
O início do ritual:
Sob o luar rubro de um Halloween sem piedade, Luna Bela Morte ergueu seu cálice de sangue diante do espelho das almas e pronunciou palavras proibidas.
As velas negras tremularam, o ar tornou-se denso e o véu entre os mundos se rasgou, libertando os monstros que dormiam nas entranhas da noite.
Um a um, eles atenderam ao seu chamado: o vampiro, a bruxa, o zumbi... criaturas famintas, amaldiçoadas, sedentas por carne, medo e desejo.
Foi então que o ritual teve início: o Ritual das Almas Escolhidas da Noite de Halloween, quando as sombras ganharam voz e o mundo dos vivos se curvou ao domínio dos mortos.
Mas Luna não o fazia por capricho.
Ela o fazia por pacto.
Cada alma capturada, cada vítima entregue aos monstros que ela invocou, era uma oferenda ao Grande Espírito do Halloween: Jack O’Lantern - o guardião das chamas eternas, o ceifador de sorrisos esculpidos em abóboras, aquele que caminha entre o inferno e o esquecimento.
E quando a última alma for reclamada, Jack a aguardará em seu calabouço de fogo e névoa, onde guardará os ecos e os gritos das Escolhidas.
Em troca, o espírito concederá à Luna um poder que jamais pertenceu a um ser humano: o domínio sobre as trevas vivas, a capacidade de moldar o medo em carne, de transformar dor em arte, de fazer o terror se apaixonar pela própria destruição.
Assim, o ciclo se fecha:
as almas oferecidas tornam-se luz nas mãos do demônio das lanternas,
e Luna Bela Morte, a sacerdotisa do horror poético, ascende como sua Rainha das Noites Malditas.
A cada conto, uma alma é reclamada.
A cada grito, uma oferenda é aceita.
E quando o último suspiro for dado, Jack O’Lantern virá buscar todas as almas.
🕯️
O parque de diversões pulsava com risos, luzes e sons metálicos que se misturavam ao farfalhar do vento frio. O cheiro doce de algodão e óleo de fritura pairava no ar, e o som de uma música antiga ecoava de um velho carrossel que girava preguiçosamente sob a lua.
Diego Carreiro mordeu o hambúrguer com gosto, sentado num banco próximo à barraca de lanches. Os olhos dele, curiosos, infantis, ligeiramente temerosos, vagavam entre as luzes coloridas e o breu que se acumulava nos cantos do parque. O Halloween se aproximava, e aquela noite parecia... diferente.
Foi então que ela apareceu.
Uma senhora de véu negro, vestida com camadas de pano gasto e adornos de prata que tilintavam ao menor movimento. A pele, pálida como cera. Os olhos, um vermelho quase imperceptível.
— “Posso ver o seu futuro, rapaz...” — disse a velha, com um sorriso que mais parecia um corte na face.
Diego riu, nervoso.
— “Ah, é? Tipo leitura de mão, bola de cristal, essas coisas?”
— “Sim. E por um preço pequeno... apenas cinco reais.”
O brilho das luzes refletiu nas pupilas da mulher, como duas brasas.
Curioso, e um pouco encantado pela aura teatral, Diego seguiu-a até uma barraca afastada do centro, marcada com uma placa escrita à mão: “Madame Aradia — Leitura de Destinos.”
O interior era abafado e cheirava a incenso e madeira queimada. Cortinas escuras, uma mesa coberta com veludo, e no centro, uma bola de cristal coberta por um tecido carmesim.
Diego sentou-se, o coração acelerando sem saber o motivo.
— “Isso é bem... autêntico”, brincou, tentando disfarçar o incômodo.
A mulher sorriu.
— “Nem imagina o quanto.”
Com um gesto lento, ela retirou o pano. A bola de cristal brilhou, um vermelho pulsante, quase vivo.
Diego piscou, confuso, pois o brilho parecia respirar, expandindo e contraindo como um coração.
A bruxa começou a murmurar em um idioma esquecido. Palavras que não soavam humanas, acompanhadas por um som distante, como de vento passando por túmulos.
O ar ficou denso. As luzes tremularam.
E então Diego viu, um vulto no canto da tenda.
A “verdadeira” Madame Aradia, a atriz do circo, estava caída, desacordada, o rosto pálido, a boca entreaberta como se o último grito tivesse se perdido ali.
O terror o golpeou.
— “Quem... quem é você?” — sussurrou Diego, tentando se levantar, mas suas pernas não obedeciam.
A mulher ergueu o rosto, e o véu escorregou para trás, revelando olhos completamente vermelhos e veias negras pulsando sob a pele translúcida.
— “Meu nome é Morgwen. E o teu futuro... é o meu feitiço.”
🩸 🩸 🩸
A Maldição de Morgwen da Lua Púrpura
Dizem que antes de haver noite, havia Morgwen.
