Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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O Revolucionário de Sofá

oração para o santo imóvel da indignação

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No começo, ele parecia apenas consciente.

Havia livros sobre a mesa, panfletos no chão, uma camiseta com palavra de ordem no peito e uma janela embaçada pela chuva, do outro lado da qual pessoas reais caminhavam sob tochas, cartazes, sirenes e frio. Lá fora, o mundo rangia com seus dentes antigos. Lá fora, a rua era carne, lama, medo, garganta. Lá fora, a causa tinha cheiro de suor, gás, papel molhado, sapato gasto, corpo presente.

 

Dentro, porém, havia um sofá.

Um sofá velho, profundo, quase maternal, coberto de almofadas manchadas, jornais abertos, embalagens de comida, velas quase apagadas e aparelhos eletrônicos brilhando como pequenos altares portáteis. E nele, afundado como um santo decrépito da consciência confortável, estava o Revolucionário de Sofá.

 

O rosto era feroz.

O corpo, mole.

Os dedos longos demais seguravam o celular como se segurassem uma granada sagrada. A boca se abria em grito, mas dela não saía voz. Saíam papéis. Hashtags. Acusações. Frases prontas. Pequenas moscas negras alimentadas por uma indignação requentada.

 

No vidro da janela, escrito na poeira com o dedo, lia-se:

“Eu apoio daqui.”

E ele, olhando para a tela como quem contempla uma revelação divina com conexão instável, murmurava:

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

 

A frase, no início, parecia bravura.

Tinha peso de manifesto, ruído de barricada, cheiro de gasolina imaginária. Poderia até comover, se não viesse de alguém com os pés enrolados em cobertor e as botas de protesto intactas no canto da sala, limpas como dentes de político em fotografia oficial.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Ele repetia.

E cada repetição parecia-se mais com uma senha para não levantar, do que uma revolução propriamente dita.

 

A humanidade perde alguma coisa terrível quando a coragem se converte em postura.

Perde a diferença entre indignar-se e comprometer-se. Perde o valor obscuro dos que fazem o trabalho sem aplauso, dos que organizam listas, distribuem comida, estudam leis, acolhem feridos, enfrentam burocracias, atravessam a madrugada, escutam antes de discursar. Perde a paciência da construção, esse animal antigo que não cabe em frase curta.

 

Com ele, a dor coletiva vira decoração moral;

A injustiça vira legenda;
A miséria vira argumento;
A tragédia vira oportunidade de parecer profundo;
A causa vira espelho;

E o espelho, naturalmente, reflete sempre o mesmo rosto: o dele.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Mas que “tudo” era esse?

Tudo, menos sair na chuva;
Tudo, menos perder conforto;
Tudo, menos conversar com gente concreta;
Tudo, menos abrir mão de alguma vantagem;
Tudo, menos transformar a própria rotina;
Tudo, menos encostar a mão no mundo e descobrir que ele mancha.

 

Ele queria derrubar estruturas sem arranhar o verniz da própria vida;

Queria revolução com almofada;

Queria justiça com entrega em casa;

Queria o colapso dos impérios, desde que a internet continuasse funcionando durante o processo, porque até a queda da civilização precisa respeitar o horário do lanche. A humanidade, esse teatro de ossos com Wi-Fi, realmente superou a si mesma.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Ele nunca terá coragem histórica.

Terá opinião. Muitas. Opiniões afiadas como facas de brinquedo. Terá frases inflamadas, textos indignados, comentários longos, repostagens com ar de sentença, a sensação morna de estar sempre do lado certo da fogueira. Terá a pequena embriaguez da pureza pública, essa droga fina dos que acusam o mundo para não escutar o ruído apodrecido da própria contradição.

Mas coragem, não.

Coragem exige custo.

Exige estar onde a beleza acaba e começa o trabalho. Exige aparecer quando ninguém está filmando. Exige suportar tédio, fracasso, reuniões ruins, discordâncias, gente difícil, tarefas invisíveis, vitórias pequenas, derrotas longas. Exige admitir que transformar o mundo é menos cinematográfico do que parecer indignado com ele.

