Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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02/11/2026 05h00
Os mortos não me assombram

 

São duas e dezessete da madrugada. Acabo de retirar uma pétala escurecida de dentro de um livro e colocá-la sobre minha escrivaninha. Não faço ideia de quanto tempo permaneceu entre aquelas páginas. Ela envelheceu em silêncio, sem testemunhas. Gosto dessa discrição. Os seres humanos deveriam experimentá-la com maior frequência...

 

Lá fora, Angra dos Reis repousa sob uma umidade morna. A brisa que entra pela janela movimenta discretamente as cortinas, trazendo aquele cheiro de maresia que impregna as casas próximas à baía. Há uma taça esquecida ao lado do computador, algumas anotações espalhadas e um vaso de flores que ainda não decidi onde colocar.

 

Hoje é Dia de Finados.

 

Nunca compreendi inteiramente o desconforto que certas pessoas sentem ao pronunciar a palavra cemitério. Falam desses lugares como se a morte fosse uma doença contagiosa, esquecendo que a carregam consigo desde o nascimento.

 

Ontem, no fim da tarde, estive no Cemitério do Convento São Bernardino de Sena, aqui em Angra. É um dos lugares onde encontro uma espécie de tranquilidade que nenhuma companhia consegue me oferecer.

O antigo conjunto franciscano repousa no alto do Morro do Santo Antônio. A subida exige abandonar, por alguns instantes, a pressa das ruas. A arquitetura colonial conserva paredes brancas, arcos antigos e marcas de séculos que nenhuma restauração deveria apagar completamente. Há ruínas do convento, a Igreja de São Francisco e um velho cruzeiro de mármore de Lioz, oferecido aos franciscanos pela Coroa portuguesa. A cruz permanece ali, testemunhando gerações de pessoas que chegaram e desapareceram.

 

Gosto especialmente de me sentar naquele alto e observar a paisagem.

Dali, a cidade parece diminuir de importância. Os telhados se amontoam abaixo do morro, as montanhas abraçam a baía e o mar recebe os últimos reflexos da tarde. Pequenas embarcações pontilham a água. À distância, o movimento humano torna-se quase delicado. É uma ilusão agradável.

O vento atravessa as árvores, toca as pedras antigas e encontra meu rosto com a intimidade de alguém que não precisa ser apresentado.

Permaneço ali durante longos minutos, às vezes sem pensar em coisa alguma. Outras vezes, pensando em tudo o que preferiria esquecer.

 

A cruz do convento sempre me chama a atenção. Sua presença atravessou tantos anos, enquanto homens que se julgavam indispensáveis desapareceram sem deixar sequer uma frase digna de ser lembrada.

Que ironia maravilhosa.

Construímos fortunas, reputações, impérios domésticos e pequenas dinastias de vaidade. Depois, a terra recebe nossos ossos sem perguntar quanto custava o relógio que usávamos.

Talvez por isso eu tenha tão pouca paciência para a ostentação humana. Tenho uma vida confortável, muito mais do que necessito, uma biblioteca que provavelmente sobreviverá à minha capacidade de lê-la e espaços em casa onde quase nunca entro. Entretanto, minhas melhores horas continuam acontecendo diante de uma página em branco ou sentada sobre uma pedra antiga, sem ninguém para admirar meu vestido.

 

Também prefiro que não me reconheçam.

Há quem confunda discrição com insegurança. Pobres criaturas. Algumas pessoas simplesmente descobriram que a liberdade começa quando deixamos de oferecer nossa existência ao julgamento público.

 

Pensei em meu pai enquanto observava aquela cruz.

Ele morreu de velhice. Uma expressão aparentemente serena para descrever algo tão definitivo. Dizemos que alguém partiu naturalmente, como se a natureza tivesse alguma obrigação de ser gentil.

A velhice retirou dele aquilo que o tempo sempre cobra dos vivos. Não houve tragédia extraordinária, nenhuma maldição, nenhum mistério digno dos romances que escrevo. Apenas a conclusão inevitável de uma existência.

