Elegia para o Santo do Alcance Morto

Ele nasceu com uma tela acesa no lugar do peito.
Não uma estrela. Não uma ferida. Não aquele rubor antigo das criaturas tocadas por um destino maior que a própria carne. Apenas uma tela pequena, fria, obediente, vibrando números no escuro como um coração terceirizado. Dentro dela, em vez de sangue, corriam porcentagens. Em vez de presságios, métricas. Em vez de uma alma, um painel de desempenho.
Chamaram-no de artista.
A noite, que já viu profetas enlouquecerem diante de anjos, pintores apodrecerem ao lado das próprias telas, poetas beberem ferrugem para traduzir a dor do mundo, olhou para ele com uma espécie de cansaço mineral.
Chamaram-no de artista, sim.
Porque a humanidade gosta dessas pequenas blasfêmias domésticas. Põe auréola em qualquer cabeça bem iluminada, chama de visão aquilo que é só repetição com legenda, chama de sensibilidade aquilo que aprendeu a mendigar aplausos sem sujar as mãos. Velha espécie humana, sempre disposta a trocar um incêndio por uma lâmpada barata, desde que a lâmpada venha com estatística.
O Algoritmista sentou-se em seu trono de celulares rachados. Atrás dele, uma mandorla de telas abertas como asas de insetos. Cada aparelho exibia uma pequena devoção: corações vermelhos, curvas ascendentes, gráficos nervosos, números pulsando como larvas satisfeitas. Havia velas derretendo ao redor, porque até a máquina gosta de fingir ritual. Havia flores mortas no chão, cabos enroscados como serpentes desidratadas, monitores quebrados repetindo seu rosto pálido, multiplicado, canonizado pela própria ausência.
Ele segurava o celular como um crucifixo.
E rezava.
Não para a beleza.
Não para a verdade.
Não para a obra.
Rezava para aparecer.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
A primeira perda foi silenciosa.
A humanidade não percebeu quando deixou de exigir da arte o risco, talvez porque estava ocupada demais deslizando os dedos sobre pequenos túmulos luminosos. Antes, uma obra podia chegar como uma doença. Podia deformar a sala, insultar o gosto, abrir uma fenda onde a normalidade guardava seus dentes. Antes, uma obra podia nascer sem pedir desculpas, feia como um recém-nascido sagrado, violenta como uma chuva em cemitério, incompreensível como certas orações que os mortos murmuram sob a terra.
Depois veio o Algoritmista.
Veio com sua prudência de cadáver.
Veio com seu medo limpo.
Veio com sua falsa ousadia usando perfume de aceitação.
Ele não perguntou: “O que arde em mim?”
Perguntou: “O que performa melhor?”
E então algo morreu.
Morreu a coragem do erro. Morreu a demora fértil. Morreu a obra que apodrece em segredo antes de florescer como veneno. Morreu o artista que cria contra o próprio tempo, contra a audiência, contra a educação do gosto, contra a fome vulgar dos olhos treinados para consumir e esquecer. Morreu aquela antiga brutalidade de fazer algo porque não fazê-lo seria uma forma lenta de suicídio.
No lugar disso, nasceu a peça.
Bem editada.
Bem distribuída.
Bem morta.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
O Algoritmista nunca terá uma obra assombrada.
Terá arquivos. Terá publicações. Terá imagens salvas em pastas com nomes organizados, esse cemitério administrativo dos que nunca foram possuídos. Terá comentários breves, elogios sem raiz, gente dizendo “forte” antes de voltar ao jantar. Terá convites para falar sobre processo, esse teatro em que os vazios gostam de vestir avental de profundidade.
Mas nunca terá uma criação que o espere no escuro.
Nunca terá uma frase sentada à beira da cama exigindo mais carne. Nunca terá uma imagem tão errada, tão desobediente, tão viva, que o obrigue a escolher entre a reputação e a verdade. Nunca terá a vergonha sagrada de criar algo que talvez ninguém compreenda, porque sua covardia exige recibo imediato.
Ele nunca será perseguido pela obra.
Será apenas acompanhado pelo desempenho.
Esse é seu castigo delicado. Ele tentou ser grandioso, mas nasceu compatível. Tentou parecer abismo, mas seu abismo tinha layout. Tentou vestir a pele do gênio, mas por baixo havia apenas um funcionário ansioso da própria vaidade, carimbando emoções em horário útil.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Sua voz também não nasceu.
