
Sob a luz pálida de uma lua em agonia, Flavia Requim caminhava em direção ao castelo que se erguia como um sussurro amaldiçoado no topo das colinas. O vento arrastava as folhas secas como dedos frios sobre o chão, e o som distante de um piano ecoava... notas tristes, melancólicas, como se alguém tocasse o próprio coração de um morto.
Ela havia recebido o convite dias antes, escrito em tinta vermelha sobre um papel espesso e perfumado com algo que lembrava cravos e ferro.
“Venha ao castelo na primeira noite do Halloween.
Há uma festa esperando por você.
— D.”
Curiosa, a poetisa não resistiu. Era o tipo de mistério que dançava em suas veias, entre versos e fantasmas. O portão de ferro se abriu sozinho, rangendo como se o próprio ar se queixasse. Lá dentro, tochas tremulavam, lançando sombras longas que pareciam observá-la.
O grande salão estava vazio, exceto por um piano negro, coberto de poeira antiga. Flavia, sem resistir, passou os dedos sobre as teclas, e o som que nasceu era doce, triste, quase humano. De repente, uma voz profunda cortou o silêncio:
— “Você toca como quem conversa com a morte.”
Ela se virou. O homem estava à porta; alto, envolto num manto escuro que parecia feito da própria noite. Sua pele era pálida como mármore, e seus olhos, dois poços de vinho, refletiam o fogo das tochas com uma fome antiga.
— “Perdoe-me,” disse ela, nervosa. “Eu… não sabia que havia alguém.”
— “O castelo nunca está vazio, minha doce Flavia.”
Ele caminhou até ela com uma graça quase felina, e o som de seus passos era o de um predador disfarçado de sonho. Quando se aproximou, ela sentiu o perfume dele; uma mistura de rosas e sangue fresco.
— “Dizem que as almas artísticas são as mais saborosas,” sussurrou o homem, inclinando-se ligeiramente.
— “E dizem que vampiros só existem em contos,” ela respondeu, com um sorriso trêmulo.
Ele sorriu de volta. Mas aquele sorriso (ah, aquele sorriso...) carregava presas.
O vento soprou, as velas se apagaram, e o piano tocou sozinho…
A primeira noite do Halloween havia começado.
E Flavia Requim acabara de aceitar o convite para o banquete do imortal. 🩸
As portas do salão se abriram com um estrondo surdo, e uma centena de velas se acenderam sozinhas, como se o próprio castelo respirasse. O brilho pálido das chamas dançava sobre os vitrais cobertos de teias, revelando colunas adornadas por anjos mutilados e flores secas mergulhadas em taças de cristal.
Flavia, fascinada e atordoada, observava tudo como quem sonha acordada. O homem, o mesmo que se apresentara apenas como Darian, estendeu-lhe a mão.
— “Permita-me mostrar-lhe a verdadeira essência da noite.”
Seu toque era frio, mas o arrepio que subiu pelo corpo de Flavia tinha o calor do pecado. Ele a conduziu até uma mesa comprida, coberta por uma toalha de veludo negro. Sobre ela, frutas rubras, taças de vinho espesso e um banquete que exalava um aroma indecente, uma mistura de doçura e ferro, de desejo e morte.
— “Sente-se, minha bela artista. A fome é a primeira forma de amor.”
Flavia hesitou, mas sentou-se. O olhar dele a mantinha cativa; havia algo de hipnótico, como se cada palavra de Darian se infiltrasse nela em ondas sutis, dissolvendo a prudência.
Enquanto ela tocava uma uva, ele se aproximou por trás, o hálito frio roçando-lhe a nuca.
— “Você canta... e suas notas soam como súplicas. Eu ouvi sua voz em meus sonhos, Flavia Requim.”
O coração dela disparou.
— “Sonhos?” — sussurrou.
— “Ou premonições.”
Ele se inclinou, o rosto tão próximo que ela pôde sentir o perfume metálico de seus lábios.
— “Você não imagina o quanto o sangue de uma poetisa brilha sob a lua...”
As luzes tremularam. Do alto, gárgulas antigas observavam o ritual silencioso, a caçada que se tornava sedução.
