Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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Título: Kiriale
Autor: Alphonsus de Guimaraens
Publicação analisada: edição original digitalizada
Impressão: Typographia Universal (a vapor), Porto
Ano: 1902
Gênero: poesia lírica, religiosa, decadentista e de forte feição simbolista

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A edição que tenho diante de mim não é essa da foto, mas sim uma edição muito rara, que traz Kiriale como livro de poesia e registra sua impressão no Porto, pela Typographia Universal, em 1902. Apesar de que a edição da editora 7Letras também ficou muito boa, mas como eu já tenho a versão original, acho justo falar sobre essa raridade. A própria folha de rosto já prepara o espírito para o que virá: antes mesmo dos poemas, Alphonsus convoca o salmo penitencial e Paul Verlaine. Não estamos entrando apenas em um simples livro de versos. Isso aqui, meus queridos, está mais para um templo particular, e convém não esperar que as janelas sejam abertas.

Talvez seja justamente essa a melhor maneira de compreender Kiriale: como uma liturgia poética construída por alguém que parece incapaz de separar amor, morte, culpa, desejo e transcendência.

O livro não possui personagens ou enredo no sentido tradicional. Seu conflito é mais íntimo e, por isso, mais cruel. De um lado está a carne: o desejo, a mulher, a sensualidade, a lembrança, aquilo que seduz. Do outro, a promessa espiritual: Cristo, Nossa Senhora, o arrependimento, a oração, o céu. Entre ambos está o poeta, e ele quase nunca parece confortável em nenhum dos dois lados.

O índice revela que essa arquitetura está longe de ser casual. A obra organiza-se em blocos, passando por um primeiro conjunto de poemas, por uma seção explicitamente dedicada aos sonetos, por Sam Bom Jesus de Mattosinhos, A Cathedral, Ossa Mea e, finalmente, pelo epílogo Dies Irae. A progressão sugere um movimento que vai da experiência pessoal e visionária para algo cada vez mais ritualístico, funerário e escatológico.

E aqui está um dos grandes méritos do livro: Alphonsus não usa o vocabulário religioso como decoração.

Ele acredita poeticamente nele.

Ou, pelo menos, acredita o suficiente para sofrer dentro dele.

Em Initium, abertura propriamente dita da obra, já encontramos aquilo que será uma espécie de anatomia espiritual de Kiriale: insônia, agonia, espectros, múmias, esqueletos, sensualidade, inferno e oração. O quarto do poeta torna-se simultaneamente cela, confessionário e alcova. Quando o desejo e o pesadelo se tornam insuportáveis, surge a invocação de Santa Maria; a lua acaba identificada com Nossa Senhora. O movimento é revelador: o símbolo natural deixa de ser simplesmente uma paisagem e adquire uma função religiosa.

Esse processo ocorre constantemente.

A lua nunca é apenas lua.

O sino nunca é apenas sino.

A mulher nunca é apenas mulher.

A caveira nunca é somente osso.

Tudo parece contaminado por um segundo significado.

É nesse ponto que Kiriale se torna particularmente poderoso para mim. O macabro de Alphonsus não depende do choque. Ele não precisa mostrar violência de maneira espalhafatosa porque compreende algo que muito horror contemporâneo, ocupado demais exibindo vísceras como um açougueiro com pretensões artísticas, às vezes esquece: a ideia da morte pode ser mais inquietante do que o cadáver.

Veja-se no poema A Cabeça de Corvo. O objeto banal é um tinteiro moldado como cabeça de corvo. Nas mãos do poeta, transforma-se em instrumento quase ritualístico da própria criação. Ele mergulha a pena naquele corpo negro e dela retira os versos. Escrever passa a parecer uma espécie de extração doentia, como se a poesia precisasse ser retirada da garganta de um presságio. O próprio eu lírico reconhece que dali nasce o desespero de seus poemas.

É uma imagem excelente porque fala também do ofício do poeta: escrever aquilo que o atormenta utilizando justamente o objeto que simboliza o tormento.

Poucas páginas depois, em O Cachimbo, temos uma operação semelhante. Um cachimbo em forma de crânio conduz à contemplação da caveira da mulher amada. O fogo, a fumaça, a boca e os beijos pertencem simultaneamente ao campo erótico e ao funerário. Desejar alguém significa, inevitavelmente, desejar alguém que morrerá.

