Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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28/09/2026 05h00
A janela não me devolve

 

Cheguei em casa com a noite ainda presa aos cabelos...

Não acendi todas as luzes. Nunca acendo. A claridade excessiva tem o péssimo hábito de transformar qualquer ambiente num interrogatório, e esta madrugada já me fez perguntas suficientes.

 

Puxei uma cadeira até a janela e sentei ao contrário, apoiando os braços no encosto de madeira. A camisa larga ainda conserva um pouco do cheiro da rua, perfume misturado à umidade, fumaça distante e aquele suor discreto que o medo deixa na pele mesmo depois de ir embora.

 

Fiquei olhando para fora.

Talvez, se alguém me visse daqui, pensasse que estou esperando uma pessoa.

Não estou.

Às vezes, não estou esperando ninguém. Estou apenas vendo quem eu era desaparecer no horizonte.

 

Voltei do Shopping Piratas há algumas horas, embora o som das pessoas continue repetindo dentro da minha cabeça em fragmentos sem sentido. Eu estava passeando. Sozinha, e misturada às pessoas, bebi um pouco, fiz aquilo que pessoas vivas fazem para confirmar umas às outras que ainda pertencem ao mundo.

Em determinado momento, cansei.

Não das pessoas ao meu redor.

De mim naquela versão.

Resolvi caminhar para longe, para mais perto da praia.

Foi uma dessas decisões que parecem perfeitamente razoáveis até entrarmos numa praia deserta e escura, e descobrirmos que nossa coragem possui limites bastante administrativos.

As pessoas ficaram para trás. A areia úmida, as ondas carregando o sangue da minha imaginação (ou talvez fosse o vinho) e algumas janelas, ao longe, permaneciam fechadas apesar do calor.

A lua cheia aparecia entre os telhados das casas no horizonte.

Branca.

Imóvel.

Indiferente.

Comecei a falar comigo mesma, alguns versos que estavam na minha cabeça, e percebi que meus devaneios começaram a soar altos demais.

Depois ouvi outro ruído.

Parei.

O silêncio também parou.

Olhei para trás e não havia ninguém.

Continuei.

O medo não chegou como um grito. Subiu pelas pernas devagar, instalou-se no ventre e começou a alterar pequenas coisas: a velocidade da respiração, a posição das mãos, a atenção dedicada a cada janela ao longe, cada sombra, cada reflexo.

Nessas horas percebemos quanto do nosso corpo vive preparado para uma guerra que a consciência ainda não declarou.

 

A noite parecia me possuir aos poucos.

E, estranhamente, parte de mim gostou.

Talvez porque exista certa honestidade no medo. Ele elimina ornamentos. Ninguém pensa em parecer interessante quando acredita que alguma coisa pode estar escondida dois metros atrás.

Andei mais depressa.

Vi minha sombra avançar sobre a areia e, durante um segundo, tive dificuldade para reconhecê-la.

Parece absurdo.

Mas talvez não seja.

Passei tantos anos me tornando outra pessoa que às vezes ainda encontro pedaços antigos de mim em lugares inesperados.

Uma reação.

Uma lembrança.

Uma maneira de baixar os olhos.

Um medo sem objeto.

Pequenos fósseis emocionais...

 

Desculpe, eu costumo escrever em formato de poesia, de tanto que os versos já impregnaram toda a minha alma. Mas tentarei ser mais "sóbria"...

 

Quando alcancei a rua iluminada, senti alívio. Carros passavam. Havia gente conversando diante de um bar. Um motociclista mexia no telefone. O mundo estava exatamente como eu o havia deixado.

Foi quase ofensivo.

Há momentos em que algo inteiro desmorona dentro de nós e, ainda assim, o ônibus continua passando no horário.

 

Voltei para casa.

Agora estou aqui.

Diante desta janela.

Curioso como algumas janelas mostram o mundo inteiro justamente quando queremos fugir dele.

Há uma luz distante refletida no vidro e, por causa dela, consigo ver meu próprio rosto misturado à paisagem. Se olho diretamente para fora, vejo a madrugada. Se mudo ligeiramente o foco, vejo a mim.

