O homem que diz que te deseja, mas no fundo só quer te invadir.

No começo, ele parecia apenas comum.
Essa era sua primeira máscara, e talvez a mais imunda. Não vinha com chifres, capa ou dentes à mostra. Vinha com voz baixa, mãos tranquilas, presença socialmente aceitável, essa velha fantasia humana de que monstros precisam avisar quando chegam.
Sentava-se no corredor estreito das portas fechadas. Ao redor, paredes mofadas, velas pálidas, correntes enferrujadas, fotografias viradas para baixo. No peito, uma fechadura cheia de insetos. No lugar do rosto, porcelana lisa. Nenhum olhar. Nenhuma boca. Apenas rachaduras por onde escapavam fios pretos, sussurros e papéis queimados.
Ele dizia ter cuidado, mas procurava por fechaduras.
Está me machucando! Está sangrando!
A frase surgiu baixa, como uma unha riscando a madeira de uma porta antiga.
Não era espetáculo, pois a cena já estava no limite. O que era, na verdade, eu vou dizer: um corpo dizendo não quando a alma já havia sido empurrada contra a parede do próprio medo.
Está me machucando! Está sangrando!
Com ele, a humanidade perde a inocência do contato e a paz de uma mão próxima, de uma conversa reservada, de um gesto que deveria acolher sem cobrar nada por isso. E perde, definitivamente, a sensação de que o corpo é uma casa, um templo, uma fronteira sagrada...
Depois dele, o mundo ganha trancas.
Ganha olhos calculando uma espécie de saída. E tudo se torna um silêncio pesado. Pessoas reaprendendo a ocupar a própria pele como quem volta a uma casa arrombada.
E ele não destrói apenas um instante, porque, para sempre, contaminou todo o tempo.
Então, o passado vira uma pergunta, o presente vira uma vigilância, e o futuro, uma porta que range antes de abrir.
Está me machucando! Está sangrando!
Ele nunca terá amor.
Terá talvez charme, desculpas. Versões ensaiadas diante do espelho, arrependimentos vestidos para audiência, frases úmidas sobre confusão, impulso, mal-entendido. A língua humana, quando quer proteger monstros, vira uma alfaiataria de neblina.
Mas amor, não.
Porque o amor reconhece o outro inteiro. O amor escuta a recusa, e negocia com ela.
O amor sabe parar diante de uma porta fechada.
Mas ele... ele chama essa porta de obstáculo.
Também nunca terá intimidade legítima. A intimidade pede consentimento, reciprocidade, cuidado. Ele só conhece a captura. Acha que a proximidade é um direito seu, e a vulnerabilidade vira um convite, até o medo se tornar um silêncio favorável. Que criatura pequena! Nem sua monstruosidade é grandiosa: é apenas uma espécie de fome sem dignidade alguma.
Está me machucando! Está sangrando!
Sua voz jamais será a voz do cuidado.
Pode soar doce. Pode parecer calma. Pode vestir preocupação como um casaco escuro em noite fria. Pode perguntar “está tudo bem?” enquanto observa se o recuo será forte ou frágil. Mas sua voz não abriga.
Cerca.
Não protege.
Calcula.
Não pergunta para ouvir.
Pergunta para avançar.
A voz do cuidado deixa espaço.
A dele ocupa.
A voz do cuidado ilumina a saída.
A dele apaga as velas.
Está me machucando! Está sangrando!
Ele é esquecível porque é banal.
Não há mistério sublime em sua fome, nem uma tragédia profunda, nem abismo romântico, e nem destino maldito digno de canção. O que há, na verdade, é apenas a velha miséria do domínio, repetida pela história com roupas diferentes e a mesma tentativa covarde de invadir, negar, inverter a culpa e pedir silêncio!
Será lembrado como uma mancha.
Como náusea.
Como advertência.
Não como homem complexo.
Não como paixão arruinada.
Não como figura trágica.
Apenas como aquilo que precisou ser nomeado para deixar de mandar na sombra.
Está me machucando! Está sangrando!
No chão do corredor havia objetos pequenos: máscaras rachadas, luvas abandonadas, flores pisadas, cartas nunca enviadas, relógios parados, bonecos sem rosto, fragmentos de espelho. Em pequenas placas funerárias, liam-se palavras que ele tentou espalhar sobre os outros: culpa, silêncio, medo, negação, ameaça, segredo.
Mas as palavras começaram a voltar.
Uma por uma.
Como insetos retornando ao cadáver correto.
A culpa não pertencia à vítima.
O silêncio nunca foi uma cura.
O medo não era um consentimento.
O segredo não era uma proteção.
E a ameaça... bom, isso nunca foi amor.
Está me machucando! Está sangrando!
Então veio a noite do laudo.
A chuva entrou pelas rachaduras. As correntes tremeram. As portas fechadas, aquelas que ele tentou atravessar, permaneceram de pé, mais santas que qualquer altar. A fechadura em seu peito abriu sozinha, e dela saíram insetos, fios, sussurros, pequenas mãos de sombra tentando justificar o injustificável.
Ele tentou falar.
Tentou dizer que não entendeu, que não foi assim, que também sofreu...
Mas da face sem boca caiu apenas poeira.
Porque há crimes que perdem o direito ao perfume da linguagem.
Está me machucando! Está sangrando!
No clímax, ao fundo do corredor, uma porta se abriu.
Não para ele.
Para quem sobreviveu.
A luz era fria, severa, sem romantismo. Uma luz de saída, não de absolvição. E quando ela tocou o corredor, as máscaras dele caíram. Não havia amante. Não havia vítima de si mesmo. Não havia mais um homem incompreendido.
Havia posse.
Só posse.
A velha fome de transformar outro ser humano em território.
E a noite escreveu no chão com tinta seca:
“Aqui jaz aquele que confundiu um limite com um obstáculo.”.
Teve mãos.
Mas não teve cuidado.
Teve voz.
Mas não teve verdade.
Teve fome.
Não teve amor.
Foi temido.
Foi nomeado.
Foi enterrado pela fala da ferida.
Está me machucando! Está sangrando!
Fechem o corredor.
Deixem aberta apenas a porta da saída.
Que as velas queimem não para ele, mas para quem precisou reconstruir a própria casa por dentro. Que os espelhos sejam lavados. Que a culpa seja devolvida ao dono. Que nenhum monstro seja protegido pela elegância podre do silêncio.
Porque a ferida, quando aprende a falar, deixa de ser uma cova...
E se torna uma sentença.