Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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31/08/2026 05h00
A parede que me reconheceu

 

Saí da festa com o gosto amargo de vinho ainda preso à língua e a música batendo longe, abafada pelas paredes do prédio, como um coração que já não me pertencia. Meus amigos ficaram para trás entre risadas, copos erguidos e conversas que provavelmente morreriam antes do amanhecer. Eu disse que queria caminhar um pouco. Não expliquei por quê.

 

Não havia explicação bonita. Eu apenas... precisava ficar sozinha.

 

O beco surgiu entre dois prédios antigos, estreito, úmido, iluminado por uma lâmpada que piscava com uma insistência quase ofensiva. O asfalto conservava a água de uma chuva recente, e o cheiro era uma mistura de concreto molhado, lixo esquecido e alguma flor noturna que eu não consegui identificar. O Rio tem dessas crueldades delicadas: coloca perfume ao lado da podridão e deixa que você decida qual dos dois merece confiança.

 

Entrei.

 

Talvez eu não devesse.

 

A lua cheia permanecia acima dos telhados, enorme demais para parecer inocente. Entre fios elétricos, caixas-d’água e antenas, ela parecia um olho branco observando a cidade cometer seus pequenos crimes particulares.

 

Meus passos faziam um som seco no chão.

 

Depois ouvi outro.

 

Parei.

 

O outro passo também parou.

 

Olhei para trás.

 

Nada.

 

Só a entrada do beco, alguns metros distante, e a avenida respirando luz artificial do outro lado. Um carro passou. Depois outro. Alguém buzinou. A cidade seguia viva, vulgarmente viva, enquanto eu começava a sentir aquela velha mudança dentro de mim: primeiro na nuca, depois nos ombros, depois naquele lugar sem anatomia onde o medo costuma nascer.

 

Continuei.

 

À esquerda havia uma parede parcialmente destruída. Tijolos expostos, reboco caído, ferragens enferrujadas aparecendo como nervos de uma criatura mal restaurada.

 

Passei a mão sobre ela.

 

A superfície áspera feriu de leve meus dedos, e... senti alívio.

 

Sabe...há dias em que me encosto nas ruínas só para confirmar que ainda sinto alguma coisa, e talvez esta seja uma das coisas que eu nunca deveria confessar. Não tenho fascínio pela destruição porque queira ser destruída, é quase o contrário; gosto das coisas quebradas porque elas perderam a obrigação de parecer inteiras, entende?

 

Uma parede rachada não mente...

Uma casa abandonada não diz que está tudo bem...

Uma janela sem vidro não inventa transparência...

 

O curioso é que paredes quebradas costumam demonstrar mais honestidade emocional do que certas pessoas inteiras.

 

Fiquei ali alguns segundos, com a palma da mão apoiada no concreto frio, enquanto lembrava da festa...

Sorrisos... abraços... fotografias...

Gente dizendo que estava com saudade sem conseguir lembrar da última vez em que perguntou se eu estava bem (trágico se não fosse cômico rsrs), e ainda tinha gente falando sobre outras pessoas assim que elas saíam de perto, com uma naturalidade quase profissional.

 

Humanos são impressionantes. Inventaram telescópios capazes de olhar para galáxias mortas e ainda não descobriram uma maneira de conversar sem dissecar alguém ausente. Talvez seja por isso que eu pareça fria.

Conviver demais com a falsidade humana transforma silêncio em mecanismo de sobrevivência.

 

Foi então que ouvi novamente...

Um passo. Mais perto.

Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Os dedos se afastaram da parede. A respiração ficou pequena, e olhei para o fundo do beco.

Nada se movia.

 

E ainda assim tive a impressão absurda de que alguma coisa estava vindo.

Não atrás de mim. De dentro!

 

A lua desapareceu por alguns segundos atrás de uma nuvem, o beco escureceu. Senti uma pressão estranha no peito, como se a noite tivesse encontrado uma fresta em mim e começasse a entrar.

 

Não foi exatamente medo de ser atacada. Isso seria simples.

