Levanta dessa cova!

No princípio, ela apenas gostava do trovão.
Não o trovão educado das tempestades distantes, que as famílias escutam atrás das janelas enquanto fingem segurança. Ela gostava do trovão fabricado por mãos humanas, do metal batendo contra o nervo, da guitarra abrindo rachaduras no teto da alma, da bateria marchando como ossos em procissão. Gostava daquilo que não pedia licença. Gostava do som que entrava pela boca dos mortos e saía pelos dentes dos vivos.
E isso, para a sociedade, já bastava como crime.
Porque uma mulher pode ser triste, desde que seja discreta. Pode ser ferida, desde que seja bonita em sua ruína. Pode ser intensa, desde que transforme a própria intensidade em decoração de mesa, algo pequeno, domesticado, fácil de limpar depois do jantar. Mas uma mulher que gosta do ruído? Uma mulher que encontra no peso da música uma igreja mais honesta que a missa dos bem-comportados? Essa precisa ser corrigida.
Então a chamaram de estranha.
Depois, quando a estranha começou a sangrar vergonha, chamaram-na de madura.
E quando finalmente ela abaixou o volume, alisou as arestas, retirou os anéis, guardou as botas, sorriu sem mostrar os dentes e aprendeu a caber na fotografia mofada da aprovação, deram-lhe o nome mais cruel que uma alma viva pode receber:
Normal.
Levanta dessa cova!
Ergue-te desse caixão bege onde te assentaram com tanta delicadeza. Vê como passaram teu vestido até apagar nele qualquer sinal de tempestade. Vê como prenderam teu cabelo, fio por fio, como quem enforca serpentes pequenas antes que aprendam a morder. Vê tua coleira de pérolas, tão branca, tão limpa, tão socialmente aceitável, apertando teu pescoço com a suavidade perversa das boas famílias.
Que bela morta fizeram de ti.
Tão apresentável.
Tão serena.
Tão inútil.
Ali está teu retrato na parede: “Finalmente aceitável.” Uma sentença emoldurada, assinada por mãos invisíveis, carimbada com tinta seca e cuspe moral. Abaixo dela, flores mortas repousam em um vaso rachado, como se até a natureza tivesse sido obrigada a se comportar. Há documentos antigos sobre a mesa, atestados de obediência, certificados de silêncio, recibos de amputação. Tudo muito organizado, porque o mundo adora burocratizar seus assassinatos.
Levanta dessa cova!
A humanidade perdeu alguma coisa quando te tornou igual. Não perdeu apenas uma mulher de preto atravessando a rua sob chuva, com fones nos ouvidos e uma guerra secreta no peito. Perdeu uma frequência. Perdeu uma língua subterrânea. Perdeu o ruído necessário que impede os salões de apodrecerem em paz.
Perdeu tua presença como ameaça. E ameaça, minha pobre cadáver social, é às vezes a forma mais pura de valor.
Tu poderias ter sido uma rachadura no espelho. Poderias ter ensinado outras a não confundir aceitação com salvação. Poderias ter mostrado que o gosto estranho é, muitas vezes, a última prova de que ainda existe alguém respirando dentro do corpo. Mas te convenceram de que era melhor ser agradável. E lá foste tu, com tua pequena coragem sedada, trocar o incêndio pelo aquecedor.
Agora és recebida nos lugares.
Agora ninguém cochicha tanto.
Agora tua ausência não incomoda.
Parabéns. A normalidade venceu mais um cadáver.
Levanta dessa cova!
Há uma voz enterrada em tua garganta.
Não essa voz que diz “eu era assim quando mais nova”, como se tua verdade tivesse sido uma doença de juventude. Não essa voz que pede desculpas antes de discordar. Não essa voz de sala limpa, de porcelana barata, de elevador social, de reunião familiar onde todos mentem com tal prática que a mentira chega a parecer uma tradição hereditária.
A tua voz verdadeira era outra.
Era rouca de existir.
Era grave como igreja vazia.
Era uma lâmina raspando ferrugem do altar.
Era o grito que não implora, apenas anuncia.
Mas costuraram tua boca com linha clara, para que a violência parecesse higiene. E ainda assim, entre os pontos, escapam pequenas notas negras, moscas musicais, insetos de um antigo funeral. Elas saem de ti porque aquilo que foi verdadeiro não aceita sepultura sem escândalo. O som apodreceu dentro de ti, sim, mas não morreu. Está ali, fermentando no escuro, produzindo gases de ressurreição.
Escuta.
Teu silêncio tem baixo.
Tua vergonha tem distorção.
Tua nostalgia tem dentes.
Levanta dessa cova!
Tu nunca terás o próprio mito enquanto continuares ajoelhada diante da normalidade.
Terás, no máximo, a recompensa miserável dos domesticados: convites mornos, elogios ocos, cadeiras em mesas onde ninguém fala nada que valha o esforço de estar vivo. Dirão que estás melhor. Dirão que amadureceste. Dirão que agora pareces mais leve, quando na verdade apenas aprenderam a carregar teu caixão sem fazer barulho.
Não terás incêndio.
Não terás a vertigem de entrar em uma noite sonora e sentir que o corpo voltou à sua pátria escura. Não terás o riso sujo de quem sabe que é julgada e, ainda assim, permanece. Não terás a glória pequena e feroz de ser inesquecível para os poucos que ainda reconhecem almas pela fuligem.
Terás paz social.
E paz social, quando comprada com a amputação do espírito, é só um túmulo com almofadas.
Levanta dessa cova!
Há uma camiseta preta no fundo da tua gaveta.
