é conhecer demasiadas maneiras de morrer antes mesmo de terminar um passeio.

 

Continuei caminhando.

O mar estava próximo. Eu podia ouvi-lo entre os intervalos do vento, respirando contra as pedras com uma paciência quase indecente. Sempre me impressionou a maneira como a natureza permanece indiferente às nossas pequenas tragédias. Uma pessoa pode perder tudo durante uma tarde, enquanto uma árvore continua produzindo folhas e o oceano insiste em repetir o mesmo movimento.

Curiosamente, encontro consolo nessa indiferença.

 

Perto da água, não preciso desempenhar personagem alguma. Não sou escritora, mulher excêntrica, criatura inconveniente ou qualquer uma das versões que as pessoas inventam quando não conseguem compreender o silêncio alheio. Sou apenas um corpo respirando diante de alguma coisa muito mais antiga.

Gosto de caminhar sozinha por isso.

A companhia humana, mesmo quando agradável, exige pequenas negociações. Um sorriso conveniente, uma explicação desnecessária, o esforço quase burocrático de provar que o silêncio não significa tristeza... Existe uma epidemia de pessoas convencidas de que estar sozinho representa uma falha de funcionamento. Como se a alma precisasse apresentar comprovante de sociabilidade para continuar existindo.

Nunca tive paciência para semelhante estupidez.

 

Recordei uma antiga leitura sobre a filosofia hermética, na qual reconheci uma ideia que me acompanha há anos: o mundo exterior pode servir de espelho para aquilo que permanece oculto na consciência. A contemplação silenciosa seria, então, uma espécie de retorno às próprias profundezas. Não uma fuga da existência, mas uma aproximação daquilo que somos quando ninguém está olhando.

 

A alquimia também me fascina por sua imagem da nigredo, o estágio de escurecimento e decomposição que precede a transformação. Gosto de pensar na solidão como esse processo íntimo. Algumas certezas precisam apodrecer antes que consigamos reconhecer a matéria da qual fomos feitos.

Talvez seja por isso que nunca me senti inteiramente abandonada.

Mesmo quando estava sozinha.

Sobretudo quando estava sozinha.

 

Parei perto de um trecho onde a vegetação avançava em direção ao mar. A água acumulada nas folhas escorria lentamente, produzindo pequenos estalos sobre o chão. Um cheiro verde, quase amargo, misturava-se ao sal. Encostei os dedos na superfície fria de uma pedra e permaneci ali, ouvindo.

Então senti.

Aquela presença.

 

Não houve ruído de passos nem movimento perceptível. Apenas a impressão física de que alguém havia parado muito perto, respeitando exatamente a distância necessária para não me tocar.

Meu estômago contraiu.

Conheço essa sensação desde a infância.

 

Lembro-me de uma noite em que despertei sem compreender por quê. O quarto estava escuro, mas havia claridade suficiente para distinguir os contornos da cama. Virei o rosto e encontrei uma sombra deitada ao meu lado.

Tinha o meu formato.

O comprimento dos cabelos, a posição dos braços, a curva dos ombros. Parecia uma reprodução de mim feita com uma matéria incapaz de refletir luz.

E estava olhando diretamente para mim.

Não me lembro de ter gritado. Recordo apenas o esforço desesperado para permanecer imóvel, como se qualquer movimento pudesse autorizar aquela coisa a aproximar-se.

 

O detalhe que ainda me perturba é outro.

Eu conseguia distinguir a direção do seu olhar, embora ela não tivesse olhos.

Durante muitos anos, guardei essa lembrança como se guarda um objeto perigoso encontrado na infância. Pensei em sonhos interrompidos, ilusões provocadas pela escuridão, mecanismos da mente adormecida. Explicações razoáveis, certamente.

Mas a razão tem uma irritante limitação: consegue organizar aquilo que aconteceu sem necessariamente dissolver o medo que ficou.

 

Depois daquela noite, comecei a perceber reflexos semelhantes em superfícies escuras. Sombras com minha forma apareciam nas margens da visão, acompanhando movimentos que eu ainda não havia terminado.

Nunca soube se observava alguma coisa exterior ou se minha memória aprendera a projetar aquela primeira imagem sobre o mundo.

O mais estranho é que jamais consegui odiá-la.

