
A rolha resistiu ao saca-rolhas como certas lembranças resistem àquele que tenta abri-las: cedendo aos poucos, com um ruído seco, quase ósseo. Eram duas e quarenta da madrugada. A chuva golpeava as janelas da minha casa em Angra dos Reis, e o mar, invisível atrás da noite, respirava com a paciência de uma criatura muito antiga.
Servi o vinho devagar.
O líquido desceu pela parede da taça e se acumulou no fundo com uma cor profunda, dessas que parecem ter sido retiradas de uma ferida já cicatrizada. Antes de beber, aproximei o vidro do rosto. Havia frutas maduras, madeira, terra úmida e alguma coisa que meu olfato não soube nomear, embora o resto de mim reconhecesse imediatamente.
Portugal.
A saudade raramente anuncia sua chegada. Prefere infiltrar-se por objetos pequenos: uma canção esquecida, o desenho de uma calçada, uma palavra pronunciada com o sotaque que já não possuímos. Naquela noite, entrou pela boca.
O primeiro gole trouxe o calor. O segundo trouxe uma estrada.
Voltei a uma parada que fiz no Baixo Alentejo, quando ainda caminhava por Portugal com a impressão de que aquelas ruas existiriam para sempre à minha espera. A paisagem se estendia numa severidade bela, com a terra seca, as paredes caiadas e um céu tão amplo que parecia condenar tudo o que estivesse abaixo dele à própria pequenez. Havia silêncio entre as construções. Um silêncio diferente do brasileiro, sem motores impacientes ou vozes atravessando muros. Ali, até o vento parecia envelhecido.
Parei para beber uma garrafa de vinho.
Não havia ocasião especial. Nenhuma comemoração, nenhum amor a brindar, nenhuma vitória pedindo cerimônia. Apenas eu, a estrada e aquela necessidade repentina de permanecer por algum tempo num lugar onde ninguém sabia meu nome. Uma espécie de liberdade que só se revela quando não somos reconhecidos. Sentada com a garrafa diante de mim, pude existir sem representar a mulher que os outros esperavam encontrar.
O vinho chegou à mesa sem espetáculo. A rolha saiu, a bebida tocou o copo e o mundo continuou indiferente. Gostei disso. As coisas realmente importantes costumam acontecer sem testemunhas adequadas.
Bebi olhando a paisagem e pensei na antiga lenda do Baixo Alentejo sobre a descoberta do vinho. Depois do Dilúvio, quando a humanidade ainda aprendia a permanecer sobre a terra, dois casais e seus muitos filhos viviam numa cabana feita de paus e colmo. Os homens caçavam. As mulheres recolhiam cereais, frutos e tudo aquilo que crescia sem pedir licença.
Em setembro, encontraram cachos roxos, fartos e doces. Comeram as uvas, alimentaram as crianças e guardaram o restante num tronco oco. Cobriram-no com uma madeira fina e colocaram pedras por cima. Depois esqueceram.
Sempre me pareceu essencial essa parte: esqueceram.
A madeira cedeu ao peso. As pedras caíram. Os bagos foram esmagados e permaneceram ali, entregues ao tempo, ao escuro e à fermentação. Quando uma das mulheres voltou ao tronco para guardar outras colheitas, encontrou no fundo um líquido rubi, cercado pelos engaços ressequidos. Bebeu por curiosidade. Chamou a cunhada. As duas provaram mais. De gole em gole, perderam o equilíbrio e começaram a rir com uma alegria que ainda não possuía explicação.
Ao cair da noite, os maridos regressaram da caça, encontraram as mulheres embriagadas e, depois do espanto habitual dos homens diante de qualquer descoberta que os anteceda, também beberam. Aprovaram.
A civilização talvez tenha começado assim: duas mulheres transformaram o esquecimento em êxtase, e dois homens chegaram mais tarde para confirmar que a ideia era boa.
Sorri quando pensei nisso no Alentejo. Sorrio novamente agora, sozinha nesta casa cercada pela chuva. Há uma justiça clandestina na imagem daquelas mulheres primordiais rindo depois do fim do mundo. O Dilúvio havia lavado a antiga humanidade, mas elas encontraram um modo de manchar a nova.
Talvez o vinho tenha surgido porque alguém guardou doçura demais num recipiente incapaz de suportar o peso. A estrutura cedeu. As frutas foram esmagadas. O tempo fez o restante.
Conheço esse processo intimamente.
Também escrevo com aquilo que foi pressionado dentro de mim e deixado no escuro. Guardo experiências, silêncios, desejos e pequenas mortes em compartimentos cuja madeira finjo acreditar que resistirá. Coloco pedras sobre tudo. Sigo vivendo. Meses ou anos depois, alguma frase rompe o tampo, e encontro no fundo um líquido que já não se parece com o fruto original.
A literatura é uma fermentação daquilo que não conseguimos digerir.
No Baixo Alentejo, à medida que a garrafa esvaziava, tirei o caderno da bolsa. Eu costumava caminhar sozinha pelas ruas portuguesas levando papel e caneta, como se estivesse sempre à procura de uma cena de crime que apenas eu pudesse enxergar. Observava as fachadas antigas, os santos imóveis nos nichos, as janelas fechadas, as ervas nascendo entre as pedras. Portugal me ensinou a procurar sentimentos nas rachaduras, revelando sua intimidade pela arquitetura.
Escrevi versos em bancos frios, à sombra de igrejas, em cafés quase vazios e diante de casas que pareciam guardar os mortos à mesa. Nem todos sobreviveram. Alguns permaneceram em folhas perdidas; outros foram mutilados, reescritos ou esquecidos. Parte deles, porém, atravessou o oceano comigo e hoje vive em “Poesia para ser lida no cemitério”.
Só agora percebo que aquele livro começou muito antes de receber um título.
Começou quando meus passos ressoavam nas ruas de pedra e eu compreendi que a solidão também possui acústica. Começou diante de portões enferrujados, imagens sacras, muros antigos e jardins onde as flores pareciam crescer alimentadas por alguma tristeza mineral. Eu ainda não sabia que transformaria aquelas impressões em poemas. Apenas anotava. A escrita costuma saber para onde vai antes da escritora.
Naquela parada alentejana, escrevi algumas linhas que o vinho tornou mais honestas. Não me recordo de todas... porque são palavras que merecem existir somente durante o tempo de uma embriaguez, escritas no ar e apagadas antes que a lucidez venha estragá-las. Mas me lembro da sensação: o copo na mão direita, o caderno aberto à esquerda, e a estranha impressão de que eu obedecia a um rito muito anterior a mim.
Cardoso Marta aconselhou que se guardassem bons livros na estante e bons vinhos na adega, com um exemplar de cada em mãos. Sempre considerei uma filosofia bastante mais sensata do que muitas doutrinas que exigem abstinência, culpa e postura ereta. Um livro na mão esquerda. Um copo na direita. Entre ambos, a vida tentando não se desperdiçar.
Nesta madrugada, repito a imagem.
À esquerda da taça está meu próprio livro. Abro-o e encontro “A Poetisa e o Cálice Rubro”. Reconheço a mulher que sorve do vinho “o mistério imenso” e permite que a bebida arda como um rito final. Algumas páginas adiante, “Da Rosa e do Vinho” devolve-me outra versão da mesma presença: o cálice refletindo o abismo do amor, a bebida trazendo ao peito memórias perdidas.
Eu as escrevi. Ainda assim, esta noite elas parecem ter sido deixadas ali por uma mulher que morreu sem a delicadeza de levar o meu rosto consigo.
Talvez todo livro publicado seja uma adega de antigas identidades. Abrimos uma página e bebemos quem fomos. Algumas versões amadurecem. Outras azedam. Há ainda aquelas que permanecem fortes demais e nos fazem perder o equilíbrio depois de poucas linhas.
Os portugueses conhecem essa intimidade entre a palavra e o vinho há séculos. Estrabão já escrevia sobre o cultivo da vinha no Douro celta e sobre a bebida compartilhada nos banquetes familiares. Depois vieram Camões, Pessoa e tantos outros, cada qual erguendo seu copo diante de um abismo diferente. O camponês e o aristocrata bebiam separados por posses, títulos e vaidades, mas o vinho alcançava ambos pelo mesmo caminho.
A boca é uma democracia breve.
