
A água ainda escorria das calhas quando saí de casa, pouco depois das duas da madrugada. A chuva havia terminado, mas Angra dos Reis conservava aquele cheiro de terra revolvida, maresia e paredes antigas que passaram horas absorvendo o céu. Sob minhas botas, pequenas poças reproduziam pedaços de janelas, fios elétricos e fachadas adormecidas. Era como caminhar sobre uma cidade partida, cuja outra metade permanecia enterrada na água.
A noite sempre me parece mais honesta depois da chuva. Talvez porque ninguém consiga esconder o que ficou molhado. Caminho devagar por lugares antigos, e algumas ruas ainda lembram quem tentou esquecê-las.
Não sei explicar por que certos lugares me provocam essa impressão. Há muros cobertos de umidade que parecem conservar conversas interrompidas. Portas fechadas cuja madeira envelheceu de maneira desigual, denunciando mãos que as abriram milhares de vezes. Uma janela, particularmente, sempre me incomoda. Nunca vi ninguém atrás dela, mas frequentemente sinto que alguém observa a rua através dos vidros escurecidos.
Hoje, entretanto, não foi a janela que me perturbou.
Foi aquilo que passou diante dela.
Uma silhueta comprida, feminina, reconhecível pela inclinação dos ombros e pelo movimento dos cabelos. Atravessou o reflexo da vidraça enquanto eu permanecia imóvel na calçada.
Naturalmente, olhei para trás.
Nada.
Sorri discretamente. Tenho uma imaginação que deveria pagar aluguel pela quantidade de problemas que inventa. Ser escritora de terror tem suas desvantagens. A principal é conhecer demasiadas maneiras de morrer antes mesmo de terminar um passeio.
Continuei caminhando.
O mar estava próximo. Eu podia ouvi-lo entre os intervalos do vento, respirando contra as pedras com uma paciência quase indecente. Sempre me impressionou a maneira como a natureza permanece indiferente às nossas pequenas tragédias. Uma pessoa pode perder tudo durante uma tarde, enquanto uma árvore continua produzindo folhas e o oceano insiste em repetir o mesmo movimento.
Curiosamente, encontro consolo nessa indiferença.
Perto da água, não preciso desempenhar personagem alguma. Não sou escritora, mulher excêntrica, criatura inconveniente ou qualquer uma das versões que as pessoas inventam quando não conseguem compreender o silêncio alheio. Sou apenas um corpo respirando diante de alguma coisa muito mais antiga.
Gosto de caminhar sozinha por isso.
A companhia humana, mesmo quando agradável, exige pequenas negociações. Um sorriso conveniente, uma explicação desnecessária, o esforço quase burocrático de provar que o silêncio não significa tristeza... Existe uma epidemia de pessoas convencidas de que estar sozinho representa uma falha de funcionamento. Como se a alma precisasse apresentar comprovante de sociabilidade para continuar existindo.
Nunca tive paciência para semelhante estupidez.
Recordei uma antiga leitura sobre a filosofia hermética, na qual reconheci uma ideia que me acompanha há anos: o mundo exterior pode servir de espelho para aquilo que permanece oculto na consciência. A contemplação silenciosa seria, então, uma espécie de retorno às próprias profundezas. Não uma fuga da existência, mas uma aproximação daquilo que somos quando ninguém está olhando.
A alquimia também me fascina por sua imagem da nigredo, o estágio de escurecimento e decomposição que precede a transformação. Gosto de pensar na solidão como esse processo íntimo. Algumas certezas precisam apodrecer antes que consigamos reconhecer a matéria da qual fomos feitos.
Talvez seja por isso que nunca me senti inteiramente abandonada.
Mesmo quando estava sozinha.
Sobretudo quando estava sozinha.
Parei perto de um trecho onde a vegetação avançava em direção ao mar. A água acumulada nas folhas escorria lentamente, produzindo pequenos estalos sobre o chão. Um cheiro verde, quase amargo, misturava-se ao sal. Encostei os dedos na superfície fria de uma pedra e permaneci ali, ouvindo.
