
No véu do abismo, em noite desgrenhada,
guio o timão do nada e da agonia,
o vento uiva em voz desesperada,
trazendo almas à minha companhia.
Meu casco corta a treva envenenada,
a lua sangra em fria melancolia,
e o mar (prisão de espuma atormentada)
sussurra preces de necromancia.
O sino toca, o tempo se desfaz,
Sou capitã dos mortos e sua paz,
espelhos vivos da minha loucura.
Em mim vejo mil rostos sem perdão,
a caravela é feita de solidão,
e o mar... meu templo, minha sepultura.