Dizem que Robert Louis Stevenson chamou o vinho de poesia engarrafada. A frase é bela, embora omita certa crueldade. Para existir, o vinho exige que a uva seja arrancada, esmagada e abandonada à ação invisível de organismos que a transformam por dentro. Também a poesia cobra seus cadáveres. Nenhum verso verdadeiro nasce intacto.
Bebo mais um gole e escuto a chuva engrossar. As gotas escorrem pela janela, distorcendo as poucas luzes do lado de fora. Por um instante, Angra se desfaz atrás do vidro e as ruas portuguesas retornam. Vejo uma mulher caminhando sozinha, o caderno preso contra o corpo, os cabelos inquietos pelo vento. Ela ainda carrega na voz um sotaque que o tempo diluiria devagar. Ainda acredita que partir e abandonar são verbos distintos.
Esta é a confissão que o vinho arrancou de mim: às vezes, tenho medo de ter transformado Portugal em literatura para não admitir que sinto falta de pertencer a algum lugar.
É mais elegante chamar uma ausência de inspiração. Sofisticamos a dor para não parecermos indefesos diante dela. Descrevemos as ruas, os muros e as sombras; convertemos o passado em símbolo; damos ritmo àquilo que nos rasgou. Depois, apresentamos o resultado como arte e esperamos que ninguém encontre o corpo escondido entre as metáforas.
Quando vim ao Brasil, em 2023, a viagem deveria ser uma visita. O Rio de Janeiro e as ilhas em torno de Angra dos Reis fizeram o que certas terras sabem fazer: mostraram-me uma versão de mim que eu ainda não conhecia. Fiquei. O caos, o mar, o calor e a beleza ameaçada desta paisagem abriram outra linguagem dentro de mim.
Mas nenhuma chegada acontece sem uma pequena traição.
Meu sotaque português começou a dissolver-se. Primeiro em algumas palavras, depois no ritmo das frases. A mudança foi tão lenta que só a percebia quando alguém apontava. Eu ria, fingia indiferença e seguia falando, enquanto uma parte de mim recolhia cada som perdido como quem recolhe dentes depois de uma briga.
Temo que Portugal já não reconheça minha voz.
Temo ainda mais que reconheça.
Porque retornar não significa recuperar o que fomos. As ruas permanecem, mas a pessoa que as percorreu já fermentou. Carrega outros mares, outras noites, outras cicatrizes. Talvez minha nostalgia não seja vontade de voltar. Talvez seja saudade da mulher que conseguia caminhar por aquelas pedras sem saber que um dia as transformaria em passado.
O vinho na taça está mais escuro agora. Ou talvez seja apenas a luz do escritório enfraquecendo. Giro o vidro e observo as lágrimas rubras descerem lentamente por suas paredes. Chamam de lágrimas as marcas que o vinho deixa na taça. A linguagem humana possui esses pequenos requintes de crueldade: até aquilo que bebemos precisa chorar antes de desaparecer.
Penso nas mulheres da lenda. Elas guardaram uvas e encontraram vinho. Guardaram alimento e encontraram alegria. O esquecimento não destruiu a colheita; deu-lhe outra natureza.
Durante muito tempo tratei a memória como uma sala que precisava permanecer intacta. Quis conservar cheiros, ruas, vozes e versões de mim mesma. Agora compreendo o erro. Nada permanece guardado sem se alterar. Colocamos pedras sobre o passado, mas o tempo trabalha no escuro. Quando abrimos o recipiente, já não encontramos aquilo que deixamos.
Encontramos aquilo em que a ausência o transformou.
De que valeria esta garrafa se eu a mantivesse fechada? De que valeria meu livro se ninguém o abrisse? Adegas e estantes podem se tornar mausoléus muito bem organizados. O vinho precisa da boca. A literatura também. Ambos existem plenamente quando atravessam alguém e perturbam sua química.
Por isso escrevo esta página enquanto bebo. Talvez seja minha maneira de partilhar a garrafa com quem chegou tarde demais para aquela parada no Alentejo. Talvez eu esteja oferecendo ao leitor o copo que estendi aos fantasmas portugueses que me acompanharam até esta casa.
Quem desejar entrar nos outros aposentos da minha escrita encontrará a porta em:
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A garrafa está quase vazia. A chuva continua. Fecho o livro, mas deixo a taça diante da janela, onde o reflexo do vinho se mistura às luzes deformadas de Angra. Em algum ponto invisível além da noite, o mar toca duas terras sem pertencer a nenhuma.
Levo o último gole à boca.
Desta vez, é Portugal quem me bebe.
A luz do computador recorta minhas mãos sobre a mesa enquanto o Rio de Janeiro apodrece lentamente em sua própria madrugada. Agosto de 2026. O relógio se aproxima das três, a xícara de café conserva no fundo uma pequena poça amarga, e o calor insiste em permanecer na pele apesar da janela aberta. Lá embaixo, um carro atravessa o asfalto úmido. Depois, silêncio. Um silêncio incompleto, urbano, desses que ainda carregam motores distantes, aparelhos de ar-condicionado e alguém discutindo com a própria vida atrás de alguma parede.
Na tela, a entrevista permanece aberta.
Meu nome ocupa a página em letras grandes: Luna Bela Morte. Há fotografias minhas, velas, livros, ruínas, sombras cuidadosamente dispostas. Leio as respostas que concedi à Revista Conexão Literatura e sinto a estranha vertigem de observar uma mulher que sou eu, embora tenha sido obrigada a atravessar o vidro para existir diante dos outros.
Sempre fui íntima demais para o espetáculo.
Gosto das coisas que acontecem sem plateia: o instante em que uma frase encontra seu ritmo; o ruído de uma página sendo virada num quarto vazio; o cheiro dos livros antigos; a pausa antes de escrever uma palavra perigosa. Minha natureza pertence aos corredores silenciosos, às bibliotecas quase esquecidas, às conversas que não precisam ser exibidas para terem acontecido. Eu floresço melhor quando ninguém está olhando.
Contudo, escolhi escrever livros.
E um livro escondido é apenas um segredo condenado à própria elegância.
Foi preciso compreender uma crueldade bastante contemporânea: neste mundo, criar já não basta. É necessário aparecer ao lado daquilo que se criou, sorrir em fotografias, gravar vídeos, falar para uma câmera muda, oferecer fragmentos da própria intimidade ao altar das redes sociais e torcer para que o algoritmo, essa divindade sem rosto e com péssimo gosto literário, permita que algumas pessoas descubram que você existe.
O digital tornou-se uma espécie de cartório da existência. Se não há registro, postagem, story, comentário ou fotografia, talvez você nem tenha vivido. Se uma obra nasce longe das telas, o mundo a trata como se tivesse nascido morta.
Por isso apareço.
Digo isso com menos coragem do que parece.
Antes de publicar uma fotografia, observo meu rosto durante tempo demais. Aumento a imagem, diminuo, procuro nela uma falha que ninguém perceberia se eu mesma não a oferecesse como prova contra mim. Escrevo uma legenda, apago. Reescrevo. Fecho o aplicativo. Volto alguns minutos depois, como quem retorna à cena de um crime para verificar se deixou impressões digitais. Quando finalmente publico, sinto que depositei uma pequena parte de mim numa praça cheia de desconhecidos.
A timidez possui hábitos de carcereira. Ela nos convence de que a cela é um aposento privado.
Poucas pessoas imaginam o esforço necessário para eu permanecer diante de uma câmera. Meu corpo reconhece a lente como um olho que não pisca. A voz muda discretamente. As mãos procuram onde repousar. Cada gesto que, em silêncio, seria natural passa a exigir consciência. Sou capaz de escrever sobre mortos, maldições, casas corrompidas e criaturas que atravessam paredes. Ainda assim, pedir que eu grave um vídeo curto pode despertar um horror muito mais eficiente. Os fantasmas, ao menos, costumam respeitar a penumbra.
Há dias em que entro nas redes para divulgar um poema e saio delas com a sensação de ter caminhado por uma feira onde tudo está à venda: rostos, corpos, indignações, tragédias, opiniões emprestadas, felicidades alugadas por quinze segundos.
Os haters aguardam como insetos sob a luz. Alguns desejam ferir; outros desejam apenas ser percebidos enquanto ferem. A crueldade digital possui essa covardia esterilizada: não deixa cheiro nas mãos. Uma pessoa pode despejar veneno sobre outra durante o intervalo do almoço e, em seguida, pedir sobremesa.