Essa ideia atravessa o livro inteiro.

Alphonsus parece observar a beleza já enxergando a decomposição dentro dela.

Há algo de profundamente desconfortável nisso, porque a morte não aparece como acontecimento futuro. Ela já habita o presente. O rosto contém a caveira. O amor contém o luto. O beijo traz consigo a lembrança dos lábios que um dia serão pó.

Em Visão dos Solitários, essa duplicidade alcança uma de suas expressões mais interessantes. A figura feminina é bela, quase celestial, mas cercada por espectros e sombras. O poeta termina diante de uma contradição magnífica: aquela mulher pode tocar o céu enquanto mantém os pés no inferno.

Esta mulher dividida entre santidade e perdição não é acidente. Ela revela uma tensão psicológica central de Kiriale.

A sexualidade frequentemente aparece como ameaça à ascese.

O desejo feminino seduz e assusta.

O corpo chama, enquanto o espírito deseja fugir.

Em Ascetas, por exemplo, o poeta admira homens medievais cujos joelhos sangraram de tanto rezar e imagina uma existência monástica capaz de afastá-lo da carne e da luxúria. Mas a própria sensualidade invade o poema justamente no momento em que ele tenta expulsá-la. A carne recusada volta ainda mais visível.

Psicologicamente, isso é fascinante. Aliás, fascinante demais!

Quanto mais o eu lírico tenta purificar o desejo, mais o desejo retorna fantasmagórico.

É quase impossível ler essa poesia sem perceber que o demônio e a mulher às vezes compartilham a mesma porta de entrada. Em Succubus, esse mecanismo torna-se explícito: erotismo, pesadelo e entidade demoníaca se misturam numa experiência noturna sufocante. O horror vem menos da criatura do que da impossibilidade de determinar onde termina a tentação externa e começa o desejo do próprio sujeito.

E então surge Deus.

Não como uma resposta simples, não… mas sim como uma força de contraposição.

Em Sam Graal, o conflito é praticamente dramatizado entre tentação e oração. O eu lírico imagina-se resistindo à miséria humana por meio do recolhimento espiritual e termina buscando o Santo Graal como vaso eucarístico.

Essa presença religiosa poderia facilmente transformar o livro em poesia catequética. Não transforma.

Porque Alphonsus é mais interessante quando sua fé está ferida.

Seu Deus não elimina a angústia. Sua religião oferece um idioma para suportá-la.

E isso, com certeza, faz uma enorme diferença.

Os cemitérios também desempenham uma função decisiva. Não são simplesmente cenários góticos. São espaços filosóficos onde amor, memória e matéria finalmente se encontram. Em poemas como Luar sobre a cruz da tua cova, o túmulo não encerra apenas uma vida. Encerra uma promessa amorosa. O sonho do eu lírico encontra a cruz da pessoa morta e, diante dela, transforma-se em pó.

Há aí uma percepção brutal sobre o luto: a pessoa amada morre uma vez; os futuros imaginados ao lado dela morrem incontáveis vezes.

Talvez seja por isso que os mortos de Kiriale raramente estejam completamente mortos. Eles retornam como espectros, lembranças, vozes, mulheres, presságios. A morte física parece insuficiente para romper os vínculos da memória.

Em Spectrum, o morto regressa não como um mero susto sobrenatural, mas como sinal de cobrança. O espectro atravessa a paisagem iluminada e OBRIGA o sujeito a recordar.

É outro aspecto que admiro profundamente no livro: seus fantasmas têm função moral e emocional.

Eles não aparecem para assustar.

Aparecem porque algo não terminou.

Em O Campanário, por sua vez, encontramos uma das imagens mais melancólicas da coletânea: um campanário abandonado, sem sinos e sem sineiros. O lugar religioso continua de pé, mas perdeu sua voz. A morte permanece, os caixões permanecem, as covas permanecem, mas aquela antiga comunicação entre o mundo humano e o sagrado parece enfraquecida.

O cenário exterior torna-se retrato de um estado interior.

