Resenha literária por Luna Bela Morte
Obra: Trauma
Autor: H. Francisconi (Hilário Francisconi)
Publicação: Edição do autor, São Vicente (SP), 2026
Produção gráfica: Costelas Felinas Editora
Gênero: Romance psicológico / Drama contemporâneo
Extensão: 103 páginas numeradas na edição analisada

Existem abandonos que não exigem despedidas. Acontecem dentro de casa, entre pessoas que continuam presentes, mas já não conseguem oferecer aquilo de que uma criança mais necessita: segurança emocional.
Em Trauma, H. Francisconi explora justamente essas formas silenciosas de sofrimento. O romance acompanha uma jovem cuja existência é marcada pelas consequências de uma estrutura familiar desfeita e pelas dificuldades de construir uma identidade emocional que não esteja permanentemente submetida ao medo da rejeição.
Não estamos diante de uma história sobre acontecimentos extraordinários. O autor prefere investigar um território bastante conhecido, embora frequentemente negligenciado: a intimidade de uma família que, enquanto tenta reorganizar seus afetos, deixa marcas profundas em alguém que não participou das decisões responsáveis por sua dor.
E talvez seja essa a primeira questão verdadeiramente perturbadora do livro: até que ponto os adultos compreendem os estragos que provocam enquanto estão ocupados tentando reconstruir a própria felicidade?
A narrativa apresenta Victor, professor universitário, e Kátia, jornalista, cujo casamento chega ao fim depois de anos de incompatibilidade. A separação, relativamente compreensível sob a perspectiva dos dois, produz consequências muito menos administráveis para Agnes, a filha adolescente.
Aos quinze anos, Agnes já demonstra dificuldades de socialização, insegurança e uma tristeza persistente. Na escola, permanece isolada, buscando nos livros e na escrita uma espécie de proteção contra um mundo que lhe parece incapaz de acolhê-la.
É interessante observar como Francisconi estabelece uma relação entre a solidão da personagem e sua inclinação artística. Agnes lê, escreve e, posteriormente, encontra na pintura outra maneira de expressar aquilo que não consegue comunicar com facilidade.
A arte surge como um idioma alternativo para uma sensibilidade que cresceu acostumada ao silêncio.
Seu acompanhamento com a psicanalista Fernanda constitui uma das passagens mais significativas da narrativa. Nas consultas, o leitor começa a compreender que o sofrimento de Agnes não se resume ao divórcio dos pais. Há uma história anterior de ausências, conflitos domésticos e necessidades afetivas que permaneceram insatisfeitas.
O mérito dessas passagens está em apresentar o trauma como um processo acumulativo. As experiências que fragilizam Agnes não surgem de um único episódio devastador. São pequenas rupturas sucessivas, aparentemente administráveis quando observadas isoladamente, mas capazes de comprometer sua percepção de si mesma.
A personagem cresce convencida, em alguma medida, de que precisa adaptar-se aos outros para merecer afeto.
E essa é uma prisão particularmente cruel, porque dispensa carcereiros.
A história adquire novos contornos quando Victor se aproxima de Diana, uma advogada que também passou por um divórcio. Seu filho, Ulisses, jovem profissional da área tecnológica, retorna dos Estados Unidos e acaba conhecendo Agnes.
O relacionamento entre os dois transforma a trajetória da protagonista. O envolvimento amoroso surge acompanhado de expectativas de felicidade, pertencimento e estabilidade. Entretanto, o passado emocional de Agnes continua influenciando suas escolhas.
Francisconi constrói uma relação interessante entre romantismo e insegurança. Ulisses é apresentado como alguém impulsivo, sedutor e profundamente inclinado a idealizar suas experiências amorosas. Agnes, por sua vez, encontra naquele relacionamento a promessa de uma segurança que lhe faltou durante a formação emocional.
Essa aproximação revela uma das questões centrais do romance: duas pessoas podem chamar de amor aquilo que, para cada uma, representa necessidades completamente diferentes.
Para Agnes, amar significa encontrar permanência.
Para Ulisses, a paixão parece também envolver a excitação permanente da novidade.
Existe uma tragédia discreta nessa incompatibilidade. Não necessariamente a tragédia de duas pessoas incapazes de amar, mas a de indivíduos que compreendem o amor por caminhos que não se encontram.
