Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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O vento da meia-noite arranhava as janelas quebradas da velha mansão. As tábuas rangiam como ossos sob o peso do tempo. A neblina rastejava pelo chão como se quisesse esconder os segredos que viviam ali.

 

Gustavo Oliveira, aventureiro nato, curioso por natureza e apaixonado por mistérios, não acreditava em fantasmas.
— “Toda maldição tem uma explicação científica”, murmurou, ajustando o pequeno gravador de voz preso ao peito e a lanterna acoplada ao capacete.

 

Mas havia algo diferente naquela noite. O ar estava pesado, saturado com o cheiro metálico de mofo e lembranças mortas.


A mansão que ele explorava era conhecida entre os moradores da cidade como “A Casa da Bela Morte”; lugar amaldiçoado onde, segundo as lendas, a escritora Luna Bela Morte havia vivido e morrido, deixando para trás contos que devoravam a sanidade de quem os lia em voz alta.

 

Gustavo atravessou o portão enferrujado, que se abriu com um gemido lamentoso.


O jardim estava tomado por ervas mortas, e sobre uma das árvores, uma coruja observava em silêncio, com olhos que refletiam o brilho pálido da lua.

 

Dentro da casa, o relógio de parede ainda marcava meia-noite, embora o ponteiro dos segundos não se movesse há anos.


Poeira cobria os móveis, e velas derretidas formavam rostos retorcidos sobre a mesa da antiga sala de leitura.
O cheiro de papel queimado pairava no ar.

 

Gustavo caminhou lentamente, analisando tudo com o olhar atento de um cientista.
— “Se Luna morreu aqui, deve haver registros, diários... talvez experimentos literários sobre medo e percepção...”

 

Mas o que ele encontrou não foi um diário.
Foi ela.

 

No escritório, diante de uma escrivaninha coberta por penas de corvo e frascos de tinta seca, estava o esqueleto de Luna Bela Morte.


Vestígios de seu vestido preto ainda pendiam dos ossos. O crânio inclinado, como se tivesse morrido escrevendo, encarava uma folha de papel amarelada; o último conto inacabado.


Gustavo se aproximou, com o coração acelerado e o suor frio escorrendo pela nuca.


Pegou a folha e leu em voz alta, sem perceber o que fazia:

“Aquele que profanar minha história...
será lido pelas trevas.
E nelas, nunca mais encontrará o fim.”

 

O chão tremeu. As portas da casa se fecharam com um estrondo, selando seu destino.


As lâmpadas de sua lanterna piscaram, até apagarem de vez.
E então, veio o som.

 

Um sussurro arrastado, doce e cruel:
— “Você me chamou, Gustavo...”

 

Do espelho da parede, surgiu o Fantasma de Luna Bela Morte.


Seu rosto era uma mistura de beleza e decomposição, com olhos vermelho escuro como abismos e cabelos que flutuavam em ondas de fumaça.


A pele translúcida deixava ver as veias de sombra correndo sob ela.


Em uma das mãos, segurava a pena que jamais terminou de usar; agora, uma lâmina feita de tinta e maldição.

Gustavo tropeçou para trás, sentindo o frio da morte se aproximar.


As velas acenderam-se sozinhas, uma a uma, formando um círculo em volta dele.
Nas paredes, palavras começaram a se escrever sozinhas, em sangue:

“O próximo capítulo... é o seu.”

 

Gustavo tentou correr, mas a casa parecia viva; escadas mudavam de lugar, portas se transformavam em paredes.
De algum ponto distante, o riso de Luna ecoava, misturado ao som de páginas virando.

 

E antes que ele pudesse entender, uma mão fantasmagórica o agarrou pelo pescoço, puxando-o de volta para dentro da escuridão.

 

A pena brilhou.
O sangue pingou.
E a história… havia apenas começado.

 

O som da pena riscando o papel ecoava pelas paredes da casa como o roçar de unhas em um caixão.


Gustavo abriu os olhos e se viu deitado sobre um chão de madeira antiga; agora coberto por símbolos escritos com uma tinta escura demais para ser tinta.


O ar cheirava a ferro e carne queimada.