A coragem não cabe inteira num comentário;

Coragem tem joelho ralado;

Tem voz rouca;

Tem sapato sujo;

Tem a solidão dos que continuam depois que a plateia foi dormir.

 

O Revolucionário de Sofá não queria isso;

Queria a aura sem o peso.

A auréola, não o martírio.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Sua voz jamais será a voz da linha de frente.

Será alta, sim. Muito alta. Há covardias que berram para não ouvirem a si mesmas. Ele saberá denunciar, condenar, ironizar, purificar, dividir o mundo entre os salvos de sua bolha e os condenados do resto da espécie. Saberá transformar qualquer nuance em traição. Qualquer dúvida em crime. Qualquer pergunta em confissão de culpa.

 

Mas sua voz não nasce da presença;

Nasce da distância.

É uma voz protegida por parede, tela, senha, cobertor e indignação ensaiada. Uma voz que fala dos oprimidos como quem fala de personagens. Uma voz que ama multidões abstratas, mas se irrita com o vizinho, despreza o porteiro, humilha quem discorda, ignora a solidão de alguém próximo e chama isso de lucidez política.

 

A voz da linha de frente é outra.

Ela sabe escutar.

Sabe que dor humana não é figurino. Sabe que causa não é palco para vaidade. Sabe que o mundo não se dobra diante de frases fortes, por mais bonitas que fiquem quando recortadas sobre um fundo preto.

 

A voz dele não convoca;

Consome.

Não organiza;

Acusa.

Não constrói;

Inflama por segundos e deixa uma cinza fria sobre a tela.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A sala escurecia.

As velas choravam cera sobre jornais antigos. Um megafone jazia no chão, coberto de poeira e teias, como um animal de guerra esquecido antes da primeira batalha. As botas, intactas, repousavam ao lado de uma pilha de papéis, negras, rígidas, insultantemente virgens de rua. Livros políticos dormiam fechados sob manchas de café. Alguns tinham marcadores nas primeiras páginas, esse túmulo clássico das ambições intelectuais interrompidas pela preguiça.

Na parede, cartazes de protesto permaneciam limpos demais.

Armas decorativas de uma guerra que ele preferia narrar.

Lá fora, vultos passavam pela chuva. Gente real, com roupas encharcadas, rosto cansado, mãos erguidas, medo nos olhos e alguma coisa parecida com esperança atravessando a lama.

Ele olhava pela janela.

Comovido.

Depois voltava para o celular...

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Ele era esquecível porque era repetido.

Há milhares como ele, espalhados em quartos, salas, sofás, camas, mesas de café, perfis de aparência feroz e vida cuidadosamente intacta. A mesma fúria reciclada. O mesmo teatro de urgência. A mesma superioridade moral com prazo de validade. A mesma pressa em opinar, a mesma lentidão em agir.

 

Troca de causa como quem troca de roupa.

Ontem chorava por uma pauta. Hoje devora outra. Amanhã talvez nem se lembre do nome das pessoas que usou como símbolo. Sua empatia depende da maré do momento. Sua memória moral é uma vela em corredor ventoso.

 

Ele não deixa uma comunidade;

Deixa um histórico.

Não deixa obra social;

Deixa um arquivo.

Não deixa gente fortalecida;

Deixa debates carbonizados.

 

Sua lembrança será um print antigo, uma frase exagerada, uma indignação datada, uma fogueira que brilhou por alguns minutos e não aqueceu uma só mão.

Ele será esquecido porque jamais tocou o mundo.

Apenas comentou sobre ele.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

O detalhe mais sujo não era sua preguiça.

A preguiça, ao menos, é honesta quando não se fantasia de virtude.

O detalhe mais sujo era o prazer.

Ele sentia prazer em estar moralmente acima. Sentia prazer em apontar. Em acusar. Em corrigir a pureza alheia. Em transformar pessoas em réus para que sua própria vida, tão confortável em sua incoerência, não fosse levada ao banco dos acusados.