 

Voltei a caminhar, agora com uma pressa que me envergonhava. A brisa fria empurrava alguns fios de cabelo contra meus lábios. Meu coração batia depressa, e a rua parecia excessivamente comprida.

Havia uma confissão que eu evitava até nas páginas deste diário.

Tenho medo de encontrar aquilo que me acompanha.

Mas tenho ainda mais medo de perdê-lo.

 

Que espécie de mulher teme a presença de uma sombra e, secretamente, necessita saber que ela continua ali?

Talvez alguém que aprendeu cedo demais a conviver com a própria estranheza. Alguém que transformou o isolamento em território, a escrita em abrigo, o desconhecido em companhia. Há uma ternura vergonhosa nessa relação com o inexplicável. Durante toda a minha vida, quando pessoas se afastaram, cidades mudaram e afetos envelheceram, aquela sensação persistiu.

Uma fidelidade sem rosto.

E eu, que sempre desconfiei das promessas humanas, acabei atribuindo significado à única companhia que jamais me prometeu coisa alguma.

 

Ao chegar em casa, retirei as botas molhadas e me sentei diante do caderno. A madrugada já se aproximava das três. A janela refletia meu rosto pálido, os cabelos desalinhados e a pequena lâmpada acesa sobre a mesa.

Escrevi sobre o mar, a infância e a possibilidade de que o despertar da alma tenha menos a ver com descobrir uma verdade grandiosa do que com suportar a presença daquilo que desconhecemos em nós mesmos.

 

Talvez minha sombra seja uma lembrança que adquiriu pernas. Talvez seja uma parte da consciência que se recusa a permanecer enterrada. Ou talvez haja, realmente, alguma coisa caminhando comigo há muitos anos.

Não tenho resposta.

 

Ergui os olhos para o vidro.

Meu reflexo estava ali, inclinado sobre o diário. Reconheci minhas mãos, os cabelos sobre o ombro, a expressão cansada.

Por um instante, senti uma paz quase dolorosa.

Então fechei o caderno.

No vidro, minha mão continuou escrevendo.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 19/10/2026 às 05h00
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12/10/2026 05h00
Verdades de lombada gasta

 

Voltei da livraria com as mãos vazias e a cabeça barulhenta.

Agora passa da meia-noite. Estou sentada diante da mesa de madeira, com um livro antigo aberto entre os dedos e outro ainda esperando ao lado do caderno. A luminária derrama uma luz amarelada sobre o papel, insuficiente para alcançar as estantes atrás de mim. Prefiro assim. Livros muito velhos ficam mais à vontade quando metade deles permanece no escuro.

 

Passei parte da tarde olhando lançamentos. Capas belíssimas. Lombadas com relevos. Hot stamping. Pinturas metalizadas. Edições de colecionador dentro de caixas tão sofisticadas que quase esperamos encontrar um cadáver aristocrático lá dentro.

 

Editoras aprenderam uma coisa importante sobre nossa época: antes de convencer alguém a ler um livro, talvez seja mais fácil convencê-lo a fotografá-lo.

Não estou reclamando. Seria hipocrisia. Gosto de livros bonitos. Tenho olhos, afinal, e eles ainda não pediram demissão.

Mas confesso que me diverti diante de algumas edições novas, luxuosas, absolutamente irresistíveis, de obras que já possuo em versões muito mais antigas. Algumas das minhas têm páginas amareladas, capas feridas, anotações de pessoas mortas e aquele cheiro que nenhuma indústria conseguiu engarrafar sem produzir algo parecido com perfume de armário mofado.

 

Fiquei alguns minutos segurando uma edição nova de um clássico que já mora aqui em casa.

A capa era linda.

Minha edição antiga provavelmente me esperava na estante pensando: traidora.

Não comprei.

Voltei para casa e fui mexer na coleção.

Talvez eu nunca tenha explicado direito por que faço isso.

O motivo de eu colecionar livros antigos?

Guardo as verdades que alguém tentou esconder dentro deles.

E quanto mais estudo a humanidade, mais compreendo por que tantos monstros preferem permanecer nas páginas.

 

Há livros que mudaram de dono tantas vezes que parecem ter adquirido memória própria. Encontro nomes riscados, datas, dedicatórias para pessoas que deixaram de existir, flores secas esmagadas entre capítulos, frases sublinhadas com uma raiva que não me pertence. Às vezes não sei quem segurou aquele volume antes de mim, mas conheço alguma coisa sobre essa pessoa pela violência com que marcou determinada passagem.

