
A rolha resistiu ao saca-rolhas como certas lembranças resistem àquele que tenta abri-las: cedendo aos poucos, com um ruído seco, quase ósseo. Eram duas e quarenta da madrugada. A chuva golpeava as janelas da minha casa em Angra dos Reis, e o mar, invisível atrás da noite, respirava com a paciência de uma criatura muito antiga.
Servi o vinho devagar.
O líquido desceu pela parede da taça e se acumulou no fundo com uma cor profunda, dessas que parecem ter sido retiradas de uma ferida já cicatrizada. Antes de beber, aproximei o vidro do rosto. Havia frutas maduras, madeira, terra úmida e alguma coisa que meu olfato não soube nomear, embora o resto de mim reconhecesse imediatamente.
Portugal.
A saudade raramente anuncia sua chegada. Prefere infiltrar-se por objetos pequenos: uma canção esquecida, o desenho de uma calçada, uma palavra pronunciada com o sotaque que já não possuímos. Naquela noite, entrou pela boca.
O primeiro gole trouxe o calor. O segundo trouxe uma estrada.
Voltei a uma parada que fiz no Baixo Alentejo, quando ainda caminhava por Portugal com a impressão de que aquelas ruas existiriam para sempre à minha espera. A paisagem se estendia numa severidade bela, com a terra seca, as paredes caiadas e um céu tão amplo que parecia condenar tudo o que estivesse abaixo dele à própria pequenez. Havia silêncio entre as construções. Um silêncio diferente do brasileiro, sem motores impacientes ou vozes atravessando muros. Ali, até o vento parecia envelhecido.
Parei para beber uma garrafa de vinho.
Não havia ocasião especial. Nenhuma comemoração, nenhum amor a brindar, nenhuma vitória pedindo cerimônia. Apenas eu, a estrada e aquela necessidade repentina de permanecer por algum tempo num lugar onde ninguém sabia meu nome. Uma espécie de liberdade que só se revela quando não somos reconhecidos. Sentada com a garrafa diante de mim, pude existir sem representar a mulher que os outros esperavam encontrar.
O vinho chegou à mesa sem espetáculo. A rolha saiu, a bebida tocou o copo e o mundo continuou indiferente. Gostei disso. As coisas realmente importantes costumam acontecer sem testemunhas adequadas.
Bebi olhando a paisagem e pensei na antiga lenda do Baixo Alentejo sobre a descoberta do vinho. Depois do Dilúvio, quando a humanidade ainda aprendia a permanecer sobre a terra, dois casais e seus muitos filhos viviam numa cabana feita de paus e colmo. Os homens caçavam. As mulheres recolhiam cereais, frutos e tudo aquilo que crescia sem pedir licença.
Em setembro, encontraram cachos roxos, fartos e doces. Comeram as uvas, alimentaram as crianças e guardaram o restante num tronco oco. Cobriram-no com uma madeira fina e colocaram pedras por cima. Depois esqueceram.
Sempre me pareceu essencial essa parte: esqueceram.
A madeira cedeu ao peso. As pedras caíram. Os bagos foram esmagados e permaneceram ali, entregues ao tempo, ao escuro e à fermentação. Quando uma das mulheres voltou ao tronco para guardar outras colheitas, encontrou no fundo um líquido rubi, cercado pelos engaços ressequidos. Bebeu por curiosidade. Chamou a cunhada. As duas provaram mais. De gole em gole, perderam o equilíbrio e começaram a rir com uma alegria que ainda não possuía explicação.
Ao cair da noite, os maridos regressaram da caça, encontraram as mulheres embriagadas e, depois do espanto habitual dos homens diante de qualquer descoberta que os anteceda, também beberam. Aprovaram.
A civilização talvez tenha começado assim: duas mulheres transformaram o esquecimento em êxtase, e dois homens chegaram mais tarde para confirmar que a ideia era boa.
Sorri quando pensei nisso no Alentejo. Sorrio novamente agora, sozinha nesta casa cercada pela chuva. Há uma justiça clandestina na imagem daquelas mulheres primordiais rindo depois do fim do mundo. O Dilúvio havia lavado a antiga humanidade, mas elas encontraram um modo de manchar a nova.
Talvez o vinho tenha surgido porque alguém guardou doçura demais num recipiente incapaz de suportar o peso. A estrutura cedeu. As frutas foram esmagadas. O tempo fez o restante.