Defendia os oprimidos abstratos e desprezava os incômodos concretos.

 

Falava de empatia, mas não escutava.
Falava de justiça, mas era cruel nas pequenas discordâncias.
Falava de coletividade, mas queria ser reconhecido como consciência superior da sala.
Falava de luta, mas desaparecia quando a luta exigia presença, tempo, dinheiro, paciência ou responsabilidade.

 

Terceirizava a coragem.

Queria que outros fossem à rua;

Que outros apanhassem;
Que outros organizassem;
Que outros estudassem;
Que outros segurassem o peso burocrático, emocional e físico da mudança;
Que outros enfrentassem o frio, a polícia, o patrão, a família, o risco.

 

Ele ficaria em casa, avaliando.

Como um crítico de incêndios que jamais acendeu uma vela.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A frase começou a apodrecer.

No início, vinha como grito. Agora vinha como fungo.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Mas o que ele chamava de sistema?

Às vezes, era tudo o que o contrariava.

A exigência de coerência;
A cobrança de prática;
A realidade quando se recusava a caber no seu slogan.


A pessoa que perguntava: “e você, o que está fazendo?”
O espelho quando escurecia e devolvia seu rosto cansado de fraude.

Ele dizia “sistema” como quem diz “monstro”, porque é mais fácil odiar uma entidade abstrata do que lavar a própria louça moral.

O sistema, sem dúvida, existia.

Era vasto, cruel, antigo, cheio de dentes. Mas o Revolucionário de Sofá havia encontrado uma função perfeita para ele: servir de desculpa universal. Se nada mudava, era culpa do sistema. Se ele não agia, era porque o sistema era grande demais. Se alguém fazia algo concreto, ele apontava falhas, denunciava limites, explicava por que não bastava.

Assim, preservava-se puro.

Imóvel.

Intocado.

Um cadáver confortável no altar da crítica infinita.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A chuva engrossou.

As janelas estremeceram. As vozes da rua ficaram mais próximas, mais ásperas, mais humanas. O vidro embaçado começou a escorrer. A frase “Eu apoio daqui” tremia sob a umidade como uma confissão escrita por mão covarde.

Ele sentiu frio.

Não o frio político das grandes tragédias. Não o frio histórico de quem percebe o peso de uma época. Um frio pequeno, doméstico, quase ridículo. O frio de quem poderia levantar para fechar melhor a janela, mas nem isso fazia sem suspirar como mártir.

 

Pegou o celular.

Digitou outra frase.

Apagou.

Digitou novamente.

 

Queria algo forte. Algo definitivo. Algo que o colocasse, mais uma vez, do lado luminoso da noite. Enquanto procurava as palavras, um inseto saiu de sua boca e pousou sobre a tela. Depois outro. Depois mais um. Pequenas moscas negras, gordas de indignação velha, caminhando sobre o vidro.

Ele tentou espantá-las.

Mas elas voltavam.

Sempre voltavam.

Porque moscas sabem reconhecer uma matéria morta...

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A culpa vinha de madrugada.

Vinha quando a tela escurecia e seu reflexo surgia no vidro, pálido, deformado, com os olhos fundos de quem sabe mais do que admite. Nesses instantes, por poucos segundos, ele via a fraude.

Sabia que poderia fazer mais;

Sabia que falava mais do que agia;

Sabia que muitas vezes usava a dor do mundo para não encarar o vazio da própria vida;

Sabia que havia algo obsceno em transformar sofrimento real em material para a própria identidade.

Mas a culpa exigia transformação.

E transformação cansa.

Então ele buscava outra pauta. Outro inimigo. Outra frase. Outra chama breve para aquecer a própria imagem. A consciência moderna adora um incêndio novo: ilumina bem, dura pouco e raramente obriga alguém a limpar os ossos depois.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

O sofá começou a afundar.

Lentamente.

Como terra mole sobre sepultura recente.

