
Há cidades que morrem lentamente.
Não através de guerras.
Nem incêndios.
Nem tragédias anunciadas nos jornais.
Elas morrem pelo progresso.
Caminhei por ruas que um dia respiraram árvores e silêncio. Agora respiram fumaça, buzinas e pressa. O ar parecia pesado, como se a própria cidade estivesse cansada de sustentar a caricatura de riqueza que criou para si.
E enquanto eu atravessava aquele cenário de concreto e ruído, encontrei o velho de chapéu.
Ou talvez tenha encontrado o fantasma dele.
Estava sentado na calçada, imóvel, ao lado de uma carroça antiga que parecia deslocada no tempo. O cavalo marrom mantinha os olhos baixos, resignados daquela forma silenciosa que apenas os animais conhecem. Havia algo profundamente cruel naquela imagem. Não miséria exatamente… mas abandono.
O abandono produzido pela modernidade.
Fiquei observando de longe.
As pessoas passavam sem vê-lo. E isso sempre me perturba mais do que o ódio. O desprezo ainda reconhece existência; a indiferença enterra.
A cidade continuava correndo ao redor daquele homem como uma máquina descontrolada. Ônibus vomitando trabalhadores cansados. Carros importados cuspindo música alta. Homens engravatados carregando o próprio vazio em copos de café e olhares mortos.
E ali estava ele.
O velho de chapéu.
Uma ruína viva diante de uma cidade que já não tolera aquilo que não produz lucro imediato.
Soube depois que ele construiu a própria carroça com as mãos. Que trabalhava sem patrão. Que tinha terra, rio, árvores, peixes… liberdade. Palavra perigosa essa. O sistema moderno odeia profundamente qualquer ser humano que descubra como viver sem coleira.
Então a cidade cresceu.
E crescimento, quase sempre, significa assassinato disfarçado de evolução.
As árvores desapareceram primeiro. Depois o rio adoeceu. Depois vieram os prédios, os condomínios, os helicópteros, o barulho constante de uma civilização que confunde movimento com significado.
E então, inevitavelmente, veio o vazio.
Porque toda riqueza construída sobre destruição espiritual termina apodrecendo por dentro.
Parei diante de uma vitrine enquanto a chuva fina começava a cair sobre o asfalto quente. Vi meu reflexo misturado às luzes artificiais da cidade e pensei em quantas pessoas vivem exatamente assim: revestidas de brilho externo para esconder a decomposição silenciosa da alma.
As festas luxuosas.
As drogas recreativas.
Os carros enormes.
Os relógios caros.
Os sorrisos treinados.
Tudo pequenas barricadas frágeis contra o horror absoluto de perceber que se perdeu a própria paz.
E o pior é que eles sabem.
Todos sabem.
Por isso precisam de mais ruído. Mais excesso. Mais distração. O silêncio os destruiria em poucos minutos.
O velho, porém, parecia silencioso demais para este novo mundo.
Talvez por isso tenha sido expulso dele sem perceber.
Passei boa parte da tarde pensando nisso enquanto escrevia perto da janela. A cidade seguia rugindo lá fora, elétrica, frenética, desesperada para convencer a si mesma de que ainda estava viva.
Mas eu conheço cadáveres bem vestidos quando os vejo.
E há algo morto nessas cidades modernas.
Algo que não volta mais.
Talvez seja a dignidade. Talvez seja a contemplação. Talvez seja simplesmente a capacidade humana de existir sem transformar tudo em mercadoria.
Quando anoiteceu, ouvi um helicóptero cruzando o céu escuro. O som atravessou o quarto como uma lâmina. Fechei os olhos por um instante e imaginei o velho de chapéu olhando para cima, tentando falar com Deus… e recebendo apenas hélices como resposta.
Que símbolo brutal do nosso tempo.
Agora escrevo estas últimas linhas com a sensação amarga de quem testemunhou um funeral que ninguém percebeu acontecer.
A cidade continua rica.
Os bares continuam cheios.
As luzes continuam acesas.
