Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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12/10/2026 05h00
Verdades de lombada gasta

 

Voltei da livraria com as mãos vazias e a cabeça barulhenta.

Agora passa da meia-noite. Estou sentada diante da mesa de madeira, com um livro antigo aberto entre os dedos e outro ainda esperando ao lado do caderno. A luminária derrama uma luz amarelada sobre o papel, insuficiente para alcançar as estantes atrás de mim. Prefiro assim. Livros muito velhos ficam mais à vontade quando metade deles permanece no escuro.

 

Passei parte da tarde olhando lançamentos. Capas belíssimas. Lombadas com relevos. Hot stamping. Pinturas metalizadas. Edições de colecionador dentro de caixas tão sofisticadas que quase esperamos encontrar um cadáver aristocrático lá dentro.

 

Editoras aprenderam uma coisa importante sobre nossa época: antes de convencer alguém a ler um livro, talvez seja mais fácil convencê-lo a fotografá-lo.

Não estou reclamando. Seria hipocrisia. Gosto de livros bonitos. Tenho olhos, afinal, e eles ainda não pediram demissão.

Mas confesso que me diverti diante de algumas edições novas, luxuosas, absolutamente irresistíveis, de obras que já possuo em versões muito mais antigas. Algumas das minhas têm páginas amareladas, capas feridas, anotações de pessoas mortas e aquele cheiro que nenhuma indústria conseguiu engarrafar sem produzir algo parecido com perfume de armário mofado.

 

Fiquei alguns minutos segurando uma edição nova de um clássico que já mora aqui em casa.

A capa era linda.

Minha edição antiga provavelmente me esperava na estante pensando: traidora.

Não comprei.

Voltei para casa e fui mexer na coleção.

Talvez eu nunca tenha explicado direito por que faço isso.

O motivo de eu colecionar livros antigos?

Guardo as verdades que alguém tentou esconder dentro deles.

E quanto mais estudo a humanidade, mais compreendo por que tantos monstros preferem permanecer nas páginas.

 

Há livros que mudaram de dono tantas vezes que parecem ter adquirido memória própria. Encontro nomes riscados, datas, dedicatórias para pessoas que deixaram de existir, flores secas esmagadas entre capítulos, frases sublinhadas com uma raiva que não me pertence. Às vezes não sei quem segurou aquele volume antes de mim, mas conheço alguma coisa sobre essa pessoa pela violência com que marcou determinada passagem.

É uma intimidade involuntária.

Talvez seja isso que me fascine.

Vivemos num tempo obcecado por mostrar tudo e revelar quase nada.

As pessoas expõem o café, o rosto, o quarto, o corpo, a viagem, a indignação da tarde e a felicidade cuidadosamente enquadrada das nove da noite. Temos acesso a milhares de vidas e conhecemos pouquíssimas pessoas. Nunca houve tantas janelas abertas e tantos cômodos trancados.

 

Os algoritmos aprenderam nossos desejos antes que muitos de nós aprendêssemos a nomeá-los.

E então aparecem os monstros.

Não os elegantes, infelizmente.

Nenhum vampiro decadente esperando no alto de uma escadaria. Nenhuma criatura antiga falando latim entre velas.

Os monstros atuais usam fotografia profissional, frase inspiradora na biografia e uma excelente estratégia de posicionamento digital.

Horror também evolui.

Talvez por isso eu goste dos livros velhos. Eles não tentam me seduzir em quinze segundos. Não piscam. Não notificam. Não disputam minha atenção com alguém dançando, vendendo uma solução definitiva para a vida ou anunciando que descobriu, aos vinte e três anos, como o universo funciona.

Basta abri-los.

O silêncio faz o resto.

 

Enquanto folheava um deles esta noite, pensei no Halloween.

Faltam poucos dias.

Minha ansiedade já começou a fazer aquela coisa irritante de caminhar pela casa antes de mim.

Dia 31 de outubro, finalmente, O Grimório de Nyxara estará disponível.

Escrever isso deveria me acalmar.

Não acalma.

Existe uma diferença cruel entre escrever um livro e permitir que ele deixe de ser seu. Enquanto está comigo, posso corrigir uma frase às três da manhã, trocar uma palavra, desconfiar de um capítulo inteiro, odiá-lo durante vinte minutos e amá-lo novamente depois de um café. Quando o livro encontra o leitor, termina essa pequena tirania.

Ele passa a pertencer a outros olhos.

Talvez esse seja meu medo mais secreto em cada lançamento.

Não que odeiem o que escrevi.

Isso eu suportaria.

Tenho mais medo de não conseguir entregar aquilo que senti enquanto escrevia, porque certas histórias chegam com uma temperatura própria. E tenho uma necessidade quase absurda de preservar essa febre até a última página.

 

Os Halloweens anteriores voltaram à minha memória esta noite. As participações dos leitores nos contos, as conversas que nasceram depois, pessoas que chegaram por causa de uma brincadeira literária e permaneceram na minha vida. Algumas ainda falam comigo.

Esse é um dos milagres estranhos da literatura.

Inventamos fantasmas e encontramos pessoas reais.

 

Sobre a mesa está também a imagem da abóbora que criei para a capa de O Grimório de Nyxara. Passei tempo demais olhando para aquele rosto iluminado por dentro. Há qualquer coisa nela que me incomoda agradavelmente. Uma expressão entre convite e ameaça.

Talvez porque Nyxara também seja assim.

Talvez porque eu seja.

Quem quiser espiar antes de entrar pode encontrá-la aqui:

aprendizdastrevas.com/halloweendaluna

 

Não prometo segurança.

Aliás, ultimamente tenho pensado que minha fuga da realidade nunca foi exatamente fugir.

Eu escrevo para desmontá-la.

Quando o mundo fica excessivamente ruidoso, quando todos parecem disputar quem grita mais alto, eu volto para minha mesa, abro um arquivo e construo uma porta.

Do outro lado existem bruxas, criaturas, maldições, corredores onde ninguém deveria caminhar sozinho.

Curiosamente, sinto-me mais segura ali.

Talvez porque monstros literários tenham a decência de assumir que são monstros...

 

Fechei o livro antigo há poucos minutos.

Uma pequena nuvem de poeira subiu das páginas.

Passei os dedos pela capa gasta e pensei em quantas mãos já fizeram o mesmo antes de mim.

Depois olhei para a tela onde O Grimório de Nyxara espera suas últimas correções.

Um livro velho diante de mim.

Um livro novo nascendo.

Entre os dois, eu.

Arquivando monstros.

E tentando descobrir quais deles ainda estão do lado de fora da página.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 12/10/2026 às 05h00
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