Darian ergueu uma taça. O líquido rubro reluzia como rubi vivo.
— “Beba comigo.”
Flavia levou o cálice aos lábios. O gosto era doce, denso, quase vivo.
E quando ela o olhou novamente, o reflexo do vampiro não estava mais no espelho à sua frente.
A música voltou a ecoar, o mesmo piano que ela tocara agora tocava sozinho, numa melodia que lembrava um lamento de almas condenadas.
Darian sentou-se ao lado dela, os olhos ardendo em vermelho.
— “O Halloween é o tempo dos portais abertos... e o seu coração acaba de se tornar um deles.”
Flavia sentiu o corpo estremecer, entre o medo e o desejo, entre o convite e o abismo.
E quando ele segurou seu queixo, a ponta de suas presas brilhou sob o fogo das velas.
Naquela noite, o banquete não seria apenas de vinho.
Seria de carne viva e versos sangrando. 🩸
O relógio do castelo soou doze vezes, e cada badalada era como um sino fúnebre, selando o destino de Flavia Requim.
A lua filtrava-se pelas janelas altas, tingindo o salão com um brilho doentio. As velas tremiam, prestes a se extinguir, e Darian caminhava ao redor da poetisa como um predador em devoção.
Seu olhar não era de um homem, era de uma fome ancestral, envolta em uma beleza que só a morte compreende.
Flavia recuou, o vestido roçando o chão frio.
— “O que... o que você é?” — balbuciou.
Ele sorriu, e naquele sorriso havia séculos de pecado.
— “Sou a lembrança do primeiro suspiro após a morte... sou o beijo que te rouba o fôlego e te devolve em sombras.”
O vento soprou do nada, apagando metade das chamas.
Darian aproximou-se, e o silêncio entre os dois tornou-se quase sagrado.
Com um gesto delicado, ele afastou-lhe os cabelos do pescoço, o toque era reverente, como se prestasse culto à beleza efêmera que logo se extinguiria.
— “Você é música e sangue... poesia e fim.”
Flavia tentou resistir, mas seus olhos o chamavam, e o vampiro obedeceu.
Num instante, o mundo se tornou escuro e vermelho.
As presas mergulharam em sua pele com a ternura de um beijo e a violência de uma lâmina.
O grito de Flavia se dissolveu em suspiros.
O sangue corria quente pelo pescoço, escorrendo entre os lábios dele, enquanto ela se desfazia... bela, frágil, entregue.
O tempo cessou.
E quando Darian a soltou, seus lábios estavam carmesins como rubis vivos, e o corpo dela, leve como uma oferenda.
Ele a deitou com cuidado, murmurando:
— “Não chore, minha doce Requim. Toda morte que canta merece renascer.”
Então, tudo se apagou.
Flavia abriu os olhos, o chão era de pedra fria.
O som de correntes ecoava nas paredes úmidas.
Estava numa cela. O ar cheirava a ferrugem e velas queimadas.
— “Onde... estou?” — sussurrou, a voz trêmula.
Das sombras, algo se moveu.
Um vulto sem rosto, uma presença que parecia feita de fumaça e ossos.
A sombra falou com um timbre que arrepiava até as almas mortas:
— “Nos meus domínios, pequena canção. Agora, tua alma pertence à Noite.”
Flavia tentou se levantar, mas as correntes prenderam-lhe os pulsos.
A sombra se aproximou mais, revelando apenas um lampejo. Olhos brancos, vazios, como os de um cadáver desperto.
— “Tua história foi escrita em sangue, e o sangue é a tinta que não se apaga.”
O vulto inclinou-se, e ela pôde sentir o frio atravessar-lhe o corpo, como se o próprio ar lhe roubasse a vida outra vez.
— “Descansa, doce Flavia. O Halloween apenas começou.”
A última vela apagou-se.
E o riso do monstro ecoou pelo calabouço, arrastando-se como vento entre túmulos.
Dizem que nas noites de Halloween, ouve-se um piano ao longe.
E quem escuta... jura reconhecer a voz de uma mulher sussurrando versos que cheiram a sangue e eternidade.
O ritual terminou. Mas a maldição apenas começou...
Continua no próximo conto...