Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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08/07/2026 06h28
Ismália me chamou da torre antes que eu soubesse cair

 

Hoje voltei a uma torre antiga.
Não uma torre de pedra visível, dessas que os turistas fotografam com os olhos lavados de pressa e o espírito vazio de espanto. Falo de outra torre: aquela erguida dentro da memória, onde certas leituras permanecem debruçadas sobre o abismo, olhando ao mesmo tempo para o céu e para o mar, como se a alma fosse uma criatura dividida entre ascensão e queda.

 

Hoje voltei a Ismália.

 

Um poema que simplesmente invade nossa alma. Uma frase, uma imagem, uma música secreta entre palavras aparentemente simples, e então algo se desloca dentro de nós. Mais do que uma compreensão; um reconhecimento. Como se um quarto escuro, esquecido há anos na casa da nossa mente, tivesse recebido subitamente uma vela.

 

Foi assim comigo.

 

Antes de Alphonsus de Guimaraens se tornar, para mim, um nome envolto em névoa, sinos e violetas fúnebres, houve Ismália. Um poema curto, simples na superfície, desses que alguns leitores apressados, coitados, atravessariam como quem passa por uma lápide sem ler o nome. Mas sua simplicidade é uma armadilha delicada. Ismália parece pequena apenas para quem não sabe ouvir vertigens. Dentro dela há uma mulher partida entre mundos, entre altura e profundidade, entre a loucura e o êxtase, entre o desejo de tocar o inalcançável e a condenação de possuir um corpo ainda sujeito à gravidade.

 

Talvez por isso ela tenha me marcado tanto.
Porque todos nós, em alguma noite, já fomos Ismália.

 

Talvez não diante de uma torre literal, mas diante de nossos próprios delírios. Diante da imaginação chamando de cima e da realidade puxando pelos tornozelos. Diante da vontade de subir até a lua e, ao mesmo tempo, dissolver-se no mar. A loucura em Ismália não me parece apenas doença, embora muita gente adore aprisionar qualquer excesso da alma em diagnósticos simples, como se o espírito humano fosse um formulário administrativo. Ali, a loucura é também devaneio. É excesso de visão. É a alma incapaz de caber numa única direção.
E quem nunca se sentiu assim talvez tenha vivido pouco demais.
Ou pior: tenha vivido muito corretamente.

 

Passei a manhã com esse poema latejando dentro de mim. Acordei tarde, porque a manhã e eu mantemos uma relação diplomática instável. O sol já lambia as janelas do Rio de Janeiro com sua vulgaridade dourada, essa claridade insistente que parece acreditar que tudo deve ser revelado. Tolice. Existem verdades que só a penumbra sabe dizer sem deformar. Fiz café, deixei a casa ainda meio escura e caminhei até minha estante, onde os livros ficam como pequenos mausoléus cheios de vozes.
Puxei Alphonsus.

 

O nome dele já parece feito de igreja antiga, de eco em corredor de pedra, de cidade histórica respirando através de sinos. Alphonsus de Guimaraens. Um nome que não se diz; se acende. E, ao abrir o livro, senti novamente a presença daquela poesia que não grita, não se exibe, não arranca aplausos pelo colarinho. Ela vela. Ela reza. Ela enterra. Ela cobre a dor com um tecido roxo, negro, litúrgico, como se cada verso fosse uma flor colocada sobre um esquife.
Hoje, no meu diário de leituras, falo dele.
E falo também do modo como a literatura pode salvar.

 

Escrevo isso com cuidado, porque a palavra salvar foi tão maltratada por discursos fáceis que quase perdeu sua sombra. Não digo que um livro substitua mãos humanas, cuidado, escuta, tratamento, presença. A dor profunda não deve ser romantizada como se bastasse abrir uma página para que todos os monstros se ajoelhassem, educados e vencidos. A vida real, essa criatura sem senso estético, raramente é tão obediente.
Mas já vi livros interromperem quedas.
Já vi uma alma à beira do fim hesitar depois de encontrar uma frase. Já vi uma garota atravessar a própria depressão segurando volumes como quem segura pedras quentes contra o peito. Já vi pessoas se encontrarem porque amavam o mesmo livro, e o amor, esse animal problemático, às vezes precisa apenas de uma estante para farejar sua vítima. Já vi páginas funcionarem como pontes sobre abismos que ninguém mais enxergava.

 

Literatura não é remédio de farmácia.
É mais perigosa.
Ela não anestesia a ferida. As feridas só começam a fechar depois de serem chamadas pelo nome correto, e a literatura dá nome às feridas.

 

Quando dou presentes a alguém, quase sempre escolho um livro. Há quem ache isso previsível. Pobres criaturas, condenadas a presentear objetos que em três meses estarão esquecidos numa gaveta. Um livro, quando acertado, transforma-se num destino embalado. É uma chave disfarçada de papel. Uma assombração oferecida com laço.

 

Talvez o meu primeiro grande laço com a literatura brasileira tenha sido este: Ismália.


Antes dela, eu já amava livros, sombras, a elegância dos mortos europeus, as ruas antigas, as catedrais íntimas da melancolia. Mas Ismália me mostrou que a poesia brasileira também sabia erguer torres sobre o abismo. Que havia, neste país de sol exagerado e ruídos famintos, uma tradição de silêncio, morte, misticismo e beleza fúnebre. Não era preciso atravessar oceanos para encontrar fantasmas dignos. Eles estavam aqui. Em Minas. Nas ladeiras. Nas igrejas. Nos casarões. Na língua portuguesa carregando luto como um terço escuro entre os dedos.

 

Hoje pensei muito em Mariana.
A cidade histórica onde Alphonsus viveu durante tantos anos como juiz, vizinha de Ouro Preto, feita de pedra, memória, religião e tempo condensado. Mariana parece ter sido construída para transmitir ecos, e não para representar o cotidiano. Imagino suas ruas antigas à noite, as fachadas silenciosas, o peso das igrejas, o ar mineral, o passado respirando por frestas. Uma cidade assim não apenas abriga um poeta simbolista. Ela o molda. Ela o cerca de liturgia. Ela ensina ao ouvido humano que todo passo pode soar como procissão.

 

Abaixo, no diário, deixo aos leitores a imagem de uma pintura guardada no Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, na Rua Direita, 35, em Mariana, Minas Gerais. Há algo comovente nisso: uma casa transformada em memória, uma vida convertida em visitação, objetos preservados contra a voracidade do esquecimento. Museus de escritores são cemitérios delicados. Neles, não se enterram apenas corpos ausentes, mas gestos. Uma mesa, uma cadeira, uma janela, um retrato. Tudo parece murmurar: ele esteve aqui. Escreveu aqui. Sofreu aqui. Foi humano aqui.
E talvez essa seja a parte mais dolorosa da literatura:
Antes do símbolo, houve uma pessoa;
Antes do mito, houve um corpo;
Antes da obra, houve uma ferida.

 

Retrato de Alphonsus de Guimaraes – Museus Estaduais de Minas Gerais – SECULT


Alphonsus nasceu em Ouro Preto, em 1870, e morreu em 1921. Estudou Direito em São Paulo e passou grande parte de sua vida em Mariana. Mas nenhuma informação biográfica explica completamente um poeta. Datas são ossos. A poesia é o fantasma que se move entre eles. E, no caso de Alphonsus, esse fantasma tem um nome que arde: Constança.

 

A morte da prima Constança, a quem ele amava, aos apenas dezessete anos, marcou sua vida como uma vela acesa dentro de um quarto fechado. Há amores que não se realizam em vida e, por isso mesmo, tornam-se mais poderosos na morte. Não porque sejam puros, como gostam de dizer os românticos de vitrine, mas porque ficam suspensos, interrompidos, preservados no instante brutal da perda. O amor que morre jovem nunca envelhece. Permanece terrível, luminoso, injusto.

 

A poesia de Alphonsus parece nascer desse luto.

 

Quase toda ela se inclina diante da mulher morta. Não como quem aceita, mas sim como quem reza e acusa ao mesmo tempo. Seus temas caminham por natureza, arte e religião, mas sempre retornam ao mesmo altar: a morte da amada. Tudo nele parece contaminado por essa ausência. O mundo inteiro se torna extensão do esquife. O céu, uma abóbada de igreja. As flores, oferendas. A noite, véu. A alma, uma viúva eterna.

 

E aqui está sua força.
A morte, em Alphonsus, abre duas portas.
Por uma delas entra a literatura gótica, macabra, romântica em sua raiz mais sombria, essa tradição que entende a beleza do corpo morto, do sepultamento, do amor interrompido, da donzela transformada em aparição. Pela outra, entra uma atmosfera mística, litúrgica, espiritualista, cheia de orações, sinos, cores roxas e negras, imagens de esquife, corpo frio, procissão e transcendência. O resultado não é um terror gritante, mas sim algo mais parecido com um assombro de capela. É uma tristeza que caminha devagar, com vela na mão.
Gosto disso.
Gosto de poetas que não têm pressa.

 

O mundo atual é histérico. Tudo precisa ser rápido, claro, resumido, mastigado, adaptado para distraídos. Até a dor, hoje, querem transformar em frase curta com fundo bonito. Que pobreza. Há tristezas que precisam de corredores longos. Há poemas que exigem que a gente caminhe dentro deles como quem atravessa uma igreja vazia ao anoitecer. Alphonsus é assim. Sua poesia não nos atropela. Ela nos envolve. Primeiro como neblina. Depois como luto. Por fim, como destino.

 

Voltei a Ismália no fim da tarde.
Não vou reproduzi-la aqui como quem joga joias na calçada. Porque esse é um daqueles poemas que devem ser lidos no silêncio, e não consumidos como petisco literário entre uma notificação e outra. Mas posso dizer o que ela faz comigo: ela transforma a imagem da loucura em uma geometria de desejo. A mulher sobe, sonha, vê luas, deseja duas impossibilidades. E nesse movimento há algo tão humano que chega a doer. Porque viver é desejar o incompatível. Queremos o céu e o mar. A altura e o mergulho. O corpo e a fuga do corpo. A lucidez e o delírio. A segurança e o abismo.