Há também a futilidade incessante, a repetição de assuntos vazios, a fabricação industrial de relevâncias que morrerão antes do próximo amanhecer. Vejo meninas transformando a própria erotização em moeda para conquistar seguidores e curtidas. Não as observo do alto de qualquer altar moral. Conheço a máquina que as recompensa. Sei que muitas aprenderam cedo que o corpo recebe uma atenção que a inteligência precisa implorar para merecer. Minha repulsa pertence menos a elas do que ao sistema que converte desejo em estatística e juventude em vitrine. O algoritmo calcula mais a retenção do que a contemplação da beleza.
Mesmo assim, dividir espaço com tudo isso me cansa.
Às vezes, depois de percorrer a tela, volto ao manuscrito e as palavras parecem ter recuado para o fundo de mim. Minha imaginação se esconde. O excesso de vozes deixa uma fuligem mental sobre as imagens que eu estava construindo. Uma notificação interrompe uma atmosfera. Um comentário cruel contamina uma tarde. Uma sequência de banalidades rouba aquela delicada inquietação da qual um conto poderia nascer.
A criatividade não morre pela ausência de ideias e pela exposição.
Esta é a parte que dificilmente confesso: em certos dias, temo que a necessidade de divulgar minha obra termine por deformar a mulher que a escreve. Tenho medo de começar a escolher frases pelo potencial de compartilhamento, imagens pelo alcance, temas pela capacidade de agradar a uma multidão impaciente. Tenho medo de olhar para um poema e perguntar quantas curtidas ele receberá antes de perguntar se ele possui uma verdade.
Pior: algumas vezes eu verifico.
Observo números. Conto visualizações. Percebo quando uma publicação alcança menos pessoas do que outra. Sinto a pequena fisgada da decepção e imediatamente me desprezo por tê-la sentido. Existe uma humilhação particular em permitir que uma estatística decida o valor emocional de algo que nasceu nas regiões mais profundas da alma.
Talvez esse seja o verdadeiro horror das redes: elas não nos obrigam somente a mostrar quem somos. Aos poucos, ensinam-nos a assistir a nós mesmos pelos olhos de uma plateia.
Fecho a página por alguns segundos. Meu reflexo aparece na tela escura, sobreposto à janela e às luzes distantes dos prédios. Ali estou eu: uma mulher sentada de madrugada, cercada por livros, tentando proteger a própria solidão enquanto constrói pontes até desconhecidos. A contradição chega a ser bela. Também é um pouco ridícula. Quase todas as tragédias humanas adquirem certo humor quando vistas às três da manhã.
Então abro novamente a entrevista.
As páginas escuras, ornamentadas por velas, livros e imagens do meu universo, devolvem-me algo que as redes frequentemente arrancam: contexto. Ali, minhas palavras não disputam atenção com uma dança de oito segundos, uma discussão fabricada ou mais uma urgência descartável. Posso falar sobre o início de minha vida literária, sobre Poesia para ser lida no cemitério, sobre a criação da Ordo Umbrae, sobre o medo, a solidão das cidades e a necessidade de transformar a dor em beleza antes que ela nos transforme em pedra.
Posso falar sobre leitura no Brasil sem reduzir uma ferida histórica a uma frase obediente. Posso apresentar o Halloween da Luna e O Grimório de Nyxara como partes vivas de uma mitologia, e não como produtos atirados diante de consumidores distraídos. Posso agradecer à revista e ao editor pelo espaço sem sentir que estou implorando alguns segundos de atenção.
Naquela entrevista, fui ouvida.
A diferença parece pequena até acontecer conosco.
Ser vista alimenta o ego. Ser compreendida alimenta a permanência.
Percebo agora que talvez eu tenha cometido uma injustiça ao tratar todo o mundo digital como um salão contaminado. Há corredores escondidos dentro dele. Há leitores procurando justamente aquilo que quase desaparece no ruído: densidade, estranheza, beleza, pensamento. Pessoas que ainda desejam permanecer diante de um texto por mais tempo do que leva para mover o polegar. Uma entrevista literária pode funcionar como uma dessas portas. Alguém entra por curiosidade, reconhece uma frase, encontra um livro e descobre que sua própria sombra também sabia ler.

Esses encontros não eliminam o desgaste. Amanhã, a câmera continuará parecendo um olho frio. As notificações continuarão mordendo as margens do meu silêncio. O algoritmo seguirá exigindo seus pequenos sacrifícios de tempo, presença e energia. Não pretendo romantizar a jaula apenas porque encontrei uma flor entre suas grades.
Mas esta madrugada me devolveu uma certeza menos frágil.
Eu não apareço porque desejo transformar minha vida em espetáculo. Apareço para impedir que minha obra seja enterrada pelo excesso de ruído. Mostro o rosto para conduzir alguém até os livros; e depois volto para a penumbra, onde consigo respirar. Minha presença digital é a maçaneta. A casa verdadeira permanece do outro lado.
Talvez as pessoas certas nunca sejam a multidão. Talvez sejam aquelas que reconhecem essa porta.
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Eu deixei a luz acesa. Não para todos.

Fechei o livro com a ponta dos dedos, devagar, como se a última página pudesse morder.
Passava da meia-noite em Angra dos Reis. A minha casa respirava em pequenos estalos de madeira, e o vento trazia pelas janelas o cheiro úmido do mar misturado ao perfume frio do café esquecido sobre a mesa. Do lado de fora, a escuridão havia apagado as ilhas. Restavam algumas luzes distantes, vacilando sobre a água como velas acesas para mortos sem túmulo.
Terminei A Narrativa de Artur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe, e permaneci imóvel durante alguns minutos, escutando aquele silêncio que surge depois de certas leituras. A ressaca literária foi mais que um simples silêncio pacífico de uma história encerrada, foi o que fica quando alguma coisa atravessa a porta, entra em nossa casa e se recusa a dizer o próprio nome.
Poe fez isso comigo.
A primeira crueldade do livro é fingir que deseja conquistar nossa confiança. Artur Gordon Pym apresenta sua narrativa como um relato verdadeiro, hesitante, recomposto pela memória e publicado com a colaboração de um certo senhor Poe. O autor entra na própria ficção usando a máscara de editor, cúmplice e possível falsificador. Antes mesmo de o navio partir, a realidade já começou a apodrecer. O leitor acredita porque desconfia; desconfia porque tudo parece excessivamente preciso. Datas, latitudes, rotas, espécies de animais, procedimentos náuticos. A verdade veste um uniforme impecável enquanto esconde o cadáver no porão.
Essa estratégia me fascinou. Há uma elegância perversa em oferecer documentos como quem distribui álibis. Poe compreendeu que a mentira mais eficiente não precisa parecer inocente. Precisa apenas carregar detalhes suficientes para cansar a suspeita.
A história começa com o fascínio de Pym pelo oceano, alimentado pelas aventuras narradas por Augusto. Depois de uma imprudente viagem noturna no pequeno Ariel, que quase termina em morte, seria razoável esperar que o rapaz se afastasse do mar. Acontece o contrário. O perigo o seduz. Quanto mais terríveis são os relatos, maior se torna seu desejo de partir.
Conheço esse impulso. Enquanto o normal seria contemplar o abismo para aprender a evitá-lo, sou do tipo de pessoa que começa imediatamente a procurar uma escada.
Pym embarca clandestinamente no Grampus e se esconde num compartimento escuro do porão. Para mim, essa é uma das passagens mais sufocantes do romance. O oceano, que deveria representar vastidão, transforma-se numa prisão sem luz, impregnada de ar pestilento, madeira úmida e alimentos em decomposição. Pym perde a noção do tempo, a lucidez e quase a própria identidade. Seu único vínculo com o mundo é Tigre, o cão que atravessa a escuridão levando uma mensagem.
Enquanto lia, precisei abrir a janela.
O mar estava ali, a poucos passos da minha casa, mas naquela hora pareceu ocupar todos os cômodos. O som das ondas chegava abafado, como se viesse debaixo do assoalho. Olhei o copo de água ao lado do livro e pensei em como os objetos mais banais se tornam obscenos diante de um personagem que morre de sede. Bebi. Senti culpa. Depois ri de mim mesma...