É uma intimidade involuntária.

Talvez seja isso que me fascine.

Vivemos num tempo obcecado por mostrar tudo e revelar quase nada.

As pessoas expõem o café, o rosto, o quarto, o corpo, a viagem, a indignação da tarde e a felicidade cuidadosamente enquadrada das nove da noite. Temos acesso a milhares de vidas e conhecemos pouquíssimas pessoas. Nunca houve tantas janelas abertas e tantos cômodos trancados.

 

Os algoritmos aprenderam nossos desejos antes que muitos de nós aprendêssemos a nomeá-los.

E então aparecem os monstros.

Não os elegantes, infelizmente.

Nenhum vampiro decadente esperando no alto de uma escadaria. Nenhuma criatura antiga falando latim entre velas.

Os monstros atuais usam fotografia profissional, frase inspiradora na biografia e uma excelente estratégia de posicionamento digital.

Horror também evolui.

Talvez por isso eu goste dos livros velhos. Eles não tentam me seduzir em quinze segundos. Não piscam. Não notificam. Não disputam minha atenção com alguém dançando, vendendo uma solução definitiva para a vida ou anunciando que descobriu, aos vinte e três anos, como o universo funciona.

Basta abri-los.

O silêncio faz o resto.

 

Enquanto folheava um deles esta noite, pensei no Halloween.

Faltam poucos dias.

Minha ansiedade já começou a fazer aquela coisa irritante de caminhar pela casa antes de mim.

Dia 31 de outubro, finalmente, O Grimório de Nyxara estará disponível.

Escrever isso deveria me acalmar.

Não acalma.

Existe uma diferença cruel entre escrever um livro e permitir que ele deixe de ser seu. Enquanto está comigo, posso corrigir uma frase às três da manhã, trocar uma palavra, desconfiar de um capítulo inteiro, odiá-lo durante vinte minutos e amá-lo novamente depois de um café. Quando o livro encontra o leitor, termina essa pequena tirania.

Ele passa a pertencer a outros olhos.

Talvez esse seja meu medo mais secreto em cada lançamento.

Não que odeiem o que escrevi.

Isso eu suportaria.

Tenho mais medo de não conseguir entregar aquilo que senti enquanto escrevia, porque certas histórias chegam com uma temperatura própria. E tenho uma necessidade quase absurda de preservar essa febre até a última página.

 

Os Halloweens anteriores voltaram à minha memória esta noite. As participações dos leitores nos contos, as conversas que nasceram depois, pessoas que chegaram por causa de uma brincadeira literária e permaneceram na minha vida. Algumas ainda falam comigo.

Esse é um dos milagres estranhos da literatura.

Inventamos fantasmas e encontramos pessoas reais.

 

Sobre a mesa está também a imagem da abóbora que criei para a capa de O Grimório de Nyxara. Passei tempo demais olhando para aquele rosto iluminado por dentro. Há qualquer coisa nela que me incomoda agradavelmente. Uma expressão entre convite e ameaça.

Talvez porque Nyxara também seja assim.

Talvez porque eu seja.

Quem quiser espiar antes de entrar pode encontrá-la aqui:

aprendizdastrevas.com/halloweendaluna

 

Não prometo segurança.

Aliás, ultimamente tenho pensado que minha fuga da realidade nunca foi exatamente fugir.

Eu escrevo para desmontá-la.

Quando o mundo fica excessivamente ruidoso, quando todos parecem disputar quem grita mais alto, eu volto para minha mesa, abro um arquivo e construo uma porta.

Do outro lado existem bruxas, criaturas, maldições, corredores onde ninguém deveria caminhar sozinho.

Curiosamente, sinto-me mais segura ali.

Talvez porque monstros literários tenham a decência de assumir que são monstros...

 

Fechei o livro antigo há poucos minutos.

Uma pequena nuvem de poeira subiu das páginas.

Passei os dedos pela capa gasta e pensei em quantas mãos já fizeram o mesmo antes de mim.

Depois olhei para a tela onde O Grimório de Nyxara espera suas últimas correções.

Um livro velho diante de mim.

