
“Matar é, em essência, o ato mais íntimo entre dois corpos.”
(O lema do Assassino Sombrio)
A lâmina canta. Sua voz é fina, cortante, quase doce, como uma reza sussurrada a um deus antigo que só entende o idioma da dor.
O som do aço partindo o ar é música de funeral, e Tayran a escuta com a devoção de quem já não teme nada, nem mesmo o próprio reflexo.
Ele passa o dedo sobre o fio gelado. A superfície devolve um rosto de beleza banal, o tipo de rosto que o mundo confunde com inocência. Mas há algo nos olhos, um brilho febril, um segredo que se contorce e suplica.
Tayran não mata por ódio, nem por fome. Ele mata porque o silêncio o incomoda. Porque o sangue, ao cair, tem o som exato da paz.
Para ele, a morte é um espelho honesto. Nela, o homem deixa cair suas máscaras e mostra o que realmente é: um verme suplicando, um anjo apodrecido, um deus esquecido.
As ruas dormem sob a névoa de Halloween. Luzes piscam em abóboras plásticas, caveiras sorriem de mentirinha. Tayran observa e ri baixo.
Ele sabe que o verdadeiro terror não cheira a vela; cheira a ferro quente e carne rasgada.
Toda noite de Halloween, ele caminha.
Jack O’Lantern o guia, com a brasa acesa da perdição.
Entre as brumas, uma voz o chama:
“Mais uma alma, Tayran. A chama precisa respirar.”
E ele obedece. Sempre.
Não por lealdade, mas por necessidade.
Tayran não é apenas um assassino. É o servo mortal de um espírito ancestral, um arauto do equilíbrio entre vivos e mortos.
Ele é o suspiro final disfarçado de homem.
Naquela noite, seguiu o cheiro de Maíra, a garota das pulseiras pretas, que sonhava em dançar com fantasmas.
Mas o Zumbi chegou antes.
Do alto do muro, Tayran viu o banquete: o corpo animado dilacerando a carne dela, os ossos estalando, o sangue pintando a calçada.
Por um breve instante, invejou o monstro.
Depois, tragou o cigarro e sussurrou ao vento:
— “Ela foi escolhida. Jack está satisfeito… por enquanto.”
Desapareceu entre becos, levando consigo o sussurro metálico da lâmina.
Mais um nome riscado, mais um corpo para o altar.
Na manhã seguinte, as manchetes gritavam em vermelho:
“O Assassino das Noites de Halloween volta a atacar.”
Mais um desaparecimento.
Mais um medo para adornar a cidade.
Mas os vivos não entendem: não há como fugir do que já foi escrito.
Porque cada alma tem sua hora,
e o nome da próxima vítima…
já dorme gravado no aço.
A lua sangrava sobre a cidade, uma ferida aberta no firmamento.
As calçadas reluziam sob o pranto do vento, e uma sirene distante soava como o prelúdio de uma marcha fúnebre.
Tayran caminhava lento, o casaco negro abraçando a lâmina que dormia sob o couro, ansiosa por outro suspiro humano.
A cada sombra que se movia, ele murmurava para si:
“Será essa… a próxima oferenda?”
Então a viu.
Na esquina da Rua dos Lamentos (batismo escolhido pelo próprio destino) uma mulher caminhava só, e com um riso distraído.
Ela usava o mesmo traje da última vítima do Halloween anterior: vestido de renda, luvas de tule, gargantilha vermelha como um voto de sangue.
O coração de Tayran vacilou.
Não por medo, o medo há muito o abandonara, mas por fascínio.
A beleza da repetição. O retorno do ciclo.
Ele a seguiu.
Os passos ecoavam entre folhas mortas, como se a cidade também o observasse.
A mulher virou à direita, depois à esquerda, até sumir num beco quase cego de luz.
Tayran sorriu.
O destino, cúmplice paciente, sempre servia suas presas na penumbra.
Aproximou-se com a ternura de quem vai confessar um pecado:
— “Você acredita em coincidências?” — sussurrou ao ouvido dela.
Ela se virou, os olhos verdes em espanto, o lábio tremendo entre dúvida e curiosidade.
Mas o tempo, cruel maestro, não lhe concedeu outra nota.
A lâmina cantou, e o som que se ergueu não foi um grito, mas um sopro quente, o último acorde da vida partindo em silêncio.
O sangue desenhou arabescos nos paralelepípedos, uma fita rubra que o saudava aos pés.
Tayran olhou o corpo e algo nele se moveu; um reconhecimento antigo, quase terno.
Tocou o rosto dela.
O mesmo perfume. O mesmo gesto.
A mesma morte.
