Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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O início do ritual:

Sob o luar rubro de um Halloween sem piedade, Luna Bela Morte ergueu seu cálice de sangue diante do espelho das almas e pronunciou palavras proibidas.
As velas negras tremularam, o ar tornou-se denso e o véu entre os mundos se rasgou, libertando os monstros que dormiam nas entranhas da noite.
Um a um, eles atenderam ao seu chamado: o vampiro, a bruxa, o zumbi... criaturas famintas, amaldiçoadas, sedentas por carne, medo e desejo.
Foi então que o ritual teve início: o Ritual das Almas Escolhidas da Noite de Halloween, quando as sombras ganharam voz e o mundo dos vivos se curvou ao domínio dos mortos.

 

Mas Luna não o fazia por capricho.
Ela o fazia por pacto.

Cada alma capturada, cada vítima entregue aos monstros que ela invocou, era uma oferenda ao Grande Espírito do Halloween: Jack O’Lantern - o guardião das chamas eternas, o ceifador de sorrisos esculpidos em abóboras, aquele que caminha entre o inferno e o esquecimento.
E quando a última alma for reclamada, Jack a aguardará em seu calabouço de fogo e névoa, onde guardará os ecos e os gritos das Escolhidas.

 

Em troca, o espírito concederá à Luna um poder que jamais pertenceu a um ser humano: o domínio sobre as trevas vivas, a capacidade de moldar o medo em carne, de transformar dor em arte, de fazer o terror se apaixonar pela própria destruição.

 

Assim, o ciclo se fecha:
as almas oferecidas tornam-se luz nas mãos do demônio das lanternas,
e Luna Bela Morte, a sacerdotisa do horror poético, ascende como sua Rainha das Noites Malditas.

 

A cada conto, uma alma é reclamada.
A cada grito, uma oferenda é aceita.
E quando o último suspiro for dado, Jack O’Lantern virá buscar todas as almas.

 

🕯️

 

O Despertar da Carne Morta — Conto III

 

Maíra olhava para o céu de Recife como quem busca um presságio.
As estrelas, trêmulas e distantes, pareciam sussurrar velhos segredos que só os mortos compreendiam. Um gole do café fresco ainda queimava em sua língua, e o aroma do milho cozido pairava na cozinha; um perfume familiar que contrastava com o frio estranho que começava a se espalhar pelo ar.

 

Encostada à janela, ela pensou; com aquele tipo de melancolia doce que só quem vive entre o real e o imaginário entende, em como sempre desejara ver algo sobrenatural.


Não apenas ler, nem escrever sobre isso... mas sentir na pele o arrepio do impossível.

 

Então, como um chamado sutil das trevas, ouviu as vozes dos amigos rindo no portão.
“Bora, Maíra! Vamos andar pela cidade, hoje é Halloween!”

 

Ela sorriu. Arrumou seu vestido preto, ajeitou o batom escuro e saiu.
Mas, ao cruzar o portão, algo (um detalhe quase imperceptível) se moveu.


A velha abóbora de Halloween, que há dias estava apagada, acendeu por conta própria.
A chama em seu interior era de um vermelho sobrenatural, pulsante como um coração vivo.


E, quando Maíra se afastou, a abóbora girou lentamente, acompanhando seus passos...
Ninguém notou. Mas os mortos, ah... os mortos perceberam.

 

A noite estava úmida, com o vento trazendo o cheiro salgado do mar e um sussurro longínquo de vozes que não eram humanas. Maíra, com sua alma de escritora e curiosa incurável, caminhava entre risos, ouvindo histórias de terror que seus amigos contavam.


Falavam de uma casa no fim da rua dos Arcanjos, onde, diziam, morava uma feiticeira que praticava vodu.

— Dizem que ela conversa com os defuntos — disse um deles, nervoso.
— Que os mortos atendem ao seu chamado.

 

Os olhos de Maíra brilharam.
Havia fascínio em seu olhar, e um fogo de poeta que só se acendia diante do impossível.

 

Chegando à tal casa, o grupo parou. O portão era de ferro retorcido, e do lado de dentro o terreno era coberto por cruzes improvisadas. Uma delas marcava uma cova aberta, fresca, como se alguém, ou algo, houvesse saído de lá.

 

Um gato preto, de olhos amarelos, observava de um muro. Maíra o cumprimentou num sussurro.
— Boa noite, guardião da noite...

 

Os amigos riram, achando graça do jeito dela.
Mas quando chegaram à janela, o riso cessou.

 

Lá dentro, sob uma luz pálida de velas, uma mulher de cabelos desgrenhados e olhos leitosos entoava palavras num idioma antigo. Perto dela, jazia um corpo... ou quase.


O cadáver se mexia. Lentamente, num movimento torto e impossível, ergueu-se.
Os músculos rasgados se esticaram sob a pele acinzentada.