Um livro novo nascendo.

Entre os dois, eu.

Arquivando monstros.

E tentando descobrir quais deles ainda estão do lado de fora da página.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 12/10/2026 às 05h00
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05/10/2026 03h00
O labirinto depois da porta

 

Cheguei pouco depois das nove, com o corpo ainda guardando o movimento do ônibus.

É uma sensação estranha. A viagem termina, os pés tocam o chão, a mala deixa de tremer no bagageiro, mas alguma parte de nós continua percorrendo a estrada. Talvez seja por isso que caminhei pelos corredores da pousada como se ainda estivesse em trânsito, carregando minha bolsa, um livro contra o peito e uma inquietação que não constava na reserva.

 

Escolhi este lugar justamente pelo silêncio.

Uma pousada antiga, afastada da agitação, com corredores estreitos e madeira escura suficiente para fazer qualquer arquiteto moderno sugerir alegremente uma reforma e, por isso mesmo, destruir tudo o que me fez gostar daqui.

 

As tábuas rangem.

Gosto disso.

Casas excessivamente silenciosas me parecem falsas. A madeira velha, ao contrário, denuncia cada passo. Tem memória muscular. Reclama quando alguém passa sobre aquilo que aprendeu a considerar seu.

 

Meu quarto fica quase no fim do corredor.

Quando cheguei, havia uma porta entreaberta alguns metros adiante.

Não prestei muita atenção.

Esse detalhe me incomoda agora.

 

Trouxe comigo os últimos fragmentos de O Grimório de Nyxara. Vim para terminar o que ainda precisa ser aparado antes do lançamento de Halloween, no dia 31. Passei as últimas semanas cercada pela história dessa bruxa que avança para um universo proibido de vampiros e conhecimentos que talvez existam justamente porque alguém, em algum momento, decidiu que certas portas deveriam permanecer fechadas.

 

Talvez tenha sido pouco sensato escolher uma pousada antiga para concluir esse livro.

Mas sensatez nunca escreveu nada que me interessasse.

Coloquei a mala ao lado da cama. Tirei os livros da bolsa e os deixei sobre uma pequena escrivaninha de madeira marcada por riscos, círculos deixados por copos e uma queimadura antiga perto da borda. Alguém havia pousado ali alguma coisa quente demais. Café. Vela. Cigarro.

Ou um pequeno portal para o inferno.

Prefiro a última hipótese. Dá mais dignidade ao mobiliário.

 

Abri a janela.

O ar estava úmido. Outubro tem essa maneira indecente de fazer a primavera parecer uma coisa viva demais. Tudo cheira a folhas molhadas, terra, madeira e vegetação saturada. Ao longe, a noite se confundia com a mata, e em algum ponto invisível havia água. Mar ou chuva acumulada, pouco importava. O cheiro chegava antes da resposta.

Sentei-me para trabalhar.

Escrever longe de casa produz um tipo particular de estranhamento. Meus objetos estavam comigo, minha letra permanecia a mesma, Nyxara continuava esperando exatamente onde eu a havia deixado, mas nenhuma parede conhecia meus hábitos.

 

Em casa, sei quais ruídos pertencem à madrugada.

Aqui, ainda não.

Às dez e quarenta ouvi três passos no corredor.

Parei.

Esperei o quarto.

Ele não veio.

Voltei ao texto.

 

Estava revisando uma passagem em que Nyxara precisava decidir até onde desejava avançar dentro de um conhecimento que já havia ultrapassado a curiosidade quando percebi uma ironia desagradavelmente precisa: talvez toda descoberta seja apenas uma violação com melhor reputação.

Chamamos de curiosidade quando desejamos entrar.

Chamamos de horror quando alguma coisa responde.

 

Levantei-me para buscar água.

Foi então que vi novamente a porta.

Entreaberta.

Exatamente como antes.

O corredor estava vazio.

 

A luz amarelada da parede alcançava apenas parte do interior daquele cômodo. Não consegui distinguir móveis. Só escuridão e uma faixa muito estreita do assoalho.

Fiquei olhando por alguns segundos.

Voltei para o meu quarto.

Sim. Voltei.

 

Há uma crença equivocada de que pessoas fascinadas pelo oculto precisam investigar todo ruído, abrir todo armário e descer toda escada suspeita. Isso não é coragem. É seleção natural trabalhando horas extras.