Isso é puro território simbolista: o mundo físico não representa somente aquilo que vemos, mas aquilo que a consciência projeta sobre ele.

Também merece atenção a musicalidade. Alphonsus trabalha obsessivamente com repetições, orações, nomes religiosos, sinos, ladainhas e fórmulas litúrgicas. Em Ladainha dos Quatro Santos, a própria estrutura da oração é apropriada pela poesia. Entre os santos invocados aparece uma presença reveladora: a própria Morte.

Eis uma das chaves de Kiriale.

A Morte não ocupa apenas o lugar do terror.

Às vezes, ocupa o lugar da santa.

Em Ossa Mea, o processo chega à sua forma mais nua. Ossos, mãos de finada, sepulturas, lábios destinados ao pó e visões funerárias formam um pequeno ofício dos mortos. Num dos sonetos, a Morte chega silenciosamente e fecha os olhos daqueles que dormem, quase como uma figura misericordiosa.

Essa ambiguidade impede que o livro seja reduzido a uma coletânea mórbida.

Alphonsus teme a morte, deseja a morte, contempla a morte e encontra consolo nela.

Um relacionamento perfeitamente saudável, portanto. Para padrões de poetas simbolistas.

O ponto culminante dessa construção encontra-se no encerramento, com Dies Irae. Depois de tantos cemitérios privados, amores mortos e espectros pessoais, o horizonte se amplia para o Juízo. A Morte deixa de ser apenas uma experiência individual e torna-se um destino universal.

Estruturalmente, é uma escolha bastante coerente. O livro começa dentro da consciência atormentada do indivíduo e termina diante da perspectiva absoluta da eternidade.

Do quarto ao cemitério.

Do cemitério ao altar.

Do altar ao Juízo.

Há, porém, uma dificuldade real para o leitor contemporâneo. A ortografia da edição de 1902 exige adaptação, e o vocabulário religioso pressupõe alguma familiaridade com referências católicas, bíblicas e litúrgicas. A recorrência de luares, túmulos, espectros, sinos, pecados, orações e cemitérios também pode produzir sensação de repetição para quem procura variedade temática imediata.

Eu não considero isso um defeito essencial.

Em grande parte, essa repetição funciona como arquitetura. Kiriale comporta-se como uma missa sombria: certas imagens retornam porque são motivos rituais. O sino precisa tocar novamente. A lua precisa reaparecer. O morto precisa voltar. O pecador precisa tornar a ajoelhar-se.

O que poderia ser monotonia torna-se obsessão.

E obsessão, quando literariamente controlada, pode ser uma força extraordinária.

Meu maior elogio a Kiriale está justamente aí: Alphonsus de Guimaraens consegue criar um universo poético reconhecível. Depois de algumas páginas, já sabemos quando entramos nele. Há sempre uma igreja em algum lugar. Um sino distante. Uma mulher que talvez esteja morta. Uma lua excessivamente branca. Um homem tentando salvar a alma enquanto a carne insiste em recordar que existe.

Não leio Kiriale como um livro sobre a morte.

Leio-o como um livro sobre a impossibilidade de separar aquilo que desejamos daquilo que perdemos.

A morte está em toda parte porque o amor também está.

A religião está em toda parte porque o pecado também está.

O céu é tão necessário porque o inferno permanece perto demais.

E talvez seja exatamente essa contradição que mantenha o livro vivo mais de um século depois de sua publicação.

Comentário crítico: Kiriale possui uma unidade estética incomum. Seus símbolos religiosos, funerários e eróticos não funcionam isoladamente: eles se contaminam até formar uma linguagem própria. A insistência temática pode afastar leitores que desejam variedade, e a edição original exige paciência por causa da ortografia histórica. Nada disso diminui, para mim, a força da obra. Alphonsus escreve como alguém que percebeu que carregamos nossa própria sepultura conosco desde o nascimento, e consegue transformar essa certeza desagradável em beleza.

Avaliação: ★★★★★ 5/5 — Perfeito!

OBS.: É muito raro eu dar cinco estrelas para um livro, mas esse aqui me cativou demais por fazer algo perturbador: ensinar a Morte a rezar.

Luna Bela Morte
Enviado por Luna Bela Morte em 06/10/2026
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