
A lua cheia estava presa entre dois prédios quando saí da festa.
Meus amigos ficaram para trás, misturados à música, ao cheiro de bebida e às conversas que só parecem importantes enquanto duram. Preferi caminhar sozinha. Entrei por um beco estreito, desses que o Rio preserva como se a cidade precisasse manter algumas cicatrizes à mostra. O chão ainda guardava umidade. Havia água acumulada perto do meio-fio, uma lâmpada defeituosa piscando sobre uma porta metálica e aquele silêncio incompleto das madrugadas urbanas, sempre interrompido por algum motor distante.
Senti medo.
Não daquele medo cinematográfico, organizado, que vem acompanhado de trilha sonora e criatura identificável. Era outro. A sensação de que a noite estava entrando em mim por lugares que eu normalmente mantenho fechados.
Talvez por isso eu tenha pensado nas redes sociais...
Ultimamente, aparecer nelas tem sido um martírio.
Não gosto de me mostrar. Gosto de mostrar o que escrevo. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas, embora o algoritmo, esse pequeno gerente de necrotério da atenção humana, aparentemente não tenha sido informado.
Se eu quiser divulgar meus livros, preciso aparecer. Rosto, voz, bastidores, fotografias, pequenos fragmentos da vida. O mercado editorial vive uma guerra silenciosa por visibilidade. Só no Brasil, cerca de 45 mil títulos foram produzidos em 2025, e a própria Câmara Brasileira do Livro inclui autores e influenciadores entre os agentes que ajudam a movimentar o ecossistema de leitura. Naquele ano, 18% dos adultos brasileiros compraram ao menos um livro. Há leitores. O problema é conseguir que, entre milhares de capas implorando atenção, alguém encontre justamente a sua.
Em resumo: para vender histórias sobre fantasmas, aparentemente preciso provar periodicamente que ainda possuo um rosto.
A humanidade aperfeiçoou a literatura durante séculos para depois chegar ao vídeo vertical de quinze segundos. Uma evolução admirável.
Foi por causa disso que me lembrei de uma conversa com um amigo escritor.
Ele me disse:
“Luna, para você é fácil. Você é rica. Veio de uma família rica. Tem tudo. Eu preciso trabalhar porque não dá para viver de literatura.”
Não fiquei ofendida.
O pior tipo de privilégio é aquele que finge não existir.
Meus pais me deixaram uma herança que me permite viver sem depender de um emprego para pagar minhas necessidades básicas. Tenho minha casa no Brasil. Estudei em excelentes universidades em Portugal. Posso dedicar horas à literatura que outros escritores precisam roubar do sono depois de um dia inteiro de trabalho.
Seria indecente comparar nossos pontos de partida.
E, quando pensei em Portugal, por um instante o beco desapareceu.
Vi as calçadas molhadas, fachadas antigas marcadas pelo tempo, azulejos cobertos por uma película fina de chuva, cafés pequenos ainda iluminados no fim da tarde, vitrines de livrarias e aquele cheiro de pedra úmida que algumas cidades parecem guardar nos ossos. Gostava de caminhar sob a chuva sem abrir o guarda-chuva. Sentia a água escorrendo pelos cabelos e tinha a impressão de que podia atravessar uma cidade inteira sem precisar explicar quem eu era.
Tenho saudade disso.
E tenho medo dessa saudade...
Porque Portugal também guarda a pior versão da minha vida.
Meu casamento não foi uma história triste (histórias tristes ainda possuem alguma delicadeza, acreditem).
Aquilo foi violência.
Uma parte chegou aos meus livros, especialmente a Retrato Falado. Outra continua enterrada onde ainda não consigo tocar sem sentir o corpo inteiro reagir.
Dentro do meu casamento, fui vítima de violência doméstica. Houve estupros, uma costela fraturada, um dente quebrado e marcas de faca que a pele aprendeu a carregar melhor do que a memória.
E as humilhações que eu passava... tenho até vergonha de mencionar!
No início, ele parecia um príncipe, mas após o casamento se revelou um verdadeiro monstro.
Meu ex-marido morreu durante uma briga em que finalmente o enfrentei.
Foi um acidente.
Mas existe uma verdade que quase nunca digo: alguma parte de mim queria que ele morresse.
Demorei anos para conseguir escrever essa frase sem tentar corrigi-la depois.
Fui condenada. Passei cinco anos presa. Cinco anos têm uma anatomia própria quando são retirados de uma vida. Meu advogado, pago por minha família, conseguiu impedir que fossem ainda mais.
Mais uma vez: privilégio existe.
Ele pode salvar alguém de certas consequências, apesar de não apagar aquilo que aconteceu antes.
Continuei andando pelo beco. Minha sombra seguia alongada diante de mim pela luz irregular dos postes. A lua aparecia entre os telhados como uma testemunha que decidira não prestar depoimento.
Meu ex-marido tinha uma habilidade pior do que bater.
Sabia reduzir.
