Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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A brancura depois do último horizonte

Livro: “A narrativa de A. Gordon Pym”, de Edgar Allan Poe.

Resenha por: Luna Bela Morte.

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Fechei o livro com a ponta dos dedos, devagar, como se a última página pudesse morder.

Passava da meia-noite em Angra dos Reis. A minha casa respirava em pequenos estalos de madeira, e o vento trazia pelas janelas o cheiro úmido do mar misturado ao perfume frio do café esquecido sobre a mesa. Do lado de fora, a escuridão havia apagado as ilhas. Restavam algumas luzes distantes, vacilando sobre a água como velas acesas para mortos sem túmulo.

Terminei A Narrativa de Artur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe, e permaneci imóvel durante alguns minutos, escutando aquele silêncio que surge depois de certas leituras. A ressaca literária foi mais que um simples silêncio pacífico de uma história encerrada, foi o que fica quando alguma coisa atravessa a porta, entra em nossa casa e se recusa a dizer o próprio nome.

Poe fez isso comigo.

A primeira crueldade do livro é fingir que deseja conquistar nossa confiança. Artur Gordon Pym apresenta sua narrativa como um relato verdadeiro, hesitante, recomposto pela memória e publicado com a colaboração de um certo senhor Poe. O autor entra na própria ficção usando a máscara de editor, cúmplice e possível falsificador. Antes mesmo de o navio partir, a realidade já começou a apodrecer. O leitor acredita porque desconfia; desconfia porque tudo parece excessivamente preciso. Datas, latitudes, rotas, espécies de animais, procedimentos náuticos. A verdade veste um uniforme impecável enquanto esconde o cadáver no porão.

Essa estratégia me fascinou. Há uma elegância perversa em oferecer documentos como quem distribui álibis. Poe compreendeu que a mentira mais eficiente não precisa parecer inocente. Precisa apenas carregar detalhes suficientes para cansar a suspeita.

A história começa com o fascínio de Pym pelo oceano, alimentado pelas aventuras narradas por Augusto. Depois de uma imprudente viagem noturna no pequeno Ariel, que quase termina em morte, seria razoável esperar que o rapaz se afastasse do mar. Acontece o contrário. O perigo o seduz. Quanto mais terríveis são os relatos, maior se torna seu desejo de partir.

Conheço esse impulso. Enquanto o normal seria contemplar o abismo para aprender a evitá-lo, sou do tipo de pessoa que começa imediatamente a procurar uma escada.

Pym embarca clandestinamente no Grampus e se esconde num compartimento escuro do porão. Para mim, essa é uma das passagens mais sufocantes do romance. O oceano, que deveria representar vastidão, transforma-se numa prisão sem luz, impregnada de ar pestilento, madeira úmida e alimentos em decomposição. Pym perde a noção do tempo, a lucidez e quase a própria identidade. Seu único vínculo com o mundo é Tigre, o cão que atravessa a escuridão levando uma mensagem.

Enquanto lia, precisei abrir a janela.

O mar estava ali, a poucos passos da minha casa, mas naquela hora pareceu ocupar todos os cômodos. O som das ondas chegava abafado, como se viesse debaixo do assoalho. Olhei o copo de água ao lado do livro e pensei em como os objetos mais banais se tornam obscenos diante de um personagem que morre de sede. Bebi. Senti culpa. Depois ri de mim mesma...

A partir do motim no Grampus, o romance abandona qualquer promessa de aventura juvenil e mostra os dentes. Há violência, naufrágio, fome, delírio e uma lenta erosão das fronteiras que separam o homem civilizado do animal encurralado. A cena em que os sobreviventes tiram a sorte para decidir quem será sacrificado e devorado conserva uma brutalidade difícil de neutralizar. Richard Parker perde. Os outros vivem um pouco mais.

Poe não enfeita a fome com grandeza moral. A necessidade entra em cena e reduz princípios a ruídos produzidos por um estômago vazio. No mar, longe das instituições e dos olhos alheios, a civilização revela quanto depende de paredes, testemunhas e refeições regulares. Somos muito éticos depois do jantar.

A morte de Augusto me perturbou de outra maneira. O corpo deteriorado, lançado às águas fosforescentes e imediatamente disputado pelos tubarões, produz uma imagem de beleza monstruosa. Luz e putrefação convivem na mesma superfície. O oceano recebe o amigo de Pym sem cerimônia, mastiga seus restos e continua respirando. Nenhuma elegia. Nenhum privilégio concedido ao amor.

