Aqui jaz o homem que prometeu servir ao povo. Serviu apenas a si mesmo,
e ainda assim morreu insatisfeito.

Ele caminhava entre homens como um rei improvisado.
Vestia tecidos caros, exibia sorrisos treinados e carregava no peito uma bandeira que jamais amou. Falava de pátria para quem tinha fome. Falava de futuro para quem não possuía sequer o presente. Falava de esperança como um comerciante anuncia mercadorias numa feira decadente.
E os ouvidos cansados acreditavam.
Porque a miséria sempre produz fé desesperada.
O Sanguessuga de Gravata conhecia essa regra melhor do que qualquer sacerdote.
Enquanto beijava crianças diante das câmeras, seus dedos já vasculhavam cofres invisíveis. Enquanto apertava mãos enrugadas, calculava lucros. Enquanto prometia pontes, escolas e hospitais, construía apenas corredores secretos para alimentar a própria fortuna.
Sua verdadeira profissão nunca foi governar.
Foi consumir.
Consumir impostos.
Consumir sonhos.
Consumir décadas inteiras da vida de pessoas que jamais conheceria.
Era um predador elegante. Um abutre que aprendera a usar perfume.
Nos salões iluminados, brindava ao progresso. Nas sombras, distribuía favores como um traficante distribui venenos. Alimentava aliados com migalhas douradas e mantinha inimigos sob a ameaça silenciosa da exclusão. Seu império não era feito de pedra ou aço.
Era feito de dependência.
Era feito de silêncio comprado.
Era feito de consciências alugadas.
Mas existe uma maldição que nenhum corrupto consegue evitar.
O tempo.
O tempo, esse coveiro paciente que jamais aceita propinas.
Chega o dia em que as manchetes envelhecem. Os cargos desaparecem. Os fotógrafos procuram rostos mais novos. Os bajuladores encontram mesas mais fartas. Os telefones param de tocar.
E então resta apenas o homem.
Sem o palanque.
Sem os aplausos.
Sem a multidão.
Apenas ele e o eco das próprias escolhas.
Nesse instante, descobre uma verdade brutal: o dinheiro acumulado não conversa com ninguém. As contas bancárias não oferecem consolo. Os contratos não fazem companhia. Os seguranças não afastam a própria consciência.
E ali, diante do espelho que evitou durante toda a vida, enxerga finalmente sua verdadeira forma.
Não um líder.
Não um estadista.
Não um construtor de nações.
Mas uma criatura inchada de excessos, alimentada por recursos que jamais lhe pertenceram, cercada por luxos que nunca conseguiram preencher o vazio que carregava desde o início.
Quando sua lápide for erguida, talvez algum discurso tente embelezar sua memória.
Talvez mencionem seus cargos.
Talvez mencionem seus mandatos.
Talvez mencionem suas condecorações.
Mas a terra é mais honesta que os homens.
E sob o peso silencioso do túmulo, nenhuma mentira permanece viva por muito tempo.
Porque os vermes, ao contrário dos eleitores, nunca acreditam em promessas.