 

Ismália enlouquece porque talvez veja demais.
E ver demais sempre teve seu preço.

 

A sociedade tolera muito bem os sonhadores enquanto eles sonham dentro dos limites permitidos. Mas quando o sonho começa a ameaçar a arquitetura do mundo, chamam de loucura. O devaneio feminino, então, historicamente foi tratado como problema a ser corrigido, contido, medicado, encerrado em quarto, convento, casamento ou diagnóstico. Ismália, de algum modo, escapa. Terrivelmente, poeticamente, ela escapa. E seu gesto final, por mais trágico que seja, carrega a violência simbólica de quem já não aceita permanecer apenas em uma dimensão.
Esse é o desconforto do poema.
Ele é belo demais para ser apenas triste.
E triste demais para ser apenas belo.

 

A noite caiu enquanto eu anotava essas impressões. O Rio lá fora começou a vestir sua pele mais verdadeira: luzes tremendo nos prédios, motores rosnando, vozes subindo da rua como almas sem repouso. A cidade tem uma espécie de brutalidade viva que contrasta com Alphonsus. Mariana é sino. O Rio é sirene. Mariana parece guardar mortos em igrejas. O Rio os mistura ao trânsito, ao bar, ao mar, ao asfalto quente. E eu, criatura deslocada entre esses mundos, leio o poeta mineiro dentro do caos carioca, como quem coloca uma flor roxa sobre uma avenida sangrando neon.

 

Talvez seja isso que eu busque na literatura brasileira: essas geografias da alma.
O Nordeste febril e orgânico de Augusto dos Anjos. A Paris imaginária dos meus mortos malditos. A Minas litúrgica de Alphonsus. O Rio noturno que me devora e me dá matéria. Cada autor abre uma cidade dentro de mim. Cada poema acende um cemitério diferente. E, no fim, escrever é caminhar por todos eles carregando uma vela que insiste em não apagar, mesmo quando o vento da existência sopra como uma besta irritada.

 

Escolhi dois poemas para os leitores do meu diário: Ismália, obviamente, e Uma noite só tua, um dos que considero mais belos de Alphonsus. O primeiro por ter sido minha porta. O segundo por sua densidade de entrega, sombra e encantamento. São poemas que não foram escritos apenas com tinta, mas também com uma espécie de claridade enferma. Uma noite só tua tem esse perfume. É noite transformada em posse, em desejo, em sussurro de eternidade. Uma noite não como tempo, mas como altar.

 

E eu sempre desconfiei que a noite fosse mesmo um altar:
É nela que os vivos deixam cair suas máscaras;
É nela que os mortos se tornam mais próximos;
É nela que a escrita me encontra.

 

Quando a casa fica silenciosa, quando a cidade diminui apenas o suficiente para que seus ruídos virem mar distante, sento-me à mesa, acendo o meu abajur de caveira (e também uma vela para os mortos) e sinto que algo antigo se aproxima. Não sei se é inspiração. Essa palavra é clara demais. Prefiro chamar de visita. A escrita me visita. Às vezes entra dócil. Às vezes arromba. Às vezes senta-se diante de mim e exige que eu sangre uma memória que eu pensava já ter sepultado. Com Alphonsus, a visita vem vestida de luto. Não grita. Apenas coloca uma flor sobre a mesa e espera.

 

Hoje, essa flor tinha o nome de Ismália.
Pensei novamente na frase: a literatura salva.
Salva como?
Não como os sermões prometem. Não como as propagandas fingem. Não salva retirando-nos da dor, mas fazendo da dor uma linguagem habitável. Salva porque nos mostra que alguém, antes de nós, atravessou uma noite parecida e deixou sinais na parede. Salva porque transforma solidão em linhagem. Salva porque, ao lermos um poema escrito há mais de cem anos, descobrimos que nossos abismos não são inéditos. E isso, estranhamente, consola.
Não estamos sozinhos.
Estamos acompanhados por mortos brilhantes.
Há uma beleza quase obscena nisso.

 

Fechei o livro já perto da madrugada. A vela estava baixa. O café esquecido havia se tornado uma poça fria e amarga. Meu corpo pedia descanso, esse pequeno capricho biológico que interrompe até as melhores assombrações. Mas antes de sair da mesa, voltei à imagem de Ismália: uma mulher no alto, suspensa entre duas luas, duas seduções, dois destinos. Fiquei pensando se ela caiu ou se, de algum modo incompreensível, conseguiu finalmente estar em ambos os lugares.

 

Talvez a poesia exista para isso.
Para realizar simbolicamente o que a realidade nos nega.

 

Na vida, somos esmagados por escolhas. Na poesia, podemos ser céu e mar por um instante. Podemos amar mortos, conversar com ausências, transformar trauma em canto, fazer da cidade uma catedral, da loucura uma escada, da morte uma linguagem. Podemos não ser salvos no sentido ingênuo da palavra, mas somos expandidos. E ser expandido, para uma alma sufocada, já é uma forma de sobrevivência.

 

Alphonsus me deu isso.
Ou melhor: Ismália me deu a primeira chave.

 

Depois vieram outros autores, outras sombras, outros corredores. Mas aquela torre permaneceu. Até hoje, quando leio o poema, sinto a mesma vertigem inaugural. A sensação de que a literatura brasileira não era apenas matéria escolar, nome em prova, busto em praça, nota de rodapé em livro didático. Era abismo. Era magia. Era morte cantando baixo em português.

 

E eu, que sempre tive uma inclinação perigosa por tudo que canta baixo dentro da morte, obedeci ao chamado.

 

Hoje deixo esse diário como quem deixa uma vela diante de uma janela antiga.
Aos leitores que me acompanham, ofereço Alphonsus de Guimaraens não como obrigação acadêmica, mas como travessia. Leiam Ismália com calma. Leiam como quem sobe uma torre dentro de si. Leiam sem a pressa miserável de quem quer apenas dizer que conhece. Permitam que a imagem trabalhe; que a loucura abra seus espelhos; que a morte da amada, em sua obra, revele não apenas perda, mas transfiguração.

 

Porque é isso que os grandes poetas fazem.
Não nos livram da morte.
Eles nos ensinam a escutar o que ela sussurra quando todos os vivos se calam.

 

E, se um dia vocês sentirem que a realidade ficou estreita demais, talvez entendam por que Ismália ainda nos chama.
Ela não está apenas no poema;
Está em toda alma que olha para cima, vê uma lua impossível, olha para baixo, vê outra lua afogada, e percebe que desejar apenas uma seria viver pela metade.

 

- - -

 

ISMÁLIA

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

 

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

 

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

 

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

 

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

(Alphonsus de Guimaraens)

Publicado por Luna Bela Morte
em 08/07/2026 às 06h28
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01/07/2026 05h00
Baudelaire mora na parede do meu escritório e no veneno da minha alma

 

Hoje acordei com Paris apodrecendo dentro do meu quarto.

Não a Paris dos cartões-postais, essa cidade domesticada para turistas que compram miniaturas da Torre Eiffel como quem leva um osso falso de relíquia. Falo de outra Paris: a que respira absinto, fumaça, febre, luxúria cansada, igrejas úmidas, prostitutas com olhos de santas condenadas e poetas andando pelas ruas como cadáveres educados demais para cair no chão.

 

A Paris de Charles Baudelaire.

 

Talvez vocês já tenham percebido minha devoção por ele. Não é exatamente um segredo, embora eu conserve alguns segredos com a elegância de quem guarda facas dentro de gavetas forradas de veludo. O quadro pendurado no meu escritório denuncia essa presença. Ele está ali, olhando para mim com aquele semblante de quem atravessou a beleza até encontrar o pus. O retrato dele é uma decoração que vigia, interroga. Parece me perguntar, todas as noites, se eu ainda tenho coragem de transformar o tédio em abismo.

 

Tenho.

Ainda tenho.

 

E, se um dia eu perder essa coragem, espero que os fantasmas da literatura venham me arrastar pelos cabelos até alguma biblioteca subterrânea. Seria um fim menos indigno do que virar uma dessas criaturas que confundem arte com conteúdo leve. O mundo já está repleto de leveza demais. Leveza de vitrine, leveza de feed. A alma humana, quando reduzida a postagem bonitinha, começa a feder de um jeito muito específico.

 

Hoje, em meu diário de leituras, abro as portas para Baudelaire.

E abro como quem conduz o leitor até uma cripta onde as flores continuam perfumadas apesar da podridão. Baudelaire não é apenas um poeta francês do século XIX. Essa seria uma forma preguiçosa de apresentá-lo, e a preguiça intelectual, convenhamos, é uma das doenças mais resistentes da espécie humana. Baudelaire é uma ferida estética. Um marco. Uma ruptura. Um homem que olhou para a modernidade nascente e percebeu que ela não traria salvação, mas novos cenários para velhas misérias.

 

Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821, filho de François Baudelaire e Caroline Dufays. Perdeu o pai ainda criança, aos seis anos, e essa ausência parece ter deixado nele não apenas um luto, mas uma cavidade. Há perdas que tornam-se um quarto secreto da personalidade. Depois veio o padrasto, o coronel Jacques Aupick, figura de ordem, disciplina, moralidade, carreira, obediência. Em outras palavras: tudo aquilo que uma alma como a de Baudelaire naturalmente transformaria em inimigo.

 

Penso muito nisso.

Algumas pessoas nascem incompatíveis com a engrenagem. Não por birra juvenil, como adoram diagnosticar os burocratas da alma. Nascem assim porque há dentro delas uma espécie de nervo exposto, incapaz de aceitar a mentira bem vestida. Baudelaire cresceu em conflito com o mundo ao redor. Estudou em Lyon, depois no Lycée Louis-le-Grand, em Paris. Foi melancólico, solitário, indisciplinado. Bela combinação, se me perguntarem. A disciplina excessiva costuma fabricar bons funcionários, não grandes poetas. A humanidade, comoventemente previsível, continua achando que as almas mais intensas precisam de correção, quando na verdade precisam de linguagem.

