Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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05/10/2026 03h00
O labirinto depois da porta

 

Cheguei pouco depois das nove, com o corpo ainda guardando o movimento do ônibus.

É uma sensação estranha. A viagem termina, os pés tocam o chão, a mala deixa de tremer no bagageiro, mas alguma parte de nós continua percorrendo a estrada. Talvez seja por isso que caminhei pelos corredores da pousada como se ainda estivesse em trânsito, carregando minha bolsa, um livro contra o peito e uma inquietação que não constava na reserva.

 

Escolhi este lugar justamente pelo silêncio.

Uma pousada antiga, afastada da agitação, com corredores estreitos e madeira escura suficiente para fazer qualquer arquiteto moderno sugerir alegremente uma reforma e, por isso mesmo, destruir tudo o que me fez gostar daqui.

 

As tábuas rangem.

Gosto disso.

Casas excessivamente silenciosas me parecem falsas. A madeira velha, ao contrário, denuncia cada passo. Tem memória muscular. Reclama quando alguém passa sobre aquilo que aprendeu a considerar seu.

 

Meu quarto fica quase no fim do corredor.

Quando cheguei, havia uma porta entreaberta alguns metros adiante.

Não prestei muita atenção.

Esse detalhe me incomoda agora.

 

Trouxe comigo os últimos fragmentos de O Grimório de Nyxara. Vim para terminar o que ainda precisa ser aparado antes do lançamento de Halloween, no dia 31. Passei as últimas semanas cercada pela história dessa bruxa que avança para um universo proibido de vampiros e conhecimentos que talvez existam justamente porque alguém, em algum momento, decidiu que certas portas deveriam permanecer fechadas.

 

Talvez tenha sido pouco sensato escolher uma pousada antiga para concluir esse livro.

Mas sensatez nunca escreveu nada que me interessasse.

Coloquei a mala ao lado da cama. Tirei os livros da bolsa e os deixei sobre uma pequena escrivaninha de madeira marcada por riscos, círculos deixados por copos e uma queimadura antiga perto da borda. Alguém havia pousado ali alguma coisa quente demais. Café. Vela. Cigarro.

Ou um pequeno portal para o inferno.

Prefiro a última hipótese. Dá mais dignidade ao mobiliário.

 

Abri a janela.

O ar estava úmido. Outubro tem essa maneira indecente de fazer a primavera parecer uma coisa viva demais. Tudo cheira a folhas molhadas, terra, madeira e vegetação saturada. Ao longe, a noite se confundia com a mata, e em algum ponto invisível havia água. Mar ou chuva acumulada, pouco importava. O cheiro chegava antes da resposta.

Sentei-me para trabalhar.

Escrever longe de casa produz um tipo particular de estranhamento. Meus objetos estavam comigo, minha letra permanecia a mesma, Nyxara continuava esperando exatamente onde eu a havia deixado, mas nenhuma parede conhecia meus hábitos.

 

Em casa, sei quais ruídos pertencem à madrugada.

Aqui, ainda não.

Às dez e quarenta ouvi três passos no corredor.

Parei.

Esperei o quarto.

Ele não veio.

Voltei ao texto.

 

Estava revisando uma passagem em que Nyxara precisava decidir até onde desejava avançar dentro de um conhecimento que já havia ultrapassado a curiosidade quando percebi uma ironia desagradavelmente precisa: talvez toda descoberta seja apenas uma violação com melhor reputação.

Chamamos de curiosidade quando desejamos entrar.

Chamamos de horror quando alguma coisa responde.

 

Levantei-me para buscar água.

Foi então que vi novamente a porta.

Entreaberta.

Exatamente como antes.

O corredor estava vazio.

 

A luz amarelada da parede alcançava apenas parte do interior daquele cômodo. Não consegui distinguir móveis. Só escuridão e uma faixa muito estreita do assoalho.

Fiquei olhando por alguns segundos.

Voltei para o meu quarto.

Sim. Voltei.

 

Há uma crença equivocada de que pessoas fascinadas pelo oculto precisam investigar todo ruído, abrir todo armário e descer toda escada suspeita. Isso não é coragem. É seleção natural trabalhando horas extras.

Fechei minha porta.

Continuei escrevendo.

 

À meia-noite, o Halloween já parecia menos uma data no calendário e mais uma temperatura. Outubro sempre faz isso comigo. As pessoas começam a brincar com monstros, fantasmas, bruxas e mortes decorativas. Durante algumas semanas, o mundo aceita aquilo que passa os outros onze meses tentando esconder sob luz branca, produtividade, religião, boas maneiras e boletos.