Mas o rio morreu.
As árvores morreram.
O silêncio morreu.
E talvez o mais trágico de tudo seja isto:
As pessoas ainda chamam isso de progresso.

Há noites em que sinto Outubro se aproximando antes mesmo do calendário admitir sua existência.
Ele vem devagar.
Como um perfume antigo infiltrando corredores fechados. Como dedos frios tocando a nuca enquanto a cidade continua distraída demais para perceber que algo desperta nas sombras.
Hoje foi uma dessas noites.
Passei horas cercada de papéis, anotações, símbolos rabiscados às pressas, páginas manchadas de café e velas queimando até deformarem a própria cera como corpos em ritual. Meu apartamento parecia menos um lar… e mais um altar improvisado para alguma entidade literária faminta.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo.
No próximo dia 17 começarei oficialmente os preparativos para o Halloween da Luna 2026.
Escrever isso me provoca um tipo estranho de vertigem.
No ano passado, quando decidi abrir as portas daquele evento literário para meus leitores, imaginei algo pequeno. Íntimo. Talvez apenas algumas almas noturnas reunidas em torno do mesmo fascínio pela beleza obscura.
Mas então aconteceu.
As mensagens chegaram. Os relatos. As fotos dos livros espalhados por quartos silenciosos, velas acesas, olhares cansados de realidade demais. Pessoas encontrando umas às outras através da escuridão que compartilham.
E percebi algo perigoso:
A literatura, quando encontra os leitores certos, deixa de ser entretenimento.
Ela vira invocação.
Este ano será diferente.
Maior.
Mais profundo.
Mais próximo daquilo que sempre imaginei quando comecei a escrever sob madrugadas febris, acreditando que certas histórias não deveriam apenas ser lidas… mas atravessadas.
Porque em Outubro acontecerá o lançamento oficial de O Grimório de Nyxara.
E confesso: há algo nesse livro que me inquieta.
Nyxara não nasceu como personagem comum. Algumas figuras surgem da imaginação; outras parecem emergir de lugares mais antigos, como se apenas utilizassem o escritor para atravessar até o mundo físico. Enquanto escrevia sua peregrinação até o Templo dos Vampiros, senti inúmeras vezes aquela desconfortável impressão de que eu não estava criando algo.
Estava registrando.
O grimório dela cresceu assim: alimentado por símbolos ancestrais, práticas vampíricas, fragmentos filosóficos escondidos em tradições esquecidas e rituais que carregam o cheiro úmido de criptas antigas. Não como fantasia vazia… mas como literatura construída sobre ruínas reais.
Talvez por isso o livro me pareça vivo às vezes.
E livros vivos exigem consequências.
Neste Halloween, dez exemplares físicos serão entregues aos escolhidos entre os membros do Oráculo da Luna. Gosto da palavra “escolhidos”. Ela carrega uma falsa sensação de privilégio… quando na verdade toda escolha profunda cobra algo em troca.
Os sorteios acontecerão como pequenos pactos silenciosos espalhados ao longo de Outubro, culminando na noite de 31 de outubro de 2026, quando os nomes finalmente serão revelados.
Mas há outra novidade que me toca de forma ainda mais íntima.
Cinco autores atravessarão comigo as páginas deste grimório.
Cinco pessoas decidiram olhar para Nyxara e responder ao chamado usando aquilo que possuem de mais perigoso: a própria imaginação. Seus contos integrarão oficialmente a obra, como pequenas oferendas deixadas diante de um altar obscuro.
Acho belo isso.
A ideia de escritores reunidos não por vaidade… mas pela necessidade quase doentia de transformar sombra em linguagem.
Hoje, enquanto organizava tudo isso, senti um cansaço estranho misturado a excitação. Como se estivesse preparando não um evento… mas uma cerimônia.
E talvez seja exatamente isso.
Porque Halloween nunca foi sobre fantasias para mim.
Sempre foi sobre véus.
Sobre a breve rachadura entre aquilo que o mundo permite enxergar… e aquilo que ele tenta desesperadamente esconder.