O amadurecimento de Agnes, atravessado por casamento, maternidade e novas decepções, constitui o principal movimento da narrativa. A protagonista precisa enfrentar circunstâncias que reativam sentimentos antigos e a obrigam a confrontar sua própria fragilidade.
A maternidade acrescenta outra dimensão à história. Com Pedro, o romance introduz questões relacionadas ao desenvolvimento infantil, ao cuidado e às responsabilidades familiares, ampliando o alcance temático da obra.
Mas é especialmente no vínculo entre passado e presente que encontro seu aspecto mais interessante.
Agnes não sofre exclusivamente por aquilo que lhe acontece. Ela sofre também pela maneira como aprendeu a interpretar aquilo que lhe acontece.
Uma ausência pode confirmar a ideia de que não merece ser amada. Uma decepção pode reabrir a sensação de abandono. Uma atitude aparentemente insignificante pode adquirir proporções enormes quando encontra uma ferida antiga.
É nesse ponto que Trauma apresenta sua reflexão mais consistente: experiências dolorosas não permanecem necessariamente confinadas ao passado. Elas podem influenciar decisões, expectativas e relacionamentos muito depois de os acontecimentos originais terem terminado.
A formação intelectual de Francisconi revela-se claramente em sua maneira de escrever.
Seu narrador é onisciente, acompanha diferentes personagens e frequentemente interrompe o desenvolvimento dos acontecimentos para apresentar explicações sobre comportamentos, estruturas de personalidade e conflitos emocionais.
As referências à psicanálise, à linguística e à cultura aparecem incorporadas ao texto, conferindo-lhe uma identidade bastante particular.
Em determinado momento, por exemplo, Victor discute conceitos de Ferdinand de Saussure durante uma conversa doméstica. Em outros, os comportamentos dos personagens são examinados por meio de interpretações psicológicas.
Essa característica demonstra a intenção do autor de construir um romance que também funcione como espaço de reflexão.
Entretanto, considero que essa escolha produz resultados desiguais.
O excesso de explicações, em algumas passagens, diminui a força das próprias situações narradas. Frequentemente, o narrador informa ao leitor o que determinado personagem sente, quais características psicológicas possui e por que age de certa maneira, antes que suas atitudes permitam uma descoberta mais espontânea.
A literatura possui uma liberdade que os tratados teóricos desconhecem: pode apresentar uma contradição humana sem imediatamente tentar resolvê-la.
Quando Francisconi permite que seus personagens conversem, hesitem ou revelem suas fragilidades, a narrativa ganha proximidade emocional. Quando assume uma postura excessivamente explicativa, aproxima-se de um estudo de comportamento, sacrificando parte da sutileza literária.
As classificações psicológicas também merecem atenção. Algumas características de personalidade são apresentadas de maneira bastante categórica, particularmente no caso de Ulisses. Uma abordagem menos conclusiva poderia ampliar sua complexidade e permitir que o leitor encontrasse contradições mais interessantes.
O mesmo cuidado seria desejável nas passagens relacionadas ao desenvolvimento de Pedro. O assunto merece sensibilidade, e certas interpretações poderiam receber maior contextualização, evitando que características do desenvolvimento infantil fossem percebidas apenas como elementos dramáticos.
Não considero essas limitações suficientes para invalidar a proposta do romance, mas elas demonstram como o desejo de explicar a natureza humana pode, paradoxalmente, reduzir algumas de suas ambiguidades.
Outro aspecto digno de análise é a organização temporal.
Francisconi utiliza capítulos curtos e uma progressão predominantemente cronológica, acompanhando diferentes etapas da vida de seus personagens. A narrativa se desloca entre Niterói e os Estados Unidos, com ambientes que ajudam a situar as mudanças familiares e afetivas.
As referências geográficas, especialmente às paisagens de Niterói, acrescentam concretude ao romance. O Parque da Cidade, a Praia de Icaraí e outros espaços não aparecem somente como pontos de localização, mas como lugares associados a encontros, lembranças e transformações.
Há momentos em que a descrição desses ambientes alcança uma delicadeza que poderia ser explorada com maior frequência.
O ritmo, contudo, oscila.
Certos diálogos e explicações ocupam espaço considerável, enquanto acontecimentos decisivos são resolvidos com relativa rapidez. Essa diferença pode provocar a sensação de que a narrativa se demora nas justificativas e se apressa justamente quando deveria aprofundar as consequências emocionais de uma escolha.
