
A taça de vinho repousa ao lado do teclado, perigosamente próxima de uma pilha de livros antigos. Se algum acidente acontecer, provavelmente terei de explicar à posteridade como uma escritora conseguiu afogar séculos de conhecimento oculto em uma bebida de qualidade duvidosa. Seria um epitáfio bastante adequado...
Passa das duas da madrugada. Meu escritório está mergulhado naquela escuridão familiar que somente o abajur de caveira se atreve a perturbar. Sua luz amarelada alcança algumas lombadas gastas, ilumina a poeira suspensa e deixa as teias de aranha nos cantos entregues à própria arquitetura. Não tenho nenhuma intenção de removê-las. Há criaturas que trabalham silenciosamente para preservar a atmosfera deste lugar, e seria indelicado demiti-las...
Acabo de finalizar mais um livro.
Escrevo essa frase e fico observando-a, como se precisasse confirmar que é verdadeira.
O Grimório de Nyxara está pronto.
Por alguns segundos, mantive as mãos sobre o teclado, esperando alguma reação extraordinária. Uma alteração na temperatura, talvez. O estalo de uma madeira antiga. Qualquer manifestação minimamente sobrenatural que justificasse tantas noites dedicadas a uma bruxa cuja existência ocupa uma parcela cada vez mais inconveniente dos meus pensamentos.
Nada aconteceu.
Apenas o silêncio.
E descobri que o silêncio, depois de concluir um livro, possui uma natureza muito diferente daquele que antecede a primeira página. O primeiro parece oferecer possibilidades. O último exige que eu me despeça de algo que, durante tanto tempo, viveu dentro de mim.
Sirvo mais um pouco de vinho.
Hoje tenho motivos para comemorar, embora minha celebração seja tão discreta que qualquer observador provavelmente a confundiria com uma reunião de uma única pessoa à espera de um fantasma atrasado. Gosto assim. Nunca precisei de uma multidão para reconhecer minhas próprias conquistas. Aliás, multidões costumam transformar acontecimentos íntimos em espetáculos de uma vulgaridade impressionante.
Prefiro brindar com meus mortos literários. São excelentes ouvintes e raramente interrompem.
Na próxima noite de Halloween, 31 de outubro de 2026, O Grimório de Nyxara será lançado oficialmente.
Faltam poucos dias.
Escrevo a data com uma satisfação difícil de disfarçar. Há algo deliciosamente apropriado em entregar ao mundo uma obra como essa justamente quando as pessoas se permitem brincar com aquilo que temem durante o restante do ano.
Mas Nyxara não nasceu para brincar.
Neste livro, acompanho sua peregrinação obscura até o lendário Templo dos Vampiros, aprofundando sua presença na saga Ordo Umbrae. Durante a travessia, ela registra conhecimentos que a humanidade aprendeu a esconder atrás de símbolos, proibições e silêncios cuidadosamente preservados.
Rituais vampíricos, cerimônias coletivas, simbologias ancestrais, métodos secretos do vampirismo, fragmentos filosóficos e profecias que atravessaram os séculos como documentos de uma inquietação humana persistente.
A obra se alimenta de práticas reais, estudadas e transfiguradas pela literatura. Sempre me fascinou essa fronteira incômoda entre o conhecimento e aquilo que as pessoas preferem chamar de superstição. Às vezes, a diferença entre os dois depende exclusivamente de quem está segurando o livro.
Minha intenção foi construir um relicário amaldiçoado disfarçado de literatura.
Talvez eu tenha exagerado na hospitalidade oferecida aos seus habitantes.
Sobre a mesa está a ilustração de Nyxara que preparei para transformar em um quadro e colocar neste escritório, substituindo o quadro de Baudelaire que está atualmente na parede. Observo o rosto de Nyxara na ilustração, enquanto giro lentamente o vinho na taça. Inicialmente, imaginei que seria apenas uma bela maneira de homenagear minha personagem. Agora, diante daquela imagem, começo a desconfiar de que escolhi uma companhia bastante exigente.
Existe uma estranha intimidade entre uma escritora e aquilo que inventa.
Conheço os pensamentos de Nyxara, suas intenções mais cruéis, a inteligência que orienta suas escolhas e até os desejos que ela jamais confessaria. Ainda assim, às vezes, sinto que a compreendo menos do que deveria.