Ele encontrou a linguagem.

Ou talvez tenha sido devorado por ela.

 

Hoje passei parte da madrugada sentada no meu escritório, com o quadro dele acima de mim, uma xícara de café escuro ao lado, livros empilhados sobre a mesa e o Rio de Janeiro rangendo lá fora como um animal magnífico e ferido. A luz do dia entrava pelas frestas com aquela insistência quase vulgar do sol carioca, mas eu a mantive à distância. Baudelaire, especialmente, deve ser lido como se lê uma carta proibida encontrada entre as roupas de um morto elegante. Sua leitura exige penumbra em momentos em que nem toda claridade merece intimidade.

 

Peguei meu exemplar de As Flores do Mal.

Só o título já é uma sentença.

Flores.

Mal.

Duas palavras que, sozinhas, pertencem a mundos aparentemente opostos. Juntas, tornam-se uma revelação. Baudelaire entendeu antes de muitos que a beleza não mora apenas no puro, no luminoso, no moralmente aceito. A beleza também brota do vício, da queda, do enjoo, da decadência, do pecado, daquilo que a sociedade tenta cobrir com luvas brancas e frases piedosas. Ele não inventou a podridão humana. Apenas retirou-lhe o véu e disse: olhem melhor. Há perfume aqui.

E houve escândalo, naturalmente.

Sempre há escândalo quando alguém obriga a moral pública a olhar no espelho sem maquiagem.

 

Em 1857, quando lançou As Flores do Mal, Baudelaire foi acusado de ofender a moral e os bons costumes. Bons costumes: essa expressão deliciosa, sempre usada por gente que esconde o inferno em cômodos muito bem arrumados. A obra foi apreendida, poemas foram condenados, ele foi multado. A França, com toda sua pose civilizada, comportou-se como toda sociedade ameaçada por um artista verdadeiro: tentou domesticar o que não conseguia compreender.

Mas a literatura tem essa bela crueldade: às vezes, aquilo que o tribunal condena é justamente o que o tempo coroa.

 

Baudelaire foi mal compreendido por muitos de seus contemporâneos, embora tenha sido admirado por nomes como Victor Hugo e Gustave Flaubert. Depois de morto, como costuma acontecer com os inconvenientes geniais, foi finalmente reconhecido em sua grandeza. Inaugurou uma modernidade poética que só seria plenamente percebida depois. Sua maneira de ser, sua recusa, sua febre, sua relação com o vício, a cidade, o spleen, a beleza e o inferno cotidiano alimentaram a imagem dos chamados poetas malditos.

 

E aqui preciso confessar algo.

Tenho uma fraqueza pelos malditos.

 

Não pelos farsantes que encenam perdição para parecer interessantes em fotografias granuladas. Esses me cansam. Falo dos verdadeiros: aqueles que pagaram com a própria carne pela lucidez que carregavam. Os que não fizeram da sombra um acessório, mas uma consequência. Os que não visitaram o abismo para tirar retrato, mas porque não sabiam viver em outro lugar.

Baudelaire pertence a essa linhagem.

 

Sua vida teve boemia, dissipação, herança desperdiçada, ópio, haxixe, dívidas, escândalos e amores que mais pareciam pactos do que repouso. Em 1842, ao alcançar a maioridade, recebeu a herança do pai e mergulhou em uma existência que Paris assistia com fascínio e reprovação. Viveu na ilha de Saint-Louis, envolveu-se com Jeanne Duval, a chamada “dame créole”, uma presença que atravessou sua poesia como desejo, ferida, obsessão e abismo. Também surgem em sua órbita Madame Sabatier e Marie Daubrun, outras figuras femininas que, em sua obra, tornam-se mais uma espécie de símbolo do que parte da biografia.

Porque Baudelaire não amava como quem busca conforto.

Amava como quem procura um altar e encontra uma lâmina.

Talvez por isso eu o compreenda tanto.

 

O amor, em Baudelaire, raramente é limpo. E ainda bem. O amor limpo demais me provoca desconfiança. Parece produto vendido com embalagem nova. O amor verdadeiro, ou ao menos o amor interessante, carrega contradições: ternura e crueldade, adoração e posse, desejo e repulsa, perfume e febre. Baudelaire entendeu que o desejo humano não é uma pomba branca. É uma criatura híbrida, alada e enferma, arrastando luz e lama no mesmo corpo.

 

Com a leitura, aos poucos, o escritório se transformou no lugar onde mais me reconheço: uma pequena capela profana de livros, sombras, papéis, velas, canetas e silêncio. O quadro de Baudelaire parecia mais vivo à medida que a leitura avançava. Às vezes tenho a impressão de que certos mortos não permanecem nos cemitérios. Eles habitam objetos, frases, retratos, páginas. Baudelaire mora no meu escritório como uma presença incômoda, e eu gosto disso. 

 

Abri no poema “Ao Leitor”.

Esse poema é uma bofetada com luva negra.

Baudelaire não começa As Flores do Mal oferecendo ao leitor uma entrada delicada. Ele começa acusando. Ele nos coloca no banco dos réus. Fala da tolice, do pecado, da mesquinhez, do vício que habita o corpo e o espírito. E então aparece aquele verso que me acompanha como uma criatura de estimação demoníaca: “É o Diabo que nos move”.

E isso não é uma simples provocação religiosa, mas sim uma espécie de diagnóstico da nossa alma.

 

Baudelaire sabia que o mal não precisa aparecer com chifres, enxofre e teatralidade barata; O mal trabalha em gestos pequenos, na covardia cotidiana, na preguiça moral, na hipocrisia social, na satisfação secreta que sentimos diante do que nos degrada. O Diabo baudelairiano não é apenas uma entidade, mas sim um mecanismo íntimo. É aquilo que nos manuseia por dentro enquanto fingimos autonomia. É o prazer subterrâneo da queda.

 

E então surge o pior dos monstros.

O tédio.

Ah, o tédio.

Esse cadáver sentado no trono da vida moderna.

Baudelaire compreendeu o tédio como poucos. Não o tédio banal de quem não tem o que fazer numa tarde sem graça. Falo do tédio metafísico, o spleen, esse peso cinzento que transforma o mundo em quarto fechado. O tédio de existir. O enjoo diante das repetições da vida. A sensação de que cada gesto humano já nasceu gasto, cada prazer já chega contaminado pela própria morte, cada manhã é apenas a continuação burocrática de uma condenação antiga.

Quem nunca sentiu isso talvez seja feliz.

Ou distraído.

Há pouca diferença, em certos casos.

 

A modernidade de Baudelaire nasce justamente dessa percepção: a cidade moderna não salva o homem de sua miséria. Apenas multiplica seus espelhos. Paris, para ele, não é apenas cenário. É um organismo. Um labirinto. É uma mulher, um cadáver, uma feira, um templo, um prostíbulo, um teatro, e um túmulo...

 

Ele transforma a multidão em solidão amplificada. O sujeito moderno caminha entre muitos e, ainda assim, permanece radicalmente só. Isso me toca de forma íntima, talvez porque o Rio de Janeiro também seja assim: uma cidade onde todos parecem próximos demais e, no entanto, cada alma sangra em seu próprio quarto.

 

À noite, quando caminho pelas ruas ou observo a cidade da minha janela, sinto essa mesma contradição. O barulho lá fora não dissolve a solidão. Apenas lhe dá trilha sonora. A cidade pulsa, ri, bebe, deseja, morre, recomeça. E eu, dentro da minha pele escura de pensamentos, escrevo. Escrever é minha forma de atravessar a multidão sem ser engolida por ela. Baudelaire fez isso com Paris. Eu tento fazer com as sombras que me cabem.

 

Mas voltemos ao veneno.

Baudelaire é marcado pela contradição. De um lado, carrega heranças românticas, a sensibilidade de Allan Poe e Gérard de Nerval, a atração pelo mistério, pelo sonho, pela noite interior. De outro, há nele um crítico feroz dos excessos sentimentais e retóricos do romantismo francês. Ele não aceita a emoção como ornamento fácil. Ele a contamina com inteligência. E quando a inteligência encontra a emoção sem domesticá-la, nasce uma poesia perigosa.

Talvez seja isso que mais admiro nele.

Baudelaire não se ajoelha diante da beleza, porque ele a interroga em seus versos:

Pergunta de onde vem seu perfume;

Pergunta que cadáver alimenta sua raiz;

Pergunta por que o vício pode brilhar;

Pergunta por que o grotesco seduz;

Pergunta por que o pecado, essa palavra tão abusada por sacerdotes e moralistas, tem às vezes mais verdade do que certas virtudes bem lavadas.

A beleza, para ele, não precisa ser inocente.

Eu também nunca acreditei nessa exigência ridícula.

A inocência é frequentemente uma estética da censura. Querem que a beleza seja limpa porque temem a beleza que denuncia. Mas a verdadeira beleza, aquela que permanece, não é dócil. Ela tem dentes. Ela se aproxima perfumada e, quando percebemos, já nos mordeu o espírito. Baudelaire sabia disso. Por isso suas flores não nascem em jardim de convento. Nascem no mal, na lama. Nascem na carne febril da cidade, onde os moralistas desviam o olhar e os poetas, se tiverem coragem, se ajoelham para colher.

 

Passei os dedos pelas páginas e pensei em minha própria escrita.

Toda autora carrega seus ancestrais secretos. Alguns estão no sangue. Outros, nos livros. Baudelaire é um dos meus mortos tutelares. Não porque eu deseje imitá-lo, seria uma vulgaridade, e o mundo já está abastecido demais de vulgaridades. Mas porque ele me autoriza, de alguma forma, a não suavizar. A não pedir desculpas por encontrar beleza na queda. A não fingir que o horror cotidiano é menos poético do que um castelo distante. A não arrancar os espinhos das flores apenas para que leitores delicados não furem os dedos.

