
A ferrugem consome a fechadura das igrejas vazias,
Onde o silêncio costumava parir o pensamento.
A humanidade perdeu em ti mais um refúgio,
Mais um espaço onde a imaginação poderia respirar.
O mundo, já farto de espelhos, sufoca por uma janela,
Mas tu ofereces apenas o reflexo de um abismo raso.
Cada minuto que te dedicam na idolatria da superfície
É um século de tinta seca que o homem deixou de escrever.
A tua tragédia não é o ódio de quem te aponta o dedo,
Não é o peso da injúria, nem a pedra que te atiram.
A tua danação é ser eternamente substituível,
Uma escultura de ossos numa vitrine insaciável.
Nenhuma escola fundada, nenhum verbo, nenhuma luz...
Apenas rastros estatísticos apodrecendo sem cruz.
No escuro do teu quarto, os dentes rangem de pavor,
Aterrorizada pelo silêncio que revela a tua própria nudez.
Medes a existência em métricas, mendigas por migalhas,
Sorrindo para uma plateia de fantasmas invisíveis.
A intimidade virou mercado; a dignidade, o troco em moedas.
Por baixo da maquiagem, a carne em decomposição negocia sua própria aura.
Tornaste-te um arquivo de fotografias mofadas em servidores frios...
Um corpo que envelhece mais rápido que as flores de um velório.
O verdadeiro mistério é um ímã silencioso,
Que as almas raras carregam sem precisar se despir.
Quem vende o próprio quarto, não pode recomprar o segredo.
A tua voz não muda consciências. Não atravessa as eras.
Ela existe apenas enquanto a maquinaria do espetáculo sangra,
E silencia assim que o algoritmo muda e as luzes se apagam.
A tua tragédia não é o ódio de quem te aponta o dedo,
Não é o peso da injúria, nem a pedra que te atiram!
A tua danação é ser eternamente intercambiável,
Um corpo no mostruário, um sacrifício descartável.
Sem obra alguma criada, sem páginas para o tempo abraçar...
Apenas um cemitério de cliques onde a poeira vai dançar!
A lógica da vitrine não conhece lealdade...
Ela consome hoje a carne que amanhã não vai lembrar.
Tu não temes a exposição.
Tu tens pavor do esquecimento.
E, na ironia sombria da tua própria vaidade...
É exatamente para os braços dele que estás a correr.