Já viajei de navio e conheço a vertigem de olhar para trás até a costa desaparecer. Há um instante em que tudo aquilo que nos define; casa, endereço, rotina, compromissos, pessoas... cabe numa linha escura e depois deixa de existir. À frente, o horizonte parece uma promessa. Contudo, no meio do mar, ele também funciona como sentença: em qualquer direção que se olhe, a distância permanece igual.

Sempre achei belo esse abandono.

Esta é uma verdade que raramente confesso: a solidão marítima me atrai porque possui honestidade. Em terra, podemos estar cercados e ainda assim permanecer invisíveis, condenados a representar intimidade para pessoas que jamais tocaram a parte verdadeira de nós. No oceano, a solidão não mente. Ela não oferece cadeiras vazias fingindo companhia. Pelo contráriio, mostra sua extensão e nos deixa escolher entre contemplá-la ou enlouquecer.

Talvez seja por isso que compreendi Pym mais do que gostaria. Ele não segue para o sul movido somente pela curiosidade. Existe nele uma fome de ultrapassar o limite, mesmo quando cada limite vencido revela uma ameaça maior. Eu reconheço essa fome. É a mesma que me faz escrever durante a madrugada, abrindo em mim compartimentos que deveriam permanecer lacrados. Não sou uma escritora que procura respostas. Eu costumo procurar portas que tenham sido emparedadas por bons motivos.

O livro tem irregularidades. As descrições geográficas, as longas explicações sobre navegação e os catálogos de animais retardam o pulso da narrativa. Em alguns trechos, senti o horror aguardando impaciente enquanto Poe media costas, registrava latitudes e examinava pinguins. Ainda assim, essas digressões cumprem uma função: sustentam a ilusão documental. O tédio ocasional prepara o terreno para o impossível. Quando o pesadelo finalmente emerge, encontra o leitor distraído pela aparência de ciência.

A chegada à ilha de Tsalal leva o romance a uma região moralmente mais incômoda. A representação dos habitantes carrega o peso do olhar colonial e racial do século XIX. Não me interessa absolver esse aspecto com a desculpa confortável de seu tempo. Os grandes autores também deixam manchas. Em Tsalal, o medo da alteridade transforma povos inteiros em símbolos e ameaças, revelando os fantasmas sociais de uma cultura que chamava exploração de descoberta.

Mas Poe complica o próprio jogo ao inverter os valores do claro e do escuro. Na ilha, tudo é negro, até os dentes dos habitantes; a brancura causa pavor. Depois, rumo ao sul, o branco ocupa o mundo: as aves, a chuva semelhante a cinzas, a água leitosa, a cortina de vapor. Aquilo que costuma simbolizar pureza converte-se em presságio. A alvura deixa de limpar. Ela apaga.

Foi o que mais admirei no desfecho.

Pym, Dirk Peters e Nu-Nu avançam numa canoa frágil em direção àquela catarata silenciosa, enquanto o oceano se aquece e a realidade adquire a consistência de um sonho febril. Nu-Nu morre. As aves repetem “Tekeli-li”. Então surge uma figura humana gigantesca, amortalhada, de uma brancura perfeita.

E o relato se rompe.

Nenhuma explicação seria tão poderosa quanto essa ausência. Poe conduz o leitor até a borda e desaparece, deixando uma nota que anuncia a morte súbita de Pym e a perda dos capítulos finais. O livro termina onde outro autor talvez começasse a explicar. Sua incompletude não constitui uma falha; é a última criatura da narrativa. A página branca torna-se a própria figura que aguardava além do horizonte.

Levantei-me e caminhei até a janela. A noite de Angra continuava intacta. As luzes ainda tremiam sobre o mar, mas agora pareciam mais distantes. Lembrei-me dos conveses em que permaneci observando o horizonte, acreditando que aquela linha separava o conhecido do desconhecido. Depois de Poe, já não tenho tanta certeza.

Talvez o horizonte separe somente duas formas de abismo: aquela para a qual navegamos e aquela que levamos conosco.

O mar não estava escuro.

Estava esperando ficar branco.


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Luna Bela Morte
Enviado por Luna Bela Morte em 22/09/2026
Alterado em 22/09/2026
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