Lá fora, a cidade continua acesa, barulhenta, banal. Pessoas atravessando suas rotinas sem imaginar que Outubro já começou a respirar em algum lugar oculto desta noite.
Mas você sabe agora.
E, depois de saber… certas portas começam a aparecer em sonhos.
As regras completas serão reveladas neste domingo, dia 17, em:
aprendizdastrevas.com
Mas pense bem antes de atravessar.
Porque algumas histórias não terminam quando o livro se fecha.
Elas apenas começam a observar você de volta.

9 de maio.
Hoje é o Dia da Europa.
Curioso pensar nisso enquanto caminho pelas ruas frias de Nova Friburgo, cercada por montanhas que parecem esconder segredos antigos sob suas névoas delicadas. Há cidades que pertencem ao Brasil apenas por acidente geográfico. Friburgo é uma delas. Ela respira diferente. Anda diferente. Silencia diferente.
O clima daqui não toca apenas a pele.
Ele toca a memória.
Passei a tarde observando os telhados inclinados, os jardins úmidos, as fachadas que ainda carregam o fantasma elegante de outro continente. Em certos momentos, quase me esqueço de onde estou. Há algo profundamente europeu nesta cidade serrana; não como imitação vulgar, mas como herança melancólica. Como uma cicatriz cultural que o tempo decidiu preservar.
Talvez por isso eu me sinta tão confortável aqui.
Sou feita de travessias.
França no sangue materno. Espanha queimando discretamente nas raízes do meu sobrenome antigo. Portugal ainda ecoando nos corredores da minha memória. E agora o Brasil, este país febril e contraditório, me acolhendo como quem acolhe uma criatura deslocada que nunca encontrou exatamente um lar.
Nova Friburgo entende isso.
Ela também é feita de deslocamentos.
Suíços que chegaram tentando reconstruir vida entre montanhas desconhecidas. Alemães trazendo suas sombras disciplinadas. Italianos, austríacos, húngaros… povos inteiros carregando saudade em navios, atravessando oceanos como quem transporta pequenas ruínas dentro do peito.
E no fim… deixaram algo aqui.
Não apenas arquitetura. Não apenas gastronomia. Deixaram ausência.
E toda cidade construída sobre ausência desenvolve uma beleza particular.
Em alguns locais, o cheiro de madeira antiga preenche o ambiente com uma espécie de conforto que quase me constrange. Quase. Observei casais dividindo fondue, turistas sorrindo diante do frio, vozes baixas ecoando como se todos soubessem, intuitivamente, que esta cidade exige delicadeza.
Mas eu sei que por trás da delicadeza existe outra coisa.
Sempre existe.
As montanhas guardam silêncio demais para serem inocentes.
Enquanto bebia lentamente um café, pensei nos imigrantes que chegaram aqui no século XIX. Quantos deles perceberam, no instante em que desceram suas malas, que jamais voltariam a ser os mesmos? Quantos morreram internamente antes mesmo de aprender a chamar este lugar de casa?
A migração é uma forma lenta de fantasmagoria.
Você continua vivo… mas parte de você permanece vagando no lugar que deixou para trás.
Talvez seja por isso que escrevo tanto sobre memória. Porque toda memória é um território abandonado que continua exigindo visita.
Aqui anoitece cedo.
As luzes da cidade começam a acender como pequenas vigílias contra a escuridão das montanhas. Caminhei pela Praça Getúlio Vargas observando os eucaliptos antigos balançarem lentamente sob o vento. Havia algo quase litúrgico naquele movimento. Como se as árvores soubessem mais sobre o tempo do que nós jamais saberemos.
E então senti aquela velha inquietação.
A sensação de não pertencer completamente a lugar algum… e, ao mesmo tempo, pertencer um pouco a todos os lugares assombrados pela melancolia.
Nova Friburgo me devolveu isso hoje.
A percepção de que identidade não é raiz.
É neblina.
Algo que muda de forma conforme atravessa novos territórios.