A feiticeira sorria, e o morto caminhava.

 

Os amigos gritaram, apavorados, e correram.
Mas Maíra não.

Ela ficou.


Seu coração batia rápido, não de medo, mas de excitação sombria.
Aquilo era poesia viva. Era horror puro, materializado diante de seus olhos.


O Zumbi deu um passo à frente. As velas tremularam. A mulher da casa virou-se e fixou o olhar em Maíra, como se soubesse que havia uma espectadora.

 

E num sussurro que atravessou o vidro e o tempo, a feiticeira disse:
— A próxima carne que caminhará... será a tua.

 

Maíra recuou, o sangue gelando nas veias, mas os olhos do cadáver já estavam sobre ela.


As velas refletiram sua luz no rosto pálido da escritora nordestina, como se o próprio inferno a marcasse para o ritual que estava por vir.

 

O som do vento carregava gemidos.
Não eram do mundo dos vivos. E Maíra, agora desperta, percebeu isso com uma clareza lancinante.

 

Acordou sobre algo frio e úmido. O ar era pesado, denso, saturado pelo cheiro de terra revolvida e carne apodrecida.


Tentou mover-se, mas suas mãos estavam amarradas por raízes retorcidas, vivas, pulsando como veias de uma criatura antiga.

 

O chão sob ela era feito de ossos.
E ao redor... o sussurro dos mortos.

 

Luzes mortiças tremulavam ao longe, velas negras que ardiam sem consumir a cera. As paredes eram baixas, de barro, cobertas por insetos que se moviam como pensamentos inquietos.
Maíra percebeu: estava dentro de uma cova.

 

O som de passos veio se aproximando, arrastados, lentos.
E então ela o viu.

O Zumbi.


O mesmo corpo que vira na casa da feiticeira, agora de pé, iluminado por um brilho doentio. A pele era um mapa de feridas abertas, e dos olhos escorria uma lágrima negra, como óleo antigo.


Ele não gemia como nas histórias.
Ele sussurrava.

— M...aí...ra...

 

A voz era um grito que fora esquecido dentro da garganta da morte.


Maíra tentou recuar, mas os vermes começaram a subir por seu corpo, frios, rastejando por sua pele como dedos invisíveis.

 

A feiticeira (a mulher de olhos leitosos) apareceu atrás dele, com um sorriso triunfante.
Sua voz era doce, mas cada sílaba parecia cortante.

— A alma da poetisa... que canta o terror.
— Que deseja tocar o véu da escuridão.
— Pois agora o véu te abraçou.

 

Ela ergueu um crânio cheio de um líquido escuro, parecia sangue misturado à terra.
E derramou sobre Maíra.

A terra pulsou.


O chão se abriu embaixo dela, revelando um buraco sem fim, onde ossos e sombras se entrelaçavam.
E o Zumbi começou a descer até ela, como se o chamasse algo mais profundo, uma fome ancestral.

— Os vivos se alimentam de sonhos... — sussurrou a bruxa.
— Mas os mortos se alimentam de poetas.

 

Maíra sentiu o toque gelado do Zumbi em seu rosto. Ele não a devorava, não ainda.
Apenas a olhava, como se tentasse lembrar de algo.
— Você... é como eu... — murmurou ele. — ...presa entre mundos...

 

Ela chorou.
Não de medo, mas de uma compaixão terrível.


Como se naquele ser apodrecido ainda restasse um fragmento de alma, uma centelha de dor que ela compreendia melhor do que ninguém.

 

Mas o ritual não se deteve.


A feiticeira começou a cantar em uma língua que Maíra não reconhecia, e o corpo do Zumbi começou a se contorcer, rasgando-se em feridas de luz e sombra.

 

O chão tremeu.
A cova se fechava.

 

E, pela última vez, Maíra viu o rosto da feiticeira, rindo, com os dentes manchados de sangue.

— A oferenda foi aceita — disse ela.
— Que Jack o’Lantern receba tua alma no Calabouço das Lanternas.

 

Então, o silêncio.


O som dos vermes cessou.
E tudo se tornou escuridão.

 

A última coisa que Maíra ouviu antes de perder a consciência foi a voz da feiticeira.
Ela sussurrou:

— Ainda há mais fome... ainda há mais almas.

 

O olhar do Zumbi era um abismo.
Não havia vida ali, mas havia profundidade, uma escuridão que respirava, que atraía, que devorava.
Maíra fitou-o, e em vez de fugir, mergulhou.

 

A realidade ao redor se dissolveu como sangue na água.
O chão desapareceu. A voz da feiticeira se tornou um eco distante, e o vento, antes frio, agora era um sussurro morno que lhe acariciava o rosto como mãos invisíveis.

 

Dentro do olhar do monstro, Maíra caminhava em uma planície feita de sombras líquidas.
O ar cheirava a ferro e terra molhada.


