Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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14/09/2026 05h00
Os mortos não fazem barulho

 

A colher bateu três vezes na borda da xícara antes que eu percebesse que minha mão ainda tremia.

Eram quase três da manhã.

A camomila já tinha perdido parte do calor, mas eu continuava segurando a porcelana entre as mãos como quem segura um pequeno animal assustado. Talvez o animal fosse eu. Não gosto muito dessa hipótese, por isso vou deixá-la aqui e seguir adiante antes que ela adquira confiança.

 

Vim para o escritório depois de cometer aquele erro tão contemporâneo quanto voluntário: acompanhar notícias demais.

Crimes. Violência. Gente filmando a desgraça alheia. Gente opinando sobre cadáveres como quem escolhe cobertura de pizza. Uma notícia levava à outra e, quando percebi, meu coração havia decidido interpretar sozinho o fim do mundo.

Fechei tudo.

Ou quase tudo.

Certas imagens não obedecem ao botão de desligar.

 

Agora Angra dos Reis está silenciosa do lado de fora. Pela janela, vejo apenas algumas luzes distantes e uma escuridão espessa cobrindo o relevo. O mar não aparece daqui como deveria, mas eu sei que está lá. Gosto disso. Há coisas cuja existência me tranquiliza mais quando não consigo vê-las.

Foi por isso que procurei meus livros.

Minha estante ocupa quase uma parede inteira. Passei os dedos pelas lombadas sem procurar nada específico até encontrar Florbela.

Ela veio para a mesa comigo.

Charles Baudelaire já estava me esperando na parede.

Tenho um quadro com sua fotografia pendurado ao lado de uma das estantes. Às vezes, durante a madrugada, levanto os olhos e encontro aquela expressão severa me observando trabalhar. Imagino que ele desaprovaria metade das minhas escolhas e desprezaria cordialmente a outra metade. É uma relação saudável. Nenhum de nós exige aprovação.

 

Florbela é diferente.

Abro o livro e sinto aquela intimidade quase indecente de quem escreveu como se cada verso tivesse sido retirado de uma região do corpo que deveria permanecer coberta. Seus sonetos fizeram do amor, da solidão, da saudade e da dor matéria pessoal, numa poesia confessional que ainda conserva sua ferocidade. Livro de Mágoas apareceu em 1919; depois vieram outras metamorfoses daquela mulher portuguesa que se recusava a sentir pela metade.

Talvez seja isso que me prende nela.

Florbela é sentimento puro de forma ingênua, sem culpa nenhuma por expresar o que sente. Eu amo essa mulher!

E como ela, eu nunca aprendi a controlar meus sentimentos.

Durante anos achei que deveria corrigir essa espécie de excesso, como se sensibilidade fosse uma falha de caráter que pudesse ser disciplinada com agenda, café e convívio social suficiente. Mas Portugal me ensinou o contrário.

 

Na faculdade, eu passava horas cercada de pessoas. Corredores, vozes, conversas (muitas vezes vazias), perguntas, encontros (também vazios), e aquela sucessão interminável de pequenas negociações que chamamos de convivência. Eu até conseguia participar... Falava. Sorria. Fazia tudo que se espera de uma criatura razoavelmente domesticada. Depois voltava para casa exausta como se tivesse passado o dia carregando móveis.

Nunca contei isso com facilidade.

Pessoas me cansam.

 

Não porque eu as odeie. O ódio exigiria uma dedicação que francamente não pretendo oferecer a tanta gente.

Elas me atravessam.

Percebo mudanças de tom, silêncios estranhos, pequenas hostilidades disfarçadas de brincadeira, a tristeza escondida atrás de uma resposta rápida. Há dias em que uma sala cheia parece formada por dezenas de rádios sintonizados ao mesmo tempo dentro da minha cabeça.

Por isso a lembrança da Bienal do Livro de São Paulo voltou esta noite.

Os corredores tomados por gente. Filas. Corpos tentando passar por espaços onde mal cabiam outros corpos. No primeiro fim de semana, ingressos chegaram a esgotar, e houve relatos de filas longas e corredores tão congestionados que simplesmente circular se tornou difícil.

Há algo deliciosamente humano em organizar uma celebração aos livros e torná-los quase inacessíveis por excesso de humanidade.

Imagino Baudelaire apreciando a ironia.

Talvez não a fila do banheiro.

Nem as polêmicas.

Até um homem mascarado como Ghostface acabou no centro de uma controvérsia após aparecer num estande ligado ao dark romance, interagir de modo sexualizado com visitantes e beijar frequentadoras. A organização afirmou que aquilo não fazia parte da programação oficial e notificou a editora responsável pelo espaço. Ao mesmo tempo, o próprio gênero virou assunto de debates sobre erotismo, fantasia e limites dentro da feira.

 

Fiquei pensando nisso enquanto mexia a camomila.

Talvez minha relação com Baudelaire venha justamente daí: do desconforto diante de uma sociedade que ama condenar aquilo que secretamente deseja observar.

Les Fleurs du mal também enfrentou seu tribunal. Em 1857, Baudelaire e seus editores foram condenados por ofensa à moral pública, e seis poemas foram suprimidos; essa censura só seria revogada muitas décadas depois.

A moralidade costuma ter uma curiosa obsessão por espiar através da fechadura antes de mandar fechar a porta.

 

Olho novamente para a fotografia dele.

Depois para Florbela aberta diante de mim.

E percebo que boa parte daquilo que escrevo nasceu nesse espaço estreito entre os dois.

Florbela me ensinou, sem saber, que uma mulher pode transformar aquilo que a fragiliza em linguagem sem pedir desculpas pela intensidade. Baudelaire me mostrou que a beleza não precisa nascer limpa. Pode crescer no desconforto, no artificial, na doença das cidades, naquilo que a sociedade empurra para debaixo do tapete e depois finge não reconhecer pelo cheiro.

Eu vim depois deles.

Muito depois.

Com meu computador, minhas redes sociais, meus leitores invisíveis, notificações piscando enquanto tento escrever sobre fantasmas num século que fabrica fantasmas em escala industrial.

 

Talvez aqui esteja a confissão que eu normalmente esconderia.

Minha solidão não é consequência da tristeza.

É um prazer.

Isso me assusta um pouco.

Há noites em que fechar a porta do escritório me dá uma satisfação física. O clique da fechadura. O celular virado para baixo. Nenhuma conversa exigindo resposta. Nenhum rosto pedindo interpretação. Apenas madeira, papel, chá e mortos.

Sinto alívio.

E existe culpa nesse alívio.

Porque fomos educados para tratar sociabilidade como prova de saúde, popularidade como evidência de valor e disponibilidade como virtude. Quem recua precisa justificar-se. Quem prefere silêncio deve apresentar defesa.

Eu não apresento mais.

 

Talvez meu verdadeiro medo nunca tenha sido ficar sozinha.

Talvez tenha sido descobrir o quanto gosto disso.

A ansiedade já diminuiu. Minha respiração voltou ao corpo. A camomila está fria agora, abandonada ao lado de Florbela.

O mundo continua lá fora fazendo o que sabe fazer melhor: produzindo ruído, desejo, crueldade, escândalo e manchetes suficientes para adoecer qualquer pessoa que insista em engolir tudo antes de dormir.

 

Aqui dentro, Baudelaire continua imóvel na parede.

Florbela repousa aberta sobre minha mesa.

E percebo por que volto tantas vezes aos mortos quando os vivos ficam insuportáveis...

Os mortos não fazem barulho.

Publicado por Luna Bela Morte
em 14/09/2026 às 05h00
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