Talvez eu goste tanto desse período porque a sociedade finalmente admite que possui um porão.

Depois o fecha novamente em novembro.

 

Enquanto revisava Nyxara, percebi algo que não havia formulado antes.

Tenho inveja dela.

Pronto.

Escrevi.

E já me arrependo um pouco.

Não invejo seus poderes, seu contato com o proibido ou qualquer grandeza sobrenatural. Invejo sua capacidade de atravessar.

Há portas diante das quais ainda permaneço parada.

 

Algumas pessoas confundem minha solidão com força. Talvez porque eu tenha aprendido a carregá-la com certa elegância. Mas existe uma diferença entre escolher ficar sozinha e aprender a não esperar ninguém.

A primeira é liberdade.

A segunda pode se tornar uma espécie de arquitetura.

Construí corredores dentro de mim.

Quartos fechados.

Pequenas dependências emocionais onde guardo tudo aquilo que não combina com a mulher que os outros acreditam conhecer.

 

Medos inconvenientes.

Desejos sem testemunhas.

Saudades que considero indignas.

E uma fragilidade particularmente irritante: às vezes gostaria que alguém percebesse minha ausência antes de eu precisar anunciá-la.

Detesto essa frase.

Por isso não vou riscá-la.

Há verdades que só sobrevivem quando nos envergonham um pouco.

 

Fechei o manuscrito.

Os livros sobre a mesa pareciam mais pesados. Fiquei observando as lombadas e pensei que os livros que carrego apenas provam uma coisa: algumas verdades não permanecem enterradas.

Talvez escrever seja isto.

Desenterrar aquilo que passamos anos tentando sepultar com alguma dignidade.

A arte tem péssimas maneiras.

Ela entra sem bater.

 

À uma e quinze, ouvi novamente os passos.

Três.

Desta vez vieram devagar.

Um.

Dois.

Três.

Pararam diante do meu quarto.

Não me mexi.

Minha mão permaneceu sobre a capa do manuscrito.

Esperei.

Nada.

Depois ouvi o rangido da madeira mais adiante.

Fui até a porta e abri apenas o suficiente para olhar.

O corredor estava vazio.

Mas a outra porta...

Agora estava mais aberta.

Vi parte do quarto.

Uma cadeira.

Uma cortina imóvel.

E alguma coisa escura sobre a cama.

Não era possível saber o quê.

Fechei imediatamente.

Sem heroísmo. Sem investigação. O mundo já perdeu gente demais porque alguém decidiu que precisava descobrir o que havia no quarto escuro.

 

Voltei à escrivaninha.

Curiosamente, não consegui sentir medo.

Senti reconhecimento.

Nyxara estava ali diante de mim, impressa nas folhas espalhadas. Uma mulher atravessando limites porque precisava saber o que existia depois deles.

Então compreendi o que ainda faltava no livro.

Não mais uma cena.

Uma intenção.

Conhecimento proibido nunca é perigoso apenas pelo que revela.

É perigoso porque transforma quem teve coragem suficiente, ou imprudência suficiente, para encontrá-lo.

 

Escrevi durante quase uma hora.

Quando terminei, o corredor permanecia silencioso.

Não fui verificar a porta.

Há labirintos que nos levam a quartos.

E há quartos que nos levam ao que preferíamos não descobrir.

 

Agora são duas e vinte e sete.

Minha porta está trancada.

Tenho certeza disso.

O problema é que, neste instante, alguém acabou de girar lentamente a maçaneta pelo lado de fora...

 


OBS.: Para essa foto, pedi a um hóspede da pousada para tirar uma foto minha com minha câmera profissional, que sempre carrego comigo. Uma Canon preta da linha EOS Rebel, modelo T7. Para usá-la adequadamente, fiz um curso de fotografia meses atrás (é lógico que, sempre aplico efeitos de edição nas minhas fotos - gosto do estilo parecer visualmente sombrio, com detalhes de cor marrom escuro, luz em âmbar, cobre e dourado). Todos na pousada ficavam me olhando, atraídos de uma forma estranha... tive a leve impressão de ouvir eles perguntando onde seria o enterro (risos). Se ele soubessem que carrego todas as noites, comigo, o funeral da minha alma...

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 05/10/2026 às 03h00
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