Conheço esse processo intimamente.
Também escrevo com aquilo que foi pressionado dentro de mim e deixado no escuro. Guardo experiências, silêncios, desejos e pequenas mortes em compartimentos cuja madeira finjo acreditar que resistirá. Coloco pedras sobre tudo. Sigo vivendo. Meses ou anos depois, alguma frase rompe o tampo, e encontro no fundo um líquido que já não se parece com o fruto original.
A literatura é uma fermentação daquilo que não conseguimos digerir.
No Baixo Alentejo, à medida que a garrafa esvaziava, tirei o caderno da bolsa. Eu costumava caminhar sozinha pelas ruas portuguesas levando papel e caneta, como se estivesse sempre à procura de uma cena de crime que apenas eu pudesse enxergar. Observava as fachadas antigas, os santos imóveis nos nichos, as janelas fechadas, as ervas nascendo entre as pedras. Portugal me ensinou a procurar sentimentos nas rachaduras, revelando sua intimidade pela arquitetura.
Escrevi versos em bancos frios, à sombra de igrejas, em cafés quase vazios e diante de casas que pareciam guardar os mortos à mesa. Nem todos sobreviveram. Alguns permaneceram em folhas perdidas; outros foram mutilados, reescritos ou esquecidos. Parte deles, porém, atravessou o oceano comigo e hoje vive em “Poesia para ser lida no cemitério”.
Só agora percebo que aquele livro começou muito antes de receber um título.
Começou quando meus passos ressoavam nas ruas de pedra e eu compreendi que a solidão também possui acústica. Começou diante de portões enferrujados, imagens sacras, muros antigos e jardins onde as flores pareciam crescer alimentadas por alguma tristeza mineral. Eu ainda não sabia que transformaria aquelas impressões em poemas. Apenas anotava. A escrita costuma saber para onde vai antes da escritora.
Naquela parada alentejana, escrevi algumas linhas que o vinho tornou mais honestas. Não me recordo de todas... porque são palavras que merecem existir somente durante o tempo de uma embriaguez, escritas no ar e apagadas antes que a lucidez venha estragá-las. Mas me lembro da sensação: o copo na mão direita, o caderno aberto à esquerda, e a estranha impressão de que eu obedecia a um rito muito anterior a mim.
Cardoso Marta aconselhou que se guardassem bons livros na estante e bons vinhos na adega, com um exemplar de cada em mãos. Sempre considerei uma filosofia bastante mais sensata do que muitas doutrinas que exigem abstinência, culpa e postura ereta. Um livro na mão esquerda. Um copo na direita. Entre ambos, a vida tentando não se desperdiçar.
Nesta madrugada, repito a imagem.
À esquerda da taça está meu próprio livro. Abro-o e encontro “A Poetisa e o Cálice Rubro”. Reconheço a mulher que sorve do vinho “o mistério imenso” e permite que a bebida arda como um rito final. Algumas páginas adiante, “Da Rosa e do Vinho” devolve-me outra versão da mesma presença: o cálice refletindo o abismo do amor, a bebida trazendo ao peito memórias perdidas.
Eu as escrevi. Ainda assim, esta noite elas parecem ter sido deixadas ali por uma mulher que morreu sem a delicadeza de levar o meu rosto consigo.
Talvez todo livro publicado seja uma adega de antigas identidades. Abrimos uma página e bebemos quem fomos. Algumas versões amadurecem. Outras azedam. Há ainda aquelas que permanecem fortes demais e nos fazem perder o equilíbrio depois de poucas linhas.
Os portugueses conhecem essa intimidade entre a palavra e o vinho há séculos. Estrabão já escrevia sobre o cultivo da vinha no Douro celta e sobre a bebida compartilhada nos banquetes familiares. Depois vieram Camões, Pessoa e tantos outros, cada qual erguendo seu copo diante de um abismo diferente. O camponês e o aristocrata bebiam separados por posses, títulos e vaidades, mas o vinho alcançava ambos pelo mesmo caminho.
A boca é uma democracia breve.
Dizem que Robert Louis Stevenson chamou o vinho de poesia engarrafada. A frase é bela, embora omita certa crueldade. Para existir, o vinho exige que a uva seja arrancada, esmagada e abandonada à ação invisível de organismos que a transformam por dentro. Também a poesia cobra seus cadáveres. Nenhum verso verdadeiro nasce intacto.
