
A casa ainda cheirava a poeira antiga e a segredos insepultos. As cortinas rasgadas balançavam ao vento que vinha de lugar nenhum, e os livros, centenas deles, empilhados em caos ordenado, sussurravam sozinhos.
Bianca entrou, hesitante, a lanterna do celular tremendo em sua mão. Era uma leitora apaixonada pelas histórias de Luna Bela Morte, aquela autora lendária, amaldiçoada, cuja morte fora envolta em mistério. Disseram-lhe que a casa estava vazia. Que a escritora morrera há muito.
Mas o ar parecia… vivo.
Pensou por um instante ter visto uma mulher no alto da escada de madeira, olhando para ela, mas logo a visão se desfez. Não havia nada.
Um livro aberto sobre a mesa chamou sua atenção. A capa trazia o nome de Luna gravado em tinta escura, tinta que ainda parecia fresca. As letras tremiam, como se respirassem.
Bianca se aproximou.
E leu.
A frase inicial dizia:
“Quem lê estas palavras entra nelas e, ao fazê-lo, torna-se uma das vozes que ecoam nas paredes.”
Um frio percorreu sua espinha. A lamparina do teto piscou, e por um instante, Bianca viu, refletida no vidro da janela, uma mulher atrás dela. Pálida, com os olhos como abismos de tinta, e o vestido rasgado como véus de luto eterno.
O fantasma de Luna Bela Morte.
Bianca recuou, sufocada pelo terror. Mas a presença não se moveu.
Apenas observava.
O olhar da fantasma era… insuportável. Não havia ódio, nem fome, nem piedade.
Havia apenas um reconhecimento profundo. Como se visse nela um reflexo, uma sucessora.
Os livros começaram a abrir-se sozinhos, páginas virando em turbilhões de vento e voz.
Trechos de contos surgiam como ecos de outras vidas... Flavia, Diego, Maíra, Tayran, Sara, Fernando… nomes de almas presas, escritas, lidas e devoradas pela própria autora.
Bianca tentou correr até a porta.
Mas as páginas se ergueram diante dela como espelhos de papel.
E dentro de cada espelho, via o rosto de Luna, e o dela próprio, fundindo-se, linha a linha.
De repente, uma das páginas se rasgou sozinha, e uma frase nova escreveu-se em sangue:
“Alguns livros são portais. E toda leitora é, cedo ou tarde, escrita de volta.”
O chão estremeceu. As paredes pulsavam como um coração enterrado vivo.
Bianca gritou, mas a casa respondeu com um sussurro que soou como um beijo gélido:
— “Ainda não, Bianca. Você não morrerá hoje.”
O fantasma se aproximou, pairando sobre o chão.
Um raio de luar atravessou o teto, iluminando seu o rosto, belo, trágico, e terrivelmente humano.
Luna Bela Morte a fitou em silêncio por longos segundos.
Depois, tocou-lhe o rosto com dedos translúcidos e frios.
— “Você foi escolhida por outro motivo...” — murmurou a fantasma, com voz que parecia vir de dentro dos livros.
— “E antes que entenda o porquê, precisa ver o que há por trás da história.”
Bianca, atônita, não soube se tremia de medo ou fascínio.
As páginas começaram a se erguer ao redor das duas, formando um círculo, um vórtice de papel, vento e tinta viva.
E enquanto o mundo girava ao redor delas, o olhar de Luna a prendeu num abismo de palavras e lembranças.
Bianca compreendeu, algo estava prestes a ser revelado.
Mas o livro ainda não havia terminado de escrevê-la.
O ar ficou mais denso.
O vento cessou.
E no instante em que a última página pousou no chão, o tempo pareceu parar.
Bianca estava no centro da casa, mas agora o ambiente era outro. As paredes haviam desaparecido, e em seu lugar havia apenas um vasto salão de espelhos quebrados. Cada estilhaço refletia uma lembrança. Cada reflexo, uma dor.
O fantasma de Luna Bela Morte caminhava lentamente, os pés sem tocar o chão.
Suas mãos pairavam sobre um espelho maior, emoldurado por ossos humanos e fitas vermelhas, pulsantes, como artérias.
Ela sussurrou algo em uma língua antiga, e o espelho se abriu como uma ferida.
— “Quer saber por que ainda está viva, Bianca?” — perguntou a voz fria, mas triste, com um timbre que soava entre um suspiro e uma maldição.
— “Porque já houve uma troca. Porque a minha alma foi tomada no seu lugar.”
Bianca ficou sem fala.
Luna continuou, os olhos mergulhados na superfície ensanguentada do espelho.
— “Jack O’Lantern... o Senhor das Almas Perdidas. O guardião da colheita dos mortos. Eu o invoquei. Ofereci a ele as almas de seres mortais, para que me concedesse poder sobre a Noite Eterna... mas ele mentiu.”