Uma mulher nascida sob o eclipse da lua púrpura, aquele raro alinhamento em que o sangue do céu beija o véu da escuridão. Desde o berço, seus olhos refletiam o brilho de duas luas: uma de prata e outra cor de vinho. A aldeia temia seu olhar, pois onde Morgwen passava, o leite azedava, os espelhos rachavam e as mulheres grávidas sonhavam com lobos.
Mas ela não nasceu má. Morgwen amava as estrelas, e foi por amor que perdeu a alma.
Apaixonou-se por um anjo exilado, que prometeu a ela a eternidade em troca de um simples voto: jamais conjurar o nome dele diante da lua.
Porém, movida pela saudade e pela sede do impossível, Morgwen o chamou na noite errada… e o firmamento respondeu com fogo.
O anjo caiu do céu em chamas, e o corpo dele virou cinza diante dela.
Desesperada, Morgwen implorou às forças da Terra que o devolvessem.
E a Terra atendeu, mas a um preço.
O corpo do anjo voltou à vida, mas sem coração, movido por magia e culpa. Para sustentá-lo, Morgwen teve de oferecer uma alma por cada batida que desejasse ouvir.
Desde então, a Bruxa da Lua Púrpura vagueia entre os vivos e os mortos, capturando almas em sua bola de cristal vermelha, onde o sangue das vítimas pulsa como oferenda.
Cada rosto aprisionado reflete um sussurro, e dizem que, nas noites de Halloween, se alguém ousar olhar profundamente em sua esfera, verá o próprio destino se contorcendo… implorando para ser poupado.
E quando o céu tingir-se novamente de púrpura, Morgwen retornará...
para lembrar ao mundo que até o amor pode ser um feitiço.
🩸 🩸 🩸
A bola de cristal começou a girar sozinha, um redemoinho de névoa vermelha formando-se em seu interior.
Diego tentou gritar, mas sua voz sumiu, sugada para dentro da esfera, junto com a luz, o ar, o calor.
A bruxa levantou as mãos e sussurrou um encantamento, a voz ecoando como o estalar de ossos:
— “Pelo sangue do medo e a chama do horror, prendo tua alma no espelho do amor.”
A alma de Diego começou a se desprender, um véu translúcido que tremia sobre seu corpo.
Ele sentiu dor, frio e vertigem.
A bruxa riu, o som rouco e profundo, enquanto a essência dele era sugada para dentro da bola de cristal.
Do lado de fora, o parque continuava com sua música alegre e luzes piscando.
Ninguém percebeu que, naquela noite, uma nova alma havia sido trancada no reflexo de um vidro, onde gritos não ecoam e o tempo sangra em silêncio.
E dizem que, desde então, a bola de cristal da bruxa brilha mais vermelha toda vez que o medo encontra um novo coração.
O som que ecoava ali dentro não era o som da vida, mas o ruído úmido de algo pulsando.
Diego abriu os olhos e se viu flutuando em um espaço líquido, avermelhado, onde tudo parecia feito de espelhos rachados.
O ar tinha gosto de ferrugem.
As luzes vinham de veios de sangue que serpenteavam pelas paredes, como se o próprio espaço tivesse veias.
Ele tentou respirar. Não conseguiu.
Tentou gritar. O som não atravessou o ar denso.
Foi então que percebeu o reflexo diante de si, uma sombra idêntica a ele, mas com olhos ocos e um sorriso disforme.
— “Bem-vindo, Diego...” — sussurrou o reflexo, com uma voz idêntica à sua, apenas mais fria.
— “O que... o que é isso? Onde eu tô?” — balbuciou, a garganta queimada.
O outro riu, e o som reverberou como ferro arranhando vidro.
— “Dentro da bola de cristal. No ventre da Bruxa. Aqui o tempo é o sangue dela — e nós somos o que ela bebe.”
Atrás do reflexo, formas começaram a se mover.
Corpos translúcidos, deformados, olhos de vidro e bocas abertas num grito mudo.
Eram rostos humanos, dezenas deles, presos nas fendas do chão, todos sussurrando ao mesmo tempo.
“Sai... sai enquanto ainda lembra teu nome...”
Diego cambaleou, tentando se afastar.
O chão sob seus pés se abriu, revelando um abismo de carne pulsante e vozes gemendo.
De dentro do abismo, uma língua de fogo negro emergiu, contorcendo-se como uma serpente viva.
A voz da Bruxa ecoou, vinda de todos os lados:
— “Teu medo é meu espelho, tua alma, meu perfume...”
O reflexo de Diego começou a se distorcer, o rosto se dividindo, rachando, e dele saindo algo que parecia feito de névoa e sangue.
O reflexo se ergueu, agora com garras, e avançou sobre ele.
Diego caiu para trás, gritando sem som, e quando tentou correr, percebeu que corria em círculos, um mesmo corredor espelhado, repetido infinitamente.
