
Herdei no sangue o gesto que não escolho.
Na mesa posta, a paz é ensaiada,
mas sob o pano treme o mesmo molho.
Um eco antigo em carne mal cerrada.
De mãe em filha passa, em seco embrulho,
um medo antigo, língua envenenada,
que atravessa os anos como orgulho.
A dor polida, lenta e herdada.
Chamaram lar o ciclo repetido,
onde o abuso aprende o mesmo rito
e veste afeto em máscara ancestral.
Mas onde rompe o fio que nos domina?
Em qual instante a carne se ilumina
e nega o legado bruto e desigual?