As almofadas se abriram, revelando cinzas, papéis velhos, pequenas ossadas de ideias abandonadas. Do estofado rasgado saíram fios pretos, raízes úmidas, dedos de pano, etiquetas antigas. O trono confortável revelou-se um caixão. Sempre fora. Apenas tinha um encosto melhor.

 

Ele tentou se mexer.

O cobertor pesava como mortalha.

As pernas, brancas demais, magras demais, pareciam nunca ter aprendido o peso da rua. Os pés tocaram o chão frio. A poucos passos estavam as botas. Limpas. Brilhantes. Esperando há anos por uma coragem que nunca chegou.

O megafone virou o rosto metálico em sua direção.

Parecia rir sem boca.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Lá fora, alguém caiu.

Ele viu pela janela.

Um corpo escorregando na chuva. Mãos ajudando. Gente se aproximando. Uma vela apagando. Um cartaz pisoteado. Um grito verdadeiro, desses que não precisam de legenda porque já carregam um mundo dentro da garganta.

Ele se levantou meio palmo.

Só meio.

O sofá segurou sua cintura.

Ele olhou para a porta.

A porta parecia distante como uma fronteira histórica.

Pensou em ir.

Pensou no frio.
Na polícia.
Na confusão.
Na possibilidade de não ser reconhecido;
Na possibilidade pior: ser reconhecido e cobrado;
Na possibilidade terrível de descobrir que a causa era feita de pessoas, e pessoas são muito menos obedientes que ideias.

 

Sentou de novo.

Pegou o celular.

A tela acendeu seu rosto como vela de velório.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A frase, agora, saiu da parede.

Saiu dos panfletos;

Saiu da janela;

Saiu das moscas;

Saiu do megafone coberto de teias.

Já não era ele quem a dizia.

Era o necrotério.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

E o sistema, naquele instante, era ele.

Sua passividade;
Sua vaidade;
Sua pureza sem risco;
Sua fome de testemunho;
Sua incapacidade de amar qualquer causa que não devolvesse sua imagem aumentada.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

O quarto começou a funcionar como tribunal.

As paredes mofadas inclinaram-se. Os cartazes intactos se soltaram e caíram no chão como línguas secas. Os livros fechados abriram páginas não lidas. As embalagens vazias moveram-se com o vento, feito pequenos animais famintos. As velas se alongaram, e suas chamas ficaram negras.

 

No espelho quebrado da parede, ele viu muitas versões de si mesmo.

O mártir;
O acusador;
O consciente;
O puro;
O indignado;
O herói de sofá.

 

E atrás de todas essas máscaras, um rosto menor.

Medroso.

Não por temer o Estado, a violência, a história ou o fracasso.

Temia a irrelevância.

Essa era a verdade mais suja.

Ele não temia a injustiça tanto quanto temia não ser visto combatendo-a.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

As pessoas da rua bateram na janela.

Não pedindo que ele salvasse o mundo. Ninguém ali era tão ingênuo, graças aos deuses mortos. Pediam apenas presença. Um corpo a mais. Uma mão. Uma água. Um abrigo. Uma ligação. Um gesto mínimo. Aquilo que separa a consciência viva da decoração moral.

 

Ele abriu a boca.

Quis dizer que apoiava;

Quis explicar que sua contribuição era discursiva;

Quis argumentar sobre estratégias, sobre limites, sobre contradições do movimento, sobre a complexidade da conjuntura, esse belo cemitério verbal onde tantos covardes enterram a própria omissão.

 

Mas da boca saíram apenas papéis.

Mais papéis.

Frases prontas, slogans, hashtags, acusações, manifestos incompletos, palavras grandiosas, tudo seco, tudo leve, tudo incapaz de cobrir um único corpo da chuva.

 

Os papéis voaram pela sala.

As moscas vieram atrás.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A rua começou a desaparecer.

Não lá fora.

Dentro dele.

A imagem dos manifestantes tornou-se um borrão. As tochas viraram luzes distantes. Os gritos viraram ruído. O mundo concreto, cansado de esperar uma tradução, recolheu-se para onde os vivos ainda estavam.