Cada parede refletia não a sua imagem, mas a da Bruxa.
Ora rindo, ora chorando, ora jovem, ora velha.
E em todas, os olhos dela eram dois sóis vermelhos queimando dentro da escuridão.
— “O Círculo de Sangue está completo...” — murmurou ela.
— “Agora verás teu destino, alma medrosa.”
O chão se transformou em um espelho líquido.
Do reflexo, mãos pálidas surgiram, agarrando-lhe os tornozelos, arrastando-o para baixo.
Ele lutou, chutou, gritou, mas a força era maior.
Enquanto afundava, via diante de si o rosto da Bruxa surgir na superfície, observando-o com deleite cruel.
— “Não chores, Diego. Lá embaixo é onde o medo floresce.”
A escuridão o engoliu, e por um instante, o silêncio absoluto reinou.
Mas, em algum lugar, o eco de uma batida, como um coração, continuava pulsando.
Um som ritmado e constante, que dizia:
“Ele ainda vive... no círculo da Bruxa.”
E foi assim que Diego descobriu que o inferno, às vezes, não é o fim... mas o espelho onde tua alma apodrece eternamente.
Acordou com o som de sinos distantes, como se fossem vozes chamando do outro lado do tempo.
Diego abriu os olhos e viu-se deitado sobre um espelho líquido, que tremia com cada batida do próprio coração.
As paredes ao redor pulsavam como se respirassem, um organismo vivo, feito de vidro e sombras.
E lá estava ela, a Bruxa Má, sentada em um trono de ossos e velas derretidas, segurando sua bola de cristal vermelha.
— “Ainda está entre mundos, meu doce brinquedo...” — ela murmurou, com um sorriso de morte.
— “Mas logo entenderá que fugir é o mesmo que morrer.”
Diego tentou se erguer. As pernas tremiam. O ar parecia ter peso.
O reflexo dele ainda o observava do chão, sorrindo, um sorriso que agora sangrava.
— “Não sou você...” — sussurrou Diego, com raiva.
O reflexo inclinou a cabeça, zombeteiro. — “Não mais.”
E foi então que percebeu: o corpo refletido se movia sozinho, independente de seus gestos.
Enquanto Diego cambaleava para trás, o reflexo erguia o rosto, de olhos vazios e garras afiadas, e atravessava o espelho como quem atravessa um véu.
O impacto o lançou contra a parede viva. O som do vidro quebrando foi como um grito de alma rasgada.
O reflexo tomou forma humana diante dele, era Diego, mas corrompido.
Os olhos negros, o sorriso doentio, e no peito, uma marca ardente em forma de círculo: o selo da Bruxa.
— “Agora és apenas o que eu escolhi ver.” — disse ela, levantando a bola de cristal.
Dentro dela, o verdadeiro Diego gritava, prisioneiro, enquanto seu corpo físico, controlado pelo reflexo, ajoelhava-se diante da Bruxa.
Ela passou a mão sobre o rosto do reflexo com um carinho cruel.
— “Tão melhor assim... sem medo, sem vontade, apenas carne moldada à minha magia.”
O Diego verdadeiro, aprisionado no espelho, socou a superfície até as mãos sangrarem.
Mas cada pancada ecoava apenas em sua própria mente.
A bruxa riu, um som quebrado, como vidro arranhado por unhas.
— “Teu corpo é meu. Tua alma... alimento do Círculo.”
Ela ergueu o cajado e o espelho começou a rachar, liberando uma luz vermelha intensa.
A alma de Diego foi rasgada em duas, uma devorada pela bola de cristal, outra lançada em queda livre dentro da escuridão eterna.
Morte. Silêncio. Frio.
Quando despertou, estava sentado no chão frio de pedra.
Correntes prendiam-lhe os pulsos.
A cela era úmida, e um som gotejante ecoava nas sombras.
— “Onde... eu tô?” — murmurou, a voz rouca.
Uma risada grave respondeu, vinda do breu:
— “Nos domínios dela... e meus também.”
Uma sombra se moveu na escuridão da cela ao lado, grande e densa, com olhos que não brilhavam, apenas absorviam toda a luz ao redor.
— “Agora tua alma me pertence, Diego Carreiro. Ela a colheu... mas eu a guardo.”
Diego tentou ver melhor, mas a sombra se contorceu, tomando forma de algo não humano, algo feito de puro abismo.
— “Não tema... ainda há muitos como você por vir.”
O som das correntes aumentou.
A porta do calabouço se fechou com um estrondo.
E o nome de Diego se perdeu para sempre, dissolvido nas entranhas da noite.
Assim perece o segundo escolhido.
Pois toda alma arrancada pela Bruxa Má acaba refletida na eternidade do seu espelho.
E o que é visto, nunca mais volta a ser humano.
O ritual terminou.
Mas a maldição apenas começou...
(Continua no próximo conto...)