As chamas dentro do espelho ganharam forma: o rosto de Jack O’Lantern, ardendo dentro de sua abóbora grotesca, sorrindo com dentes de fogo.
— “Ele disse que queria apenas um ritual. Um pacto para alimentar o Halloween. Eu acreditei, e abri os portões.”
A voz de Luna tremia, o ódio e a dor misturando-se num mesmo tom.
— “Mas quando o sangue das vítimas tocou o chão, ele quis mais do que as almas deles. Quis a minha.”
* * *
O espelho vibrou, e a cena se projetou no ar, a noite em que Luna Bela Morte morreu...
A sala escureceu completamente. Bianca via tudo como se estivesse lá: Luna ajoelhada diante do altar, o cálice de sangue nas mãos, e a sombra flamejante de Jack O’Lantern atrás dela, imensa, inumana, sua risada ecoando como trovão.
As velas negras apagaram-se.
E então vieram os gritos.
Ele a agarrou pelas pernas. As mãos ardentes do monstro abriram-lhe a carne, arrancando os ossos como se fossem galhos secos. Luna tentou se arrastar, mas o chão se transformou em um rio de fogo e cinzas.
Jack riu enquanto colocava as pernas arrancadas sobre o altar.
— “Agora, escritora, você não mais caminhará entre os vivos... mas também nunca descansará entre os mortos.”
O sangue de Luna escorreu pelo símbolo do ritual, e o espelho, esse mesmo espelho agora diante de Bianca, absorveu cada gota, prendendo a alma da escritora dentro dele.
O reflexo da fantasma curvou-se, e Bianca viu, horrorizada, que sob o vestido espectral Luna não tinha pernas.
Apenas um redemoinho de névoa e sangue sustentava sua forma.
— “Ele me deixou aqui, Bianca. Como um troféu. Uma lembrança da traição.
Mas o que Jack O’Lantern não entende…” — a voz dela agora tinha um tom maligno, cortante como navalha — “é que ele criou a sua própria maldição.”
O espelho começou a sangrar. Gritos distantes ecoaram; as vozes das almas presas no calabouço de Jack.
— “Eu sou o reflexo das histórias que ele quis apagar.
Sou o erro que se escreve de volta.
E agora, serei o seu carrasco.”
Bianca recuou, tomada pelo pavor, mas Luna continuou:
— “Enquanto ele se alimenta das almas das vítimas, eu as torturarei. Eu as farei reviver cada morte, cada dor, cada medo... para sempre.”
O vento soprou como um uivo de desespero, e as páginas começaram a se rasgar sozinhas.
Cada nome das vítimas: Flavia, Diego, Maíra, Tayran, Sara, Fernando, Gustavo... foi escrito em fogo nos espelhos, e o reflexo deles gritou em agonia.
— “Essas almas me pertencem agora, e não há céu nem inferno que as tome de mim.
Jack as tem presas, mas eu as possuo.
E quando o próximo Halloween chegar...”
Luna inclinou o rosto para Bianca, o olhar ardendo com uma luz de vingança.
— “Ele voltará para me cobrar outra alma.
Mas desta vez, quem decidirá quem vive e quem morre... serei eu.”
O espelho estourou em mil pedaços, e um vento gelado arrastou Bianca para trás.
Quando conseguiu abrir os olhos, estava novamente no saguão da casa, o livro fechado diante dela.
Mas o sangue ainda escorria das páginas.
E no espelho da parede, o reflexo de Luna sorriu.
A casa estremecia. As paredes pulsavam como carne viva.
O ar cheirava a ferro e velas queimadas.
Bianca, trêmula, recuava entre sombras que pareciam ter olhos.
Lá fora, a lua cheia ardia, um olho branco e imenso, observando a cena com mórbida curiosidade.
Luna Bela Morte estava diante da porta principal, agora transformada em um portal negro, que respirava como um pulmão de trevas. Cada batida era um murmúrio de alma perdida.
Ela ergueu a mão e o livro flutuou até ela. As páginas abriram-se sozinhas, girando em círculos como se tivessem vida. O vento ergueu o vestido espectral, e o sangue evaporado das letras começou a pingar no chão, formando um caminho rubro que levava direto ao abismo.
— “Bianca…” — disse o fantasma, sua voz ecoando em mil tons. — “O destino das almas está selado. Jack O’Lantern acreditou que me domaria, mas esqueceu que o horror também escreve.”
Bianca tentou falar, mas as palavras ficaram presas na garganta.
O medo a calava, mas havia também fascínio; uma estranha reverência diante da criatura que fora uma mulher, uma escritora, e agora era uma lenda condenada.