A partir do motim no Grampus, o romance abandona qualquer promessa de aventura juvenil e mostra os dentes. Há violência, naufrágio, fome, delírio e uma lenta erosão das fronteiras que separam o homem civilizado do animal encurralado. A cena em que os sobreviventes tiram a sorte para decidir quem será sacrificado e devorado conserva uma brutalidade difícil de neutralizar. Richard Parker perde. Os outros vivem um pouco mais.
Poe não enfeita a fome com grandeza moral. A necessidade entra em cena e reduz princípios a ruídos produzidos por um estômago vazio. No mar, longe das instituições e dos olhos alheios, a civilização revela quanto depende de paredes, testemunhas e refeições regulares. Somos muito éticos depois do jantar.
A morte de Augusto me perturbou de outra maneira. O corpo deteriorado, lançado às águas fosforescentes e imediatamente disputado pelos tubarões, produz uma imagem de beleza monstruosa. Luz e putrefação convivem na mesma superfície. O oceano recebe o amigo de Pym sem cerimônia, mastiga seus restos e continua respirando. Nenhuma elegia. Nenhum privilégio concedido ao amor.
Já viajei de navio e conheço a vertigem de olhar para trás até a costa desaparecer. Há um instante em que tudo aquilo que nos define; casa, endereço, rotina, compromissos, pessoas... cabe numa linha escura e depois deixa de existir. À frente, o horizonte parece uma promessa. Contudo, no meio do mar, ele também funciona como sentença: em qualquer direção que se olhe, a distância permanece igual.
Sempre achei belo esse abandono.
Esta é uma verdade que raramente confesso: a solidão marítima me atrai porque possui honestidade. Em terra, podemos estar cercados e ainda assim permanecer invisíveis, condenados a representar intimidade para pessoas que jamais tocaram a parte verdadeira de nós. No oceano, a solidão não mente. Ela não oferece cadeiras vazias fingindo companhia. Pelo contráriio, mostra sua extensão e nos deixa escolher entre contemplá-la ou enlouquecer.
Talvez seja por isso que compreendi Pym mais do que gostaria. Ele não segue para o sul movido somente pela curiosidade. Existe nele uma fome de ultrapassar o limite, mesmo quando cada limite vencido revela uma ameaça maior. Eu reconheço essa fome. É a mesma que me faz escrever durante a madrugada, abrindo em mim compartimentos que deveriam permanecer lacrados. Não sou uma escritora que procura respostas. Eu costumo procurar portas que tenham sido emparedadas por bons motivos.
O livro tem irregularidades. As descrições geográficas, as longas explicações sobre navegação e os catálogos de animais retardam o pulso da narrativa. Em alguns trechos, senti o horror aguardando impaciente enquanto Poe media costas, registrava latitudes e examinava pinguins. Ainda assim, essas digressões cumprem uma função: sustentam a ilusão documental. O tédio ocasional prepara o terreno para o impossível. Quando o pesadelo finalmente emerge, encontra o leitor distraído pela aparência de ciência.
A chegada à ilha de Tsalal leva o romance a uma região moralmente mais incômoda. A representação dos habitantes carrega o peso do olhar colonial e racial do século XIX. Não me interessa absolver esse aspecto com a desculpa confortável de seu tempo. Os grandes autores também deixam manchas. Em Tsalal, o medo da alteridade transforma povos inteiros em símbolos e ameaças, revelando os fantasmas sociais de uma cultura que chamava exploração de descoberta.
Mas Poe complica o próprio jogo ao inverter os valores do claro e do escuro. Na ilha, tudo é negro, até os dentes dos habitantes; a brancura causa pavor. Depois, rumo ao sul, o branco ocupa o mundo: as aves, a chuva semelhante a cinzas, a água leitosa, a cortina de vapor. Aquilo que costuma simbolizar pureza converte-se em presságio. A alvura deixa de limpar. Ela apaga.
Foi o que mais admirei no desfecho.
Pym, Dirk Peters e Nu-Nu avançam numa canoa frágil em direção àquela catarata silenciosa, enquanto o oceano se aquece e a realidade adquire a consistência de um sonho febril. Nu-Nu morre. As aves repetem “Tekeli-li”. Então surge uma figura humana gigantesca, amortalhada, de uma brancura perfeita.
E o relato se rompe.
Nenhuma explicação seria tão poderosa quanto essa ausência. Poe conduz o leitor até a borda e desaparece, deixando uma nota que anuncia a morte súbita de Pym e a perda dos capítulos finais. O livro termina onde outro autor talvez começasse a explicar. Sua incompletude não constitui uma falha; é a última criatura da narrativa. A página branca torna-se a própria figura que aguardava além do horizonte.
Levantei-me e caminhei até a janela. A noite de Angra continuava intacta. As luzes ainda tremiam sobre o mar, mas agora pareciam mais distantes. Lembrei-me dos conveses em que permaneci observando o horizonte, acreditando que aquela linha separava o conhecido do desconhecido. Depois de Poe, já não tenho tanta certeza.
Talvez o horizonte separe somente duas formas de abismo: aquela para a qual navegamos e aquela que levamos conosco.
O mar não estava escuro.
Estava esperando ficar branco.

Hoje acordei com cheiro de papel antigo na alma.
Não era exatamente memória. Memória tem passos mais reconhecíveis, anda pela casa como uma viúva que sabe onde estão todos os móveis. O que veio a mim foi outra coisa: uma vontade escura de biblioteca, de madeira encerada, de chuva batendo contra janelas altas, de corredores universitários onde a juventude finge estudar filosofia enquanto deseja, em segredo, ser destruída por alguma verdade antiga.
Foi assim que decidi falar sobre Dark Academia.
A expressão tem circulado com força entre leitores, escritores, artistas e criaturas de feed que descobriram recentemente que vestir marrom, segurar um livro grosso e olhar pela janela pode ser confundido com profundidade. Naturalmente, há exageros. A humanidade não toca em nada sem imediatamente transformá-lo em pose, mercadoria, estética de vitrine e vídeo curto com trilha dramática. Ainda assim, por baixo do teatro, existe algo real. Algo que respira.
A Dark Academia é, antes de tudo, uma saudade de um lugar que talvez nunca tenha existido.
Uma nostalgia de bibliotecas sombrias, universidades antigas, latim rabiscado nas margens, tragédias gregas abertas sobre mesas pesadas, xícaras de café esquecidas ao lado de anotações, velas acesas, cartas, casacos longos, corredores úmidos, amizades intensas demais, amores proibidos, obsessões intelectuais e aquela crença perigosa de que o conhecimento não deve apenas informar: deve transformar. Ou destruir. Às vezes, ambos, porque a vida adora economizar misericórdia.
Passei a manhã sentada diante dos meus livros, com o Rio de Janeiro rugindo além da janela como um animal tropical incapaz de compreender o silêncio. A cidade não combina com a Dark Academia no sentido óbvio. Não há neblina inglesa suficiente, nem pedra universitária coberta de musgo, nem alunos de grego antigo conspirando em corredores frios, embora, sinceramente, o Rio tenha criminosos, poetas, fantasmas coloniais, casarões morrendo em pé e uma decadência urbana que faria qualquer estética europeia parecer medíocre. Porque aqui, a melancolia não vem de casaco de lã. Vem suada, noturna, elétrica, com cheiro de maresia, asfalto, cerveja, igreja abandonada e flor esmagada na calçada.
Talvez por isso eu me reconheça tanto nesse universo.
Porque a Dark Academia não é apenas roupa, cenário ou fetiche por universidades antigas. Em sua forma mais interessante, ela é uma tensão entre a beleza da juventude e a ruína da morte.
Não sejamos ingênuos. Estudar o abismo nunca foi uma atividade neutra.
Hoje, enquanto folheava alguns volumes, pensei em como essa estética romantiza o conhecimento. E gosto disso. Gosto muito. O mundo contemporâneo tenta transformar saber em produtividade e monetização, algo que seja útil. Tudo precisa servir a algum objetivo prático, preferencialmente financeiro, porque aparentemente a alma humana foi rebaixada a uma espécie de departamento administrativo. A Dark Academia, com todos os seus defeitos, resiste a isso. Você deve ler porque a leitura pode mudar a temperatura do seu sangue, e deve estudar porque os mortos ainda falam e seria interessante aprender grego antigo. Não porque isso será útil numa entrevista de emprego, mas porque Aquiles ainda sangra em alguma dobra da língua.
O conhecimento, quando vivido como obsessão, volta a ser perigoso.
