
O sol queimava como ouro antigo sobre as ruínas do Egito, e o vento do deserto parecia sussurrar segredos que não deveriam ser ouvidos.
Fernando Delmont ajustou o chapéu e respirou fundo. Estava ali, diante da vastidão de areia e pedra, cumprindo uma promessa a si mesmo: escrever o livro que lhe daria sentido... ou o condenaria à loucura.
“As Almas dos Faraós”, era o título provisório. Uma obra sobre a maldição das múmias, o mito que atravessava eras, misturando fé, medo e sangue.
Homem reservado, Fernando passara a vida cercado por silêncios e papéis. A solidão o fazia ouvir ecos que talvez não existissem. Mas no Egito, o silêncio parecia ter vida. E chamava seu nome.
A excursão oficial havia terminado, mas ele ficou. Não por coragem, mas por obsessão.
Enquanto os outros partiam, Fernando entrou em uma tumba esquecida, guiado por um guia local que tremia ao pronunciar o nome do local: “A Cripta dos Lamentos Eternos.”
As paredes eram cobertas por hieróglifos desbotados, gravados com o sangue de um império morto. No centro, um sarcófago envolto por faixas quase negras, e sobre ele, uma inscrição em ouro quebrado.
Fernando acendeu a lanterna e, entre poeira e medo, aproximou-se.
— “Aquele que ler meu nome, pertence à minha eternidade...” — murmurou o guia, antes de dar um passo atrás, visivelmente apavorado.
Fernando sorriu, incrédulo.
— “É só uma superstição.”
E leu.
Leu as palavras em voz alta. Um som rouco e pesado, que soou como se o próprio ar tivesse sido cortado.
O guia gritou e fugiu.
O vento cessou.
O silêncio (aquele mesmo que o acompanhava a vida inteira) ganhou forma.
As faixas do sarcófago moveram-se, primeiro levemente, depois com violência. O som de ossos estalando ecoou pela tumba.
O chão tremeu, e Fernando recuou, atordoado, vendo a tampa do sarcófago deslizar sozinha. Um cheiro de morte e especiarias encheu o ar.
Do interior, duas mãos secas, cobertas por ataduras manchadas, ergueram-se com lentidão.
E então ele ouviu.
Um lamento.
Um gemido antigo, arrastado, tão triste e cruel que o ar pareceu se despedaçar.
A voz dizia seu nome.
— Fernando... Delmont...
O escritor caiu de joelhos, a lanterna escorregando de suas mãos, projetando sombras distorcidas pelas paredes.
As faixas se arrastaram pelo chão, vivas, rastejando em sua direção.
E o Egito, aquele deserto imenso e indiferente, testemunhou o momento em que um homem selou seu destino, ao pronunciar o nome que jamais deveria ter sido lido.
A areia sussurrou.
E uma alma antiga despertou.
Fernando Delmont acordou com a boca seca e os pulmões cheios de poeira. O ar do deserto era frio, e a lua o observava com seu olho branco e impassível.
Ele estava deitado na entrada da tumba, sem se lembrar de como havia saído.
A lanterna apagada jazia ao lado, e as marcas de seus passos, junto às pegadas de algo mais, iam em direção ao interior da cripta.
O guia havia desaparecido.
O silêncio reinava.
Mas o escritor sentia que algo o seguia.
Os ventos noturnos do deserto soavam como vozes. E nelas, ele reconhecia o murmúrio do nome que lera; o nome proibido que agora se misturava ao seu.
“Fernando Delmont...”
“Fernando... Delmont...”
Voltou ao acampamento apressado, suando frio, tentando convencer-se de que tudo fora uma ilusão causada pelo calor e pela solidão.
Mas à medida que escrevia em seu caderno, percebeu algo terrível: as palavras que surgiam na página não eram suas.
Linhas em hieróglifos se formavam sozinhas, escorrendo como sangue pelas folhas.
Um grito contido ecoou na noite.
As tochas do acampamento se apagaram, uma por uma.
E então ele viu.
A sombra dela.
Alta, arqueada, envolta em faixas ressequidas que sibilavam ao toque do vento.
A Múmia caminhava em sua direção, não como uma criatura cega de ira, mas como algo que sabia exatamente quem ele era.
— “Tu leste meu nome...” — ela murmurou, com uma voz que parecia feita de séculos.
Os olhos vazios brilhavam com uma luz amarelada, como fogo preso sob areia.
Fernando cambaleou para trás, tropeçando nos livros, nos mapas e nos sonhos que o trouxeram até ali.
— “Eu... eu não queria... era pesquisa...!” — balbuciou, apavorado.
A Múmia inclinou a cabeça, curiosa, e sorriu. Um sorriso seco, estalando.
— “Quem lê... pertence. E quem pertence... renasce em mim.”
Ela ergueu a mão. As ataduras moveram-se como serpentes, envolvendo os tornozelos dele.
Fernando tentou gritar, mas o ar fugiu de seus pulmões.