Houve um tempo, talvez, em que algo nele quis falar sem testemunhas. Um murmúrio sujo, uma imagem incômoda, uma frase ainda coberta de placenta espiritual. Mas ele a levou cedo demais ao mercado. Lavou-a. Cortou suas unhas. Alisou seus cabelos. Tirou-lhe o cheiro. Pôs nela uma legenda clara, um título eficiente, uma intenção compreensível, pois nada assusta mais o Algoritmista do que uma verdade que não sabe se vender.
Sua voz agora tem a limpeza dos necrotérios modernos.
Não treme. Não fede. Não tropeça em ossos. Não morde a própria língua. Não entra na igreja vazia às três da manhã para perguntar a Deus por que certas pessoas nascem com um buraco no peito. Não arrasta correntes pelas escadas do inconsciente. Não envergonha a família. Não desagrada o público.
É uma voz com boa iluminação.
E por isso não é voz. É embalagem sonora de uma ausência.
A verdadeira voz de um artista continua falando mesmo quando ninguém ouve. Fala no quarto mofado, no papel úmido, na garganta seca, na chuva batendo contra o vidro, na primeira madrugada em que a pessoa percebe que não está escrevendo para vencer, mas para não desaparecer dentro de si mesma.
A voz do Algoritmista só desperta quando a plateia acende.
Sem audiência, ele não tem boca.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Ele se tornou esquecível por excesso de adaptação.
Mudava de pele com a estação. Mudava de estética com a tendência. Mudava de indignação conforme o cardápio moral da semana. Mudava até a própria dor, escolhendo sempre a ferida mais compartilhável, a lágrima mais elegante, a ruína mais palatável. Chamava isso de inteligência. Naturalmente. A mediocridade adora entrar no túmulo usando palavras grandes. Faz um barulho mais nobre ao cair.
Nada nele criava raiz.
Sua obra parecia ter sido feita por muitos, o que é uma forma educada de dizer que não parecia ter sido feita por ninguém. Tinha aquela beleza sem febre dos objetos preparados para circular. Tinha brilho, mas não tinha sombra. Tinha ritmo, mas não tinha pulso. Tinha intenção, mas não tinha destino.
Era conteúdo fantasiado de eternidade.
E nada é mais mortal do que nascer pedindo permanência a uma máquina sem memória.
O Algoritmista deixou publicações antigas. Deixou estatísticas arquivadas. Deixou telas salvas. Deixou a sombra digital de uma pessoa que se esforçou muito para parecer inevitável. Mas não deixou ruína. Não deixou ferida. Não deixou aquele tipo de silêncio que permanece depois de uma obra real, quando o leitor ou espectador fecha os olhos e sente que alguma coisa nele foi violada com elegância.
Não há fantasma onde nunca houve alma.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Ainda assim, até os cadáveres mais tolos têm serventia.
O Algoritmista deixou uma marca, sim. Não como grandeza, mas como advertência. Foi uma placa enferrujada na estrada do século, dizendo: daqui em diante, muitos confundirão visibilidade com existência. Muitos chamarão repetição de estilo. Muitos chamarão produtividade de vocação. Muitos venderão a própria fome e depois estranharão que não lhes reste apetite.
Ele revelou o vício moral da época.
Mostrou que a arte pode ser sequestrada sem gritos, sem censura, sem soldados entrando pela porta. Basta transformar todo criador em vigia de si mesmo. Basta fazê-lo consultar números antes de consultar a própria noite. Basta convencê-lo de que o silêncio é fracasso, que a demora é irrelevância, que a complexidade é defeito de comunicação.
Então ele se ajoelha.
Não diante de um tirano.
Diante de um gráfico.
Que imagem miserável. Quase bela, se não fosse tão pequena. Um homem oferecendo sua infância, sua raiva, sua ternura, seus delírios e suas possibilidades a uma curva vermelha pintada na parede como profecia de manicômio.
Sua marca de valor foi mostrar aos artistas vivos que a obra precisa conservar alguma impureza. Precisa ter um canto não iluminado. Precisa guardar um pedaço que não se explica, não se vende, não se mede, não se adapta ao formato. Arte que não corre o risco de fracassar já sai de casa com flores no peito.
Nem toda visibilidade ilumina.
Algumas apenas mostram melhor o cadáver.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Mas o laudo mais triste estava escondido.
Havia uma pasta secreta.
Dentro dela, obras que nunca nasceram ao público. Textos longos demais. Imagens ásperas demais. Ideias tortas, impuras, sem utilidade aparente. Pequenas criaturas deformadas que talvez tivessem vivido, se não tivessem sido abortadas pela ansiedade da recepção. Algumas eram ruins. Outras eram perigosas. Outras, piores ainda, eram verdadeiras.