E era assim que deveria ser.
Abri Homero, ou melhor, encarei o peso simbólico de Homero sobre a mesa. Ilíada. Odisseia. Dois monstros antigos disfarçados de livros. Ali estão deuses caprichosos, heróis quebrados, guerras que devoram nomes, retornos impossíveis, cadáveres nobres, mares como labirintos e a velha pergunta que atravessa os séculos: o que sobra de um homem depois que o destino o usa como instrumento?
A Dark Academia bebe dessa fonte. Não apenas por amor ao clássico, mas porque os épicos oferecem aquilo que a modernidade tenta evitar: grandeza trágica. Hoje, muitos querem vidas confortáveis, limpas, sem risco metafísico, com pequenas metas e recompensas previsíveis. Os épicos, essas velharias maravilhosas, nos lembram que a existência pode ser um campo de batalha entre vários sentimentos, como desejo, honra, perda, fúria e retorno. Um currículo não suporta isso. Uma alma, talvez.
Depois pensei em Virgílio, na Eneida, essa travessia entre ruínas e fundação. A ideia de que toda civilização nasce de uma perda anterior. Que toda cidade carrega cinzas no berço. Talvez seja por isso que o clássico se encaixa tão bem nessa estética: porque a Dark Academia entende, mesmo quando não sabe explicar, que estudar o passado é tocar cadáveres que ainda determinam o formato dos vivos.
E então vêm os trágicos.
Sófocles. Eurípides.
Aí a sala escurece de verdade.
Édipo Rei é uma das grandes autópsias do destino. Um homem tenta fugir da profecia e, como todo humano em sua comovente arrogância, acaba caminhando diretamente para ela. Antígona ergue uma pergunta mais afiada: o que vale mais, a lei dos homens ou a lei dos mortos? Essa é a pergunta que qualquer pessoa com um mínimo de profundidade deveria se fazer antes de abrir a boca sobre moral. Infelizmente, muita gente abre a boca antes de abrir qualquer coisa, especialmente livros. Eis a tragédia cotidiana, menos nobre, e muito barulhenta.
Eurípides, por sua vez, traz a ferida emocional. O corpo da paixão quando a razão já perdeu o trono. Medeia, por exemplo, não é apenas monstruosa. É uma lâmina emocional erguida contra um mundo que achou que poderia usar uma mulher intensa e depois descartá-la sem consequências. Naturalmente, ela responde de maneira extrema. Literatura serve para isso também: mostrar o que acontece quando as emoções deixam de aceitar boletim de bons costumes.
A Dark Academia ama essas ruínas porque elas dão forma ao excesso.
E talvez o excesso seja sua verdadeira religião.
No início da tarde, a chuva ameaçou cair. Não caiu. O céu apenas ficou opaco, como se tivesse pensado em dramatizar e desistido por preguiça atmosférica. Aproveitei essa indecisão do mundo para fazer café e mergulhar na parte mais íntima desse universo: a poesia.
A Dark Academia tem um coração morto que recita versos.
A poesia é seu refúgio emocional. É onde a estética deixa de ser um cenário e se torna uma ferida. Porque a poesia permite aquilo que a academia oficial tantas vezes castra: o delírio, a febre, a subjetividade, o prazer sombrio, a linguagem como corpo possuído. Enquanto o acadêmico tradicional disseca, o poeta sangra sobre a mesa de dissecação e ainda corrige a métrica da própria agonia.
Naturalmente, os poetas malditos franceses estão nesse altar.
Baudelaire, Rimbaud, Verlaine...
Eles pertencem a esse universo como santos de uma igreja profana.
Baudelaire, com As Flores do Mal, ensinou que a beleza pode nascer da decomposição, do vício, do tédio, da cidade moderna e da alma suja. Ele não enfeitou o abismo, mas colocou flores nele. Rimbaud incendiou a própria juventude como quem faz de si um experimento alquímico. Verlaine deu à melancolia uma música líquida, instável, cheia de sombra e delicadeza. Juntos, esses nomes formam uma linhagem: a do poeta que não escreve para agradar, mas para perturbar o sono moral da época.
E isso, convenhamos, é serviço público de alto nível.
Depois vêm os românticos ingleses.
Byron, Keats, Shelley...
Que geração magnífica de criaturas excessivas. Jovens, brilhantes, intensos, muitas vezes insuportáveis, porque a genialidade raramente vem acompanhada de boa convivência doméstica. Byron carrega o escândalo, o exílio, a pose aristocrática e o demônio pessoal. Keats traz a beleza como febre delicada, a morte rondando a juventude, a linguagem como música prestes a desaparecer. Shelley, com sua rebeldia filosófica, sua chama idealista e seus naufrágios simbólicos, parece sempre escrever com o vento entrando pela janela.
A chamada “Geração de 1800” compreendeu algo essencial: a juventude não é apenas uma fase. Parece mais uma espécie de combustão, um momento em que a alma ainda acredita que pode enfrentar deuses, famílias, governos, amantes e até o próprio destino. Quase sempre perde, é claro. Mas perde com frases melhores, e isso já melhora o arquivo da humanidade.
Mais tarde, pensei nas poetisas confessionais americanas.
Sylvia Plath. E Anne Sexton.
Aqui a Dark Academia ganha outro corredor, menos clássico e mais psicológico. Se eu fosse comparar usando um cenário, seria de espelhos rachados, em vez dos mármores dos túmulos da poesia ultra romântica. Plath e Sexton descem às profundezas da mente humana sem se preocupar com o bom gosto. Suas obras são quartos fechados onde o pensamento começa a emitir um calor perigoso. Elas não apenas escrevem sobre a dor, mas fazem da dor uma linguagem que se volta contra a própria estrutura que tenta nomeá-la. Há nelas um horror íntimo, doméstico, cerebral. Uma beleza que não quer ser salva, apenas dita.
E eu respeito muito quem não pede salvação antes de ser ouvido.
No meio dessa travessia, percebi que a Dark Academia me fascina porque ela junta três coisas que sempre me perseguiram: leitura, morte e desejo.
Leitura, porque os livros são portais e armadilhas;
Morte, porque todo conhecimento sério acaba esbarrando nela;
E Desejo, porque ninguém busca a verdade sem algum tipo de fome.
Não existe intelectualidade pura. Essa pureza é fantasia de gente que não conhece o próprio corpo. Todo pensamento nasce atravessado pelo desejo: desejo de saber, dominar, compreender, pertencer, escapar, seduzir, vencer, destruir ou renascer. A Dark Academia, quando é boa, não esconde isso. A biblioteca também pode ser um lugar erótico. Não no sentido pobre e óbvio que a internet reduziria a meia dúzia de suspiros mal iluminados, mas no sentido mais antigo: Eros como força de atração, como impulso para sair de si e tocar algo maior.
Um livro pode ser um objeto de desejo, uma frase pode despir uma alma, e uma ideia pode levar alguém à ruína com mais eficiência do que um beijo.
Durante a noite, voltei a pensar em A História Secreta, de Donna Tartt. Muitos tratam esse romance como uma espécie de texto sagrado da Dark Academia, e entendo o motivo. Estudantes de grego antigo, elite intelectual, obsessão estética, beleza como justificativa moral, amizade fechada demais, crime, culpa e a pergunta venenosa: até onde alguém vai para transformar a vida em obra de arte?
Essa pergunta é perigosíssima. Os personagens cruzam limites não apenas por maldade, mas porque confundem refinamento com superioridade espiritual. Aí está o veneno. A estética pode salvar uma alma medíocre de sua própria banalidade, mas também pode dar a ela uma desculpa elegante para se tornar monstruosa. A Dark Academia, quando levada a sério, precisa encarar essa sombra. Não basta romantizar livros antigos e casacos bonitos. É preciso admitir que o culto ao conhecimento pode se tornar culto à exclusão, ao elitismo, à frieza, ao narcisismo intelectual. É como eu digo: "Toda biblioteca tem um porão, e alguns porões têm sangue.".
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, entra nesse mesmo templo por outra porta. Hedonismo, arte, beleza eterna, juventude preservada enquanto a alma apodrece em segredo. Dorian é uma advertência coberta de perfume. Ele mostra que a beleza, quando separada da responsabilidade moral, torna-se uma máscara para a decomposição. Wilde sabia disso com uma inteligência luminosa e venenosa. Seu romance é perfeito para a Dark Academia porque pergunta o que acontece quando a vida tenta obedecer apenas à estética.