A literatura que me interessa não é a que protege o leitor.

É a que o inicia.

E, convenhamos, toda iniciação exige desconforto.

 

Talvez por isso Baudelaire ainda assuste. Não pelo que há de escandaloso em termos de moral antiga, embora essa moral continue zanzando por aí como barata sobrevivente de incêndio. Ele assusta porque nos reconhece. Porque nos chama de hipócritas antes que possamos ajeitar a postura, nos mostra que o leitor não é uma criatura pura observando o mal de fora. O leitor participa. O leitor deseja. O leitor julga enquanto apodrece. O leitor sente repulsa e fascínio diante da mesma imagem.

 

E, no fundo, sabe.

Sabe que também caminha para o Inferno, mesmo quando finge consultar mapas do Paraíso.

Fechei o livro por alguns minutos e fiquei escutando a noite. O vento mexia levemente a cortina. Uma moto passou lá embaixo como um inseto furioso. Em algum apartamento vizinho, alguém ria alto demais. Sempre há alguém rindo alto demais quando estamos em comunhão com os mortos. A vida tem esse mau gosto insistente. Mas talvez seja justamente isso que torna a leitura mais intensa: o contraste entre a banalidade viva e a grandeza sepulcral dos livros. 

E há aquelas motos que passam rasgando a noite com um barulho infernal, como se o próprio abismo tivesse aprendido a acelerar sobre duas rodas.

Ah, como eu odeio isso.

Não é som. É uma possessão mecânica atravessando a cidade, profanando o silêncio, assassinando qualquer tentativa honesta de paz.

Se o inferno tivesse trânsito, certamente teria esse escapamento.

 

Pensei então nos leitores do meu diário.

Vocês que me acompanham já sabem: não escrevo sobre livros como quem organiza prateleiras, mas sim como quem abre portas. Cada autor que trago aqui é um corredor. Alguns levam à beleza. Outros, ao desconforto. Os melhores levam aos dois, porque beleza sem desconforto costuma ser uma espécie de decoração. E decoração não salva ninguém do vazio.

 

Baudelaire é um desses corredores onde a vela treme.

Entrar nele é aceitar que a poesia pode ser perfume e doença, altar e prostíbulo, oração e blasfêmia. É aceitar que o mal não está apenas nos becos, nos vícios, nos corpos desejantes, nos escândalos que jornais fingem lamentar enquanto lucram com eles. O mal está também no espírito bem comportado, na virtude teatral, no julgamento fácil, na alma que se acredita limpa demais para ser examinada.

 

Baudelaire nos examina.

E sorri diante do resultado.

Mais tarde, caminhei até o quadro no meu escritório. Aproximei-me como quem consulta um oráculo empoeirado. Olhei para aquele rosto e pensei no homem por trás do mito: órfão, rebelde, boêmio, endividado, doente, brilhante, ferido, arrogante, sensível, condenado a viver com uma lucidez maior do que seu tempo estava disposto a suportar. Morreu em 1867, depois de anos de sofrimento físico e decadência. Mas há mortos que morrem apenas biologicamente. O restante deles continua trabalhando.

 

Baudelaire continua.

Trabalha em cada poeta que ousa aproximar beleza e corrupção;

Em cada artista que entende a cidade como labirinto espiritual;

Em cada escritor que recusa o sentimentalismo fácil;

Em cada leitor que, ao abrir As Flores do Mal, sente não apenas admiração, mas uma espécie de reconhecimento culpado.

Porque Baudelaire não fala apenas do mal dos outros...

Fala do nosso.

Essa é sua perversidade elegante. Sua eternidade.

 

Agora o dia avança, e o escritório está quase todo tomado pela sombra das cortinas. A vela diminuiu. O café acabou. O quadro permanece quieto. Na mesa, As Flores do Mal repousa fechado, mas não silencioso, porque esse livro continua falando depois que o fechamos. Fala na circulação do sangue, no modo como olhamos a janela, no pequeno enjoo que sentimos diante de nossa própria alma.

 

Baudelaire não termina, é uma leitura que se infiltra.

E eu gosto dos autores que se infiltram. Os que pedem licença demais geralmente não têm nada perigoso a oferecer.

 

Se hoje escrevo este diário de leitura, é porque desejo que vocês não apenas leiam Baudelaire, mas sejam lidos por ele. Que entrem nessa obra sem a bobagem de esperar conforto. Que atravessem seus poemas como quem caminha por uma galeria de espelhos manchados. Que sintam o perfume e o mofo. Que percebam a flor e a raiz podre. Que compreendam, enfim, que a verdadeira poesia sombria não é aquela que coloca a morte como cenário.

Mas sim aquela que percebe a morte respirando dentro da beleza.

Baudelaire fez isso.

E por isso seu retrato permanece no meu escritório, como um santo invertido da minha devoção literária.

Ele me lembra que a arte não nasceu para nos tornar aceitáveis, mas sim para nos tornar inevitáveis.

 

E hoje, enquanto o Rio se dissolve em ruídos, desejos, sirenes e sombras, eu olho para ele e sinto que algumas almas, quando descem ao inferno com elegância suficiente, não retornam trazendo redenção...

Retornam trazendo flores.

Flores do mal.

As únicas que nunca murcham completamente.

 


 

Charles Baudelaire

 

 

Sed non satiata

 

Bizarra divindade, escura como as noites,
Em mesclado perfume de almíscar e havana,
Obra de algum obi, o Fausto da savana,
Ventre de ébano, bruxa em negras meias-noites,
Eu prefiro ao constance, ao ópio ou ao nuits,
O elixir dessa boca onde o amor se engalana;
Quando a ti meus desejos vão em caravana,
Teus olhos, a cisterna onde eu bebo aos açoites.
Por estes grandes olhos negros em fervor
Por ti, demo sem pena! A mim, menos calor;
Não sou o Estige a nove vezes te abraçar,
E aí! eu sem poder, Megera libertina,
Para quebrar teu brio e então te encurralar,
No inferno de teu leito a virar Proserpina!

 

 

Remorso póstumo

 

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar seu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,
O túmulo que tem seu confidente em mim
– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta –,
Na insônia sepulcral destas noites sem fim,
Dir-te á: “De que te serviu cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”
– E o verme te roerá como um remorso atroz.

 


Spleen

 

Quando, pesado e baixo, o céu como tampa
Sobre a alma soluçante, assolada aos açoites,
E que deste horizonte, a cercar toda a campa
Despeja-nos um dia mais triste que as noites;
Quando se transformou a Terra em masmorra úmida,
Por onde essa esperança, assim como um morcego,
Vai tangendo paredes ante uma asa túmida
Batendo a testa em tetos podres, sem apego;
Quando a chuva estirou os seus longos filames
Como as grades de ferro em uma ampla cadeia,
E um povoado mudo de aranhas infames
Até os nossos cérebros estende as teias,
Súbito, os sinos saltam com ferocidade
E atiram para o céu um gemido fremente,
Tal aquelas errantes almas sem cidade
Que ficam lamentando-se obstinadamente.
– E féretros sem fim, sem tambor ou pavana,
Lentos desfilam dentro mim; e a Esperança,
Vencida, chora, a Angústia, feroz e tirana,
A negra flâmula em meu curvo crânio lança.

 

 

As Litânias de Satã

Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, mesmo ao leproso, ao pária infame, ao réu
Ensinas pelo amor as delícias do Céu,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança – a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que faz ao pé da forca o povo desvairar,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que sabes onde é que em terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cujo claro olhar conhece os arsenais
Onde dorme sepulto o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas, a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre,
O Deus Padre, expulsou do paraíso terrestre,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

 

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 01/07/2026 às 05h00
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
 
24/06/2026 05h00
O Poeta dos Vermes

O Poeta dos Vermes e a Vergonha dos Leitores de Vitrine

 

Hoje acordei com uma irritação antiga pousada no peito.

 

Não era tristeza. Tristeza tem uma educação fúnebre, senta-se à mesa, cruza as pernas e espera ser servida. O que havia em mim era mais áspero: uma espécie de impaciência com este país que carrega gênios literários como quem carrega relíquias dentro de um porão mofado, enquanto estende tapetes vermelhos para qualquer sombra estrangeira que venha embrulhada em capa bonita, tradução cara e meia dúzia de elogios importados.

 

O Brasil tem uma relação curiosíssima com seus próprios mortos: só os respeita quando alguém de fora aponta para o túmulo e diz que ali havia ouro. Antes disso, passa por cima da lápide, tira foto do café, posta uma frase de algum autor europeu mal traduzido e ainda se considera profundo. A tragédia não é ler estrangeiros. Leiam. Leiam tudo. Devorar o mundo é uma forma legítima de fome. A tragédia é desconhecer a própria casa e posar de herdeiro de castelos alheios.

 

Hoje, no meu diário de leituras, abri Augusto dos Anjos.

 

E, ao abrir Augusto, senti como se alguém tivesse destampado um frasco de formol dentro da alma brasileira.

Tenho em mãos um exemplar de sua obra completa. Um volume belo, pesado, bem impresso, desses que não parecem apenas livros, mas objetos de culto. É um desses livros que se depositam como se fossem urnas. A capa repousa sob meus dedos com a solenidade de uma pedra fria. As páginas têm aquele cheiro inconfundível de papel bom, tinta recente e promessa antiga. Um cheiro que, para mim, é quase erótico, se a palavra ainda puder ser resgatada da vulgaridade humana e devolvida ao seu altar correto: desejo por permanência, por matéria, por espírito aprisionado em celulose.

 

Preparei café antes da leitura. Forte, escuro, sem açúcar. Adoçar certas manhãs seria uma ofensa. Lá fora, o Rio de Janeiro respirava com seus pulmões de concreto: motores, vozes, calor, sirenes ocasionais, a cidade inteira fazendo seu número habitual de sobrevivência barulhenta. Dentro do meu quarto, porém, havia outro clima. Fechei a cortina. Acendi uma vela. Coloquei música baixa, quase imperceptível, só o bastante para que o silêncio não ficasse convencido demais de sua própria importância.

