Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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24/08/2026 05h00
O pequeno osso que arranquei da frase

 

Apaguei o travessão e permaneci olhando o espaço vazio que ele deixou.

 

Passava das duas da madrugada. O cursor pulsava na tela com a insolência de quem sabe que sobreviverá a todos nós, enquanto o Rio diminuía seus ruídos atrás da janela. Ainda havia um ônibus atravessando o asfalto, o gemido metálico de algum portão e um aparelho de ar-condicionado respirando no prédio vizinho. Hoje é Dia do Artista. Comecei a data amputando um hábito da minha escrita.

 

Há ironias que dispensam qualquer esforço literário...

 

Uso travessões desde antes de alguém transformar a inteligência artificial na nova possessão demoníaca do século. Eles faziam parte do meu ritmo, marcavam interrupções, abriam pequenas fendas por onde uma frase podia revelar sua segunda voz. Então apareceu um fiscal da literatura, desses que recebem uma lupa imaginária junto com o acesso às redes sociais, afirmando que o uso do travessão denunciava texto produzido por máquina.

O travessão, um sinal empregado por escritores muito antes de existirem telas, prompts ou especialistas formados pela Universidade do Comentário, tornou-se prova criminal.

Retirei-o.

 

É isso que me incomoda nesta madrugada. Não a ignorância alheia, pois ela sempre foi uma praga resistente. O que me perturba é ter permitido que entrasse em meu texto e movesse os móveis.

 

A inteligência artificial não inventou a desconfiança. Apenas ofereceu uma nova fantasia aos velhos inquisidores. Agora, qualquer frase bem organizada desperta suspeita. Um vocabulário menos miserável parece artificial. Uma construção elaborada vira indício. Uma pontuação correta passa por perícia conduzida por pessoas incapazes de interpretar um parágrafo, mas estranhamente preparadas para julgar sua origem.

 

O escritor contemporâneo precisa criar e, em seguida, provar que criou. Deve exibir rascunhos, tropeços, versões, cicatrizes e talvez uma testemunha ocular do instante em que a ideia nasceu. Sua palavra deixou de ser uma obra e passou a ser um corpo no instituto médico-legal.

 

O mais curioso é que os acusadores raramente desejam descobrir a verdade, porque o que eles desejam mesmo é experimentar o prazer de condenar. A dúvida exige investigação; a acusação rende comentários. Simples assim. E o algoritmo, esse pequeno deus alimentado por conflitos nas redes sociais, oferece mais alcance ao apedrejamento do que à leitura cuidadosa, infelizmente.

 

Já me atribuíram pensamentos políticos que eu nunca tive. Examinaram meus poemas, minhas fotografias e até as legendas à procura de uma bandeira escondida sob minhas palavras. E, por incrível que pareça, até um verso meu sobre dor social virou uma espécie de apoio a determinado lado. Uma crítica ao comportamento humano foi sequestrada pelo lado oposto. Até o meu silêncio recebeu uma filiação partidária.

 

Sou apolítica (é preciso salientar isso aqui). Não entreguei minha imaginação a partidos, facções ou cartilhas ideológicas. Isso não significa ausência de consciência, como alguns gostam de insinuar. Significa que me recuso a alugar minha voz a grupos que exigem obediência. Observo o mundo, reconheço suas violências e escrevo sobre suas feridas. E acredito que nenhuma legenda partidária possui exclusividade sobre a dor humana.

 

Mas os haters do meio literário não leem para compreender. Eles leem como agentes de alfândega, procurando ideias proibidas na bagagem do autor. Se a obra não repete o credo deles, torna-se inimiga. Se não se ajoelha perante a crença deles, é suspeita. A literatura, que deveria ampliar o desconforto e multiplicar perguntas, acaba reduzida a um teste de fidelidade ideológica elaborado por pessoas que acreditam que a convicção é uma espécie de inteligência.

 

Na madrugada do Dia do Artista, penso na delicada perversidade dessa homenagem. Durante vinte e quatro horas, publicam frases sobre a importância da arte. No restante do ano, pedem livros gratuitos, tratam divulgação como favor, confundem crítica com humilhação e exigem que o escritor produza, apareça, sorria e agradeça por alguma migalha de visibilidade. É uma merda...

 

O problema é que valorizam demais a imagem romântica do artista. Mas o artista real, com limites, vaidade, contas, escolhas e uma voz própria, costuma ser menos conveniente.

 

Abro uma pasta de fotografias minhas no computador, prontas para postar, mas fico com receio. Nelas, há filtros, maquiagem, sombras cuidadosamente escolhidas e uma versão de mim que decidi oferecer ao mundo. Nunca escondi que gosto de editar minhas imagens. Escolher uma luz não falsifica um rosto, assim como revisar uma frase não falsifica um pensamento. Nenhum retrato é neutro. Até o espelho edita conforme a iluminação e a crueldade da manhã.

 

Ainda assim, uma editora já me desaprovou para participar de um projeto sob a alegação de que eu talvez nem fosse real.

A desculpa seria cômica se não revelasse algo tão pequeno: o problema nunca foi minha existência; o problema foi a possibilidade de uma mulher considerada bonita entrar naquele espaço e, pasmem, atrair uma atenção em um projeto que ela tratava como propriedade particular. (Fiquei sabendo através de outros autores do próprio projeto dela).
Patético.