As estrelas acima eram vermelhas (pulsações no firmamento) e em cada uma delas ela via um rosto gritando.

 

O Zumbi estava lá, diante dela, mas agora tinha feições humanas.


Um homem comum, de expressão cansada e olhos tomados por um medo antigo.

— Fui como você... — disse ele, em voz baixa, melancólica.
— Uma alma viva, levada pelo encanto do terror... até ser arrastado por outro morto, há muitos Halloweens atrás... para o calabouço de Jack O’Lantern.

 

Maíra quis perguntar o nome dele, mas já não conseguia falar. Sua língua era de cinzas.


O Zumbi aproximou-se, e ela não se moveu.


Não havia mais medo, apenas um fascínio reverente, uma entrega quase serena.

 

Quando seus lábios mortos tocaram o pescoço dela, Maíra não gritou.
Não sentiu dor.


O mundo inteiro estava dentro daquele olhar abissal, e ela se deixava consumir por ele.
Seu corpo era devorado, mas sua mente mergulhava mais fundo no vazio, descendo degraus de esquecimento, dissolvendo-se em silêncio.

 

Enquanto o sangue fluía, ela percebeu que o monstro chorava.


E quando a última gota de vida se esvaiu, Maíra viu, não com os olhos, mas com a alma, o caminho no abismo, iluminado por chamas laranja, onde outras almas caminhavam em fila.


O Zumbi a tomou pela mão.

— Venha... — sussurrou ele. — Jack a espera.

 

E assim Maíra foi levada.

 

Entre labaredas e gritos, o abismo se abriu em um salão subterrâneo feito de abóboras ocas, cujas faces deformadas brilhavam com fogo vivo.


No centro, sobre um trono de caveiras e raízes flamejantes, Jack O’Lantern ergueu-se em toda sua glória infernal.
Seu corpo era feito de fumaça e carne carbonizada; o rosto, uma abóbora entalhada, com um sorriso que tremeluzia em vermelho.

— A terceira alma chegou... — disse ele, com uma voz que parecia vir de todos os cantos da Terra.
— E com ela... meu poder desperta mais forte.

 

Jack não era mais uma sombra. Ganhou mais poder com a terceira alma e, com isso, conseguiu finalmente assumir sua verdadeira forma.

 

Maíra, ajoelhada, olhou para ele sem medo.
Nos olhos ocos da abóbora, ela viu um reflexo, o próprio rosto dela, agora aceso com o mesmo fogo.


Ela compreendeu, então: sua alma fazia parte da lanterna.
E Jack sorriu.

— Bem-vinda, poetisa da noite.
— Que tua chama ilumine os caminhos dos mortos.

As portas do calabouço se fecharam atrás dela, com um som grave e final.

 

 

Na superfície, a noite permanecia chuvosa.
O relâmpago rasgava o céu, revelando a cova e a terra ao redor em breves lampejos pálidos. Plantas mortas, uma casa com aparência de abandonada...

 

O Zumbi caminhava sozinho, em silêncio.
Seu corpo, agora menos humano que antes, movia-se como uma lembrança esquecida de movimento.


Cada passo deixava marcas de lama misturada a sangue.

 

Atrás dele, na cova aberta, jazia o cadáver estilhaçado de Maíra, os olhos ainda abertos, fixos no nada.


Seu sangue escorria lentamente, desenhando símbolos antigos na terra; runas que brilhavam antes de se apagarem.

 

O Zumbi parou um instante.
Virou-se.
Olhou para o corpo.


E num gesto quase terno, sussurrou:

— Obrigado... por me lembrar que um dia fui humano.

 

Depois, voltou-se para a casa da feiticeira.
A porta rangeu, e a maldita o esperava, sorrindo sob o luar doentio.


Ele entrou, e a escuridão o engoliu.

A cova se fechou sozinha.

 

Na superfície, a noite permanecia chuvosa.
O relâmpago rasgava o céu.


E sobre a terra recém-mexida, um homem de máscara branca, com feições frias e medonhas, aproximou-se da cova.


Segurava uma faca suja de sangue fresco, e o brilho dos relâmpagos revelava o reflexo do aço em sua lâmina.

 

Com passos lentos e precisos, ele abaixou-se diante da cova recém-fechada.


Colocou uma abóbora, cuidadosamente esculpida com um sorriso grotesco, sobre a terra ainda quente, e acendeu-a.

 

A chama crepitou, iluminando o vazio de seus olhos na máscara.

 

Sem dizer uma única palavra, ele se ergueu, virou-se e desapareceu na escuridão.

 

O vento soprou, e a luz da abóbora piscou uma única vez...
como se anunciasse o próximo terror.

 


 

O ritual terminou.

Mas a maldição apenas começou...

(Continua no próximo conto...)

 

 

Luna Bela Morte
Enviado por Luna Bela Morte em 27/10/2025
Alterado em 27/10/2025
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