As faixas subiram, lentas, quase gentis, até cobrirem-lhe o rosto.
Então, tudo se calou.
Mas ele não morreu.
Não ainda.
Acordou horas depois, sozinho, no deserto. O acampamento havia desaparecido, e sob a luz do amanhecer, Fernando viu as pegadas na areia.
Eram dele.
E também dela.
E seguiam lado a lado.
Em sua pele, as primeiras marcas: cicatrizes finas, como listras antigas, traçando símbolos egípcios que ele não reconhecia.
— “Ela me marcou...” — sussurrou, olhando as mãos tremendo.
E quando olhou seu reflexo na superfície do cantil, viu areia escorrer dos olhos.
Fernando Delmont já não era apenas o escritor que buscava uma história.
Ele era a história.
O mito que despertara.
E ao longe, no horizonte dourado, uma sombra feminina o observava com devoção doentia; a Múmia, aguardando o momento em que ele aceitasse o destino que lera.
* * *
Fernando Delmont caminhava pelo deserto sem saber há quantos dias.
O sol queimava-lhe a carne, e a areia parecia pulsar sob seus pés como um organismo vivo, sussurrando histórias que ninguém mais deveria ouvir.
No horizonte, a silhueta de um templo se erguia, o mesmo da noite em que tudo começou.
Ele já não distinguia sonho e realidade.
Cada passo o fazia afundar um pouco mais no limiar da insanidade.
Quando alcançou o templo, as colunas estavam cobertas de inscrições novas, e em cada uma delas, seu nome se repetia em letras de sangue e ouro.
𓂀
Fernando Delmont, o que quebrou o selo.
Fernando Delmont, o que devolveu a alma ao pó.
Fernando Delmont, o que pertence agora à areia.
A Múmia o aguardava ao centro do salão.
As tochas se acendiam sozinhas, com chamas azuis, e o chão tremia como se respirasse.
— “Tu retornaste...” — ela sussurrou, a voz ecoando como um cântico perdido. — “O círculo deve se fechar. A eternidade aguarda.”
Fernando recuou, o coração martelando.
— “Não pertenço a você! Eu sou escritor! Vim apenas para entender...”
Ela ergueu um dedo, silenciando-o.
As ataduras flutuaram no ar, como serpentes obedientes.
— “Todo escritor que toca o nome dos mortos... escreve também a própria sentença.”
As faixas o envolveram novamente, mas desta vez ele não lutou.
Sentiu-se leve, como se estivesse sendo desfeito.
A Múmia o beijou na testa; um toque seco, de areia e tempo, e sussurrou em seu ouvido:
— “Agora teu corpo é pó, e tua voz ecoará comigo, até que outro tolo te leia em voz alta.”
O corpo de Fernando desabou.
E dele restou apenas o vento... e um livro.
Um manuscrito intitulado:
“A Maldição do Nome Esquecido.”
Quem o abrisse, ouviria uma respiração distante entre as páginas.
E ao ler o nome Fernando Delmont, sentiria o deserto despertar novamente.
* * *
Quando Fernando abriu os olhos, o ar era frio, úmido e denso.
As paredes ao redor eram de pedra negra, cobertas de inscrições em línguas que não pertenciam à Terra.
No teto, tochas dançavam em chamas alaranjadas, alimentadas por almas.
Ele estava em uma cela.
Mas não uma cela comum.
Era o calabouço de Jack O’Lantern.
O som de correntes ecoava ao longe.
E então, ele o viu.
Jack caminhava lentamente, sua cabeça de abóbora ardendo em chamas esverdeadas, e em seu peito havia o símbolo de um fogo eterno, a luz que guia os perdidos.
Sua presença era majestosa e terrível.
— “Mais uma alma trazida pelo véu das maldições,” — disse Jack, com voz grave, ecoando entre mundos.
— “A Múmia cumpriu sua parte. E agora, escritor, és um nome gravado na eternidade.”
Fernando tentou falar, mas sua voz saiu em murmúrios de areia.
Jack estendeu a mão, e a alma dele se ergueu como poeira luminosa.
— “Descansa entre os que ousaram nomear o impossível. Teu destino foi selado no instante em que o escriba tocou o nome dos mortos.”
O fogo na cabeça de Jack brilhou mais forte, iluminando fileiras e fileiras de celas, cada uma contendo as almas dos Escolhidos da Noite.
Todas tremiam diante dele.
Jack ergueu seu cajado e proclamou:
“A sexta alma foi ceifada.
O equilíbrio se aproxima.
Que o próximo sangue abra o portal do Halloween eterno!”
E enquanto o eco de sua risada flamejante percorria as paredes do inferno, Fernando percebeu...
ele ainda ouvia o som do deserto.
O vento das areias sussurrava seu nome.
Mas agora, ninguém jamais o esqueceria.
O ritual terminou.
Mas a maldição apenas começou...
(Continua no próximo conto...)