Ele as olhava às vezes.
Com nojo.
Com saudade.
Com medo.
Porque o Algoritmista não temia criar algo ruim. Temia criar algo sem retorno. Algo lançado ao mundo e recebido pelo silêncio. Temia aquela ausência de resposta que é o verdadeiro batismo de todo artista. Temia a igreja vazia. Temia cantar diante dos bancos podres, dos vitrais partidos, das aranhas trabalhando no púlpito, sem uma só mão humana para confirmar que sua voz existiu.
Então ele matava.
Apagava a postagem em poucos minutos. Reescrevia a frase até tirar dela qualquer espinho. Trocava a imagem brutal por uma imagem aceitável. Transformava o grito em conceito. Transformava o conceito em formato. Transformava o formato em calendário. Transformava o calendário em túmulo.
E chamava isso de estratégia.
O necrotério chama de infanticídio estético.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
O detalhe mais sujo é que ele sabia.
Sabia quando mentia. Sabia quando a obra vinha fraca, penteada, dócil. Sabia quando a legenda chegava antes da revelação. Sabia quando estava usando a palavra “comunidade” para esconder a palavra “plateia”. Sabia quando dizia “troca” querendo dizer “validação”. Sabia quando dizia “processo” querendo dizer “pavor”. Sabia quando invejava colegas em silêncio, enquanto os saudava em público com a fraternidade viscosa dos que sorriem por educação e apodrecem por comparação.
Sabia de tudo.
E continuava.
Porque seu pecado não era a falsidade. A falsidade, ao menos, exige alguma imaginação. Seu pecado era mais triste: era o medo de desaparecer antes mesmo de ter existido.
Ele não criava para vencer a morte.
Criava para sobreviver até a próxima atualização.
E a máquina, esse deus barato, sem rosto e sem luto, observava tudo com sua indiferença de abatedouro. Ela nunca o amou. Nunca o escolheu. Nunca o reconheceu. Apenas o mediu. Apenas o empurrou. Apenas o usou enquanto seus gestos produziam movimento suficiente para alimentar a fome da roda.
Depois, como toda divindade sem poesia, cuspiu-o.
Veio outro.
Com outra estética.
Outra dor.
Outro rosto.
A mesma ausência.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
No fim, fizeram seu velório em uma capela de telas.
As velas eram notificações antigas. As flores, cabos queimados. Os sinos, vibrações sem dono. Sobre o caixão, colocaram seu celular ainda aceso, exibindo a última imagem publicada. Havia poucos comentários. Nenhum epitáfio.
Seu rosto, multiplicado em monitores rachados, parecia finalmente entender o ridículo da própria canonização. Um santo sem martírio. Um profeta sem deserto. Um gênio sem obra. Um cadáver com boa distribuição.
Choveu naquela noite.
A água entrou pelo teto da igreja abandonada e escorreu pelas paredes, borrando os gráficos desenhados na pedra, dissolvendo as curvas, manchando os números, lavando os pequenos ícones vermelhos como sangue barato. A ferrugem floresceu nas dobradiças. A poeira cobriu as telas. Insetos começaram a morar entre os botões partidos. Em poucas horas, o altar tecnológico parecia tão antigo quanto uma superstição fracassada.
E ali, diante daquele trono apagado, a noite escreveu com tinta seca:
Foi visto.
Foi medido.
Foi esquecido.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Que descanse, então, o Algoritmista.
Não em paz, porque a paz exige alguma inteireza. Que descanse em desempenho encerrado. Que sua carne de métrica encontre a decomposição que sempre mereceu. Que seus números se transformem em moscas. Que suas estratégias virem pó sobre papéis úmidos. Que suas frases prontas sejam devoradas por traças cultas, essas críticas literárias mais honestas que muitos júris humanos.
E que, em algum lugar longe da luz azul dos pequenos altares portáteis, um verdadeiro artista ainda falhe em silêncio.
Que escreva algo feio.
Que pinte algo impossível.
Que cante para ninguém.
Que sangre sem transformar o sangue em postagem.
Porque a arte, quando nasce viva, não pede permissão ao alcance.
Ela vem.
Molhada de chuva, dentes à mostra, carregando ossos sob o braço, atravessando igrejas vazias e espelhos mofados, sem se importar se a época está pronta para recebê-la.
A arte não quer performar relevância.
Quer sobreviver ao funeral dos medíocres.
Eis o corpo.
Eis o conteúdo.
Eis a alma em modo de economia.
Fechem o caixão.
O conteúdo não ressuscitou no horário de maior alcance.