O desfecho caminha em direção à reconstrução afetiva e à possibilidade de uma existência mais serena.
A presença de Elígio representa uma alternativa aos relacionamentos anteriores de Agnes, especialmente por sua disposição para escutá-la e reconhecer suas capacidades.
Gosto da intenção presente nessa construção: sugerir que experiências afetivas saudáveis podem contribuir para a recuperação da confiança.
Minha ressalva está na proximidade entre a chegada de um novo amor e o alívio do sofrimento psicológico.
Embora o romance reconheça que as antigas dores de Agnes não desaparecem completamente, alguns momentos ainda aproximam a recuperação emocional da realização amorosa de maneira excessivamente conveniente.
Prefiro compreender essa transformação como o início de uma nova relação da personagem consigo mesma, e não como uma espécie de salvação proporcionada por outro indivíduo.
Ninguém deveria depender da chegada de alguém para finalmente conquistar o direito de existir sem medo.
A experiência amorosa pode oferecer acolhimento. Pode ajudar a reconstruir a confiança. Mas a superação de um trauma não deveria ser confundida com a substituição da pessoa que provocou sofrimento por outra que oferece ternura.
Essa distinção tornaria a trajetória de Agnes ainda mais poderosa.
Trauma é um romance de intenções sinceras, interessado em compreender o sofrimento psicológico e a maneira como os vínculos familiares influenciam a formação emocional de uma pessoa.
Seu maior mérito está na escolha da protagonista e na persistência de suas feridas. Agnes não é construída como alguém que atravessa uma única experiência dolorosa e encontra imediatamente a solução. Sua vulnerabilidade acompanha diferentes etapas da vida, assumindo novas formas conforme suas relações se transformam.
Também considero positiva a presença da arte como instrumento de expressão. A pintura oferece a Agnes uma possibilidade de afirmação individual que ultrapassa suas experiências amorosas. Trata-se de um elemento que mereceria, inclusive, maior protagonismo ao longo da narrativa.
A obra encontra suas principais limitações no caráter excessivamente explicativo de algumas passagens, em determinadas generalizações psicológicas e na rapidez com que certos conflitos encontram encaminhamento.
A prosa é formal, por vezes elaborada, demonstrando cuidado vocabular e interesse intelectual. Contudo, nem sempre essa elaboração favorece a naturalidade dos diálogos ou a intensidade das cenas.
Francisconi parece mais interessado em fazer o leitor compreender seus personagens do que em permitir que o leitor os descubra.
São propostas diferentes. Ambas podem produzir literatura significativa, mas a segunda frequentemente oferece experiências emocionais mais profundas.
Ainda assim, reconheço a relevância de um romance que trata o sofrimento psicológico como parte da experiência humana e procura discutir as consequências das ausências afetivas sem depender de grandes acontecimentos espetaculares.
Recomendo Trauma especialmente aos leitores interessados em dramas familiares, relacionamentos afetivos e narrativas que dialogam diretamente com conceitos da psicologia e da psicanálise.
Terminei esta leitura com uma convicção que considero essencial: nem toda cicatriz representa uma ferida ainda aberta, mas nenhuma história de sofrimento merece ser reduzida à facilidade de um diagnóstico ou à promessa de um final feliz.
O que mais me interessa em Agnes não é o amor que ela consegue encontrar. É a possibilidade de que, depois de tantos anos tentando corresponder às expectativas alheias, finalmente possa reconhecer o próprio valor.
Porque sobreviver ao abandono é doloroso.
Mas passar a vida acreditando que precisamos merecer o direito de não sermos abandonados pode ser ainda pior.
Avaliação final: ★★★☆☆ — 3 de 5 estrelas | BOM
Trauma apresenta uma proposta psicológica relevante, uma protagonista sensível e reflexões pertinentes sobre abandono, vínculos familiares e reconstrução emocional. Sua força está na humanidade do tema; sua fragilidade, no excesso de explicações que por vezes substituem a experiência literária. É uma obra que possui algo a dizer, embora pudesse confiar mais na capacidade do leitor de escutar aquilo que permanece nas entrelinhas.
Luna Bela Morte
Escritora, poetisa gótica e resenhista literária.