 

Tentou levantar-se, mas as pernas tremiam.


Em sua pele, algo novo havia sido desenhado: linhas, palavras... frases em latim gravadas em fogo, pulsando com luz avermelhada.


Ele não sabia o significado exato, mas entendeu o essencial:
o corpo dele estava sendo reescrito.

— “Luna... o que você fez comigo?” — sussurrou, a voz quebrada entre medo e incredulidade.

 

Do outro lado da sala, o espelho onde ela havia surgido agora refletia outra imagem; a de um livro aberto, com páginas vivas que se moviam como pulmões respirando.


As palavras se escreviam sozinhas, em caligrafia elegante e cruel:

“Capítulo II — O Visitante que ousou tocar o verbo da Morte.”

 

O nome GUSTAVO OLIVEIRA se materializou na página, como uma sentença.

As velas se apagaram de novo, e a escuridão assumiu o controle.
Mas, desta vez, a casa começou a falar.


As paredes murmuravam fragmentos de contos, trechos de terror e confissões da própria autora:

“Eu vivi entre as linhas... e morri nelas.”


“A escrita é a maldição que me deu forma.”
“Cada leitor é uma oferenda.”

 

A voz de Luna ecoou pelo teto, grave e distante, como se viesse de um túmulo submerso:
— “Você veio buscar o segredo das minhas histórias, Gustavo... mas o verdadeiro segredo é o que elas fazem com quem as lê.”

 

De repente, os quadros nas paredes começaram a sangrar.
Os retratos de antigos leitores; rostos deformados, congelados em gritos. pingavam sangue negro que corria até os pés dele.


O chão absorvia o líquido, e a casa tremia em prazer doentio.

 

Gustavo, com o raciocínio de químico e a coragem de aventureiro, agarrou o frasco de reagente que trazia no bolso e atirou contra o espelho.


O vidro rachou, e o livro dentro dele gritou.
Um grito real; agudo, humano, desesperado.
Do meio das rachaduras, uma fumaça saiu, se retorcendo, tomando forma novamente.

Era ela, a escritora morta.


O Fantasma de Luna Bela Morte voou lentamente em sua direção, flutuando alguns centímetros acima do chão.


Cada avanço levado por um impulso no ar, fazia o relógio de parede girar para trás, segundos, minutos, horas, como se o tempo recuasse, desobedecendo à lógica do mundo.

— “Você pensa que ciência pode salvar sua alma?” — ela sussurrou, aproximando-se até ele sentir o hálito frio da eternidade. — “A tecnologia não lê o invisível, Gustavo. Mas eu leio. Eu escrevo. E agora… você é meu personagem.”

 

Ela encostou suas mãos, como garras, em seu peito.


Instantaneamente, o coração dele começou a pulsar mais rápido, cada batida ecoando como o som de um martelo em um túmulo.


Palavras começaram a aparecer em sua pele; novas frases, em uma língua morta.

 

Gustavo gritou, tentando arrancá-las, mas a tinta queimava e se aprofundava sob a carne.
O Fantasma sorriu com ternura quase maternal.
— “Não lute contra a história. Apenas… viva o horror.”

 

Um trovão cortou o céu. As janelas se abriram sozinhas, e a lua cheia derramou luz prateada sobre a sala.
No reflexo do espelho rachado, Gustavo viu o impossível:
sua própria imagem se transformando em papel.

 

A pele se tornava pálida, fibrosa, translúcida.
As veias eram linhas, os olho... sombras.


Ele gritou, mas o som que saiu foi o rasgar de uma página.

O livro do espelho o engoliu.

Agora ele estava dentro da história.
Preso.
Parte de um conto que jamais terminava.

 

Enquanto as últimas palavras se formavam na capa, o Fantasma de Luna Bela Morte fechou o volume com delicadeza.
Um novo título brilhou na capa coberta de poeira:

“O Homem que Tentou Escrever o Inescrevível”
por Luna Bela Morte

 

E, de dentro do livro, a voz de Gustavo ecoou:
— “Por favor... apague o texto... antes que ele leia você também...”