Um frio rastejou por sua espinha.
E então ele viu: atrás de si, uma sombra pulsava na parede, com olhos vazios e quebrados, como espelhos partidos refletindo sua própria loucura.
O ar congelou.
Uma vela distante acendeu sozinha, sua chama tremendo como se respirasse.
O vento murmurou, e as vozes vieram de todos os lados:
— “As mortas te veem… e Jack também.”
A vela morreu num sopro.
Quando Tayran olhou de novo, o corpo havia desaparecido.
Restava apenas a gargantilha vermelha, caída, viva, pulsando com um ritmo que não pertencia mais a este mundo.
Tayran sorriu, um riso que cheirava a delírio.
A sanidade era um luxo que ele esquecera nos becos da alma.
Abaixou-se, recolheu a gargantilha, e guardou-a junto ao peito.
Depois, ergueu o olhar para a lua ensanguentada e murmurou:
— “Tudo bem, Jack. O espetáculo começou… e o sangue, como sempre, sabe o caminho de casa.”
A noite sussurrava o nome dele; lenta, viscosa, como se as sombras tivessem língua.
Tayran caminhava pelas ruas encharcadas, e os postes tremiam de luz, piscando como olhos com medo de olhar demais.
Cada passo seu soava como o último pulsar de um coração, não o dele, mas de algum que já havia arrancado.
No espelho de um bar abandonado, a gargantilha pulsava.
Um som grave, quase orgânico, vibrava dentro do vidro rachado.
Tayran já não sabia se era o eco da joia… ou da própria insanidade crescendo dentro do crânio.
A linha entre o real e o delírio dissolvia-se como sangue em um lençol de chuva.
Então veio o frio.
Não o frio do vento, o frio de um olhar que nasce atrás da nuca.
Ele se virou.
E ela estava ali.
A mulher da noite anterior.
Aquela que havia sentido a lâmina e expirado sob o brilho da lua.
Agora estava de pé, ereta, imóvel, viva demais para estar viva.
O vestido negro pendia em farrapos, ensopado de um líquido escuro que pingava em intervalos regulares, como se o tempo sangrasse com ela.
Os olhos… vazios. Dois poços onde a luz ia morrer.
— “Por que... voltou?” — Tayran murmurou, a voz rasgando o ar num misto de riso e pavor.
Ela avançou um passo. O chão gemeu.
O ar cheirava a terra recém-aberta, a podridão quente.
— “Você apenas abriu a porta.” — respondeu, num sussurro que não saiu de seus lábios, mas de todos os lugares ao redor.
Ela sorriu. Um sorriso largo demais, humano de menos.
Antes que ele pudesse reagir, a mão dela se ergueu, ossuda, fria, e agarrou-lhe a cabeça com força brutal.
O som que se ouviu não foi um grito, foi o estalar seco do mundo partindo em duas metades.
O espelho rachou.
A gargantilha pulsou uma última vez.
E a escuridão, paciente e faminta, enfim o acolheu.
Tayran despertou com o gosto metálico da própria respiração.
O ar era espesso, quase sólido, como se a noite tivesse apodrecido dentro do quarto.
Uma lâmpada pendia do teto, girando lentamente, sua luz oscilava como um coração prestes a parar.
As paredes estavam cobertas por jornais amarelados, costurados com fios de cabelo humano.
As manchetes gritavam em silêncio:
“ASSASSINO SOMBRIO VOLTA A CAÇAR.”
“MORTES RITUAIS NA NOITE DE HALLOWEEN.”
“NINGUÉM CONHECE O ROSTO DO DEMÔNIO.”
Mas o que fez o sangue de Tayran gelar não foram as palavras, foram as imagens.
Fotos suas.
Dormindo.
Andando.
Matando.
E em cada fotografia, um vulto no fundo, borrado, quase invisível, sempre ali… observando.
Pregos atravessavam pedaços de pele humana, fixando-os às paredes como molduras.
E sobre o espelho em frente à cama, uma frase escrita com sangue coagulado parecia pulsar ainda viva:
“Mais verdadeira do que a própria face.”
Um som o fez levantar, o arranhar.
Lento, ritmado, vindo do outro lado da porta.
Unhas, ou talvez ossos raspando na madeira.
Depois, silêncio.
Um silêncio que respirava.
Tayran sentiu o próprio sangue escorrer dentro do corpo, pesado, como se buscasse escapar pelas veias.
Levantou-se, trôpego, o chão rangendo sob o peso da presença invisível que o cercava.
O espelho diante dele começou a embaçar, embora o ar estivesse frio.
E entre a névoa, uma silhueta se formou.