Bebo mais um gole e escuto a chuva engrossar. As gotas escorrem pela janela, distorcendo as poucas luzes do lado de fora. Por um instante, Angra se desfaz atrás do vidro e as ruas portuguesas retornam. Vejo uma mulher caminhando sozinha, o caderno preso contra o corpo, os cabelos inquietos pelo vento. Ela ainda carrega na voz um sotaque que o tempo diluiria devagar. Ainda acredita que partir e abandonar são verbos distintos.
Esta é a confissão que o vinho arrancou de mim: às vezes, tenho medo de ter transformado Portugal em literatura para não admitir que sinto falta de pertencer a algum lugar.
É mais elegante chamar uma ausência de inspiração. Sofisticamos a dor para não parecermos indefesos diante dela. Descrevemos as ruas, os muros e as sombras; convertemos o passado em símbolo; damos ritmo àquilo que nos rasgou. Depois, apresentamos o resultado como arte e esperamos que ninguém encontre o corpo escondido entre as metáforas.
Quando vim ao Brasil, em 2023, a viagem deveria ser uma visita. O Rio de Janeiro e as ilhas em torno de Angra dos Reis fizeram o que certas terras sabem fazer: mostraram-me uma versão de mim que eu ainda não conhecia. Fiquei. O caos, o mar, o calor e a beleza ameaçada desta paisagem abriram outra linguagem dentro de mim.
Mas nenhuma chegada acontece sem uma pequena traição.
Meu sotaque português começou a dissolver-se. Primeiro em algumas palavras, depois no ritmo das frases. A mudança foi tão lenta que só a percebia quando alguém apontava. Eu ria, fingia indiferença e seguia falando, enquanto uma parte de mim recolhia cada som perdido como quem recolhe dentes depois de uma briga.
Temo que Portugal já não reconheça minha voz.
Temo ainda mais que reconheça.
Porque retornar não significa recuperar o que fomos. As ruas permanecem, mas a pessoa que as percorreu já fermentou. Carrega outros mares, outras noites, outras cicatrizes. Talvez minha nostalgia não seja vontade de voltar. Talvez seja saudade da mulher que conseguia caminhar por aquelas pedras sem saber que um dia as transformaria em passado.
O vinho na taça está mais escuro agora. Ou talvez seja apenas a luz do escritório enfraquecendo. Giro o vidro e observo as lágrimas rubras descerem lentamente por suas paredes. Chamam de lágrimas as marcas que o vinho deixa na taça. A linguagem humana possui esses pequenos requintes de crueldade: até aquilo que bebemos precisa chorar antes de desaparecer.
Penso nas mulheres da lenda. Elas guardaram uvas e encontraram vinho. Guardaram alimento e encontraram alegria. O esquecimento não destruiu a colheita; deu-lhe outra natureza.
Durante muito tempo tratei a memória como uma sala que precisava permanecer intacta. Quis conservar cheiros, ruas, vozes e versões de mim mesma. Agora compreendo o erro. Nada permanece guardado sem se alterar. Colocamos pedras sobre o passado, mas o tempo trabalha no escuro. Quando abrimos o recipiente, já não encontramos aquilo que deixamos.
Encontramos aquilo em que a ausência o transformou.
De que valeria esta garrafa se eu a mantivesse fechada? De que valeria meu livro se ninguém o abrisse? Adegas e estantes podem se tornar mausoléus muito bem organizados. O vinho precisa da boca. A literatura também. Ambos existem plenamente quando atravessam alguém e perturbam sua química.
Por isso escrevo esta página enquanto bebo. Talvez seja minha maneira de partilhar a garrafa com quem chegou tarde demais para aquela parada no Alentejo. Talvez eu esteja oferecendo ao leitor o copo que estendi aos fantasmas portugueses que me acompanharam até esta casa.
Quem desejar entrar nos outros aposentos da minha escrita encontrará a porta em:
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A garrafa está quase vazia. A chuva continua. Fecho o livro, mas deixo a taça diante da janela, onde o reflexo do vinho se mistura às luzes deformadas de Angra. Em algum ponto invisível além da noite, o mar toca duas terras sem pertencer a nenhuma.
Levo o último gole à boca.
Desta vez, é Portugal quem me bebe.