 

E então abri Eu.

Há títulos que são portas. Este é uma fenda.

Eu.

 

Não “nós”. Não “o mundo”. Não “as flores”. Não “os sonhos”. Apenas essa palavra miserável, imensa, contaminada: eu. A sílaba mais perigosa da língua quando dita por alguém que ousa descer até o próprio esgoto interior sem máscara, sem perfume, sem esperança barata. Augusto dos Anjos não escreveu um “eu” vaidoso. Escreveu um “eu” dissecado. Um eu posto sobre a mesa de anatomia, aberto, examinado, entregue aos vermes da ciência e aos fantasmas da metafísica.

 

Enquanto lia, pensei nos leitores brasileiros das redes sociais, esses turistas de feed que confundem literatura com decoração de personalidade. Muitos falam de sombra, mas só suportam a escuridão se ela vier estrangeira, legendada, filtrada e domesticada. Citam nomes de fora com a segurança artificial de quem decora senha de clube exclusivo, mas tropeçam no próprio quintal. Não conhecem Augusto. Não leem Cruz e Sousa com a reverência necessária. Ignoram Alphonsus, Hilda, Lúcio, Cornélio, tantos outros que abriram feridas neste idioma. Depois dizem amar poesia sombria. Que gracioso. É como dizer que ama cemitérios, mas sentir nojo de terra.

 

Sinto dizer, com a delicadeza de uma porta de cripta batendo no vento: se você é brasileiro, diz amar literatura sombria e não lê Augusto dos Anjos, precisa rever seus conceitos literários. Não como sugestão. Como exorcismo.

Augusto não é apenas um poeta sombrio. Essa palavra ficou pequena demais nas bocas de quem a usa para qualquer coisa com lua, sangue e um vestido preto estrategicamente iluminado. Augusto é outra substância. Ele é laboratório e sepultura. É microscópio apontado para a alma. É carne em decomposição pensando sobre Deus. É pessimismo com ossatura científica. É a náusea da existência vestida em métrica. Ele não ornamenta a morte; ele a coloca sentada diante de nós, remove seu véu e diz: observem, covardes, ela também é química.

 

Nasceu na Paraíba, no Engenho Pau d’Arco, em 1884. Sapé. Nome de terra, barro, vegetal, ruína. Morreu jovem, aos trinta anos, em Leopoldina, vítima de pneumonia, como se o próprio corpo tivesse decidido retirar do mundo aquele homem que já havia compreendido demais. Há algo cruelmente coerente nisso: um poeta obcecado pela matéria, pela falência orgânica, pela degradação da carne, sendo finalmente vencido por uma doença do ar. A respiração, essa concessão frágil que fazemos à vida, fechou-lhe as portas.

 

Foi professor. Estudou Direito no Recife. Leu Spencer, Haeckel, Schopenhauer, Taine. Carregou na cabeça aquele estranho casamento entre ciência, filosofia e desespero que marcou sua poesia como uma cicatriz. Ele olhou para o humano e não viu o boneco moral que a sociedade gosta de exibir nos domingos. Viu matéria em luta. Células. Instintos. Hereditariedade. Falência. Apodrecimento. Viu também uma alma esmagada pela consciência de ser corpo. E talvez seja aí que sua poesia se torne tão perturbadora: Augusto dos Anjos não separa o espírito da carne para nos confortar. Ele mistura ambos na mesma lama cósmica e nos obriga a cheirar.

 

Li durante horas.

 

O café esfriou. A vela afundou em si mesma. O dia lá fora mudou de cor. Gosto quando a leitura sequestra o tempo; é uma das poucas formas de desaparecimento que ainda considero elegantes. À medida que avançava pelos poemas, sentia o rosto do poeta se formando no quarto, não como retrato, mas como atmosfera. Magro, febril, cerebral, atravessado por uma lucidez que devia doer fisicamente. Existem inteligências que iluminam. A dele corroía.

 

E, estranhamente, eu me sentia acompanhada.

 

A solidão de quem lê Augusto não é vazia. É povoada por micróbios, cadáveres, ancestrais, ideias, fracassos evolutivos, restos de fé e uma espécie de ternura horrível pela condição humana. Sim, ternura. Por baixo daquele vocabulário agressivo, daquela dicção científica, daquele gosto pela podridão, há uma compaixão sem açúcar. Ele parece dizer: somos miseráveis, sim, mas ao menos sejamos honestos sobre a extensão da miséria. E honestidade, neste mundo de poses literárias e afetos terceirizados, já é quase uma forma de santidade invertida.

 

Pensei muito em Schopenhauer enquanto lia. A vontade como ferida, como impulso cego, como motor cruel da vida. Augusto parece ter entendido que existir é ser arrastado por forças que não pediram nossa opinião. Nascer já é entrar numa maquinaria de fome, desejo, dor, reprodução, perda e decomposição. O cristianismo prometeu salvação. O cientificismo prometeu explicação. Augusto olhou para ambos e, com aquele sorriso de caveira erudita que imagino nele, pareceu murmurar: nenhum de vocês resolve o fedor.

 

A grandeza dele está justamente aí.

Ele não nos entrega consolo.

Ele entrega precisão.

E precisão, quando aplicada à dor, torna-se lâmina.

 

Enquanto lia, tive vontade de sacudir alguns leitores pelo colarinho metafórico. Vocês querem poesia sombria? Então parem de procurar apenas castelos europeus e vampiros aristocráticos. Abram Augusto dos Anjos. Ali existe um horror muito mais íntimo: o horror de ser organismo. O horror de pensar com um cérebro condenado à falência. O horror de amar com uma carne que apodrece. O horror de buscar transcendência enquanto o corpo negocia diariamente com bactérias, secreções e ruínas. Isso, meus caros leitores de vitrine, é escuridão de verdade. O resto muitas vezes é figurino com pretensão.

 

Não me entendam mal. Eu amo castelos, vampiros, velas, cemitérios, ruínas, maldições e toda essa bela mobília do abismo. Minha vida seria muito menos divertida sem ela, e a diversão humana já é escassa, coitada. Mas existe uma diferença entre estética sombria e pensamento sombrio. A estética veste o cadáver. O pensamento pergunta por que ele ainda parece conosco.

 

Augusto pergunta.

E a resposta nunca chega limpa.

 

No fim da tarde, caminhei até minha estante e fiquei observando meus livros. Há algo de necrópole em uma biblioteca pessoal. Cada lombada guarda uma voz morta ou distante, esperando ser ressuscitada pelo toque. Puxei alguns volumes brasileiros, toquei nomes que muitos fingem conhecer e poucos realmente frequentam. Senti uma raiva funda, mas também uma missão. Talvez seja isso que me faça escrever meu diário de leituras: não apenas comentar livros, mas abrir passagens. Guiar quem ainda tem coragem, ou ao menos curiosidade, por corredores que o algoritmo não ilumina porque não sabe vender silêncio, densidade e morte sem transformar tudo em frase motivacional para gente sombria de shopping.

 

O algoritmo gosta do fácil.

A literatura verdadeira gosta de sangue difícil.

 

Augusto dos Anjos deveria estar em toda estante de quem se diz leitor do sombrio. Não como troféu, mas como ameaça. Um lembrete de que o Brasil produziu uma voz única, uma dessas aberrações magníficas que não cabem bem em escola nenhuma. Simbolista? Pré-modernista? Parnasiano deformado pela ciência? Filósofo da decomposição? Tudo isso e nada disso. A crítica adora gavetas porque tem medo de casas assombradas. Augusto é casa assombrada sem planta baixa.

 

Sua forma muitas vezes herdou rigores antigos, mas seu conteúdo explodiu as convenções como um cadáver que se recusa a permanecer bonito no caixão. Ele usou a arquitetura clássica para abrigar vermes. Usou vocabulário científico para cantar angústias metafísicas. Usou a língua como quem tenta forçar uma garganta doente a dizer o indizível. Em sua poesia, a palavra é como se fosse uma autópsia.

 

À noite, voltei ao livro.

 

E nesse momento eu já lia com uma espécie de fome espiritual. A chama da vela vacilava, e por um instante imaginei o jovem Augusto escrevendo seus versos, talvez sem saber que um século depois uma mulher vestida de preto, no caos noturno do Rio de Janeiro, abriria sua obra como quem abre um relicário. Augusto dos Anjos é um desses autores que morrem cedo e continuam envelhecendo dentro de nós. Sua poesia amadurece no leitor como veneno lento.

 

Pensei na morte, naturalmente.

 

Penso nela quase todos os dias, mas hoje ela veio menos teatral. Não trouxe foice, véu, cemitério sob lua cheia. Veio microscópica. Veio como célula, bactéria, órgão, febre, pulmão. A morte augustiana não é apenas um fantasma que vem nos assombrar: é um processo. Ela não espera no fim da estrada; ela trabalha desde o início, paciente, metódica, íntima. Nascer é receber uma sentença com data ilegível. Viver é fingir que não lemos o documento.

 

E ainda assim escrevemos.

Esse talvez seja o gesto mais insolente.

 

Escrever contra a decomposição sabendo que ela vencerá. Ler mortos para adiar o silêncio. Amar livros que não nos salvam, mas nos tornam mais conscientes da queda. Existe um prazer melancólico nisso, um prazer que não pede absolvição. Enquanto eu lia Augusto, senti novamente essa estranha alegria escura: a de encontrar uma inteligência que não tenta me consolar com mentiras floridas. A beleza, para mim, sempre esteve mais próxima da verdade do que do conforto. E a verdade, quase sempre, cheira a terra úmida.

 

Fechei o exemplar tarde da noite.

 

A casa estava quieta. A cidade continuava distante, elétrica, vulgar e magnífica. Passei a mão sobre a capa do livro como quem fecha os olhos de um morto querido. Não por fim, mas por respeito. Esse livro não deve ser abandonado aberto, exposto ao ar comum; precisa ser encerrado como se fosse um rito.