 

Ele ficou com a tela.

Com o sofá.

Com o megafone mudo.

Com as botas limpas.

Com o altar de si mesmo.

No clímax do velório, o celular rachou.

 

Uma linha fina atravessou a tela, cortando seu reflexo ao meio. Depois outra. E outra. O vidro partiu-se em fragmentos, cada um mostrando um pedaço diferente de sua impostura. Em um, ele estava indignado. Em outro, satisfeito. Em outro, aterrorizado. No último, muito pequeno, quase invisível, estava de pé diante da porta.

Ali havia ainda uma chance.

Mas chances, como velas, também se apagam.

 

Ele olhou para as botas.

Não calçou.

Olhou para o megafone.

Não pegou.

Olhou para a janela.

Não abriu.

 

E então a sala inteira compreendeu.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

A frase final veio baixa.

Patética.

Sem fogo.

Sem multidão.

Sem heroísmo.

 

Era apenas um homem, ou uma mulher, ou qualquer corpo contemporâneo apodrecido em conforto, tentando transformar paralisia em teoria.

 

A noite, como coveira imparcial, escreveu o laudo com tinta seca na parede:

Aqui jaz quem amou a justiça desde que ela não exigisse deslocamento.

Defendeu causas.
Não defendeu pessoas.

Chamou-se consciente.
Não acordou.

Chamou-se combatente.
Não saiu.

Chamou-se revolucionário.
Nunca levantou.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Depois, o silêncio.

Um silêncio sem aplauso.

As velas apagaram. Os papéis caíram. As moscas se recolheram ao interior de sua boca, como pensamentos voltando para um crânio que nunca os mereceu. A chuva lavou a janela. A frase “Eu apoio daqui” desmanchou-se em gotas sujas. Lá fora, a rua continuou. Ferida, imperfeita, contraditória, viva.

 

O mundo não esperou por ele.

Essa foi sua punição mais justa.

Não ser cancelado;
Não ser perseguido;
Não ser derrotado por um inimigo grandioso;

Apenas tornar-se irrelevante.

 

O sofá permaneceu.

Um túmulo com almofadas.

O megafone permaneceu.

Uma boca sem coragem.

As botas permaneceram.

Dois pequenos monumentos à estrada que nunca foi pisada.

 

E sobre o corpo moral do Revolucionário de Sofá, a noite depositou sua última flor morta:

Nenhuma causa precisa de santos imóveis;

Nenhuma luta se alimenta para sempre de frases;

Nenhum sistema cai porque alguém o amaldiçoou deitado.

 

A verdadeira revolução começa quando o corpo trai o conforto;

Quando a mão larga a pose;

Quando a boca para de ornamentar a própria virtude;

Quando o pé toca a rua;

Quando a causa deixa de ser um espelho e vira trabalho.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Sim.

Mas primeiro será preciso descobrir qual sistema mora dentro de nós.

O sistema da covardia elegante?
O sistema da pureza sem custo?
O sistema da indignação como vaidade?
O sistema da consciência que não encarna?
O sistema do conforto chamando a si mesmo de resistência?

 

Fechem o quarto.

Cubram o sofá com pano preto.

Enterrem o celular rachado entre jornais úmidos, panfletos intactos e embalagens vazias. Deixem as botas junto à porta, como aviso aos próximos mortos: não basta possuí-las. É preciso sujá-las.

 

E se algum dia alguém perguntar por ele, digam apenas:

Foi visto.
Foi ouvido.
Foi aplaudido.
Foi esquecido.

Porque tentou ser voz de uma revolução.

Mas era apenas um eco dentro de uma sala fechada.

 

Vamos fazer de tudo para esse sistema não dar certo.

Lá fora, a chuva continua.

E os vivos, esses inconvenientes, ainda caminham.

 


PROJETO MORTUÁRIA

Luna Bela Morte
Enviado por Luna Bela Morte em 24/07/2026
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