A resposta é simples: a vida cobra. Sempre cobra.
Já Sociedade dos Poetas Mortos, de N. H. Kleinbaum, inspirado no filme, toca outro nervo: o amor pela poesia dentro de uma academia rígida, disciplinadora, quase militar em sua obsessão por formar homens úteis. O professor Keating aparece como aquele tipo raro de mestre que não apenas ensina conteúdo, mas acende uma febre. A poesia, ali, é um transgressão que rompe o enfeite curricular, como uma respiração clandestina que prova que jovens ainda podem ser despertados, antes que o mundo os transforme em móveis bem-sucedidos.
Há algo profundamente comovente nisso. E profundamente perigoso, porque todo despertar cobra um preço.
O dia terminou com meu escritório mergulhado em penumbra. Acendi uma vela, depois outra... Não que eu precise, mas as chamas mudam a qualidade do pensamento. Sob a luz elétrica, a mente trabalha. Mas sob uma vela... a mente evoca! A sombra se move nas paredes, os livros parecem mais vivos, a xícara ganha o peso de objeto ritual, a página branca deixa de ser uma ferramenta e vira um altar! Acho que vocês que me acompanham já devem ter percebido isso através das minhas fotos, eu adoro escrever à luz de velas! Talvez seja ridículo, eu sei, já me falaram isso, mas o ridículo, quando feito com convicção estética, pode adquirir dignidade. Quase tudo que é humano funciona assim...
Foi nesse clima que fiz minha pequena busca por recomendações para quem deseja se afundar melhor nesse universo. Não queria uma lista fria, dessas que parecem montadas por alguém com planilha e ausência de alma. Eu queria uma rota, um itinerário para leitores que desejam entrar na Dark Academia como verdadeiros iniciados. Pessoas, como eu, dispostas a ler à luz de velas sem transformar a vela em um acessório vazio. Sim, eu sei, exigir isso da espécie humana talvez seja otimismo demais. Mas hoje estou generosa (risos).
Então vamos às minhas recomendações de leitura, sob o tema Dark Academia:
Para ler à luz de velas, eu começaria com POEMAS que tenham densidade de sombra e beleza suficiente para fazer a noite parecer mais antiga.
1 - Leiam “Ao Leitor”, de Charles Baudelaire, como quem aceita ser acusado antes de ser acolhido.
2 - Depois, também de Baudelaire, leiam “Correspondências” e alguns dos “Spleen”, para sentir a cidade, o símbolo e o tédio metafísico se encontrando num quarto fechado.
3 - Sigam para “O Corvo”, “Annabel Lee” e “Ulalume”, de Edgar Allan Poe, porque Poe é praticamente um candelabro humano, só que mais neurótico e mais útil.
4 - Acrescentem “La Belle Dame sans Merci” e “Ode to a Nightingale”, de John Keats, para tocar a beleza como febre.
5 - Leiam “Darkness”, de Lord Byron, se quiserem sentir o fim do mundo sem precisar assistir ao noticiário, embora o noticiário se esforce bastante.
6 - Abram “Ozymandias”, de Shelley, para lembrar que todo poder vira areia, uma lição que muitos governantes deveriam tatuar na testa por utilidade pública.
7 - Depois, quando a vela já estiver baixa, entrem em Emily Dickinson. Leiam seus poemas sobre morte, sepultura, imortalidade e consciência. Dickinson é uma sala pequena onde o infinito se senta após arrombar a porta.
8 - Para uma noite mais moderna e psicológica, leiam “Lady Lazarus” e “Ariel”, de Sylvia Plath, apenas se estiverem preparados para uma voz que arremessa a dor contra o vidro.
9 - E Anne Sexton, com seus poemas confessionais, deve ser lida com cuidado, como se cada página fosse uma porta de banheiro trancada por dentro.
Para LIVROS, minha rota de imersão seria esta:
1 - Comecem por A História Secreta, de Donna Tartt, a missa negra da Dark Academia contemporânea.
2 - Depois passem por O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, porque toda estética precisa encarar o cadáver que esconde no quadro.
3 - Leiam Frankenstein, de Mary Shelley, para lembrar que conhecimento sem responsabilidade cria monstros e depois finge surpresa, essa habilidade adorável da humanidade.
4 - Incluam O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, caso desejem uma natureza emocionalmente arruinada e pessoas incapazes de amar sem transformar tudo em tempestade.
5 - Leiam Maurice, de E. M. Forster, se quiserem entender desejo, repressão e educação sentimental sob estruturas sociais sufocantes.
6 - Acrescentem Babel, de R. F. Kuang, para uma Dark Academia que encara império, linguagem e violência colonial sem ficar apenas brincando de Oxford com casaco bonito.
7 - E, para quem gosta de sociedades secretas, crimes e conhecimento envenenado, Ninth House, de Leigh Bardugo, oferece uma versão mais ocultista e sombria do campus como território assombrado.
Para FILMES, a travessia começa quase obrigatoriamente por Sociedade dos Poetas Mortos. Assistam não apenas pela emoção, mas pela tensão entre poesia e disciplina, juventude e instituição, voz própria e obediência.
1 - Depois vejam Kill Your Darlings, que mergulha na juventude de Allen Ginsberg e na Beat Generation com morte, desejo, literatura e escândalo suficientes para manter a vela acesa.
2 - O Sorriso de Mona Lisa serve para pensar mulheres, arte e educação em estruturas conservadoras.
3 - The Riot Club mostra a face mais feia do privilégio intelectualizado, porque nem todo jovem bem vestido lendo clássicos merece romantização.
4 - Cracks tem atmosfera de internato, desejo, manipulação e decadência emocional.
5 - Mary Shelley funciona como ponte entre criação literária, juventude, escândalo e gótico.
6 - E, para quem aceita uma imersão mais estética e sensorial, Suspiria, especialmente em sua versão mais sombria, pode funcionar como academia do corpo, da dança, do segredo e da violência ritual.
Mas deixo um aviso...
Não entrem na Dark Academia apenas para parecer interessantes.
Isso já existe em quantidade industrial e cansa os mortos.
Entrem para ler melhor. Para pensar melhor. Para desconfiar da própria vaidade. Para perceber que a beleza pode ser uma armadilha e que o conhecimento pode ser tanto uma iluminação quanto um veneno. Entrem porque a poesia ainda pode abrir uma fenda no peito. Porque os clássicos não estão mortos, apenas esperam leitores menos preguiçosos. Porque uma biblioteca à noite é um lugar onde as almas antigas voltam a respirar.
Agora a madrugada pesa sobre o Rio. As velas estão quase no fim. A cidade lá fora ainda emite seus ruídos de besta ferida, mas dentro do meu quarto há outra ordem. Livros empilhados, anotações dispersas, uma xícara esquecida, sombras nas paredes. Sinto aquela paz estranha que só chega depois de atravessar muitos nomes mortos e voltar com as mãos manchadas de sentido.
A Dark Academia, para mim, não é uma fantasia de universidade antiga. Eu a considero mais como uma confissão de que aprender também pode ser um ato de luto pela beleza perdida. No mundo atual, em que convivemos com a profundidade abandonada, e com a juventude desperdiçada em distrações pequenas, talvez ainda podemos sentir falta do tempo em que se acreditava que um poema podia mudar uma vida.
E talvez ainda possa.
Talvez, sob a luz certa, com a vela certa, na noite certa, diante do livro certo, uma alma ainda consiga ouvir o chamado.
Não um chamado para ser mais culta. Isso seria pouco.
Mas para tornar-se mais perigosa para a própria mediocridade.
E, sinceramente, poucos rituais me parecem tão necessários.

Hoje é Dia Mundial do Rock.
Escrevo essa frase e quase consigo ouvir uma guitarra rasgando o ar como uma lâmina elétrica atravessando um vitral de igreja. Esta data chega com distorção. Com suor, couro, fumaça, palco, amplificadores, vozes roucas, cabelos em desordem e aquele tipo de batida que arromba o coração.
O rock nunca soube bater à porta.
Ainda bem.
Acordei tarde, como convém a uma criatura que mantém relações diplomáticas precárias com a manhã. A luz entrava pela janela do quarto com aquela insolência tropical que o Rio de Janeiro chama de dia. A cidade já estava acordada, ou pelo menos fingia estar, produzindo sua sinfonia habitual de motores, obras, buzinas, vozes atravessadas e motos possuídas por demônios mecânicos de péssimo gosto. O caos carioca não tem educação sonora. Ele não passa. Invade.