 

Antes de dormir, anotei no meu caderno:

“Augusto dos Anjos não escreveu para agradar os vivos. Escreveu para lembrar aos vivos que eles já pertencem parcialmente aos mortos.”

 

Talvez seja isso.

Talvez por isso ele incomode tanto.

 

Porque sua poesia retira a maquiagem da existência. Mostra o rosto por baixo. E o rosto por baixo, leitor, não é bonito. É fascinante.


 

Continuem acompanhando meu diário de leituras. Não para receberem recomendações domesticadas como quem escolhe sobremesa em cardápio de cafeteria. Venham para serem guiados por um corredor mais estreito, onde a literatura brasileira respira com pulmões esquecidos, onde os gênios nacionais ainda murmuram atrás das estantes, cobertos de poeira, injustiça e grandeza.

Eu não estou aqui para repetir o que o feed já cospe em vocês.

Estou aqui para abrir covas luminosas.

E hoje, dentro de uma delas, encontrei Augusto dos Anjos outra vez.

Ele estava intacto.

Como só permanecem intactos aqueles que tiveram coragem de apodrecer em público.

 

Augusto dos Anjos

 

 

Alguns poemas do autor:

 

A idéia

 

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

 

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica

 

 

 

Asa de Corvo

 

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

 

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

 

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

 

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte — a costureira funerária —
Cose para o homem a última camisa!

 

 

Eterna mágoa
 
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
 
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
 
Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
 
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

 

 

 

Soneto

 

Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,
Leva-me o esp’rito dessa luz que mata,
E a alma me ofusca e o peito me maltrata,
E o viver calmo e sossegado tolhe-me!

 

Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-me
N’asa da Morte redentora, e à ingrata
Luz deste mundo em breve me arrebata
E num pallium de tênebras recolhe-me!

 

Aqui há muita luz e muita aurora,
Há perfumes d’amor - venenos d’alma -
E eu busco a plaga onde o repouso mora,

 

E as trevas moram, e, onde d’água raso
O olhar não trago, nem me turba a calma
A aurora deste amor que é o meu ocaso!

 

 

 

Soneto

 

N’augusta solidão dos cemitérios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.

 

São minhas crenças divinais, ardentes
- Alvos fantasmas pelos merencórios
Túmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmóreos.

 

Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.

 

Desliza então a lúgubre coorte,
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

 

 

 

O lamento das coisas

 

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!

 

É a dor da Força desaproveitada
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
jazem ainda na estática do Nada!

 

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

 

E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

 

 

 

O morcego

 

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

 

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

 

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

 

 

 

VERSOS ÍNTIMOS

 

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão — esta pantera — 
Foi tua companheira inseparável! 

 

Acostuma-te à lama que te espera! 
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 

 

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!

 

 

 

Vozes de um túmulo

 

Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

 

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

 

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta,
Hoje, porém, que se desmoronou

 

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!

Publicado por Luna Bela Morte
em 24/06/2026 às 05h00
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17/06/2026 05h00
A pequena bruxa que nasceu do meu traço

 

Ontem passei a tarde criando a Luninha no Krita.

Digo criando como quem diz invocando, porque há personagens que não são desenhados: são chamados. Surgem primeiro como uma coceira no fundo da imaginação, depois como uma silhueta insistente na beira do pensamento, até que, quando a mão finalmente toca a mesa digitalizadora, já não somos autores de nada. Somos apenas médiuns cansadas, tentando não estragar a aparição com nossa péssima mania humana de controlar o impossível.

O Krita abriu diante de mim como um altar luminoso.

A tela branca, sempre tão inocente em aparência, me encarava com aquela crueldade virginal dos lugares onde tudo ainda pode acontecer. Há algo profundamente perverso numa página em branco. Ela finge pureza, mas exige sangue. Seja em poesia, romance ou desenho, toda criação começa assim: um vazio bem-educado pedindo que alguém o profane.

Preparei café forte, acendi uma vela pequena e deixei a noite entrar pela janela antes mesmo que o céu escurecesse por completo. O Rio de Janeiro fazia sua ópera habitual: buzinas, passos apressados, motos rasgando a avenida, vozes subindo dos prédios como almas insatisfeitas. Uma cidade incapaz de morrer em silêncio, o que, admito, combina comigo mais do que deveria. Enquanto lá fora o caos batia panelas, aqui dentro eu ajustava pincéis, camadas, opacidade, textura. Pequenas ferramentas digitais para uma velha feitiçaria: dar corpo a uma sombra.

A ideia da Luninha nasceu de uma contradição.

E contradições, ao contrário de certas opiniões de internet, costumam ter profundidade.

Durante algum tempo, Luna Bela Morte foi vista apenas como figura sombria: a poetisa dos cemitérios, a mulher das velas, das páginas fúnebres, dos vestidos pretos, das frases que parecem sair de uma gaveta onde alguém guardou cartas, ossos e segredos. Não nego. Sou essa também. Sou feita de neblina europeia, de pedra antiga, de melancolia que atravessou oceanos e veio se misturar ao sal nervoso do Rio. Mas seria uma simplificação quase ofensiva achar que a escuridão não pode rir. Como se o sombrio fosse obrigado a andar eternamente sério, arrastando correntes metafóricas e citando desgraças em corredores úmidos. A humanidade inventa regras até para o abismo. Que espécie teimosa.

A Luninha surgiu justamente para quebrar essa solenidade.

Ela é pequena, fofa, gótica, quase impossível de levar a sério por muito tempo, e ainda assim carrega dentro de si todos os meus símbolos. É como se alguém tivesse pegado a minha alma, lavado em luar, reduzido a uma versão de HQ e colocado glitter preto nos ferimentos. Ela usa a escuridão como vestido de festa. Olha para fantasmas como quem vê bichinhos abandonados. Acha monstros interessantes, não repulsivos. Caminha pela floresta assombrada com a tranquilidade de quem foi criada por morcegos emocionalmente disponíveis.

E talvez seja isso que mais me comove nela.

A Luninha não nega Luna.

Ela traduz Luna para outro idioma.

Enquanto eu escrevo como quem abre sepulturas com as unhas, ela sorri para o cadáver e pergunta se ele quer chá. Enquanto meus poemas descem aos porões da alma humana com uma vela na mão e uma lâmina na outra, Luninha entra no mesmo porão carregando uma lanterna em forma de morcego e dizendo que o monstro parece solitário. É absurdo. É delicado. É quase ofensivamente terno. E, por isso mesmo, necessário.

No Krita, comecei pelo rosto.

Olhos grandes, expressivos, brilhando entre inocência e presságio. Eu queria que ela tivesse aquele olhar de quem viu coisas demais para ser apenas criança, mas ainda assim escolheu acreditar que até um demônio pode estar apenas mal compreendido. Um olhar azul, fundo, quase líquido, como se a lua tivesse caído dentro de duas xícaras de porcelana. Desenhei os cabelos escuros em ondas macias, mais leves que os meus, menos carregados de tragédia, como se a noite nela tivesse aprendido a brincar.

A cada linha, eu sentia uma espécie de desconforto doce.

Era estranho me ver convertida em fofura.

Existe um pudor sombrio nisso. Quem passa a vida vestindo a própria dor com veludo negro estranha quando a dor resolve usar laços. Mas a arte, essa criatura insolente, não pede nossa permissão. Ela nos revela por ângulos que evitamos. E a Luninha me revelou algo que eu talvez tenha escondido sob camadas demais de poesia: eu ainda guardo ternura.

Sim, que horror.

Ternura.

Essa palavra macia que parece entrar numa sala gótica derrubando castiçais.

Mas existe. Está lá. Não como fraqueza, jamais. Ternura não é fraqueza. Ternura é uma forma de necromancia. Ela ressuscita partes nossas que o mundo tentou enterrar vivas. A Luninha nasceu dessa necromancia pequena e encantada: uma versão minha que ainda conversa com criaturas imaginárias, ainda acredita em amizades improváveis, ainda acha que um fantasma cansado merece uma xícara de café e não um exorcismo administrativo.

Depois vieram as roupas.

Preto, evidentemente. Não sejamos bárbaros.

Mas não o preto fúnebre da mulher que atravessa um cemitério carregando segredos demais. O preto da Luninha precisava ter leveza: babados, botas, mangas delicadas, uma estética entre boneca amaldiçoada e bruxinha de bolso. Um visual gótico, sim, mas atravessado por humor. Algo que pudesse caminhar entre túmulos sem perder a graça, como se o luto também tivesse aprendido coreografia.

 

 

A cada camada criada no Krita, eu pensava em como uma personagem de HQ exige outro tipo de respiração. Na literatura, posso esconder um abismo dentro de uma frase. No desenho, preciso fazer o abismo caber numa sobrancelha arqueada, numa mãozinha suspensa, num sorriso mínimo. É cruel. É fascinante. O traço não permite tantas desculpas. Uma curva errada e a personagem deixa de parecer mágica para parecer alguém que ouviu uma fofoca ruim no velório. E, sinceramente, velórios já têm constrangimentos suficientes.

Passei quase uma hora ajustando a expressão.

A Luninha não podia parecer apenas alegre. Alegria simples demais me irrita um pouco. Tem algo de panfleto motivacional, e já existem horrores demais no mundo sem precisarmos adicionar frases sobre gratidão em fonte cursiva. Eu queria uma alegria estranha, dessas que nascem depois de visitar a sombra e perceber que ela não é inimiga, apenas um cômodo sem janela. A Luninha sorri porque sabe que a noite não é ausência. É ambiente. É casa. É brinquedo, mistério, espanto.

Então desenhei o dragãozinho azul no braço.

Não apenas tatuagem. Familiar.

