
Era noite de Halloween de 1987, e a cidade inteira pulsava como um coração de neon; as luzes piscavam nas vitrines, os carros ronronavam ao som de Ozzy Osbourne e Siouxsie and the Banshees, e o vento carregava aquele perfume inconfundível de chuva, fumaça e perigo.
No meio de tudo isso estava Sara, a garota que todos chamavam de “a bruxa do rock”. Ela viajou para os Estados Unidos, achando que teria um Halloween tranquilo, mas estava destinada a ter um encontro com um monstro que pode estar em qualquer lugar, rompendo o véu que separa os vivos do sobrenatural.
Vestida de preto, com anéis de caveira, colar de crucifixo e outros símbolos arcanos, e um olhar que parecia saber demais.
Na vitrola do quarto, o chiado do vinil de Black Sabbath era seu feitiço particular; e entre livros empilhados e gatos sonolentos, ela escrevia versos sobre monstros, luas cheias e amores amaldiçoados.
Mas naquela noite, algo diferente pairava no ar.
A lua parecia maior, pulsando com um brilho doentio, como se estivesse prestes a sangrar.
Do lado de fora, uma brisa cortante trouxe o cheiro metálico de ferro e terra molhada; e os gatos de Sara eriçaram o pelo, todos ao mesmo tempo.
Ela franziu o cenho, olhou pela janela.
A rua estava vazia. Só o eco distante de risadas infantis e abóboras acesas nas calçadas.
Mas algo… algo se movia na esquina, entre os postes piscando, uma sombra que andava curvada, mas com passos pesados demais para ser humana.
Sara desligou o disco. O silêncio foi mais assustador que qualquer som.
Pegou uma lanterna, abriu a porta e saiu.
A chuva começou a cair em gotas largas, brilhando como cacos de vidro.
No beco, encontrou algo que gelou seu sangue:
Pegadas imensas, fundas, com marcas de garras, e respingos de sangue fresco que levavam até o cemitério antigo da cidade.
“Deve ser algum idiota fantasiado…” — murmurou, tentando rir.
Mas o riso morreu na garganta quando ouviu o primeiro uivo.
Não um som de cachorro.
Era mais… humano.
Um lamento rasgado, selvagem, que parecia vir de dentro da própria terra.
Sara recuou, a lanterna tremendo em sua mão.
As luzes da rua piscaram e, por um instante, ela viu. Uma figura enorme, coberta de pelos, olhos vermelhos, presas que brilhavam sob a lua.
O Lobisomem.
E ele a observava.
A criatura deu um passo à frente, e o chão pareceu estremecer.
Sara correu, o coração batendo ao ritmo de uma bateria de heavy metal. As casas passavam borradas, o som do uivo ecoava atrás dela, cada vez mais perto.
Quando alcançou a praça, tropeçou numa poça de sangue.
Olhou para cima, e viu pendurado no poste o corpo dilacerado de um policial, os olhos arrancados, o distintivo pendendo por um fio de carne.
O Lobisomem estava logo atrás.
Ela sentiu o hálito quente, o cheiro de carne apodrecida e o som úmido das garras se abrindo.
Mas antes que pudesse gritar, um trovão cortou o céu.
E no clarão, o monstro sumiu.
Sara ficou ali, sozinha, encharcada e trêmula, com a sensação de que aquele uivo ainda vibrava dentro dela, como se o som tivesse entrado em seu corpo.
A lua, lá no alto, parecia sorrir.
E na janela do quarto que deixara aberta…
uma abóbora de Halloween acendeu sozinha.
O som do vinil girando ainda ecoava.
O mesmo chiado antigo de Black Sabbath vibrava no ar, e o perfume de incenso queimado misturava-se com o cheiro adocicado de café recém passado.
Sara abriu os olhos lentamente, e o teto do quarto estava lá, o mesmo de sempre.
Pôsteres de bandas antigas colados nas paredes, uma estante abarrotada de livros góticos, caveiras decorativas, discos de vinil que ela gostava de colecionar (porque diziam que não tem nada como ouvir o realismo de um disco de vinil), velas derretidas e um gato preto dormindo sobre a almofada de veludo.
Ela piscou algumas vezes, tentando entender.
A respiração ainda vinha curta, como se tivesse corrido por quilômetros.
O coração batia forte.
“Foi um sonho…” — murmurou.
Mas a voz saiu trêmula demais para convencer a si mesma.
O relógio de parede marcava 22:30h.
A lua cheia jorrava sua luz pálida através da cortina, tingindo o quarto com um brilho espectral.
E, por um instante, ela jurou ter ouvido um uivo distante.
O gato levantou a cabeça, orelhas em pé.
Sara se levantou da cama, tropeçando nos discos espalhados pelo chão, e foi até a janela.
Lá fora, a rua estava deserta. Nenhuma alma. Nenhum carro.
Apenas o vento frio soprando entre as árvores, e algo movendo-se entre as sombras.
Um arrepio subiu-lhe pela nuca.
Tentando se distrair, ela foi até a cozinha.
O barulho familiar da cafeteira trouxe algum alívio.
Mas quando ergueu a caneca, percebeu um pequeno corte em seu pulso, uma marca fina, em forma de meia-lua.
Congelou.
O sangue escorreu lentamente, e por um segundo pareceu… escuro demais.
Tinto, espesso, quase negro sob a luz da lâmpada.
“Eu… não me lembro de ter me machucado.”
Voltou ao quarto, tentando racionalizar.
Talvez tivesse batido no meio da noite, ou arranhado o pulso sem querer.
Mas então, ao acender a luz, percebeu algo novo: pegadas de barro no assoalho, indo da janela até o pé da cama.