Ontem voltei para o quarto carregando o cheiro das árvores nas roupas e um silêncio confortável dentro do peito. Acendi uma vela perto da janela. Observei a névoa engolindo lentamente as luzes da cidade. E escrevi estas linhas enquanto a noite fazia aquilo que sempre faz melhor:
Transformar distância em beleza.
Talvez seja esse o verdadeiro legado europeu que sobrevive aqui.
Não os prédios.
Não os nomes.
Não os costumes.
Mas essa habilidade antiga de encontrar poesia mesmo dentro da saudade.

7 de maio.
Hoje o mundo tenta, pela primeira vez em muito tempo, ouvir aquilo que sempre evitou.
O silêncio.
Engraçado… precisam de uma data para lembrar algo que deveria ser instintivo. Como se a ausência de ruído fosse um luxo, e não uma necessidade vital. Como se o caos sonoro fosse apenas incômodo; e não uma forma lenta de violência.
Acordei com buzinas.
Sempre assim.
O Rio não desperta; ele explode em si mesmo todas as manhãs. Motores, vozes, construções, músicas que não pedem consentimento. Um desfile constante de sons que não comunicam nada… apenas ocupam espaço.
Fiquei deitada alguns minutos, ouvindo esse excesso.
E pensando.
O barulho não é apenas externo. Esse é o erro mais comum. As pessoas acreditam que o problema está na rua, nos carros, nas obras. Mas o ruído mais insuportável… vem de dentro.
É a mente que não se cala.
É a repetição de pensamentos que ninguém escolheu ter. É a memória insistente, o arrependimento, o desejo mal resolvido; todos competindo por atenção, todos falando ao mesmo tempo.
E então o mundo lá fora apenas acompanha.
Levantei devagar. Fechei as janelas. Não para bloquear o som (isso seria inútil), mas para criar a ilusão de que ainda é possível algum tipo de controle.
Preparei café. Sentei diante do caderno. E esperei.
O silêncio não vem fácil.
Ele não é ausência. É confronto.
Quando o ruído cessa, algo se revela. E nem sempre é bonito. Às vezes, é exatamente aquilo que você vinha evitando encarar desde sempre.
Pensei nisso hoje.
No quanto as pessoas fogem do silêncio como se ele fosse um inimigo. Preenchem cada espaço com música, conversas, distrações… qualquer coisa que impeça o encontro consigo mesmas.
Mas o silêncio… ele não esquece.
Ele apenas espera.
Lembrei de Nyepi, aquele dia em Bali em que tudo para. Nenhuma luz. Nenhum som. Nenhum movimento. Um mundo inteiro suspendendo sua própria existência por um instante.
E me perguntei:
Quantos sobreviveriam a isso?
Quantos suportariam um dia inteiro sem se anestesiar?
Aqui, no meu pequeno território de sombras, tentei algo parecido. Desliguei tudo. Nenhuma música. Nenhuma tela. Apenas o som leve da minha própria respiração; irregular, quase desconfiada.
E então… começou.
As imagens vieram. Lentas. Precisas. Como se estivessem aguardando essa brecha. Memórias que não pedi. Sensações que ainda carregam temperatura. Fragmentos de quem fui… e de quem continuo sendo, apesar de tudo.
O silêncio não me acalmou.
Ele me revelou.
E há uma diferença brutal entre essas duas coisas.
Escrevi por horas. Não porque quis. Mas porque não havia para onde fugir. Cada palavra era uma tentativa de organizar o que emergia. Uma tentativa falha, talvez… mas necessária.
Porque escrever, no fundo, é isso:
Dar forma ao que o silêncio expõe.
Lá fora, o mundo continuava ruidoso. Sempre continuará. As pessoas não vão parar. Não vão ouvir. Não vão mudar.
Mas aqui dentro… algo se reorganizou.
Não em paz.
Mas em verdade.
A noite chegou como sempre chega; sem pedir licença, mas trazendo consigo uma certa dignidade que o dia insiste em ignorar. E agora, enquanto termino estas linhas, percebo algo que talvez você também já tenha sentido:
O silêncio não é vazio.