Ele é uma presença pequena, mas vibrante, como uma chama ciano enrolada na pele. Na minha versão adulta, a tatuagem carrega força, marca, identidade, um símbolo quase ritualístico. Na Luninha, ela ganha travessura. Torna-se companheiro. Um espiritozinho capaz de piscar quando ela se emociona, talvez soltar fumaça azul quando alguém fala besteira, o que, convenhamos, exigiria dele uma saúde pulmonar sobrenatural no mundo atual.

Depois pensei em Lupo, o lobo das costas.

Na Luna, o lobo é fera, guardião, instinto. Na Luninha, ele ainda é feroz, mas de um jeito protetor e quase cômico. Imaginei aquela cabeça lupina enorme, surgindo em forma de desenho animado atrás dela quando algum espectro tenta assustá-la. O pobre fantasma, esperando gritos, receberia uma encarada ofendida de um lobo mágico e talvez um sermão da Luninha sobre educação em ambientes assombrados. Essa é a beleza da HQ: ela permite que o terror dance com o ridículo sem perder a dignidade. Às vezes, o riso é apenas uma vela acesa dentro da cripta.

E então veio a pergunta inevitável: por que fazer isso?

Por que transformar Luna Bela Morte em uma personagem fofa de HQ?

A resposta mais simples seria: porque é divertido.

A resposta verdadeira é: porque eu precisava de uma chave nova para a mesma porta escura.

A literatura gótica me permite descer ao abismo com solenidade. A poesia me permite beijar a morte na boca e voltar com metáforas entre os dentes. Mas a Luninha me permite outra coisa: convidar o leitor para entrar na escuridão sem entregar-lhe imediatamente uma pá e um atestado de condenação emocional. Ela suaviza o limiar sem enfraquecer o mistério. É uma pequena sacerdotisa do susto gentil. Uma mascote da sombra. Uma versão minha capaz de falar com crianças interiores, leitores cansados, almas feridas e pessoas que, secretamente, sempre suspeitaram que caveiras também podem ser simpáticas se forem bem apresentadas.

Criá-la é como abrir uma janela num castelo antigo.

Não entra sol demais, graças aos deuses esquecidos. Mas entra ar.

E eu tenho aprendido que até os castelos precisam respirar.

Passei a noite refinando detalhes. A bota, as meias, as roupas, as mãos pequenas, a postura. Em cada escolha, eu tentava equilibrar dois mundos: o da autora sombria e o da criatura encantada. Se pesasse demais no terror, Luninha perderia sua graça. Se adoçasse demais, viraria decoração sem alma, dessas que vendem escuridão domesticada para prateleiras entediadas. Eu queria outra coisa. Queria uma personagem que parecesse capaz de tropeçar numa lápide, pedir desculpas ao morto e, em seguida, descobrir um portal demoníaco atrás do túmulo.

O humor nela não é enfeite.

É defesa.

É filosofia.

Rir do sobrenatural não diminui o mistério. Às vezes, aumenta. Porque o riso revela intimidade. Só ri da noite quem já deixou de vê-la como inimiga distante. A Luninha ri com os fantasmas porque pertence um pouco a eles. Ri com monstros porque sabe que todo monstro já foi, em alguma camada secreta, uma dor sem tradutor. Ri de si mesma porque, sem isso, qualquer estética gótica corre o risco de virar pose, e pose demais é uma forma particularmente tediosa de assombração.

Quando salvei o arquivo, já era madrugada.

O Krita fechou com a obediência silenciosa das máquinas, essas criaturas que fingem não ter alma para evitar impostos espirituais. Fiquei alguns minutos olhando a imagem final. Luninha me encarava de volta: pequena, sombria, fofa, mágica, insolente. Uma miniatura impossível da minha própria mitologia. Uma bonequinha noturna feita de tinta digital, humor e sombra.

Senti orgulho.

Mas não aquele orgulho barulhento, que exige plateia. Foi um orgulho baixo, quente, quase secreto. O tipo de emoção que se senta ao lado da gente no escuro e não pede explicação. Percebi que criar Luninha não era fugir da Luna profunda, trágica, poética, visceral. Era expandi-la. Era admitir que uma identidade artística não precisa ser um mausoléu fechado. Pode ser uma casa assombrada com vários quartos. Em um deles, escrevo sobre morte. Em outro, desenho uma bruxinha fofa conversando com um fantasma burocraticamente deprimido. Coerência, afinal, não é repetir sempre a mesma sombra. É reconhecer que todas as sombras pertencem ao mesmo corpo.

Talvez Luninha seja isso: minha sombra aprendendo a brincar.

E há algo de profundamente libertador nessa imagem.

Passei tanto tempo transformando dor em beleza que às vezes esqueço de transformar beleza em leveza. Nem tudo precisa sangrar para ser verdadeiro. Algumas coisas apenas brilham no escuro. Algumas criaturas nascem não para ferir o leitor, mas para pegar sua mão pequena e conduzi-lo, com uma risadinha suspeita, até a entrada da floresta encantada. Lá dentro haverá monstros, claro. Sempre há. Mas também haverá cogumelos luminosos, luas falantes, lobos guardiões, fadinhas góticas e fantasmas segurando canecas de café como se a eternidade fosse apenas mais um expediente mal pago.

A Luninha me devolveu uma espécie de infância que nunca foi exatamente inocente.

Uma infância de quem preferia monstros a princesas, cemitérios a shoppings, livros velhos a conversas rasas. Uma infância onde o medo não era inimigo, mas linguagem. Ao desenvolvê-la, sinto que estou costurando uma ponte entre a menina que conversava com sombras e a mulher que aprendeu a publicá-las. Entre a melancolia europeia que me moldou e o caos carioca que me tempera. Entre o veludo e o desenho animado. Entre a lápide e o meme. Sim, até isso. O século XXI é um circo pegando fogo, então ao menos que os morcegos sejam bem desenhados.

Hoje, criando Luninha, entendi que a minha obra não precisa escolher entre o abismo e o encanto.

Ela pode ter os dois.

Pode ter poemas que cheiram a túmulo molhado e uma personagem que chama um espectro de “amiguinho translúcido”. Pode ter dor, desejo, morte, memória, transformação, e ainda assim permitir que uma pequena bruxinha gótica atravesse a página fazendo piada com demônios desorganizados. Isso não diminui a escuridão. Humaniza-a. Ou talvez a monstruifique de um jeito mais honesto.

A noite agora está quieta.

A vela acabou. O café esfriou. Meus olhos ardem de tanto encarar tela, e minhas costas reclamam como se eu tivesse passado horas carregando um caixão, não desenhando uma personagem. O corpo humano, essa máquina dramática, adora transformar arte em dor cervical. Ainda assim, há uma paz incomum no quarto. A Luninha existe. Ainda não inteira, ainda não definitiva, mas viva o bastante para me observar do arquivo salvo, esperando sua próxima expressão, sua primeira tirinha, sua primeira aventura absurda no submundo fofo onde até os esqueletos talvez usem laços pretos.

Fecho este diário com a sensação de ter acendido uma lanterna dentro da minha própria estética.

Não abandonei as trevas.

Apenas encontrei nelas uma pequena criatura de olhos enormes, botas pretas e coração encantado.

Ela sorriu para mim.

E, pela primeira vez em muito tempo, a escuridão pareceu sorrir de volta.


As HQs de Luninha podem ser conferidas

no meu Instagram ou TikTok:

@lunabmorte

Publicado por Luna Bela Morte
em 17/06/2026 às 05h00
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
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10/06/2026 05h00
O mês em que a chuva reconheceu meu nome

 

Hoje lancei Retrato Falado.

Escrevo esta frase e sinto algo dentro de mim se abrir como uma porta antiga, daquelas que rangem não por ferrugem, mas por memória. Há portas que não deveriam ser tocadas. Há meses que não deveriam voltar. Junho, para mim, sempre retorna com as mãos sujas. Entra pela fresta da janela, senta-se à beira da cama, observa meu rosto sem pedir licença e sorri com a crueldade íntima de quem sabe exatamente onde doeu.

Junho é um animal.

Durante anos, ele me farejou.

Hoje, eu o coloquei dentro de um livro.

Fui dormir já era madrugada, como quase sempre. A claridade já tinha invadido o quarto com aquela arrogância tropical que o Rio de Janeiro chama de manhã. Humanidade inteira fingindo funcionalidade sob o sol, esse teatro cansativo. Eu, por outro lado, estava com a alma ainda suja da noite. Por alguns segundos fiquei imóvel, ouvindo o ruído distante da cidade: buzinas, vozes, motores, um cachorro latindo para algum fantasma que talvez fosse apenas um entregador. No Rio, até o cotidiano tem dentes.

Fui até o espelho sem acender a luz. Gosto de me olhar assim, parcialmente devolvida pela penumbra. O rosto surge menos como rosto e mais como aparição. Olhos cansados, pele pálida, cabelo escuro caindo sobre os ombros como uma cortina de luto. Passei os dedos pelas sardas, depois pela boca, como quem verifica se ainda pertence ao próprio corpo. Há dias em que a carne parece uma casa alugada por uma alma exausta. Hoje, estranhamente, ela parecia minha.

Talvez porque hoje eu tenha feito aquilo que tentaram me impedir de fazer: narrar.

Preparei café forte demais, amargo o bastante para acordar defuntos com problemas de autoestima. Bebi em silêncio, sentada junto à mesa onde os exemplares de Retrato Falado repousavam como pequenos caixões brancos. Passei a mão sobre a capa. O título me encarou de volta. Sempre me inquietou essa expressão: retrato falado. Um rosto feito por quem não viu a alma. Uma identidade desenhada por terceiros. Um esboço de culpa. Uma versão pública da mulher privada. A humanidade adora simplificar tragédias porque pensar dá trabalho, e trabalho moral, aparentemente, é uma praga que muitos evitam como se fosse boleto vencido.

O mundo sempre preferiu um rosto fácil.

A vítima perfeita.

A criminosa perfeita.

A mulher destruída no ângulo certo.

A manchete com sangue suficiente para vender indignação, mas não verdade.