Luna se virou lentamente.
O véu que cobria seu rosto se moveu, revelando olhos que ardiam como luas mortas.
— “No calabouço de Jack há grades forjadas do arrependimento humano. As celas estão cheias de ecos... gritos que nunca cessam. Mas falta algo.”
Ela sorriu; um sorriso belo e terrível.
— “Falta um carrasco.”
O chão tremeu. O portal rugiu.
As paredes da casa se desfizeram em areia, revelando um desfiladeiro infinito, e lá embaixo, Bianca viu as celas do calabouço.
Elas se estendiam como um labirinto sem fim. Cada cela continha uma das almas escolhidas: Sara, com os olhos costurados; Fernando, ainda coberto de areia; Gustavo, tentando escapar da fumaça que o envolvia; e tantos outros, todos chorando, gritando, implorando.
Bianca levou as mãos à boca, horrorizada.
— “Meu Deus… o que é isso?”
Luna respondeu, serena, como quem recita uma poesia:
— “É o preço da curiosidade. A dívida da carne. O eco das palavras que ousaram me invocar.”
Ela deu um passo à frente, o corpo translúcido tremendo como chama.
— “Mas não chore, Bianca. O que nasce do medo também dá origem à eternidade. E há beleza na condenação, porque só quem sente dor sabe o que é ser lembrado.”
Um relâmpago atravessou o céu, iluminando o abismo.
As almas começaram a chamar o nome dela, uma a uma, como uma prece invertida:
Luna... Luna... Luna Bela Morte...
E ela respondeu, levantando o livro como uma lâmina:
— “A partir desta noite, não serei mais a vítima.
Serei o Julgamento.”
O portal rugiu como uma besta faminta, e as chamas do inferno se misturaram com as páginas que voavam.
Cada folha arrancada do livro era uma alma libertada, apenas para ser tragada novamente pelo abismo, gritando o próprio nome.
Bianca tentou correr, mas o vento a prendeu.
A voz de Luna ecoou por toda a dimensão:
— “Jack O’Lantern!
Aqui estou, de volta ao teu covil de ossos.
Trouxe o que te falta: o fim.”
Um clarão cortou o horizonte. O portal se abriu completamente, revelando o interior do Calabouço das Almas Perdidas: um mar de fogo e sombras, com Jack O’Lantern sentado em seu trono de caveiras, rindo, o rosto iluminado pela luz das chamas.
Mas Luna não recuou.
Ela se lançou no abismo.
O livro caiu das mãos dela e pousou aos pés de Bianca, aberto, com a última frase escrita em sangue:
"Toda história termina quando o autor morre…
Mas o meu fim será o começo do medo."
O grito de Jack ecoou do outro lado do portal, seguido por um silêncio absoluto.
Depois, o riso de Luna.
Um riso tão profundo e gélido que fez as estrelas piscarem e a lua apagar por um instante.
Quando o vento cessou, o portal se fechou.
A casa ficou vazia. Bianca estava só.
No chão, o livro começou a se apagar, página por página, até restar apenas o título:
“As Almas Escolhidas da Noite de Halloween”
por Luna Bela Morte
AGRADECIMENTO DA AUTORA:
O último conto do meu evento literário “As ALMAS Escolhidas da Noite de Halloween”, acaba de alcançar seu clímax sombrio.
E desta vez, as chamas do inferno abriram espaço para uma maldição: "O Calabouço das Almas Perdidas", onde o eco da minha mortuária arte literária agora desperta como carrasco das almas perdidas.
No final da história, a escolhida Bianca é levada às fronteiras entre a vida e o abismo, onde descobre que alguns livros são portais; e toda leitora, mais cedo ou mais tarde, é escrita de volta.
Mas a verdade que se revela vai além do medo: o fantasma Luna Bela Morte (personagem que criei inspirada em mim mesma) foi traída por Jack O’Lantern, e agora regressa para tomar o que é seu: o trono no calabouço, e as almas que ele roubou.
🔥 Meus profundos agradecimentos:
Com gratidão e admiração, deixo aqui um tributo aos corajosos leitores inscritos em meu evento literário, cuja alma inspirou o nascimento deste horror, e cuja presença trouxe vida (e novo terror) aos contos sangrentos desta história especial de Halloween.
Obrigada por aceitarem cruzar o véu da ficção e adentrar o reino onde o medo é eterno.
📖 Agora, convido cada leitor a mergulhar nesta história amaldiçoada e deixar sua marca nas sombras:
Comentem o que acharam dos contos e contem...
vocês também ouviram o riso de Luna Bela Morte ecoar no escuro?
🕯️ As Almas foram escolhidas.
O carrasco despertou.
E o terror, meu querido leitor… apenas começou. 🕯️