No canto do quarto, uma mulher.
Imóvel.
O olhar fixo nele.
— “Quem está aí?” — Tayran murmurou, a voz soando como um sussurro arranhado.
A lâmpada piscou.
E a luz revelou... ela.
A pele... branca demais, como cera sobre um cadáver.
Os olhos... fundos, vazios, rodeados de roxo.
E o sorriso… um corte aberto, prestes a sangrar.
Vestia um vestido negro, rasgado, manchado com sangue seco.
Na mão direita, uma câmera antiga; o obturador trincado, mas ainda viva o bastante para registrar horrores.
Nas paredes, dezenas de fotos dele: dormindo, banhado em sangue, ajoelhado sobre as vítimas.
Cada uma marcada com batom escuro, corações tortos, sujos, quase infantis.
— “Finalmente acordou, meu amor?” — sussurrou ela, num tom doce e putrefato.
Tayran deu um passo atrás.
— “Quem… é você?”
Ela riu.
Um som oco, quebrado, como vidro sendo mordido.
— “Sou quem te observava quando o mundo virava o rosto.
Quem viu tua arte nas vísceras abertas.
Quem entendeu que o horror é só uma forma de amar.”
A respiração de Tayran ficou curta.
O delírio dela era um espelho perfeito de sua própria insanidade.
Ele a temia, mas também a reconhecia.
— “O que quer de mim?” — perguntou.
Ela inclinou a cabeça.
O sorriso se abriu ainda mais, rasgando o rosto até quase as orelhas.
Os dentes, finos e longos, refletiram a luz trêmula.
— “Quero a tua alma, Tayran.”
O ar congelou.
A lâmpada explodiu.
O espelho atrás dele começou a se rachar, cada fragmento revelando o rosto dela, multiplicado, distorcido, se contorcendo em direções impossíveis.
De cada reflexo, uma voz sussurrou o mesmo nome... o dele.
Até que o último pedaço do espelho se partiu, e um rastro de sangue escorreu pela parede, formando lentamente uma assinatura:
“Jack está satisfeito.”
E no breu que se seguiu, a câmera fez um clique.
O último retrato.
O mais perfeito de todos.
🕯️
Dizem que algumas almas nascem com rachaduras; pequenas fendas por onde o inferno respira. Catarina Vale era uma dessas.
Ninguém lembrava o momento exato em que ela enlouqueceu; talvez tenha sido antes mesmo do primeiro choro.
Os vizinhos diziam que, quando criança, ela falava sozinha com as sombras do quarto, e que as sombras respondiam.
Quando cresceu, encontrou abrigo entre os dementes, tornando-se enfermeira de um hospital psiquiátrico que o tempo esquecera.
Aquele lugar era um útero morto, um ventre de paredes úmidas onde o sofrimento criava raízes.
Ela andava pelos corredores como uma mãe entre seus filhos deformados, murmurando canções de ninar que faziam os loucos chorar.
Catarina sorria, e os chamava de “anjos do esquecimento”.
Foi numa madrugada chuvosa que o primeiro evento aconteceu.
Um dos internos, tomado por uma súbita lucidez, abriu a própria garganta diante dela.
O sangue jorrou quente sobre o seu rosto.
E ela o provou.
Naquele instante, algo rompeu.
O gosto metálico lhe revelou um segredo antigo, uma espécie de revelação carnal.
A enfermeira devota tornou-se discípula do abismo.
O hospital foi fechado meses depois, após uma série de desaparecimentos.
Nunca encontraram os corpos.
Mas nas paredes, palavras escritas com sangue ainda podiam ser lidas:
“Silêncio, eles dormem.”
Anos se passaram, e Catarina reapareceu, sempre nos arredores de crimes cruéis.
Era vista nas cenas de assassinatos, entre os curiosos, observando em silêncio, como quem contempla uma obra de arte.
Guardava recortes de jornais, fitas VHS de interrogatórios, fragmentos de roupas de vítimas.
Seu quarto era um museu da loucura humana.
E no centro, um altar.
O altar do Assassino Sombrio.
Para ela, Tayran não era um criminoso; era um messias.
Um artista do sangue.
Um homem que havia compreendido o que ela sempre sentira: que a morte é uma forma de comunicação entre mundos.
Catarina começou a segui-lo.
Primeiro pelas notícias. Depois pelas ruas.
Era como uma sombra vestida de carne, sempre atrás dele, anotando cada movimento, cada toque, cada respiração.
Em suas anotações, chamava-o de “meu escolhido”.
Escrevia com tinta vermelha, mas nem sempre era tinta.
E então, numa noite sem lua, ela finalmente o encontrou.
