
À meia-noite, encarei a moldura,
O vidro me julgava em sua sentença;
Meu rosto era uma antiga costura
De culpas, de beleza e de descrença.
Toquei o vidro: sangrou a fissura,
Chamando a perfeição de velha doença;
Cada estilhaço abriu outra figura,
E todas me exigiram a presença.
Eu ri, e esmaguei cada pedaço,
Até meu sangue ungir todo o espaço,
Mas vi meu rosto intacto na ferida.
Sem vidro, a voz voltou mais funda e fria:
“Seja quem querem”, dentro de mim dizia.
O espelho morreu. Eu fiquei refletida.
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