Oração para o homem que serviu-se primeiro

No começo, ele parecia apenas sorrir.
Um sorriso largo, treinado diante de espelhos oficiais, polido por campanhas, santinhos, assessores e mãos apertadas em praças onde a miséria era sempre uma espécie de cenário, nunca uma ferida. Vestia terno escuro, faixa manchada de solenidade, medalhas brilhando como pequenos olhos de insetos. No peito, em vez de coração, havia um cofre enferrujado, entreaberto, cheio de moedas velhas, dentes humanos e chaves públicas.
Falava em nome do povo.
Que antigo truque de necrotério...
Quem conhece, não confia.
A frase veio baixa, como chuva escorrendo por uma parede qualquer de algum gabinete abandonado.
Quem conhece, não confia.
Ele prometia escolas, hospitais, ruas, segurança, futuro. Prometia com a voz grave dos homens que aprenderam a usar a esperança como se fosse um lenço de seda sobre a lama. Ao redor, sombras de aliados trocavam envelopes, pastas, favores... e ameaças....
Nas paredes, mapas rachados sangravam regiões esquecidas. Retratos oficiais apodreciam em molduras escuras. Velas ardiam ao lado de jornais velhos, brinquedos quebrados, seringas vazias e placas de obras nunca concluídas.
Ele não governava porque só sabia drenar, com sua sede atroz.
A política, em suas mãos, não estava na praça, mas sim no esgoto, e com protocolo.
Quem conhece, não confia.
A humanidade perde muito quando um homem assim sobe ao palanque...
Perde a fé na vida pública;
Perde a ideia de que instituições possam proteger alguém além dos seus próprios ratos engravatados;
Perde crianças que poderiam estudar;
Doentes que poderiam ser atendidos;
Bairros que poderiam respirar sem medo;
Perde tempo histórico, essa carne invisível que os corruptos arrancam sem precisar olhar nos olhos de ninguém.
Ele rouba o futuro das pessoas. O futuro roubado aparece em filas enormes, no remédio ausente, na rua alagada, na escola rachada, na mãe esperando, no jovem desistindo, em gente aprendendo cedo demais que a dignidade também pode ser desviada, desde que venha carimbada.
Quem conhece, não confia.
Ele nunca terá honra.
Tem um cargo, um carro, um gabinete...
Terá homenagens compradas, aliados ajoelhados por conveniência e bajuladores tão flexíveis que fariam uma serpente sentir inveja profissional.
Terá microfones, tapetes, retratos, placas, discursos televisionados e aquela multidão de mãos estendidas que não sabem se pedem ajuda ou absolvição.
Mas honra, não.
Honra exige limite e vergonha.
Exige a capacidade rara de não vender aquilo que foi confiado à sua guarda. Mas ele vendeu. Vendeu a rua, a verba, a promessa, a lágrima, a fé cansada de quem ainda acreditava que algum homem público pudesse existir sem um porão cheio de malas.
Quem conhece, não confia.
Sua voz jamais será limpa.
Será, sim, voz de palanque, de altar improvisado, de entrevista bem iluminada. Saberá dizer “transparência” enquanto escurece a sala. Saberá dizer “justiça” enquanto alguém arquiva uma prova. Saberá dizer “povo” enquanto calcula votos. Saberá dizer “sacrifício” escolhendo sempre a carne dos outros.
Sua voz é lodo com verniz...
Não atravessa... Escorre!
Não ilumina... Mancha!
Cada promessa sua sai da boca já com cheiro de documento molhado, e cada palavra bonita chega carregada por vermes administrativos. Ele fala como estadista, mas sua garganta é um ralo.
Quem conhece, não confia.
Ele será esquecível porque sua sujeira não é sequer original.
Há muitos iguais. Mudam o slogan, a bandeira, o inimigo, a fotografia oficial, o nome da renovação. Mas o mecanismo é sempre o mesmo: capturar a esperança, alimentar a raiva, degradar a instituição, comprar silêncio, distribuir migalhas e chamar a sobrevivência de vitória popular.
Ele não tem visão. O que ele tem, sim, é apetite. Muito apetite!
E também não deixa legado. Ele deixa inquérito, cinismo, dívida, ruína, assinatura suspeita, obra fantasma, hospital sem gaze, escola sem teto, cidade sem confiança. Sua memória não será lembrada em uma estátua, mas sim uma mancha úmida em parede pública, aquela que ninguém limpa porque todos já se acostumaram ao mofo.
Essa é sua condenação final: nem como monstro conseguiu ser raro.
Quem conhece, não confia.
Mas o detalhe mais sujo vivia no bastidor.
Ali ele respirava melhor.
No bastidor, inimigos brindavam. Princípios viravam guardanapos usados. Deus mudava de lado conforme o púlpito. A moral trocava de roupa conforme a pesquisa, e o povo, esse nome tão útil, era dito como uma espécie de senha, e nunca como amor, porque ele desprezava justamente aqueles que dizia defender.
Desprezava a pobreza que abraçava, a dor que usava, a fé que manipulava, a raiva que alimentava como cães treinados para morder a direção conveniente. Seu medo não era Deus, nem a história, nem culpa, essa palavra que nele jamais encontrou endereço.
O que ele temia era perder o acesso, encontrar fechada a porta da sala onde a lama se transforma em moeda.
Quem conhece, não confia.
Então veio a noite do laudo.
O gabinete escureceu, a chuva entrou pelas frestas, o cofre em seu peito começou a ranger. e uma moeda caiu...
Logo depois caiu um dente seu, junto com uma chave. No chão estava um papel assinado com tinta negra. Até que as sombras dos aliados começaram a recuar, porque cúmplice é criatura de clima: sente o cheiro da queda antes mesmo da primeira manchete.
Ele tentou sorrir.
Mas o sorriso partiu.
De sua boca escorreu lodo entre os dentes. A caneta dourada em sua mão pingou óleo sobre o contrato. O rosário de chaves, cápsulas e ossos se rompeu, espalhando pequenos símbolos de sua fé verdadeira pelo chão.
A sala inteira cheirou a coisa pública profanada.
Quem conhece, não confia.
No clímax, os objetos falaram.
A carteira escolar rachada perguntou pela criança;
A seringa vazia perguntou pelo doente;
O brinquedo quebrado perguntou pelo futuro;
A placa de obra inacabada perguntou pelo bairro;
Os jornais velhos perguntaram pela verdade.
E ele, pela primeira vez, não encontrou assessor dentro da própria língua.
A noite escreveu na parede com tinta seca:
“Aqui jaz o homem que prometeu servir ao povo.”
Serviu-se primeiro: teve votos;
Não teve honra: teve cargo;
Não teve grandeza: teve voz;
Não teve verdade: teve poder;
Não teve alma...
Quem conhece, não confia.
Fechem o gabinete.
Apaguem as velas.
Deixem o cofre aberto para que os vivos vejam a anatomia da corrupção: não há ideologia ali, não há pátria, não há missão. Há apenas fome. Uma fome velha, ridícula, patética, vestida de autoridade.
E se algum valor nascer desse cadáver, que seja a lucidez amarga dos sobreviventes:
cada verba desviada tem corpo, e cada acordo podre tem rosto.
A promessa vendida deixa alguém enterrado antes da hora.
Quem conhece, não confia.
No fim, ele não foi grande.
Foi útil ao lodo.
E o lodo, como todo deus barato, engole seus sacerdotes quando termina de usá-los.