O beco era estreito, o ar, podre de mofo e fumaça.
Tayran limpava a lâmina, alheio à presença que o observava.
Ela deu um passo, e o som do salto ecoou como um gemido.
Ele se virou.
— “Quem está aí?”
Catarina saiu das sombras, o rosto iluminado pelo brilho úmido da faca dele.
— “Sou quem te entende.” — disse ela. — “Aquela que vê poesia na tua dor.”
Os olhos de Tayran estreitaram-se, mas não havia medo, apenas curiosidade.
A insanidade reconhece sua própria forma.
Catarina aproximou-se devagar, os dedos tremendo.
— “Você não mata… você liberta.
O corpo é só a moldura.
A alma é o quadro.”
E então, ela ergueu a mão, exibindo um colar feito de dentes humanos.
Cada um deles marcado com um número.
Cada número correspondia a uma vítima do Assassino Sombrio.
— “Eu as encontrei.
Todas.
Guardei o que restou delas.
Porque elas pertencem a você… e a mim.”
Tayran não respondeu.
Mas seus olhos se encontraram, e algo silencioso se formou entre os dois:
um pacto.
Não feito de palavras, mas de sangue.
Nos meses seguintes, os crimes mudaram.
Os corpos não eram mais apenas mutilados, eram compostos.
Costurados. Pintados com sangue e fogo.
Cada cena um quadro novo, cada morte uma oferenda.
Os jornais chamaram esse crime, em particular, de “Os Noivos do Abismo.”
Encontraram em um hospital psiquiátrico abandonado, no centro da sala principal, duas figuras imóveis, deitadas lado a lado; um homem e uma mulher.
A carne deles entrelaçada, costurada com fios.
Atribuíram o crime ao Assassino Sombrio, mas foi ela.
Aos olhos vazios de Catarina, uma mensagem escrita com bisturi:
“A arte é eterna.
O amor, também.”
Ninguém percebeu que a lâmpada ainda balançava.
Nem que, atrás das paredes, algo arranhava.
Rindo.
Como se ainda houvesse vida… dentro do silêncio.
🕯️
O passado evaporou como fumaça queimada em carne viva.
Catarina aproximou-se de Tayran, os olhos dilatados, a respiração tremendo entre prazer e loucura.
O som dos passos dela ecoava como um rosário profano, cada passo uma prece, cada suspiro uma sentença.
Da manga de seu vestido escapou uma lâmina fina, quase invisível, como um fio de luar afiado.
Ela moveu a mão com a graça de quem escreve poesia.
E a poesia foi escrita sob o maxilar dele.
O corte foi limpo.
A carne se abriu em silêncio.
O sangue explodiu quente, jorrando sobre o pescoço dela como uma bênção.
Tayran cambaleou, o olhar perdido; e nela, o reflexo perfeito de sua própria insanidade.
Catarina o amparou com ternura, encostando o rosto ao dele, sentindo o calor se esvair.
— “Não tenha medo…” — murmurou, a voz úmida de adoração. — “O inferno é belo quando aceitamos nos despir da mentira da carne.”
O corpo dele tombou como um ídolo quebrado.
Ela se ajoelhou ao lado dele, os joelhos tocando o sangue, e retirou a máscara branca com um gesto quase amoroso.
Contemplou-a por um instante, maravilhada, como quem segura um santo recém-nascido.
Depois, lentamente, colocou-a sobre o próprio rosto.
O silêncio fez-se abissal.
Naquele instante, o Assassino Sombrio morreu… e renasceu.
Mas agora tinha o corpo e o riso de Catarina.
Do outro lado da realidade, nas catacumbas onde o fogo tem vontade e o tempo apodrece em círculos, Jack O’Lantern ergueu o punho ardente.
Entre os dedos carbonizados, segurava a alma de Tayran, uma esfera pulsante, trêmula, ainda quente.
A chama dentro da lanterna brilhou mais forte, tingindo as paredes infernais de vermelho vivo.
— “Mais uma oferenda perfeita,” murmurou Jack, e sua voz era o som de cem ossos se partindo.
— “O ciclo continua…”
As correntes se arrastaram, rangendo como dentes famintos.
Do chão negro, surgiram as colunas de ossos, e sob elas, as raízes que sangravam.
Jack subiu ao seu trono, feito de crânios fundidos, com olhos ainda piscando.
Em sua mão esquerda, o cálice das almas tremia, repleto de fogo líquido.
Cada chama ali dentro gritava com o timbre de uma vida interrompida.
E no meio daquelas chamas, Tayran apareceu.
Seu corpo espectral arrastava correntes vivas, pulsantes, que se moviam como cobras de ferro.