Talvez porque algumas personagens sejam construídas com materiais que retiramos de lugares nossos aos quais preferiríamos nunca retornar.
Essa é uma confissão que dificilmente faria em público.
Tenho medo de terminar certos livros.
Não pelo julgamento dos leitores, embora conheça perfeitamente a capacidade humana de transformar uma opinião medíocre em uma sentença definitiva. O que me assusta é aquela pequena ausência que surge quando uma história deixa de precisar de mim.
Durante a escrita, sou indispensável. Decido quem atravessa a porta, quem permanece nas sombras, quem conhece a verdade e quem será condenado a procurá-la. Depois da última página, tudo muda. A personagem pertence à imaginação de outras pessoas, e eu perco o privilégio de ser sua única testemunha.
É uma espécie de abandono consentido.
Talvez por isso eu continue escrevendo.
Olho novamente para Nyxara e me lembro de quando tudo começou, com a publicação do meu e-book O aprendiz das Trevas. A lembrança desperta uma nostalgia particular. Naquela época, eu ainda não poderia imaginar todas as passagens que se abririam a partir daquela primeira publicação.
Hoje, contemplando o universo de Ordo Umbrae, percebo quanto uma ideia pode crescer quando lhe permitimos desenvolver suas próprias consequências.
E não pretendo encerrar essa travessia.
Já estou trabalhando em novas publicações sobre Nyxara, incluindo outro e-book gratuito, dedicado a revelar a origem da bruxa. Existem acontecimentos anteriores aos que narrei, escolhas que ajudaram a formar sua identidade e segredos que ainda precisam encontrar seu lugar nas páginas.
A origem de uma criatura sempre me pareceu mais perturbadora do que seus crimes.
O horror realmente interessante começa quando compreendemos as circunstâncias que tornaram determinadas escolhas possíveis. É fácil condenar um monstro depois de conhecer suas vítimas. Muito mais desconfortável é reconhecer nele algum mecanismo profundamente humano.
Volto à taça.
O vinho perdeu um pouco do frescor. A madrugada avançou sem pedir licença, e a luz do abajur continua projetando uma sombra irregular sobre a ilustração.
Penso na obsessão de Nyxara pela imortalidade.
Talvez meu interesse por esse tema revele algo que passei anos disfarçando com elegância. Escrever também é uma maneira de negociar com o desaparecimento. Empilhamos palavras, damos nomes às nossas inquietações e esperamos que alguma parte de nós permaneça legível quando nossa voz já não estiver presente.
Não considero isso uma aspiração nobre. Existe bastante vaidade nessa tentativa de sobreviver através da própria obra.
Mas existe amor também.
Amor pelas histórias que ainda desconheço, pelos leitores que encontrarão algo de si onde escondi alguma coisa minha, pelas criaturas que construí e que, inexplicavelmente, continuam me fazendo companhia.
Levanto a taça diante da ilustração.
Brindo à conclusão de O Grimório de Nyxara, ao seu lançamento no Halloween e às páginas de Ordo Umbrae que ainda me esperam.
Sinto uma satisfação tranquila, dessas que dispensam testemunhas. O trabalho está concluído. Cumpri o que prometi a mim mesma.
Poderia apagar a luz e descansar.
Entretanto, antes de fechar o arquivo, releio a última página. Meus olhos percorrem as palavras com uma familiaridade quase física. Conheço cada passagem, cada hesitação corrigida, cada silêncio deliberadamente preservado.
E então compreendo o que realmente me incomoda.
Não estou triste por ter terminado o livro.
Estou inquieta porque, enquanto escrevia sobre uma bruxa disposta a atravessar o desconhecido para alcançar a imortalidade, comecei a reconhecer o quanto ainda desejo descobrir o que existe depois da próxima porta.
A minha curiosidade continua perigosamente viva.
Deixo a taça vazia sobre a mesa e observo, uma última vez, a imagem preparada para ocupar a parede do escritório.
Nyxara permanece imóvel, naturalmente.
Sou eu quem já não consegue ficar parada.
Sim, eu terminei de escrever seu grimório, mas ela ainda não terminou de escrever em mim...