Então senti.
Aquela presença.
Não houve ruído de passos nem movimento perceptível. Apenas a impressão física de que alguém havia parado muito perto, respeitando exatamente a distância necessária para não me tocar.
Meu estômago contraiu.
Conheço essa sensação desde a infância.
Lembro-me de uma noite em que despertei sem compreender por quê. O quarto estava escuro, mas havia claridade suficiente para distinguir os contornos da cama. Virei o rosto e encontrei uma sombra deitada ao meu lado.
Tinha o meu formato.
O comprimento dos cabelos, a posição dos braços, a curva dos ombros. Parecia uma reprodução de mim feita com uma matéria incapaz de refletir luz.
E estava olhando diretamente para mim.
Não me lembro de ter gritado. Recordo apenas o esforço desesperado para permanecer imóvel, como se qualquer movimento pudesse autorizar aquela coisa a aproximar-se.
O detalhe que ainda me perturba é outro.
Eu conseguia distinguir a direção do seu olhar, embora ela não tivesse olhos.
Durante muitos anos, guardei essa lembrança como se guarda um objeto perigoso encontrado na infância. Pensei em sonhos interrompidos, ilusões provocadas pela escuridão, mecanismos da mente adormecida. Explicações razoáveis, certamente.
Mas a razão tem uma irritante limitação: consegue organizar aquilo que aconteceu sem necessariamente dissolver o medo que ficou.
Depois daquela noite, comecei a perceber reflexos semelhantes em superfícies escuras. Sombras com minha forma apareciam nas margens da visão, acompanhando movimentos que eu ainda não havia terminado.
Nunca soube se observava alguma coisa exterior ou se minha memória aprendera a projetar aquela primeira imagem sobre o mundo.
O mais estranho é que jamais consegui odiá-la.
Voltei a caminhar, agora com uma pressa que me envergonhava. A brisa fria empurrava alguns fios de cabelo contra meus lábios. Meu coração batia depressa, e a rua parecia excessivamente comprida.
Havia uma confissão que eu evitava até nas páginas deste diário.
Tenho medo de encontrar aquilo que me acompanha.
Mas tenho ainda mais medo de perdê-lo.
Que espécie de mulher teme a presença de uma sombra e, secretamente, necessita saber que ela continua ali?
Talvez alguém que aprendeu cedo demais a conviver com a própria estranheza. Alguém que transformou o isolamento em território, a escrita em abrigo, o desconhecido em companhia. Há uma ternura vergonhosa nessa relação com o inexplicável. Durante toda a minha vida, quando pessoas se afastaram, cidades mudaram e afetos envelheceram, aquela sensação persistiu.
Uma fidelidade sem rosto.
E eu, que sempre desconfiei das promessas humanas, acabei atribuindo significado à única companhia que jamais me prometeu coisa alguma.
Ao chegar em casa, retirei as botas molhadas e me sentei diante do caderno. A madrugada já se aproximava das três. A janela refletia meu rosto pálido, os cabelos desalinhados e a pequena lâmpada acesa sobre a mesa.
Escrevi sobre o mar, a infância e a possibilidade de que o despertar da alma tenha menos a ver com descobrir uma verdade grandiosa do que com suportar a presença daquilo que desconhecemos em nós mesmos.
Talvez minha sombra seja uma lembrança que adquiriu pernas. Talvez seja uma parte da consciência que se recusa a permanecer enterrada. Ou talvez haja, realmente, alguma coisa caminhando comigo há muitos anos.
Não tenho resposta.
Ergui os olhos para o vidro.
Meu reflexo estava ali, inclinado sobre o diário. Reconheci minhas mãos, os cabelos sobre o ombro, a expressão cansada.
Por um instante, senti uma paz quase dolorosa.
Então fechei o caderno.
No vidro, minha mão continuou escrevendo.