Fiz café forte. O tipo de café que parece ter sido filtrado através de uma lápide. Abri a janela por alguns segundos, tempo suficiente para sentir o bafo quente da rua, depois a fechei novamente, como quem sela uma cripta contra os vivos. Há momentos em que o mundo externo precisa ficar do lado de fora, esperneando com sua vulgaridade barulhenta, enquanto a alma faz seus rituais em silêncio.
Ou, no caso de hoje, em volume alto.
Antes mesmo de sentar à mesa, coloquei música. Não uma escolha delicada ou uma trilha de fundo para fingir produtividade. Rock não nasceu para decorar ambiente. Rock nasceu para perturbar a mobília interna do espírito. Nasceu para acordar aquilo que a educação social tenta enterrar vivo. Nasceu para dizer ao corpo: você ainda pulsa, apesar de tudo.
E eu gosto de tudo que prova que ainda pulso.
Hoje, enquanto o café esfriava sobre a mesa e meus livros me observavam com aquela paciência lúgubre dos objetos que sabem mais do que dizem, pensei na origem dessa data. O chamado Dia Mundial do Rock foi escolhido em homenagem ao Live Aid, aquele megaevento de 13 de julho de 1985, organizado para combater a fome na África e capaz de reunir nomes imensos da história do rock, como Queen e Led Zeppelin. Um desses momentos em que a música, essa velha feiticeira coletiva, se torna um gesto que vai além do simples entretenimento. Grito. Ajuntamento. Corrente elétrica atravessando multidões.
Há algo quase religioso nisso.
E digo “religioso” não no sentido dócil, ajoelhado, domesticado por bancos de madeira e moral alheia. Falo de rito. De transe. De comunhão profana. De milhares de corpos respondendo ao mesmo chamado sonoro, como se a humanidade, por algumas horas, lembrasse que antes de inventar burocracias, tribunais, aplicativos e reuniões inúteis, ela batia os pés no chão ao redor do fogo para não enlouquecer diante da noite.
O Live Aid foi isso em escala monstruosa: uma fogueira planetária acesa por guitarras.
Curioso, porém, é que apesar do nome grandioso, “mundial”, a comemoração acabou encontrando casa principalmente aqui no Brasil. Naturalmente. Este país tem uma habilidade peculiar para adotar rituais estrangeiros, deformá-los com afeto, cerveja, exagero, nostalgia e transformá-los em tradição. O Brasil é um laboratório de misturas. Às vezes isso gera beleza. Às vezes gera o tipo de bagunça que faria qualquer entidade organizada pedir transferência cósmica. Neste caso, gerou uma data bonita: um dia para celebrar o rock, suas bandas, suas lendas, seus clássicos e essa chama elétrica que insiste em não morrer.
Dizem que a ideia ganhou força depois de Phil Collins, durante o Live Aid, declarar que gostaria que aquele dia fosse lembrado como o dia mundial do rock. O público brasileiro, com essa vocação supersticiosa para transformar frase em celebração, adotou a data. E desde então, todo 13 de julho, as guitarras ganham uma espécie de licença poética para assombrar o país.
Hoje, em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba, o rock costuma sair dos fones, das salas, dos quartos escuros, das memórias e ocupar bares, palcos, festivais, tributos, eventos de rua. Clássicos do rock nacional dividem espaço com bandas de tributo e novos talentos que ainda tentam convencer o mundo de que nasceram para algo mais digno do que preencher planilhas. O que, sejamos honestos, já é uma missão espiritual bastante respeitável.
Pensei nisso enquanto escolhia o que ouvir.
Minha relação com o rock nunca foi casual. Não é uma preferência estética pendurada no armário ao lado de vestidos pretos, botas, anéis e perfumes noturnos. É mais profundo. O rock me atravessa porque entende algo que a literatura sombria também entende: a beleza nem sempre vem limpa. Às vezes ela chega com distorção, grito, maquiagem borrada, cruz invertida apenas como provocação adolescente ou como símbolo real de recusa, dependendo da inteligência de quem segura o microfone. Às vezes ela chega com dentes.
A música pesada sempre conversou com minha parte menos domesticável.
Aquela que não aceita sorrir para agradar;
Aquela que prefere uma verdade feia a uma mentira perfumada;
Aquela que olha para a noite e não pergunta onde está a saída, mas onde começa o ritual.
Quando eu era mais jovem, o rock foi uma espécie de quarto secreto. Enquanto muita gente aprendia a se encaixar, eu aprendia a me reconhecer no ruído. Havia algo libertador em ouvir guitarras fúnebres, vozes densas, teclados sombrios, baterias como passos de monstros em corredores industriais. A música me dizia, sem delicadeza alguma: você não está quebrada; talvez apenas pertença a outra frequência.
E isso, para uma alma deslocada, pode ser uma forma de sobrevivência.
O rock, sobretudo em suas vertentes mais escuras, tem essa capacidade de validar o estranho sem tentar curá-lo. Ele não diz: “venha ser normal”. Ele diz: “venha, temos amplificadores”. Uma proposta infinitamente mais honesta. A normalidade sempre me pareceu uma sala mal ventilada onde pessoas entediadas fingem satisfação. O rock abriu janelas, quebrou vidros, colocou fumaça no teto e convidou os fantasmas para dançar.
Naturalmente, aceitei.
Enquanto o dia avançava, fui separando algumas bandas que fazem parte da minha geografia noturna. Começo por Black Sabbath, porque há genealogias que precisam ser respeitadas. Sem o peso sabático, muita coisa que veio depois talvez ainda estivesse tentando descobrir como fazer a sombra soar como matéria. Depois vem Bauhaus, essa elegância cadavérica transformada em som, quase uma cripta dançante onde o gótico aprendeu a erguer o queixo.
Em seguida, The Sisters of Mercy, com aquela solenidade fria, quase litúrgica, que parece feita para caminhadas noturnas em cidades onde ninguém deveria estar acordado. London After Midnight, porque há uma teatralidade sombria ali que não tem vergonha de se mostrar. Alien Sex Fiend, com sua insanidade deliciosa, sua estética de pesadelo fluorescente, como se um manicômio tivesse descoberto sintetizadores e mau comportamento.
Depois, Killing Joke, uma banda que anuncia colapsos através de sua música. Há nelas uma energia de ruína coletiva, de profecia industrial, de mundo moderno rangendo sob o peso da própria estupidez. E como o mundo moderno oferece material abundante para esse tipo de trilha, convenhamos, eles continuam assustadoramente necessários.
Danzig entra como um altar de músculos, trevas e voz cavernosa. Alice Cooper, mestre do teatro macabro, prova viva de que o horror no palco pode ser inteligente, divertido e mais elegante do que muita solenidade artística de gente sem imaginação. W.A.S.P. chega com sua sujeira glam, sua insolência metálica, sua aura de rebelião suada e perigosa. Rob Zombie, por sua vez, parece ter construído uma discoteca dentro de um filme de terror barato, e eu digo isso como elogio. Um elogio com sangue falso, luz estroboscópica e caveiras de plástico bem posicionadas, que a humanidade ainda merece algum entretenimento antes do colapso final.
Marilyn Manson representa outra camada: provocação, grotesco, choque, decadência performática, essa tentativa de transformar o monstro social em espelho. Nem todo espelho é confortável. Alguns devolvem o rosto da cultura com a maquiagem escorrendo. E eu sempre respeitei artistas que entenderam o poder de incomodar a sala.
Moonspell me chama por outra via: a da melancolia ibérica, do peso noturno, da poesia escura envolvendo guitarras como neblina sobre ruínas. Mono Inc. traz essa grandiosidade gótica quase cerimonial, perfeita para quando a alma deseja vestir uma capa invisível e caminhar dramaticamente pelo corredor de casa, porque às vezes a vida doméstica precisa de trilha sonora digna. The 69 Eyes oferece o vampirismo urbano, sensual, noturno, com cheiro de couro, neon e beijos dados perto demais da perdição.