Fechei minha porta.

Continuei escrevendo.

 

À meia-noite, o Halloween já parecia menos uma data no calendário e mais uma temperatura. Outubro sempre faz isso comigo. As pessoas começam a brincar com monstros, fantasmas, bruxas e mortes decorativas. Durante algumas semanas, o mundo aceita aquilo que passa os outros onze meses tentando esconder sob luz branca, produtividade, religião, boas maneiras e boletos.

Talvez eu goste tanto desse período porque a sociedade finalmente admite que possui um porão.

Depois o fecha novamente em novembro.

 

Enquanto revisava Nyxara, percebi algo que não havia formulado antes.

Tenho inveja dela.

Pronto.

Escrevi.

E já me arrependo um pouco.

Não invejo seus poderes, seu contato com o proibido ou qualquer grandeza sobrenatural. Invejo sua capacidade de atravessar.

Há portas diante das quais ainda permaneço parada.

 

Algumas pessoas confundem minha solidão com força. Talvez porque eu tenha aprendido a carregá-la com certa elegância. Mas existe uma diferença entre escolher ficar sozinha e aprender a não esperar ninguém.

A primeira é liberdade.

A segunda pode se tornar uma espécie de arquitetura.

Construí corredores dentro de mim.

Quartos fechados.

Pequenas dependências emocionais onde guardo tudo aquilo que não combina com a mulher que os outros acreditam conhecer.

 

Medos inconvenientes.

Desejos sem testemunhas.

Saudades que considero indignas.

E uma fragilidade particularmente irritante: às vezes gostaria que alguém percebesse minha ausência antes de eu precisar anunciá-la.

Detesto essa frase.

Por isso não vou riscá-la.

Há verdades que só sobrevivem quando nos envergonham um pouco.

 

Fechei o manuscrito.

Os livros sobre a mesa pareciam mais pesados. Fiquei observando as lombadas e pensei que os livros que carrego apenas provam uma coisa: algumas verdades não permanecem enterradas.

Talvez escrever seja isto.

Desenterrar aquilo que passamos anos tentando sepultar com alguma dignidade.

A arte tem péssimas maneiras.

Ela entra sem bater.

 

À uma e quinze, ouvi novamente os passos.

Três.

Desta vez vieram devagar.

Um.

Dois.

Três.

Pararam diante do meu quarto.

Não me mexi.

Minha mão permaneceu sobre a capa do manuscrito.

Esperei.

Nada.

Depois ouvi o rangido da madeira mais adiante.

Fui até a porta e abri apenas o suficiente para olhar.

O corredor estava vazio.

Mas a outra porta...

Agora estava mais aberta.

Vi parte do quarto.

Uma cadeira.

Uma cortina imóvel.

E alguma coisa escura sobre a cama.

Não era possível saber o quê.

Fechei imediatamente.

Sem heroísmo. Sem investigação. O mundo já perdeu gente demais porque alguém decidiu que precisava descobrir o que havia no quarto escuro.

 

Voltei à escrivaninha.

Curiosamente, não consegui sentir medo.

Senti reconhecimento.

Nyxara estava ali diante de mim, impressa nas folhas espalhadas. Uma mulher atravessando limites porque precisava saber o que existia depois deles.

Então compreendi o que ainda faltava no livro.

Não mais uma cena.

Uma intenção.

Conhecimento proibido nunca é perigoso apenas pelo que revela.

É perigoso porque transforma quem teve coragem suficiente, ou imprudência suficiente, para encontrá-lo.

 

Escrevi durante quase uma hora.

Quando terminei, o corredor permanecia silencioso.

Não fui verificar a porta.

Há labirintos que nos levam a quartos.

E há quartos que nos levam ao que preferíamos não descobrir.

 

Agora são duas e vinte e sete.

Minha porta está trancada.

Tenho certeza disso.

O problema é que, neste instante, alguém acabou de girar lentamente a maçaneta pelo lado de fora...

