Oração para a ladra de luz que chamava roubo de coincidência

No começo, ela parecia apenas atenta.
O tipo de pessoa que escuta com os olhos muito abertos, a cabeça ligeiramente inclinada, a boca quieta demais. Parecia interesse. Parecia afeto. Parecia aquela rara delicadeza de quem presta atenção quando uma ideia ainda está molhada, recém-saída da alma, tremendo como um animal pequeno sobre a mesa.
Mas havia nela uma fome.
Não a fome limpa da admiração. Não a fome luminosa de quem encontra beleza no outro e deseja crescer ao lado dela. Era uma fome úmida, grudenta, quase sem rosto. A fome de quem não deseja aprender: deseja possuir. A fome de quem olha para a chama alheia não para se aquecer, mas para calcular o melhor momento de roubá-la sem queimar os dedos.
Ela sorria.
E dizia:
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
No início, a frase parecia leve.
Quase casual. Quase inocente. Uma pequena observação lançada sobre a mesa como quem solta uma pétala morta. Mas a frase tinha dentes. Pequenos, finos, bem escondidos. Ela não vinha para dialogar. Vinha para diminuir. Vinha para transformar singularidade em tendência, ferida em moda, descoberta em ruído comum.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Assim começava o ritual.
Primeiro, ela desidratava o entusiasmo. Depois, tocava o projeto com dedos frios. Depois, criticava o excesso, o tom, a ousadia, a forma, o nome, a coragem. Chamava de cuidado aquilo que era drenagem. Chamava de sinceridade aquilo que era veneno servido em xícara de porcelana. Humanidade, essa velha fábrica de máscaras: até a inveja aprendeu a usar perfume de conselho.
Ela dizia:
“Só estou te dando um toque.”
E o toque era uma agulha.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
A humanidade perde muito quando criaturas assim se aproximam dos que criam.
Perde a confiança na partilha. Perde a beleza de mostrar um começo imperfeito sem medo de vê-lo voltar deformado na boca de outra pessoa. Perde conversas férteis. Perde amizades possíveis. Perde obras que poderiam nascer, mas foram escondidas cedo demais, antes que aprendessem a respirar.
A Parasita do Reflexo faz os vivos fecharem gavetas.
Faz artistas falarem menos. Faz escritores guardarem títulos. Faz sonhadores ocultarem planos. Faz pessoas brilhantes pedirem desculpas por brilhar. Onde ela passa, a espontaneidade cobre o rosto com véu preto e se retira para um quarto sem janelas.
Ela é uma presença que não escuta absolutamente nada.
Ela é uma vampira! Ela suga!
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Ela nunca terá originalidade verdadeira.
Terá versões. Terá semelhanças. Terá adaptações pálidas de incêndios que viu nascer em outras mãos. Terá roupas escolhidas depois de invejar alguém. Terá frases com cheiro de boca alheia. Terá projetos que chegam sempre um pouco atrasados, mas com a audácia patética de quem finge ter encontrado sozinha a estrada já aberta.
Copiar a superfície é fácil.
Difícil é atravessar a noite que pariu a forma.
Ela não sabe disso, ou sabe e finge não saber, que é uma das artes menores da decomposição moral. Vê o fruto e esquece a raiz. Vê a obra e ignora a solidão. Vê a coragem e imita a pose, como se vestir a pele de um animal fosse o mesmo que possuir sua ferocidade.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Sua voz jamais será própria.
Ela terá opiniões, naturalmente. Muitas. Pessoas vazias costumam emitir sons com admirável regularidade, como portas mal lubrificadas em casarões abandonados. Terá críticas. Terá observações. Terá aquele tom superior de quem sempre sabe onde o outro “exagerou”, onde “poderia melhorar”, onde “talvez não seja tão original assim”.
Mas sua voz é um corredor alugado por ecos.
Ela repete o que inveja. Reproduz o que a ameaça. Distorce aquilo que deseja. Se aproxima de uma chama, aquece as mãos, rouba uma fagulha e depois acusa o fogo de ser comum.
A voz que lhe falta é a única que importaria:
“Isto nasceu de mim.”
Ela nunca dirá isso sem que alguma fotografia mofada da verdade se solte da parede.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
A sala onde ela vive por dentro é cheia de espelhos.
Mas nenhum a reflete inteira.
Num fragmento, ela aparece como amiga. Noutro, como crítica honesta. Noutro, como vítima incompreendida. Noutro, como inspiração tardia. Noutro, como alguém “também criativo”, “também profundo”, “também capaz”. Todos os reflexos tentam montar um rosto, mas algo sempre falta. Um nervo. Um sangue. Uma nascente.
Diante dela há um espelho rachado.
Dentro dele, rostos de outras pessoas aparecem pálidos, drenados, com olhos fundos e bocas entreabertas. São aqueles de quem ela bebeu sem pedir. Ao redor, velas quase mortas gotejam cera sobre cadernos abertos. Fotografias rasgadas repousam no chão. Máscaras pendem das paredes como peles abandonadas. Frascos de vidro guardam pequenas luzes líquidas, roubadas de ideias ainda não nascidas.
No peito dela, em vez de coração, uma sanguessuga dorme dentro de um relicário.
Mesmo o parasita parece cansado.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Ela é esquecível porque nada nela permanece.
Tudo é retalho. Tudo é empréstimo sem devolução. Tudo é gesto recolhido do chão alheio e costurado em uma identidade frágil demais para caminhar sob chuva. Pode enganar por algum tempo, sim. O mundo está cheio de distraídos, e a distração é o grande cemitério da justiça estética. Pode receber aplausos de quem não viu a origem do roubo. Pode parecer nova aos olhos que chegaram tarde.