Ele é um espaço onde tudo o que você é… finalmente ganha voz.
E a maioria não está pronta para ouvir.
Mas você leu até aqui.
Então talvez… já esteja mais próximo disso do que imagina.

Ontem choveu como se o céu tivesse finalmente perdido a paciência.
Hoje acordei com o som abafado das gotas se espalhando pela cidade, não como um espetáculo, mas como uma insistência. Uma repetição hipnótica, quase íntima. Há algo de profundamente perturbador na chuva: ela não pede licença. Invade. Toca. Persiste.
Fiquei algum tempo na cama, ouvindo.
Não o barulho… mas o que existe por trás dele.
Porque a chuva nunca é só água.
Ela é memória líquida.
Levantei quando o quarto já estava impregnado por aquela luz cinza que não ilumina; apenas revela contornos. Abri a janela e deixei o ar úmido entrar, frio o suficiente para tocar a pele como um aviso.
A cidade parecia diferente.
Não mais limpa; isso é uma ilusão que as pessoas gostam de alimentar. A chuva não purifica. Ela apenas desloca a sujeira. Empurra o caos para outro canto, onde ele continua existindo… mais silencioso, talvez, mas intacto.
E ainda assim… há beleza nisso.
Sempre há.
Passei a manhã entre páginas e pensamentos, com o caderno aberto e a mente vagando por lugares que não costumo visitar quando o sol está alto. A chuva tem esse efeito. Ela amolece as defesas. Faz com que certas imagens retornem; não como lembranças… mas como invasões.
As cavernas do coração, como alguém já disse um dia, não são feitas de vazio.
São feitas de acúmulo.
E quando chove, algo nelas escorre.
Senti isso hoje.
Uma espécie de pressão interna, como se emoções antigas (mal enterradas) decidissem subir à superfície. Não com violência. Mas com persistência. Como a água infiltrando uma parede até fazê-la ceder.
Olhei pela janela.
Do outro lado da cidade, outras vidas se desenrolavam sob a mesma chuva. Pessoas frustradas porque seus planos foram interrompidos. Viagens canceladas. Praias vazias. Corpos que não puderam se exibir sob o sol que tanto veneram.
Há algo quase irônico nisso.
A natureza, por um instante, negando espetáculo aos que vivem de aparência.
E ainda assim… eles não aprendem.
Nunca aprendem.
A chuva não os transforma. Apenas os irrita.
Porque transformação exige silêncio. E poucos suportam o silêncio sem tentar preenchê-lo com ruído.
Voltei ao meu caderno.
Escrevi algumas linhas. Rasguei outras. Deixei que a tinta escorresse levemente sob a umidade do ar; como se até as palavras quisessem se dissolver hoje.
Pensei na sujeira.
Não aquela visível. Não o lixo acumulado nas ruas, nem os restos que a água arrasta sem cerimônia. Pensei na outra. Aquela que não se move com a chuva. Aquela que permanece.
A que vive nas pessoas.
Nos hábitos. Nos pensamentos. Na forma como consomem o mundo e devolvem algo ainda mais vazio.
E, por um instante, senti um certo cansaço.
Não da chuva.
Mas da repetição.
Da constância com que o caos se reinventa, mesmo quando tudo ao redor tenta apagá-lo.
A tarde escureceu mais cedo, como se o dia tivesse desistido de cumprir seu ciclo. E eu, de certa forma, compreendi.
Há dias que não foram feitos para terminar bem.
Foram feitos apenas para existir.
E deixar marcas.
Agora, enquanto escrevo, a chuva continua. Mais suave. Quase um sussurro.
Mas sei que ela não trouxe paz.
Trouxe exposição.
Porque no fim…
a chuva não lava o mundo.
Ela apenas revela aquilo que já estava podre; esperando o momento certo para emergir.
E talvez seja por isso que eu gosto tanto dela.
Porque, assim como a escrita…
ela não tem compromisso com o conforto.
Apenas com a verdade.