E talvez seja justamente isso que ainda me perturbe.

 

Confesso uma coisa que dificilmente diria diante de alguém: há momentos em que sinto saudade de quem eu era quando meu pai ainda vivia. Depois me envergonho um pouco dessa constatação, como se estivesse utilizando a morte dele para lamentar uma perda minha.

O luto possui crueldades que ninguém menciona durante as cerimônias.

 

Minha mãe continua em Portugal. A distância entre nós, medida em quilômetros e oceanos, às vezes parece suportável. Em outras madrugadas, torna-se uma violência silenciosa.

Penso em telefonar mais tarde.

Não porque exista algo urgente a dizer. Quero apenas ouvir sua voz enquanto ainda posso.

 

É estranho escrever histórias sobre espíritos, ressurreições e eternidades, quando tudo o que verdadeiramente desejamos, em determinados instantes, é prolongar uma conversa banal com alguém que amamos.

 

Voltei para casa ontem com essas ideias e encontrei sobre a mesa um exemplar de O Grimório de Nyxara.

O livro foi lançado há dois dias, no Halloween. Ainda há uma satisfação íntima em tocar suas páginas e reconhecer ali uma história que, durante tanto tempo, existiu somente dentro da minha cabeça.

 

Mal encerrei essa jornada e já estou trabalhando na continuação, que pertence à saga Ordo Umbrae. Nela, meus leitores conhecerão a irmã de Nyxara. Há segredos familiares que conseguem ser mais perigosos do que qualquer encantamento.

Também preparo um e-book gratuito, que será publicado em breve, narrando a origem da bruxa. É uma história paralela, mas essencial para compreender os acontecimentos da saga.

 

Enquanto escrevia algumas anotações, percebi algo curioso: Nyxara é uma mulher que enfrenta a morte tentando dominar aquilo que não compreende. Eu escrevo sobre a morte justamente porque aprendi que existem coisas diante das quais o poder humano é ridículo.

Talvez nossas personagens revelem aquilo que temos vergonha de admitir sobre nós mesmas.

 

A madrugada avança.

Olho novamente para as flores.

Hoje retornarei ao cemitério. Levarei algumas delas, permanecerei em silêncio e deixarei que meus pensamentos façam aquilo que nenhuma oração decorada conseguiria fazer por mim.

 

Aos meus leitores, desejo oferecer um conselho espiritual nesta data. Não confundam honrar os mortos com aprisionar a própria vida à ausência deles. Conversem com suas lembranças. Rezem, caso encontrem conforto na oração. Acendam uma vela, depositem uma flor ou simplesmente pronunciem em voz baixa o nome de alguém que partiu.

Mas não transformem a saudade em penitência.

E, sobretudo, cuidem dos vivos que merecem seu amor enquanto ainda podem abraçá-los. Há despedidas que jamais anunciam sua chegada.

Também aprendam a reconhecer aqueles que precisam permanecer longe.

Porque, no Dia de Finados, eu não temo os mortos. São os vivos que costumam deixar as piores assombrações.

Existem pessoas que continuam respirando, embora já tenham transformado tudo ao redor em ruína. Habitam nossas lembranças como hóspedes indesejados. Alimentam-se de culpa, exigem perdão sem arrependimento e chamam de amor aquilo que sempre foi uma forma de domínio.

A essas criaturas, nenhuma prece minha será oferecida.

 

Fecho o livro e apago a luminária.

Antes de deixar o escritório, observo pela última vez a pétala escura sobre a madeira. Está seca, frágil, quase sem perfume. Ainda assim, conserva uma beleza que não necessita de ninguém para existir.

Talvez seja isso que procuro quando me sento diante da cruz do velho convento.

Um lugar onde nada me exige explicações.

 

Hoje levo flores aos mortos.

Aos fantasmas que ainda respiram, ofereço apenas distância.

Porque aprendi a enterrar também aqueles que continuam vivos.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 02/11/2026 às 05h00
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