Eram grandes. Demais.
E úmidas, como se viessem da floresta depois da chuva.
Sara estremeceu. O gato começou a rosnar, um som rouco, grave, que ela nunca tinha ouvido antes.
Foi até a janela novamente, e quando afastou a cortina, viu algo refletido no vidro:
olhos vermelhos, fitando-a por trás.
Ela se virou num sobressalto, mas não havia ninguém ali.
Só o vento abrindo a porta do corredor, fazendo as velas se apagarem uma a uma.
O cheiro… mudou.
Um odor metálico, pesado, invadiu o ambiente.
E de repente, o chiado do vinil mudou de tom, como se alguém tivesse encostado a agulha com força no disco.
A música se distorceu, virou um lamento, um som arranhado de vozes sussurrando algo que ela não conseguia entender.
“Ele está vindo…”
A voz pareceu sair da parede. Ou talvez do espelho.
Sara recuou, o café tremendo em sua mão.
O gato fugiu correndo, miando desesperado.
A luz piscou.
E naquele breve instante, ela o viu.
O reflexo no espelho.
O mesmo rosto monstruoso do sonho, olhos de fera, dentes ensanguentados, pelos encharcados de chuva e um sorriso animalesco que não era humano.
Ela gritou.
Mas o som foi engolido pelo trovão que ribombou sobre a cidade.
Quando o clarão da tempestade iluminou o quarto, ele já não estava lá.
Só o espelho, trincado.
E no meio da rachadura, a marca da lua cheia desenhada em sangue.
Sara caiu de joelhos, ofegante.
E do lado de fora, muito ao longe, um novo uivo rompeu o céu, tão real que o vidro da janela vibrou.
O Lobisomem havia voltado.
E desta vez, não era um sonho.
A tempestade rugia sobre a cidade como se o próprio inferno respirasse entre as nuvens.
Sara se encolhia no canto do quarto, um taco de beisebol nas mãos trêmulas, o coração descompassado como um vinil girando em falso.
A janela estilhaçada deixava entrar o vento frio e o cheiro metálico de sangue.
O relógio piscava 00:00.
Halloween.
A hora em que o véu entre os mundos se rasga.
O gato desaparecera.
Um barulho.
Um estalo no corredor.
E então… um arranhar lento, compassado, como garras arrastando-se pelo assoalho.
Sara engoliu em seco.
Deu dois passos, respirou fundo, e o chão gemeu sob seus pés.
Silêncio.
Ela quase acreditou que fosse sua imaginação.
Mas quando ergueu o olhar, viu a sombra.
Gigante.
Curvada.
Pulsando.
A figura atravessou a porta com um estalo seco de madeira se partindo.
Era ele.
O Lobisomem.
Seus olhos eram dois sóis vermelhos queimando na escuridão.
Os pelos negros e molhados grudavam na pele, e o hálito quente trazia o fedor da carne podre.
Ele respirava fundo, como se o ar carregasse o perfume do medo.
— Não é real... — sussurrou Sara, o taco erguido.
Mas o rugido que veio foi tão real quanto o sangue que começou a escorrer de sua mão, quando o taco rachou ao meio com um único golpe de garra.
Ela tentou correr.
Escorregou no chão.
O sangue, agora sim, abundante, manchava as tábuas do assoalho.
O Lobisomem avançou, um trovão de músculos e dentes.
Sara tentou alcançar a janela, mas ele a agarrou pelos cabelos, erguendo-a do chão como se fosse uma boneca quebrada.
A lua iluminava o rosto da fera, e por um instante, ela viu algo humano em seus olhos.
Algo triste.
Algo… familiar.
E então, o destino desabrochou como um corte.
O som do rasgo.
O grito dela ecoando pelas paredes.
A carne dilacerada.
O sangue quente escorrendo como vinho sobre o chão de madeira.
O corpo de Sara caiu.
O Lobisomem uivou, não de triunfo, mas de dor.
E recuou, observando o estrago que ele mesmo causara, como se tivesse consciência.
Como se lamentasse.
A lua brilhou mais forte.
E foi quando o impossível aconteceu.
O corpo de Sara, frio, inerte, começou a brilhar levemente, como se o sangue derramado estivesse sendo absorvido pelo chão.
A realidade se dissolveu.
E ela acordou.
Não em seu quarto.
Mas numa cela de pedra, envolta em sombras e névoa.
As paredes pulsavam como carne viva.
E, pendendo do teto, lanternas em forma de abóboras projetavam luzes tremeluzentes, quase zombeteiras.
Lá fora, um som gutural ecoava. Passos, risadas distorcidas, o tilintar de correntes.
Então, uma voz grave e rouca preencheu o ar:
— “Bem-vinda, alma escolhida... tua carne serviu à lua, e teu sangue abriu o portal.”
Uma chama acendeu-se no centro da masmorra.
E de dentro dela, emergiu Jack O’Lantern, com seu sorriso esculpido em fogo.
— “Agora, tua alma é minha. E tua dor… será eterna.”
As paredes se fecharam em volta dela, e seu grito foi engolido pelo riso do próprio Halloween.
🕯️
Dizem que o Lobisomem não nasceu.
Foi forjado.
Em cada Halloween, Jack O’Lantern escolhe um corpo mortal; um ser humano amaldiçoado por seus próprios pecados, e o faz vestir a pele da besta.
A alma da vítima anterior alimenta a maldição do próximo.
E assim, o ciclo continua.
Sangue por sangue.
Alma por alma.
Até o último luar se apagar.
O ritual terminou.
Mas a maldição apenas começou...
(Continua no próximo conto)