 

Há mulheres que defendem a presença feminina até surgir outra mulher capaz de dividir a luz. Então a sororidade fecha a porta, retoca o próprio discurso e, para disfarçar sua insegurança, diz que se trata de um critério editorial. Então a beleza passa a ser entendida como uma fraude, ameaça ou prova de superficialidade. Será que gente assim ainda espera que uma escritora séria tenha que ter, obrigatoriamente, a aparência de uma alma castigada? Se cuida do rosto, provavelmente não cuida dos livros; se conhece o poder da própria imagem, deve pedir desculpas antes de pronunciar qualquer ideia.
Não peço, nunca pedi, e jamais pedirei.

 

Raramente participo de projetos e antologias por esse motivo. Muitos deles anunciam que são uma comunidade, mas organizam pequenas cortes. Há tronos invisíveis, hierarquias frágeis e egos que precisam ser alimentados com elogios periódicos. Convidam artistas para uma obra coletiva, desde que ninguém brilhe mais do que o organizador, venda mais do que o editor ou desperte mais interesse do que os habituais sacerdotes daquele círculo.

 

A literatura deveria ser uma casa de muitas vozes, mas transformaram parte dela num condomínio administrado por síndicos ressentidos.


E quase sempre, quando o argumento começa a apodrecer, alguém traz Deus para a conversa. Essa é a pior parte!


Não desconfio da fé. Desconfio de quem usa a fé como certificado de caráter. Existem escritores religiosos profundamente honestos, assim como existem descrentes virtuosos e devotos cruéis. Mas nenhuma crença imuniza uma pessoa contra inveja, mentira, vaidade ou abuso. A religião revela aquilo que alguém afirma professar; somente a conduta revela o que essa pessoa faz quando nenhuma plateia está olhando.

 

Quando um escritor invoca Deus para sustentar o próprio exemplo de vida, coloca uma autoridade absoluta a serviço de sua reputação particular. O mecanismo é conveniente: discordar dele passa a parecer discordar do sagrado. A crítica deixa de enfrentar um argumento humano e é empurrada contra uma divindade que não pode comparecer à conversa, apresentar provas ou corrigir a versão de quem fala em seu nome.
Isso não é fé. É blindagem moral, porra!

 

Também desconfio porque bondade anunciada não equivale a bondade praticada. Quem precisa declarar constantemente a própria pureza costuma desejar que a propaganda seja examinada no lugar dos atos. Ética não se comprova com versículos na legenda, citações religiosas na biografia ou personagens que repetem sermões. Comprova-se na maneira como alguém trata quem não pode oferecer prestígio, dinheiro, obediência ou aplauso.

 

Usar Deus como argumento para vencer uma disputa ainda reduz o sagrado a uma ferramenta de poder. A religião vira um selo de autenticidade, estratégia de autoridade e cosmético para o ego. 

 

Se uma crença é verdadeira para alguém, ela não precisa tornar essa pessoa inalcançável à responsabilidade. Ao contrário, deveria aumentar sua disposição de responder pelos próprios atos. Toda fé que serve para impedir perguntas já deixou de orientar a consciência e começou a proteger o personagem.

Talvez por isso eu prefira os pecadores que não escondem as mãos.

 

Volto ao documento. A frase permanece diante de mim, limpa do sinal acusado. Está correta, fluida e absolutamente covarde.

 

Esta é a confissão que eu não gostaria de fazer no Dia do Artista: às vezes, cedo. Retiro uma pontuação, suavizo uma opinião, escolho uma fotografia menos editada, explico que sou apolítica e antecipo acusações que talvez nem cheguem. Acho que comecei a imaginar o tribunal antes de terminar a obra...

 

E os haters, bom... esses alcançaram uma região mais profunda do que meus comentários. Tornarem-se uma espécie de revisores literários, para desgraça da literatura.

 

Esse é o dano que ninguém fotografa. É um dano lento... A violência contra o artista nem sempre destrói o trabalho diante do público. Ela vem de mansinho, senta-se ao lado dele durante a criação, examina cada escolha, faz com que duvide do próprio gesto antes que o gesto tenha forma, até que a censura (bastante eficiente), em vez de rasgar as páginas, ensina a mão do artista a hesitar.

 

Tenho medo de que o tempo que o artista perde defendendo-se consuma a energia da sua obra. Tenho medo de passar tanto tempo provando que sou real, humana, independente e autora das minhas palavras que reste pouca vida para escrever. Uma escritora que morre sem abandonar a mesa... Basta que sua voz seja substituída por uma sucessão de justificativas.

 

Hoje o Dia do Artista amanhecerá coberto por homenagens. Receberei frases sobre inspiração e talvez algum elogio sincero, agradecerei aos que realmente leem. Quanto aos tribunais, já conheço sua fome. Nunca quiseram literatura, queriam réus.

 

Antes de fechar o documento, retorno ao ponto em que fiz a amputação. Digito o sinal outra vez. Um único risco escuro reaparece entre as palavras, pequeno e firme, como um osso devolvido ao corpo.

 

Talvez amanhã eu o retire de uma legenda por estratégia, exaustão ou simples falta de vontade de discutir com analfabetos ornamentais. Aqui, nesta página escondida, ele fica.

 

O cursor pisca depois dele.
— Eu ainda estou escrevendo.

 

Publicado por Luna Bela Morte
em 24/08/2026 às 05h00
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