Deathstars me agrada pelo frio industrial, pela estética metálica, como se o futuro tivesse sido construído por vampiros cibernéticos com problemas emocionais. Gothminister carrega teatralidade, sombra, peso, uma espécie de culto elétrico para quem gosta de imaginar igrejas dominadas por sintetizadores e monstros bem vestidos. Lordi, claro, com sua monstruosidade carnavalesca, prova que às vezes o grotesco precisa apenas de riffs e máscaras absurdas para virar celebração.
In This Moment me atrai pelo ritual visual, pelo feminino sombrio, pela performance como possessão. Crucified Barbara traz aquela força crua, direta, de mulheres rasgando palco sem pedir autorização ao clube dos homens barulhentos, que já fez barulho demais na história e ainda assim continua achando que inventou o trovão. Lesbian Bed Death tem esse charme horror punk, vampiresco, teatral, um nome que por si só já parece ter saído de uma sessão dupla em cinema decadente. E a lista continua. Sempre continua. Toda alma noturna tem mais bandas do que sanidade disponível para organizá-las.
O que me fascina no rock é justamente sua multiplicidade.
Ele pode ser protesto, sedução, blasfêmia, catarse, espetáculo, luto, deboche, transe, rebelião, memória. Pode nascer de um porão, de uma garagem, de uma cidade industrial adoecida, de uma juventude entediada, de uma dor íntima, de uma fúria política, de uma vontade quase infantil de fazer barulho suficiente para que o mundo pare de fingir que está tudo bem.
Porque não está.
Nunca esteve.
O rock sempre soube disso.
Talvez por isso tantos moralistas tenham tentado culpá-lo por tudo. Pela juventude perdida, pela sexualidade, pela rebeldia, pela violência, pelo Diabo, pela queda dos bons costumes, pela maquiagem preta, pelas roupas rasgadas, pelas guitarras altas, pelos cabelos compridos, pela imaginação. Como se a humanidade precisasse de ajuda externa para ser caótica. Que presunção encantadora. O ser humano inventou guerras, tribunais injustos, fome, exploração, hipocrisia religiosa, burocracia e reunião de condomínio, mas aparentemente o problema era um adolescente ouvindo Black Sabbath.
A moral pública sempre teve um ouvido seletivo.
Escuta guitarras e grita escândalo.
Escuta injustiça e chama de tradição.
Talvez seja por isso que o rock permanece necessário. Ele não é apenas música. Mas sim um incômodo histórico. Uma recusa sonora. Um modo de dizer que a alma não foi feita para caber sem atrito nas instituições, nos horários, nas expectativas familiares, nos empregos de vidro, nas relações pasteurizadas, nas biografias educadas. O rock lembra ao corpo que ele tem sombra. Lembra à mente que ela tem ruído. Lembra à cidade que seus prédios repousam sobre cemitérios invisíveis.
Hoje, enquanto escrevia, percebi como minha literatura e minha música se alimentam da mesma substância. Escrevo como quem ouve uma guitarra grave ao fundo. Minhas frases muitas vezes nascem de um ritmo interno: lento, pesado, ritualístico, depois súbito, cortante, quase percussivo. Um bom parágrafo, para mim, precisa ter respiração de música. Precisa criar atmosfera, tensão, silêncio e explosão. Precisa saber quando sussurrar e quando derrubar a porta.
O rock me ensinou isso antes mesmo que eu percebesse.
Ensinou que intensidade não é descontrole, é direção.
Que teatralidade não é falsidade, é linguagem.
Que o sombrio não precisa ser imóvel.
Pode dançar.
Pode gritar.
Pode seduzir.
Pode rir com a boca manchada de vinho e cinza.
No fim da tarde, saí por alguns minutos. O céu tinha aquela cor indefinida de fim de dia carioca, uma mistura de ouro cansado, cinza urbano e promessa de noite. Na rua, ouvi de longe alguém tocando guitarra em algum apartamento. Mal dava para distinguir a música, mas reconheci a intenção: aquele som de quem ainda acredita que uma parede pode ser atravessada pelo volume certo. Sorri. Discretamente, porque sorrir demais em público pode atrair conversas, e conversas diurnas são um risco que evito com prudência de vampira alfabetizada.
Comprei vinho. Voltei para casa. Acendi uma vela.
A noite então se instalou como uma velha cúmplice.
Coloquei Bauhaus. Depois Black Sabbath. Depois Moonspell. Deixei as músicas atravessarem o quarto como entidades convocadas. Algumas vinham com passos lentos. Outras com botas sujas de lama. Outras com dentes. Meu escritório parecia menos um local de trabalho e mais uma pequena capela do ruído. Livros nas prateleiras, cadernos abertos, canetas espalhadas, a taça de vinho junto à mão, e aquela sensação familiar de que a arte, quando é verdadeira, não entra em nossa vida para deixá-la mais confortável. Mas sim para torná-la mais real.
E realidade, meus queridos, é uma coisa feroz.
Pensei no Live Aid novamente. Em 1985. Naquela multidão. Nas vozes atravessando continentes. Na música sendo usada como convocação coletiva. Há algo profundamente comovente em imaginar que, por um instante, o rock, tão acusado de decadência, tornou-se também instrumento de compaixão pública. Não que isso o purifique. Purificação é um conceito superestimado por gente que tem medo da lama. O interessante é justamente a contradição: a mesma música que escandaliza pode unir. A mesma guitarra que os moralistas chamam de infernal pode servir de ponte. O mesmo palco que parece templo da rebeldia pode se tornar altar de solidariedade.
A arte verdadeira sempre foi contraditória.
Por isso é viva.
O rock não precisa ser santo para ser necessário. Aliás, prefiro que não seja. Santidade demais costuma engessar. O rock é mais bonito quando permanece sujo, inquieto, sensual, dramático, irritante, excessivo, perigoso para móveis frágeis e consciências frágeis. Ele não veio para sentar com boa postura. Veio para jogar a cadeira longe e perguntar por que todos estavam fingindo conforto.
Essa pergunta me interessa.
Talvez por isso eu tenha passado tantos anos acompanhada por bandas que falam de morte, desejo, sombra, alienação, horror, decadência, rebelião, luto, noite. Elas não curaram minhas feridas, e ainda bem, porque certas feridas são arquivos. Mas deram a elas uma batida. Deram uma estética. Deram uma espécie de irmandade sonora. Quando ouvimos uma música e sentimos que ela nos compreende antes mesmo de nós sabermos explicar o que somos, acontece uma pequena possessão. Somos tomados por algo que nos devolve a nós mesmos.
Esse é o milagre sombrio do rock.
Não nos salva da escuridão.
Ensina-nos a amplificá-la.
E às vezes, amplificar a escuridão é a única forma de fazê-la parar de nos devorar em silêncio.
Agora passa da meia-noite. A cidade ainda rosna lá fora. Uma moto infernal acaba de atravessar a rua como se carregasse um exorcismo de péssima qualidade no escapamento. Respirei fundo, porque nem toda possessão merece resposta. O vinho está pela metade. A vela já se inclinou para um lado, cansada, mas insistente. Sobre a mesa, meu caderno aberto guarda anotações para um próximo texto. Meu corpo sente o peso do dia, mas minha alma está elétrica.
Talvez seja isso que o rock faz melhor.
Ele lembra que ainda existe eletricidade onde o mundo tentou instalar obediência.
Por isso celebro este dia.
Celebro Queen e Led Zeppelin naquele gesto histórico do Live Aid. Celebro Phil Collins e sua frase adotada com fervor por este país tropicalmente caótico. Celebro o Brasil que transformou 13 de julho em ritual de guitarras. Celebro as bandas clássicas, os tributos, os novos talentos, os palcos pequenos, os bares enfumaçados, os festivais, os adolescentes descobrindo um riff como quem encontra uma porta secreta, os adultos que ainda não se renderam à anemia espiritual da vida correta.
E celebro, sobretudo, o direito de ser barulho em um mundo que nos prefere obedientes.
Hoje é Dia Mundial do Rock.
Que as guitarras sejam velas acesas na cripta do cotidiano;
Que os tambores acordem os ossos dos conformados;
Que as vozes roucas atravessem as paredes da normalidade;
Que o baixo pulse como coração de monstro antigo.
E que, nesta noite, cada alma que se sentiu deslocada, estranha, maldita, inadequada ou simplesmente cansada da suavidade falsa do mundo encontre numa música a confirmação mais bela e brutal:
você não nasceu para caber no silêncio dos outros.
Você nasceu para descobrir o próprio volume.