Era medo de me reconhecer naquele escuro. Porque há uma parte de mim que funciona melhor quando tudo ao redor perde definição. Uma parte silenciosa, quase sem rosto, que não sente necessidade de agradar, explicar, sorrir ou traduzir o que pensa para que outras pessoas durmam confortáveis. Naquela noite, essa parte pareceu acordar.

 

Continuei andando.

A cada passo, os ruídos da festa ficavam menores...

A cada passo, eu me sentia menos parecida com a mulher que havia estado lá dentro...

Aquela Luna sabia conversar;

Sabia sorrir quando precisava;

Sabia aceitar elogios sem perguntar o que havia por trás deles;

Sabia circular entre pessoas como quem atravessa uma sala cheia de móveis frágeis, cuidando para não quebrar nada.

 

A Luna daquele beco queria quebrar alguma coisa.

Não uma janela.

Não um rosto.

Uma obrigação: a obrigação de continuar oferecendo acesso a quem só sabe entrar para procurar defeitos.

Essa foi a confissão que me assustou, eu não estava com medo da escuridão, estava gostando dela!

 

Parei novamente.

O ar parecia mais frio junto às paredes. Um filete de água descia por uma rachadura no concreto, brilhando sob a luz instável. Passei os dedos ali e senti a umidade escorrer pela minha mão.

 

Pensei em quantas vezes tentei encontrar humanidade onde havia apenas um comportamento.

Quantas vezes confundi uma presença com um vínculo.

E quantas vezes permaneci perto de alguém depois que meu instinto já havia começado a recuar...

 

E eu tenho vergonha disso. Não de ter confiado, sabe? Mas de ter percebido antes e ficado mesmo assim.

Meu maior medo nunca foi o de ser enganada, foi o de saber que eu estava sendo e mesmo assim permanecer parada.

 

Talvez algumas pessoas chamem isso de esperança, porém eu tenho nomes menos gentis.

 

A lua reapareceu.

Sua luz caiu no final do beco e revelou uma porta metálica coberta de ferrugem. Sobre ela havia camadas de tinta velha, anúncios rasgados, nomes escritos por desconhecidos. Pensei na escrita. Em como passo madrugadas tentando transformar aquilo que me atravessa em alguma coisa que possa ser deixada numa página sem continuar apodrecendo dentro de mim. Talvez eu escreva pelo mesmo motivo que toquei aquela parede: para verificar a sensibilidade; para pressionar a ferida e descobrir se o corpo ainda responde.

 

Escrever nunca foi uma espécie de cura - essa palavra me parece limpa demais.

Escrever é como se fosse uma autópsia realizada em algo que ainda respira.

Foi então que percebi que meus passos já não tinham companhia. O som que eu julgara ouvir havia desaparecido.

Nenhuma figura.

Nenhuma criatura.

Nenhum estranho escondido na sombra.

Somente eu.

E isso deveria ter me tranquilizado.

Não tranquilizou.

 

Porque compreendi que durante todo aquele percurso eu procurara um monstro externo para justificar o medo.

Alguma presença atrás de mim.

Alguma coisa no escuro.

Qualquer coisa que pudesse receber a culpa.

Mas a noite não estava me seguindo.

Ela estava me revelando...

 

Voltei para a avenida alguns minutos depois. Os faróis cortaram meus olhos. Um ônibus passou espalhando água junto à calçada. Duas pessoas riam diante de um bar. Um entregador conferia o celular sobre a motocicleta.

Tudo normal.

A humanidade adora essa palavra.

Normal.

Serve para esconder cadáveres emocionais em plena luz do dia.

 

Olhei uma última vez para o beco.

Lá dentro, a parede quebrada permanecia exatamente como antes.

Sem tentar parecer inteira.

A lua cheia ainda estava acima dela.

E, pela primeira vez naquela noite, senti inveja das ruínas.

Elas não precisam fingir que sobreviveram intactas.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 31/08/2026 às 05h00
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