Ele era o tipo de pessoa capaz de nos diminuir metodicamente, até começarmos a pedir desculpas por ocupar espaço demais.
Durante muito tempo fui uma espécie de lixo dentro dos olhos de alguém.
Certas humilhações ainda me visitam. Tenho ansiedade. Tenho crises de pânico. Minha casa continua sendo um território difícil de compartilhar. Não recebo visitas com facilidade. Organizei parte dos meus compromissos, correspondências e assuntos bancários longe do lugar onde moro.
Talvez eu tenha vindo para o Brasil também para criar distância entre meu corpo e determinadas lembranças.
E encontrei Angra dos Reis...
Ilhas...
Muitas...
Talvez por isso eu goste tanto delas. Cada ilha parece um mundo que conseguiu sobreviver separado do continente.
Eu compreendo isso.
Meu amigo escritor, aquele que acreditava que minha vida havia sido gentil porque viu apenas a superfície financeira dela, certa vez me disse que já não encontrava sentido em continuar vivendo.
Não respondi com poesia.
Quando alguém fala em desaparecer, frases bonitas podem ser uma forma muito sofisticada de não escutar.
Disse a ele para continuar escrevendo, sim. Disse para proteger o sonho, criar rotina, aprender o que pudesse, continuar mesmo quando o mercado parecesse uma porta fechada. Mas vontade de morrer não é falta de disciplina. É dor. E dor desse tamanho merece ajuda concreta, presença e cuidado, não um sermão sobre produtividade.
A dificuldade financeira que ele descrevia também não era imaginação. Em uma ampla pesquisa da Authors Guild com 5.699 autores nos Estados Unidos, a renda mediana vinda apenas dos livros para autores em tempo integral foi de US$ 10 mil em 2022; entre todos os autores pesquisados, incluindo os que escreviam em tempo parcial, a mediana obtida com livros foi de apenas US$ 2 mil. Não é um retrato estatístico do Brasil, mas mostra uma realidade internacional pouco romântica: escrever livros e viver deles são duas atividades que, irritantemente, nem sempre acontecem na mesma pessoa.
Meu dinheiro me deu tempo, não me deu os livros prontos (essa parte eu fiz sozinha).
Aprendi fotografia e comprei câmera e tripé porque fotografar a mim mesma é mais confortável do que transformar minha casa em estação turística para conhecidos. Eu monto os cenários, acendo as velas, organizo objetos, faço as fotografias. Aprendi edição. Faço capas, diagramação, revisão, sites, marketing, redes sociais e grande parte da administração das minhas próprias obras.
Tenho horror a erro ortográfico. Algumas pessoas temem demônios. Cada um escolhe o inferno que merece.
Nunca dependi de editora para existir como escritora.
No entanto, contratei um funcionário, amigo meu, para ser meu agente lierário, e com ele tenho apoio profissional para contatos e questões financeiras e processuais porque descobri que existe uma diferença importante entre independência e estupidez. Fazer tudo sozinha apenas para poder dizer que faço tudo sozinha seria trocar liberdade por vaidade.
Talvez seja isso que eu gostaria que meu "amigo suicida" entendesse.
Dinheiro altera brutalmente as possibilidades de uma carreira. Negar isso é obsceno. Mas recursos e criação continuam sendo coisas diferentes.
Meu ex-marido tentou destruir quase tudo em mim. Mas ele cometeu um erro:
Tentou destruir também o meu sonho.
Na época, quando minha dignidade parecia ter sido reduzida a alguma coisa pequena demais para ser encontrada, eu ainda escrevia. Às vezes mentalmente. Às vezes escondida. Às vezes apenas construindo frases que ninguém leria.
Era um lugar onde ele não entrava.
Hoje publico aquilo que durante anos viveu fechado em gavetas.
Tenho tempo para organizar manuscritos, revisar poemas, cuidar dos livros, estudar, escrever de madrugada e construir o meu trabalho sem pedir autorização.
A literatura não curou tudo.
Não gosto dessa mentira.
Ela me deu uma linguagem para aquilo que antes existia apenas como sintoma.
Já é muito.
Cheguei ao fim do beco.
A avenida reapareceu diante de mim com seus faróis, postes e ruídos. A festa estava longe. O medo havia diminuído.
Olhei para cima.
A lua cheia continuava lá.
Pensei no meu amigo, em todos os escritores que trabalham durante o dia e escrevem quando o corpo já pediu rendição, nos talentos que morrem porque alguém lhes convenceu de que começar pequeno é o mesmo que ser pequeno.
Eu não tenho uma frase milagrosa para eles.
Tenho, sim, algo menos bonito:
Continuem enquanto ainda existir dentro de vocês alguma coisa que queira continuar. Procurem ajuda quando a dor ultrapassar aquilo que conseguem carregar sozinhos. Aprendam o que ninguém ensinou. Protejam o tempo. Protejam a mente. Protejam a obra.
Porque já vi coisas demais serem enterradas antes da hora.
E o talento não passa de um cadáver particularmente triste.