O que escrevi não cabe nisso.

Retrato Falado nasceu do meu nojo. Da minha dor. Da minha recusa. Nasceu do mês em que fui arrancada de mim e, depois, obrigada a assistir outros tentando decidir quem eu era. Junho me deu a ferida. A escrita me deu a lâmina para abrir a ferida por dentro e retirar dela não apenas pus, mas sentido. A literatura é uma cirurgia sem anestesia: a gente corta, sangra, nomeia, costura com metáforas e, no fim, ainda agradecem se o resultado ficar bonito. Como se beleza fosse delicadeza. Não é. Beleza, às vezes, é uma fera deitada sobre ossos.

Passei parte da noite respondendo mensagens. Algumas chegaram como velas acesas: leitoras dizendo que se reconheceram na sinopse, que sentiram o peso daquela casa, que entenderam o silêncio antes da ruptura. Outras vieram com a curiosidade obscena dos que confundem literatura com interrogatório policial. Queriam saber o que era verdade, o que era invenção, quem era ele, se houve arrependimento, se houve justiça, se houve perdão.

Perdão.

Palavra curiosa. Tão limpa na boca dos outros. Tão confortável para quem nunca dormiu com o medo respirando ao lado.

Não respondi tudo. Há perguntas que não merecem minha energia. Há perguntas que são apenas facas usando roupa de civilidade. Fechei algumas janelas, silenciei notificações, deixei o celular virado para baixo como se fosse um inseto morto. A paz, às vezes, é esse pequeno luxo: não atender ao chamado do mundo.

Depois vesti preto. Não por performance. Por precisão. O preto entende o corpo melhor que certas pessoas. Ele não exige explicação, não pede alegria, não simula inocência. Apenas cobre e revela. Escolhi uma roupa simples, unhas escuras, colar junto à garganta. Ao me olhar no espelho antes de sair, pensei que toda sobrevivente carrega algo de viúva: não necessariamente de alguém, mas de uma versão de si que não atravessou a noite.

A rua estava úmida, mesmo sem chuva. O ar tinha cheiro de pedra antiga, maresia e presságio. Caminhei até uma padaria com cafeteria pequena onde às vezes escrevo. O dono já me conhece e, graças ao raro milagre da discrição humana, não faz perguntas. Sentei no canto, de costas para a parede. Velho hábito. Quem já teve o perigo dentro de casa aprende a mapear saídas até em lugares seguros.

Abri o notebook.

A página em branco me fitou com sua crueldade virginal.

Escrever no dia de um lançamento é uma perversão particular. O livro acaba de nascer e já exige outro parto. A escrita nunca se satisfaz. Ela é uma criatura faminta, enfiando os dedos gelados nas minhas costelas, pedindo mais uma confissão, mais um cadáver, mais uma pequena morte. Escrevi algumas linhas para outro projeto, mas Retrato Falado continuava respirando ao meu lado. Eu sentia o livro como se ele tivesse corpo. Como se, do outro lado da mesa, uma mulher ensanguentada me observasse com os olhos duros de quem já não pede socorro.

Ela não queria ser salva.

Queria ser reconhecida.

Há uma diferença brutal entre as duas coisas.

Enquanto mexia o café, pensei na casa. Não na casa em si, mas no conceito de casa. Esse altar doméstico que vendem às mulheres como destino. Casa, lar, família, amor, proteção. Palavras com cortinas floridas, escondendo porões. Quantas mulheres foram ensinadas a chamar cárcere de compromisso? Quantas aprenderam a sorrir para visitas enquanto o inferno secava no azulejo do banheiro? O lar, quando apodrece, não perde o cheiro de lar. Esse é o horror. Ele continua com mesa posta, roupa dobrada, retrato na parede. O monstro não precisa bater à porta quando já tem a chave.

Voltei para casa.

No elevador, uma mulher me reconheceu.

Ela segurava uma sacola de mercado e tinha olhos de quem já chorou em silêncio para não acordar ninguém.

Disse apenas:

“Eu comprei seu livro.”

Nada mais.

Não perguntou. Não explicou. Não tentou me abraçar com aquele desespero social de quem quer transformar dor alheia em cena emocionante. Apenas disse aquilo e sustentou meu olhar. Eu respondi com um aceno. Foi o suficiente. Entre nós passou uma coisa sem nome, mas antiga como as fogueiras: o reconhecimento secreto das que atravessaram alguma forma de inferno e ainda aprenderam a pentear o cabelo pela manhã.

Quando entrei em casa, acendi uma vela.

Não por superstição, embora eu respeite a superstição muito mais do que respeito certas opiniões públicas. Acendi porque algumas noites exigem testemunhas. A chama tremeu perto dos livros empilhados. Abri uma garrafa de vinho e deixei o primeiro gole descansar na boca. Tinha gosto de fruta escura, ferro imaginário e despedida. Coloquei música baixa, algo denso, guitarras como névoa, voz feminina parecendo convocar mortos para uma dança lenta.

Então chorei.

Sem elegância.

Sem composição.

Sem frase bonita.

Chorei com o corpo inteiro, como se uma represa subterrânea tivesse decidido romper justamente hoje, no dia em que todos esperavam força, postura, imagem, celebração. Que espetáculo inútil é a expectativa alheia. Lancei um livro sobre sobrevivência e, ainda assim, meu corpo me lembrou que sobreviver não é estar curada. É apenas continuar aqui, respirando apesar do incêndio. A cura, quando existe, não chega como anjo. Chega como faxineira cansada, limpando um cômodo por vez, reclamando do estado da casa.

Chorei por aquela que fui.

Pela que sangrou.

Pela que caminhou sob a chuva.

Pela que foi julgada antes de ser ouvida.

Pela que precisou transformar a própria história em linguagem para não virar apenas boato.

Chorei também por prazer, e isso talvez pareça estranho aos delicados de estômago fraco. Mas há prazer em sobreviver. Um prazer sombrio, quase indecente. O prazer de perceber que o algoz não escreveu a última linha. O prazer de transformar a humilhação em livro, a culpa em cinza, a memória em território reconquistado. O prazer de olhar para Junho e dizer: você ainda fede a morte, meu velho, mas agora eu tenho flores negras o bastante para cobrir sua boca.

Mais tarde, sentei no chão da sala com os exemplares ao redor. A vela já estava menor. A noite avançava pela janela como uma rainha sem pressa. Peguei um dos livros e abri ao acaso. Li algumas frases. Não as mesmas de antes. Elas estavam diferentes agora que pertenciam ao mundo. Um texto muda quando deixa sua autora. Ganha dentes próprios. Encontra leitores que o interpretarão com fome, medo, repulsa, desejo, ternura. Alguns me amarão por ele. Alguns me odiarão. Alguns tentarão me reduzir novamente a um desenho grosseiro, como se eu não tivesse acabado de escrever justamente contra isso.

Mas hoje já não me importo da mesma maneira.

O julgamento público é uma praça barulhenta.

A verdade é um quarto escuro.

Eu sempre preferi quartos escuros.

Pensei na morte, como penso quase todos os dias. Não com vontade, mas com intimidade. A morte não me assusta como deveria. Talvez porque já tenha assistido algumas versões de mim serem enterradas sem cerimônia. Talvez porque a morte, ao contrário dos vivos, não finge bondade. Ela chega, toma, encerra. Os vivos, não. Os vivos interpretam, distorcem, perguntam o que você vestia, por que ficou, por que não gritou, por que gritou, por que reagiu, por que não morreu mais discretamente para facilitar a narrativa.

A morte é brutal.

A sociedade consegue ser pior porque ainda se acha civilizada.

E, no entanto, escrevo para os vivos. Que ironia elegante. Escrevo para esses seres contraditórios, frágeis, cruéis e belíssimos que tropeçam entre desejo e medo tentando fingir controle. Escrevo porque talvez uma mulher, em algum lugar, abra Retrato Falado e encontre não uma resposta, mas uma fresta. Talvez entenda que sua história não precisa caber no idioma do agressor. Talvez perceba que a vergonha é uma coleira colocada no pescoço errado. Talvez, por alguns minutos, respire.

Se isso acontecer, o livro já terá cumprido seu ritual.

Agora passa da meia-noite.

Junho ainda está aqui, sentado no canto, observando-me com olhos de bicho antigo. Mas hoje ele parece menor. Não vencido, porque nada tão profundo se vence com um lançamento, uma capa, uma noite de vinho e lágrimas. Mas deslocado. Retirado do trono. Transformado em capítulo.

E isso não é pouco.

Há uma espécie de alquimia em pegar aquilo que nos esmagou e obrigá-lo a servir à nossa voz. Não purifica. Não apaga. Não devolve a inocência, essa coisa superestimada que o mundo usa como moeda para decidir quem merece compaixão. Mas transforma. E transformação é a única vingança que me interessa de verdade.

Não quero ser santa.

Não quero ser mártir.

Não quero ser absolvida por gente que nunca suportaria cinco minutos dentro da minha pele.

Quero existir inteira, com meus abismos, meus desejos, minha boca escura, minha memória cortante, minhas noites de escrita e meus silêncios cheios de dentes. Quero continuar entrando na madrugada como quem entra numa catedral profana, acendendo palavras onde antes havia gritos. Quero que meus leitores mais fiéis saibam que, por trás de cada página, há uma mulher que treme, ri, sangra, dança, deseja, falha, levanta, escreve. Uma mulher que não nasceu da dor, embora a dor tenha tentado assiná-la.

Hoje lancei Retrato Falado.

Hoje devolvi ao mundo o rosto que ele tentou roubar de mim.

E se amanhã vierem me caçar com seus olhos limpos, suas frases fáceis, seus tribunais de bolso e suas pequenas fogueiras digitais, que venham.

A noite me conhece pelo nome.

A chuva já me absolveu uma vez.

E eu aprendi, finalmente, a caminhar sem pedir licença aos fantasmas.

Publicado por Luna Bela Morte
em 10/06/2026 às 05h00
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