 


OBS.: Para essa foto, pedi a um hóspede da pousada para tirar uma foto minha com minha câmera profissional, que sempre carrego comigo. Uma Canon preta da linha EOS Rebel, modelo T7. Para usá-la adequadamente, fiz um curso de fotografia meses atrás (é lógico que, sempre aplico efeitos de edição nas minhas fotos - gosto do estilo parecer visualmente sombrio, com detalhes de cor marrom escuro, luz em âmbar, cobre e dourado). Todos na pousada ficavam me olhando, atraídos de uma forma estranha... tive a leve impressão de ouvir eles perguntando onde seria o enterro (risos). Se ele soubessem que carrego todas as noites, comigo, o funeral da minha alma...

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 05/10/2026 às 03h00
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28/09/2026 05h00
A janela não me devolve

 

Cheguei em casa com a noite ainda presa aos cabelos...

Não acendi todas as luzes. Nunca acendo. A claridade excessiva tem o péssimo hábito de transformar qualquer ambiente num interrogatório, e esta madrugada já me fez perguntas suficientes.

 

Puxei uma cadeira até a janela e sentei ao contrário, apoiando os braços no encosto de madeira. A camisa larga ainda conserva um pouco do cheiro da rua, perfume misturado à umidade, fumaça distante e aquele suor discreto que o medo deixa na pele mesmo depois de ir embora.

 

Fiquei olhando para fora.

Talvez, se alguém me visse daqui, pensasse que estou esperando uma pessoa.

Não estou.

Às vezes, não estou esperando ninguém. Estou apenas vendo quem eu era desaparecer no horizonte.

 

Voltei do Shopping Piratas há algumas horas, embora o som das pessoas continue repetindo dentro da minha cabeça em fragmentos sem sentido. Eu estava passeando. Sozinha, e misturada às pessoas, bebi um pouco, fiz aquilo que pessoas vivas fazem para confirmar umas às outras que ainda pertencem ao mundo.

Em determinado momento, cansei.

Não das pessoas ao meu redor.

De mim naquela versão.

Resolvi caminhar para longe, para mais perto da praia.

Foi uma dessas decisões que parecem perfeitamente razoáveis até entrarmos numa praia deserta e escura, e descobrirmos que nossa coragem possui limites bastante administrativos.

As pessoas ficaram para trás. A areia úmida, as ondas carregando o sangue da minha imaginação (ou talvez fosse o vinho) e algumas janelas, ao longe, permaneciam fechadas apesar do calor.

A lua cheia aparecia entre os telhados das casas no horizonte.

Branca.

Imóvel.

Indiferente.

Comecei a falar comigo mesma, alguns versos que estavam na minha cabeça, e percebi que meus devaneios começaram a soar altos demais.

Depois ouvi outro ruído.

Parei.

O silêncio também parou.

Olhei para trás e não havia ninguém.

Continuei.

O medo não chegou como um grito. Subiu pelas pernas devagar, instalou-se no ventre e começou a alterar pequenas coisas: a velocidade da respiração, a posição das mãos, a atenção dedicada a cada janela ao longe, cada sombra, cada reflexo.

Nessas horas percebemos quanto do nosso corpo vive preparado para uma guerra que a consciência ainda não declarou.

 

A noite parecia me possuir aos poucos.

E, estranhamente, parte de mim gostou.

Talvez porque exista certa honestidade no medo. Ele elimina ornamentos. Ninguém pensa em parecer interessante quando acredita que alguma coisa pode estar escondida dois metros atrás.

Andei mais depressa.

Vi minha sombra avançar sobre a areia e, durante um segundo, tive dificuldade para reconhecê-la.

Parece absurdo.

Mas talvez não seja.

Passei tantos anos me tornando outra pessoa que às vezes ainda encontro pedaços antigos de mim em lugares inesperados.

Uma reação.

Uma lembrança.

Uma maneira de baixar os olhos.

Um medo sem objeto.

Pequenos fósseis emocionais...

 

Desculpe, eu costumo escrever em formato de poesia, de tanto que os versos já impregnaram toda a minha alma. Mas tentarei ser mais "sóbria"...

 

Quando alcancei a rua iluminada, senti alívio. Carros passavam. Havia gente conversando diante de um bar. Um motociclista mexia no telefone. O mundo estava exatamente como eu o havia deixado.

Foi quase ofensivo.

Há momentos em que algo inteiro desmorona dentro de nós e, ainda assim, o ônibus continua passando no horário.

 

Voltei para casa.

Agora estou aqui.

Diante desta janela.