 

O livro repousava sobre a mesa coberta de pó, fechado, imóvel... mas vivo.


Dentro dele, o grito de Gustavo Oliveira ainda ecoava, abafado por camadas de páginas que pulsavam como carne aprisionada.

 

A casa parecia adormecida, mas quem a olhasse de perto veria que as paredes respiravam.
O ar tremia.
O relógio, quebrado há décadas, recomeçou a funcionar.


E as velas, extintas no tempo, reacenderam-se sozinhas com chamas azuladas.

 

Do espelho rachado, o Fantasma de Luna Bela Morte emergiu mais uma vez; agora mais sólida, mais humana, mais poderosa.


Sua presença não era apenas um eco: era uma entidade completa.
Os olhos, vazios como poços de tinta, brilhavam com a luz pálida da morte que cria e destrói.

 

Ela se aproximou do livro e o abriu lentamente, como quem abre um corpo.
As páginas sangraram um líquido dourado.


Do meio delas, a alma de Gustavo se ergueu, translúcida, tremendo, confusa.
— “Onde… onde eu estou?” — perguntou, com a voz distorcida pelo horror.

— “Você está onde todos os que ousam me ler acabam ficando…” — respondeu Luna, com um sussurro que soava como o estalar de penas queimando.
— “Entre a ficção e o inferno.”

 

As paredes se distorceram, abrindo um portal, um vórtice de sombra e fogo, onde correntes de luz arrastavam nomes esquecidos.


Ali, Jack O’Lantern esperava.


Seu sorriso em brasa iluminava o vazio, e o som de correntes se misturava ao estalar das chamas.

 

Luna se ajoelhou diante dele, reverente, oferecendo o livro aberto como um sacrifício.
— “Aqui está, meu senhor. Mais uma alma que ousou desafiar a fronteira entre os vivos e os mortos.”

 

Jack O’Lantern estendeu sua mão flamejante, tocando o peito etéreo de Gustavo.
O toque o queimou até o grito virar cinza.
— “Ele escreveu sua sentença… e agora a lê por toda a eternidade.”

 

As chamas envolveram a alma do rapaz, puxando-o para o abismo.


Gustavo caiu, afundando na escuridão, até que um som de ferro ecoou: a porta da cela se fechando.

O calabouço de Jack O’Lantern ganhava mais um prisioneiro.


A alma de Gustavo tremia, apagando-se como uma vela fraca em meio a tantas outras.
Lá dentro, em coro, as vozes das almas já presas entoavam:

“Toda história pede um fim.
Mas o fim… é apenas o começo.”

 

E o Fantasma de Luna Bela Morte, em silêncio, voltou à sua casa.
Fechou a porta.
Apagou as velas.
Tudo parecia, outra vez, adormecer sob o véu da poeira e do esquecimento.

 

* * *

 

Mas o horror nunca dorme.

Na manhã seguinte, a campainha tocou.
O som metálico ecoou pelos corredores.
Do outro lado da porta, uma jovem segurava um celular com a câmera ligada.


Bianca, curiosa e ousada, dava os primeiros passos na trilha de sua perdição.

— “Olha, meus seguidores queridos! Vocês não vão acreditar onde eu estou!… na casa assombrada da Luna Bela Morte! Vim conhecer a casa onde ela viveu e escreveu aquelas histórias…”

 

A maçaneta girou sozinha.
A porta se abriu com um rangido que parecia um riso contido.

Bianca entrou.
O vento soprou, e uma pena caiu do teto, pousando bem diante de seus pés.
Ela a pegou, sorrindo curiosa.

Lá de cima, nas sombras do corredor, o Fantasma de Luna Bela Morte observava, seus olhos de tinta pulsando em vermelho bruxuleante.
E murmurou, com voz de veludo e condenação:

“Bem-vinda, Bianca.
O seu capítulo… acaba de começar.”

 


 

O Ritual terminou.

E a Maldição está chegando ao fim.

Estamos próximos de uma grande revelação!

(Continua no próximo conto...)

 

 

Luna Bela Morte
Enviado por Luna Bela Morte em 31/10/2025
Alterado em 31/10/2025
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