Não mintas. Ela ainda existe. Desbotada, dobrada, exilada entre roupas obedientes. Tem cheiro de tempo fechado, poeira, suor antigo, noite perdida. Talvez já não sirva. Talvez sirva demais. Talvez seja menos uma peça de roupa e mais uma pele abandonada, esperando que tua covardia acabe o expediente.
Às vezes, tu a tocas como quem toca um cadáver querido.
Às vezes, tu a escondes melhor.
Às vezes, tu quase a vestes.
Mas então ouves, lá fora, o coro dos corretos. O barulho dos dentes sociais mastigando reputações. As bocas finas dizendo que há idade para tudo, como se a vida fosse uma repartição pública e a alma precisasse retirar senha para existir. E então fechas a gaveta.
Esse é teu detalhe mais sujo: tu colaboraste com o próprio enterro.
Ninguém te matou de uma vez. Não houve punhal dramático, nem sentença sob relâmpagos, nem carrasco com capuz. Houve apenas pequenas renúncias, tão pequenas que quase pareciam prudência. Um batom menos escuro. Um volume mais baixo. Uma camiseta deixada para depois. Um show recusado. Um “não ligo mais para isso”. Uma risada falsa. Uma opinião engolida inteira, ainda quente, descendo pela garganta como carne ruim.
E assim, de concessão em concessão, foste ficando apresentável.
A decomposição também sabe ser gradual.
Levanta dessa cova!
O que te torna esquecível não é tua falta de beleza. Nem tua falta de inteligência. Nem tua falta de história. O que te torna esquecível é tua obediência ao apagamento. É esse teu esforço patético de não ferir a mobília emocional dos outros. É tua habilidade adquirida de atravessar uma sala sem alterar sua temperatura.
Uma pessoa viva deixa rastro.
Uma pessoa viva incomoda o ar.
Uma pessoa viva faz os espelhos trabalharem.
Mas tu aprendeste a ser superfície. Aprendeste a sorrir como moldura vazia. Aprendeste a existir em tons compatíveis com paredes alugadas. Tornaste-te uma criatura de bom senso, esse perfume barato que a mediocridade usa quando quer parecer virtude.
E a sociedade, satisfeita, lavou as mãos em água benta e mofo.
“Está curada”, disseram.
Curada de quê?
Da música?
Do excesso?
Do próprio nome?
Da insolência sagrada de não se parecer com todas?
Não, minha Normal. Não estavas curada.
Estavas bem embalsamada.
Levanta dessa cova!
Levanta-te dessa fotografia proibida.
Quebrem-se as pérolas no chão como pequenos dentes de uma santa falsa. Soltem-se os cabelos como cobras voltando ao mato. Rasgue-se o vestido bege, essa mortalha da etiqueta. Que as botas rachadas encontrem novamente a lama. Que a guitarra esquecida no fundo da tua sombra seja erguida como uma pá, não para cavar outra cova, mas para abrir a terra sobre tua própria face soterrada.
Que a mulher feroz no fundo da imagem avance.
Ela está ali, vês? Quase invisível, mas não morta. Cabeluda, escura, impaciente. Segura a guitarra como quem segura uma ferramenta de exumação. Ela conhece teu nome anterior. Ela sabe onde escondeste tua raiva. Ela sabe que tua vergonha é apenas medo usando roupa formal.
E ela não veio pedir licença.
Veio buscar o corpo.
Levanta dessa cova!
Que os espelhos manchados devolvam tua deformidade sagrada. Que as igrejas vazias aprendam teu refrão. Que os insetos saiam da boca costurada levando embora os últimos restos de boas maneiras. Que a ferrugem escreva em teus ossos uma escritura nova. Que a chuva lave o certificado, dissolva a tinta, apague o “Finalmente aceitável” até restar apenas papel úmido, inútil, como toda aprovação que exigiu tua morte.
A normalidade é um velório interminável para tudo que poderia ter nascido.
E tu, ridícula criatura, quase aceitaste as flores.
Quase sorriste no caixão.
Quase agradeceste a coleira.
Quase chamaste de paz aquilo que era só ausência de pulsação.
Mas ainda há notas negras escapando de tua boca. Ainda há lama nas botas. Ainda há uma camiseta exilada esperando o retorno da rainha destronada de si mesma. Ainda há, sob a maquiagem neutra, uma pele faminta por noite. Ainda há, dentro da tua carne socialmente aprovada, uma estranha batendo nos ossos como quem arromba uma porta por dentro.
Então ouve esta oração, não como consolo, mas como ordem fúnebre.
Levanta dessa cova!
Levanta contra os que te preferem pequena.
Levanta contra os que confundem silêncio com evolução.
Levanta contra os que chamam tua intensidade de fase.
Levanta contra o álbum de família, contra o almoço de domingo, contra o elogio venenoso, contra a mão invisível que alisa tua alma até deixá-la sem relevo.
Levanta, porque a humanidade já tem mulheres normais demais e presenças verdadeiras de menos.
Levanta, porque toda alma domesticada é uma vela apagada antes do ritual.
Levanta, porque ser aceita por um mundo espiritualmente apodrecido não é honra. É indício de contaminação.
Levanta dessa cova!
Sai do caixão com as pérolas arrebentadas, com o vestido rasgado, com as botas sujas, com a boca descosturada em sangue e música. Sai sem pedir aplauso, sem pedir perdão, sem prometer equilíbrio. Sai como quem volta do necrotério trazendo nas mãos o laudo da própria mentira.
E quando perguntarem quem és, não digas “normal”.
Nunca mais.
Dize apenas:
Sou aquela que a sociedade enterrou para poder dormir em paz.
E voltei fazendo barulho.