Curioso como algumas janelas mostram o mundo inteiro justamente quando queremos fugir dele.

Há uma luz distante refletida no vidro e, por causa dela, consigo ver meu próprio rosto misturado à paisagem. Se olho diretamente para fora, vejo a madrugada. Se mudo ligeiramente o foco, vejo a mim.

Não gosto dessa escolha.

Tenho pensado muito na mulher que fui.

Não com saudade.

Saudade seria uma palavra generosa demais.

Há versões de nós que merecem carinho. Outras merecem apenas reconhecimento histórico, como países extintos cuja bandeira ainda aparece em livros antigos.

 

Eu já fui mais obediente.

Mais tolerante.

Mais disposta a permanecer onde alguma parte de mim implorava para ir embora.

Eu achava que a minha paciência era uma virtude quando, na verdade, era medo. E por causa disso, aceitei silêncios que deveriam ter sido respostas, e permiti que pessoas entrassem profundamente na minha vida porque acreditava, de forma ingênua, que a intimidade significava conceder acesso irrestrito.

Que ideia desastrosa! Quanta ingenuidade!

 

Nem todo mundo que entra numa casa precisa receber a chave.

Demorei para aprender isso.

E há outra coisa que dificilmente confessaria fora destas páginas: às vezes sinto falta daquela mulher.

Isso me irrita.

Ela era mais fácil.

Esperava mais das pessoas. Perdoava com rapidez. Acreditava que certas conversas poderiam consertar qualquer coisa se as palavras corretas fossem encontradas.

Hoje sei que algumas pessoas compreendem perfeitamente o mal que fazem.

A compreensão não as impede.

Existe uma espécie de paz cruel nesse conhecimento.

E quando finalmente paramos de acreditar na inocência onde, na verdade, sempre foi uma escolha, muitas relações ficam assustadoramente simples.

 

Encosto os dedos nos lábios enquanto observo meu reflexo.

A mulher no vidro parece tranquila.

Conheço melhor.

Ela aprendeu a esconder tempestades com uma eficiência que provavelmente seria considerada talento profissional se houvesse mercado para isso.

Talvez exista.

Chamam de maturidade.

Eu chamaria de sobrevivência com boa postura. Irônico, eu sei...

 

A lua ainda aparece acima das casas, agora menor, deslocada para outro ponto do céu.

Olho para ela e penso na sombra que vi na areia daquela praia.

Minha sombra.

Durante alguns segundos achei que estivesse sendo seguida.

Talvez estivesse.

Não por alguém.

Por mim mesma.

A versão antiga.

Aquela que continuo deixando para trás e que, vez ou outra, reconhece meus passos e tenta acompanhar.

Isso explica certas madrugadas...

Certos sonhos...

Certas reações que chegam antes do pensamento...

Enfim...

 

O passado raramente bate à porta. Seria civilizado demais.

Ele conhece passagens menores...

Uma música... um cheiro... uma frase dita com determinada entonação... um corredor escuro... uma janela!

 

E entra.

 

Fico ali por mais algum tempo, os braços apoiados na cadeira, olhando o reflexo sobreposto à madrugada.

Não há ninguém chegando pela rua.

Nenhuma mensagem que eu espere.

Nenhum rosto que eu deseje ver surgindo no portão.

E percebo que isso já não me parece vazio.

 

Durante muito tempo achei que a solidão fosse uma espécie de ausência de companhia. Algo assim, bem simples. Mas hoje... suspeito que exista uma solidão mais profunda: permanecer cercada de pessoas enquanto precisamos esconder de todas elas aquilo que realmente somos. Como eu, caminhando entre as pessoas no Shopping.

Prefiro esta.

 

Aqui em minha casa posso respirar sem representar papel algum.

A casa está silenciosa.

A madeira da cadeira aqueceu sob meus braços.

E em algum lugar distante, um carro desaparece na curva.

A lua continua sua lenta travessia sobre os telhados.

E minha imagem permanece no vidro.

 

Por alguns segundos, não sei se estou olhando para fora ou para dentro.

Talvez não haja mais diferença.

A mulher que fui está desaparecendo no horizonte.

Não faço nenhum gesto para chamá-la de volta.

Ela olha uma última vez para mim.

E eu deixo que vá.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 28/09/2026 às 05h00
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