Mas imitação não cria fantasma.
Aquilo que não nasce da própria carne não assombra.
Quando ela vai embora, não resta saudade. Resta alívio. Um quarto depois que a janela se abre. Uma garganta depois que o inseto sai. Um corpo percebendo que o cansaço tinha nome.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Seus detalhes sujos são pequenos, como todo horror verdadeiramente doméstico.
Ela observa demais. Guarda frases, guarda horários, guarda gostos, guarda símbolos, guarda aquela palavra que você disse sem defesa, aquela imagem que você mostrou cedo demais, aquele sonho que ainda nem tinha sapatos. Depois aparece com algo parecido. Nunca idêntico o bastante para ser julgada. Nunca distante o bastante para ser limpa.
Rouba com margem de negação.
Critica aquilo que deseja. Chama de exagero a intensidade que não sustenta. Chama de pretensão a ambição que a humilha. Chama de estranho o estilo que mais tarde tenta usar. Chama de fase aquilo que, nela, não teria coragem de durar.
E, quando alguém se encolhe após sua crítica, ela sente uma pequena paz.
A paz dos famintos diante de uma vela apagada.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Mas a noite tem seus modos de examinar cadáveres que ainda respiram.
Certa madrugada, quando os espelhos começaram a ranger, ela entrou sozinha na sala das velas roubadas. O ar cheirava a poeira, ferrugem, rosas apodrecidas e tinta seca. Havia chuva batendo nas janelas como unhas de mortos impacientes. No centro, sobre a mesa, estavam todos os cadernos que havia tocado. Todos os projetos que havia diminuído. Todas as frases que havia repetido com atraso. Todas as ideias que havia chamado de comuns antes de vesti-las como se fossem suas.
Ela tentou sorrir.
O espelho não aceitou.
No vidro rachado, os rostos drenados abriram os olhos. Um por um. Não gritavam. Não acusavam. Apenas olhavam. E há olhares que são mais violentos que punhais, porque além de ferir, revelam o que há de mais podre na alma que observam.
Ela disse, baixinho:
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Mas a frase caiu no chão.
Sem força.
Sem veneno.
Sem plateia.
Então os frascos de luz começaram a quebrar.
Um por um.
A luz líquida escorreu pelo chão como sangue de estrela. Tocou as fotografias rasgadas. Tocou as máscaras. Tocou os cadernos. Tocou os dedos longos dela. E onde tocava, algo verdadeiro reclamava seu nome original.
As ideias voltaram aos donos.
As frases voltaram às bocas.
As chamas voltaram às velas certas.
E ela ficou ali, subitamente mais pálida, mais magra, mais pequena, coberta de fragmentos de vidro que não refletiam coisa alguma.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Disse de novo.
Mas agora a própria parede respondeu:
Não.
A palavra veio baixa, definitiva, como terra caindo sobre caixão.
Não.
Nem todo mundo teve essa ideia.
Você a ouviu nascer em outro peito;
Você a viu sangrar em outra mão;
Você a criticou para enfraquecê-la;
Você a copiou para se sentir viva.
Não...
A sanguessuga no relicário acordou.
Moveu-se devagar. Apertou o lugar onde deveria haver coração. Ela tentou arrancar aquele grande verme de seu peito, mas os dedos atravessaram, como se ali houvesse apenas fumaça velha. E então compreendeu o horror final: não era habitada por uma criatura parasita.
Era a criatura.
A inveja não estava nela.
Ela estava dentro da inveja.
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
No clímax, sua boca se abriu.
Dela não saiu grito. Saíram vozes. Muitas. Todas roubadas. Vozes de amigos, vítimas, rivais, amores, artistas, pessoas que um dia lhe confiaram a fragilidade de um começo. Saíram frases copiadas, elogios fingidos, críticas envenenadas, conselhos com mofo, risadas treinadas, versões falsas de admiração.
As vozes caíram no chão como dentes.
E os dentes viraram insetos.
Os insetos correram para os espelhos.
Nos espelhos, os rostos drenados começaram a ganhar cor novamente.
Ela, não.
Ela foi perdendo contorno.
Primeiro as mãos. Depois os olhos. Depois a boca. Por fim, o rosto inteiro. Sobrou uma silhueta sentada diante do vidro, uma sombra colada a uma cadeira, tentando ainda parecer alguém.
A noite escreveu no espelho com tinta seca:
“Aqui jaz quem confundiu inveja com inspiração.
Criticou para diminuir.
Copiou para existir.
Sugou para não desaparecer.
Foi lembrada apenas pelo cansaço que causou.”
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora.
Não mais.
Fechem a sala.
Apaguem as velas que ela roubou. Recolham os frascos vazios. Cubram o espelho com pano preto. Enterrem os cadernos sob chuva e sal, para que nenhuma mão faminta os profane outra vez.
E aos vivos, aos criadores, aos que ainda carregam luz líquida nas costelas, deixem esta marca como lâmina e amuleto:
“Nem toda presença merece acesso ao nascimento da sua obra.
Nem toda crítica é lucidez.
Às vezes, é apenas uma boca faminta tentando convencer uma estrela de que brilhar é vulgar.”.
E quando ela disser, com sua voz feita de ecos:
Essa é uma ideia que todo mundo está tendo agora,
sorria apenas o bastante para que ela veja a porta se fechando.
Porque há pessoas que nascem que se fossem uma fonte.
Mas ela... ela é esse tipo de pessoa que passa a vida ajoelhada na lama, bebendo o reflexo dos rios que jamais tiveram coragem de ser.