Não gosto dessa escolha.

Tenho pensado muito na mulher que fui.

Não com saudade.

Saudade seria uma palavra generosa demais.

Há versões de nós que merecem carinho. Outras merecem apenas reconhecimento histórico, como países extintos cuja bandeira ainda aparece em livros antigos.

 

Eu já fui mais obediente.

Mais tolerante.

Mais disposta a permanecer onde alguma parte de mim implorava para ir embora.

Eu achava que a minha paciência era uma virtude quando, na verdade, era medo. E por causa disso, aceitei silêncios que deveriam ter sido respostas, e permiti que pessoas entrassem profundamente na minha vida porque acreditava, de forma ingênua, que a intimidade significava conceder acesso irrestrito.

Que ideia desastrosa! Quanta ingenuidade!

 

Nem todo mundo que entra numa casa precisa receber a chave.

Demorei para aprender isso.

E há outra coisa que dificilmente confessaria fora destas páginas: às vezes sinto falta daquela mulher.

Isso me irrita.

Ela era mais fácil.

Esperava mais das pessoas. Perdoava com rapidez. Acreditava que certas conversas poderiam consertar qualquer coisa se as palavras corretas fossem encontradas.

Hoje sei que algumas pessoas compreendem perfeitamente o mal que fazem.

A compreensão não as impede.

Existe uma espécie de paz cruel nesse conhecimento.

E quando finalmente paramos de acreditar na inocência onde, na verdade, sempre foi uma escolha, muitas relações ficam assustadoramente simples.

 

Encosto os dedos nos lábios enquanto observo meu reflexo.

A mulher no vidro parece tranquila.

Conheço melhor.

Ela aprendeu a esconder tempestades com uma eficiência que provavelmente seria considerada talento profissional se houvesse mercado para isso.

Talvez exista.

Chamam de maturidade.

Eu chamaria de sobrevivência com boa postura. Irônico, eu sei...

 

A lua ainda aparece acima das casas, agora menor, deslocada para outro ponto do céu.

Olho para ela e penso na sombra que vi na areia daquela praia.

Minha sombra.

Durante alguns segundos achei que estivesse sendo seguida.

Talvez estivesse.

Não por alguém.

Por mim mesma.

A versão antiga.

Aquela que continuo deixando para trás e que, vez ou outra, reconhece meus passos e tenta acompanhar.

Isso explica certas madrugadas...

Certos sonhos...

Certas reações que chegam antes do pensamento...

Enfim...

 

O passado raramente bate à porta. Seria civilizado demais.

Ele conhece passagens menores...

Uma música... um cheiro... uma frase dita com determinada entonação... um corredor escuro... uma janela!

 

E entra.

 

Fico ali por mais algum tempo, os braços apoiados na cadeira, olhando o reflexo sobreposto à madrugada.

Não há ninguém chegando pela rua.

Nenhuma mensagem que eu espere.

Nenhum rosto que eu deseje ver surgindo no portão.

E percebo que isso já não me parece vazio.

 

Durante muito tempo achei que a solidão fosse uma espécie de ausência de companhia. Algo assim, bem simples. Mas hoje... suspeito que exista uma solidão mais profunda: permanecer cercada de pessoas enquanto precisamos esconder de todas elas aquilo que realmente somos. Como eu, caminhando entre as pessoas no Shopping.

Prefiro esta.

 

Aqui em minha casa posso respirar sem representar papel algum.

A casa está silenciosa.

A madeira da cadeira aqueceu sob meus braços.

E em algum lugar distante, um carro desaparece na curva.

A lua continua sua lenta travessia sobre os telhados.

E minha imagem permanece no vidro.

 

Por alguns segundos, não sei se estou olhando para fora ou para dentro.

Talvez não haja mais diferença.

A mulher que fui está desaparecendo no horizonte.

Não faço nenhum gesto para chamá-la de volta.

Ela olha uma última vez para mim.

E eu deixo que vá.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 28/09/2026 às 05h00
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