
A chuva começou fina, quase educada, e terminou ocupando a varanda inteira.
Estou sentada aqui há tempo suficiente para que o café tenha perdido o calor e adquirido aquele gosto amargo de coisa abandonada. Não me incomoda.
No horizonte, nuvens escuras avançam sobre Angra dos Reis e apagam aos poucos os contornos das ilhas. Uma depois da outra desaparece atrás da água suspensa no ar. Primeiro as mais distantes. Depois aquelas que costumo reconhecer mesmo de madrugada.
Gosto de observá-las assim.
Quando a tempestade chega, as ilhas não vão embora. Apenas deixam de ser visíveis.
É uma diferença que demorei anos para aprender também sobre pessoas.
O mar está inquieto esta noite. As ondas chegam à praia perto de casa com uma regularidade quase cruel. Escuto uma quebrar, outra recuar, outra ocupar exatamente o mesmo lugar alguns segundos depois.
Tenho vivido com esse som há tanto tempo que às vezes só percebo sua existência quando ele muda.
Talvez aconteça o mesmo com a solidão.
Quando ela chega, estranhamos;
Quando permanece, reorganizamos os móveis para lhe dar espaço;
Quando fica tempo demais, já não sabemos dizer se é visita ou moradora.
Hoje percebi que faz muito tempo que estou sozinha.
Não escrevo isso com tristeza suficiente para comover ninguém. Seria até um pouco humilhante dramatizar a própria companhia quando metade da humanidade passa a vida inteira procurando desesperadamente alguém que a distraia de si mesma.
Eu, ao menos, tive o mau gosto de aprender a permanecer.
Ainda assim, algumas madrugadas possuem uma habilidade desagradável para tocar exatamente naquilo que preferimos manter sem nome.
Esta é uma delas.
Deixei o caderno aberto sobre a pequena mesa da varanda. Algumas gotas alcançaram a borda da página e deformaram duas palavras que eu havia escrito. Não tentei salvá-las. Fiquei olhando a tinta se espalhar pelas fibras do papel até que as letras perdessem a forma.
É curioso o quanto uma palavra se parece com um corpo quando começa a desaparecer.
Foi então que me lembrei de Baudelaire.
Daquela ideia que sempre me perseguiu: escrever para os mortos.
Há uma perversidade delicada nisso.
Escrever para quem não responderá, ou não entenderá errado deliberadamente só porque compreender exige mais trabalho. Os mortos não precisam de reputação, cargo, casamento, sobrenome, versão oficial dos acontecimentos... nada disso. Os mortos possuem uma vantagem insuportável sobre nós.
Já perderam tudo o que os obrigava a fingir.
Talvez seja por isso que sempre me senti tão confortável diante deles. E aqui, devo explicar que, apesar de ser uma autora que publica "para ser lida no cemitério", não estou falando de cadáveres, mas sim daquilo que desaparece quando alguém deixa de precisar representar a própria personagem.
Passei parte da noite escrevendo uma página que provavelmente ninguém lerá. Não era poema, conto ou anotação para algum livro. Era apenas uma conversa.
Não coloquei nome no destinatário.
Talvez porque eu não soubesse.
Ou soubesse bem demais.
Escrevi sobre pequenas coisas que jamais colocaria numa entrevista. Sobre o cansaço de conhecer pessoas cuja gentileza termina exatamente onde começa a inconveniência. Sobre aqueles que dizem amar nossa profundidade até descobrirem que profundidade não é decoração estética. Ela exige mergulho. E humanos, apesar de todo o entusiasmo com oceanos, preferem relacionamentos onde ainda consigam tocar o chão.
Escrevi que sinto falta de certas pessoas.
Apaguei.
Escrevi novamente.
Deixei.
Essa talvez tenha sido a frase mais obscena da noite.
Não gosto de admitir saudade.
Saudade concede importância retroativa.
Há quem não mereça sequer esse privilégio.
Mas alguma coisa na chuva tornou inúteis certas elegâncias.
Olhei novamente para as ilhas.
Quase todas haviam desaparecido atrás da tempestade.
E pensei em quantas pessoas continuam existindo assim dentro de nós: territórios inteiros ocultos por uma camada de tempo. Sabemos que estão lá. Conhecemos suas praias, seus acidentes, as partes onde naufragamos. Apenas deixamos de visitá-las.
A memória tem sua própria geografia.
Alguns mortos nunca morreram.
Alguns vivos estão enterrados há anos.
Continuei escrevendo.
A caneta começou a correr mais depressa quando percebi para quem aquela página realmente era dirigida.
Não para alguém específico.
Para todos aqueles que já não poderiam me responder.
E isso me assustou por um motivo menos romântico do que eu gostaria.
Descobri que gosto da impossibilidade da resposta.
Os mortos não interrompem. Não tentam transformar nossa dor numa competição com a própria, dizendo que exageramos porque nossos sentimentos atrapalham a narrativa confortável que construíram sobre nós.
Diante dos mortos posso ser inteira porque eles não possuem nenhuma necessidade de me corrigir.
Talvez eu tenha ficado sozinha tempo suficiente para começar a considerar isso uma forma de intimidade.
E esta é a parte que eu jamais diria em voz alta.
Tenho medo de estar me tornando melhor em amar ausências do que presenças.
Há segurança demais no que não pode partir novamente.
Uma pessoa morta pode assombrar, mas não pode abandonar.
A frase ficou diante de mim por alguns minutos...
Não consegui continuar.
A chuva engrossou.
Uma rajada de vento lançou gotas frias contra meu rosto e meus braços. Não me levantei. Fechei os olhos e escutei o mar.
Uma onda.
Outra...
Outra.
Percebi então que talvez escrever para os mortos nunca tenha sido exatamente escrever para aqueles que morreram, mas sim para o que resta das pessoas depois que tudo aquilo que era performance se desfaz.
O leitor morto não possui vaidade e nem pressa, porque não está tentando provar que entendeu melhor do que o autor. Ele chega à página sem biografia para defender, e talvez seja esse leitor impossível que procuro toda vez que escrevo: a versão de alguém que já perdeu a necessidade de parecer alguma coisa.
Inclusive eu.
Porque existe uma Luna que escreve e outra que um dia será apenas aquilo que deixou escrito.
Pensar nisso não me entristece.
Estranhamente, me acalma.
Os livros sempre souberam algo que os seus autores demoram a aceitar: permanecem porque não precisam do corpo que os escreveu.
Um dia minhas mãos não estarão aqui.
Esta varanda será ocupada por outra pessoa ou demolida, porque humanos têm uma devoção impressionante por destruir lugares para construir imóveis piores.
As ilhas continuarão no horizonte.
O mar continuará repetindo sua frase interminável contra a praia.
Talvez algum desconhecido encontre uma página minha numa madrugada qualquer.
Talvez me leia sem saber exatamente quem fui.
E, sinceramente, espero que seja assim.
Biografias atrapalham certas intimidades.
Levantei para buscar outro café. Quando voltei, as nuvens haviam engolido a última ilha.
O horizonte parecia vazio.
Mas eu sabia.
Ela ainda estava lá.
Foi então que fechei o caderno.
Talvez eu escreva para os mortos porque eles compreendem a única coisa que os vivos insistem em esquecer:
desaparecer não é o mesmo que deixar de existir.