Tentou falar, mas o fogo de Jack queimou o som antes que nascesse.
Sua máscara branca ,a que um dia foi seu rosto, agora cobria o de Catarina, no mundo dos vivos.
Jack o observou com um riso largo e oco.
— “A lâmina encontrou nova dona. O ciclo jamais se rompe.”
O espírito de Tayran gritou sem voz, e da boca etérea escorreu uma fumaça negra: o medo destilado de todas as suas vítimas.
Jack o recolheu com os dedos em brasa e soprou sobre o cálice.
As chamas dançaram em êxtase: do vermelho ao roxo, do roxo ao negro absoluto.
— “Agora, tua alma é minha lanterna.” — sussurrou — “E tua dor, o fogo que não se apaga.”
Acima, no mundo dos homens, Catarina caminhava.
O luar beijava o metal da faca, ainda quente.
A máscara branca reluzia, vazia, viva.
A cada passo, o som das correntes de Tayran ecoava ao longe, um lamento distante, costurado ao som dos saltos da nova assassina.
E quando o vento soprou, levando o cheiro de sangue até as estrelas, Catarina parou, ergueu o rosto e murmurou sob o luar:
— “O inferno sorri.
E eu… também.”
O ar tremeu; e então, o chão se rasgou como uma ferida viva.
Do abismo, um círculo de símbolos rúnicos começou a arder, o fogo lambendo o vazio com fome de carne e alma.
No centro do círculo, algo se ergueu: a mulher mascarada, coberta de sangue e silêncio, o eco de mil gritos aprisionados em seu passo.
A nova assassina havia despertado.
Atrás da máscara branca, seus olhos pulsavam, duas brasas de devoção e insanidade.
A lâmina em sua mão pingava vermelho espesso, o sangue não de uma vítima, mas de várias.
Não era mais um ritual de Halloween. Era uma colheita.
Das profundezas, Jack O’Lantern se ergueu em chamas.
Sua cabeça flamejante lançava sombras vivas pelas colunas de ossos, e sua voz ressoava como trovão dentro de uma caverna feita de costelas.
— “Aproxima-te, filha das cinzas.” — disse ele.
Do fogo em seu punho, nasceu uma lâmina: negra como carvão, pulsante como o coração da noite.
O metal parecia respirar. Sussurrar. Fome.
Jack a estendeu, e o inferno se curvou em torno deles.
— “Aceita, herdeira do abismo.
Que tua mão jamais trema,
que teu coração jamais tema,
e que o mundo se ajoelhe diante do teu riso;
como se ajoelhou diante dele.”
Ela se ajoelhou, a máscara reluzindo na penumbra.
O toque da lâmina sobre sua fronte fez o ar crepitar.
Uma centelha atravessou sua carne, e o cheiro de ferro queimado preencheu a sala.
Quando ergueu o rosto, os olhos dela já ardiam com o fogo de Jack.
O ritual se completou.
Jack abriu a palma da mão, e nela ardia o espírito de Tayran, o antigo Assassino Sombrio.
Com um gesto impiedoso, lançou-o para dentro do calabouço das almas.
Lá embaixo, os gritos ecoaram; não de dor, mas de desespero eterno.
O espírito se contorceu entre instrumentos de tortura feitos de ossos e espinhos, até que se calou, reduzido a fumaça e arrependimento.
O trono flamejante de Jack estremeceu.
A chama da abóbora ergueu-se, rugindo, lambendo o teto das catacumbas.
Ele sorriu; aquele sorriso que jamais pertenceu aos vivos, nem aos mortos, mas apenas aos deuses do horror.
Cada alma o tornava mais vasto.
Mais alto.
Mais próximo da divindade da podridão.
E então, o som; lá de cima.
O mundo dos homens respirava medo.
Numa viela esquecida, sob a lua rubra do Halloween, uma risada feminina se ergueu como música profana.
A faca negra cortou o ar.
O sangue respingou nas pedras.
A máscara branca refletiu o luar.
Ela parou por um instante, levantou o rosto e sussurrou:
— “Mais verdadeira do que a própria face.”
Depois, vestiu novamente a máscara, o riso manchado de sangue.
Caminhou pela rua deserta, deixando rastros de morte e perfume.
O eco dos passos misturou-se ao murmúrio distante das chamas do inferno.
E lá embaixo, no trono de ossos e fogo, Jack O’Lantern inclinou a cabeça e sussurrou, com prazer demoníaco:
— “A colheita começou.
E o inferno…
está satisfeito.”
O ritual terminou.
Mas a maldição apenas começou...
(Continua no próximo conto)
