Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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10/08/2026 07h40
A mulher que deixo do lado de fora

A luz do computador recorta minhas mãos sobre a mesa enquanto o Rio de Janeiro apodrece lentamente em sua própria madrugada. Agosto de 2026. O relógio se aproxima das três, a xícara de café conserva no fundo uma pequena poça amarga, e o calor insiste em permanecer na pele apesar da janela aberta. Lá embaixo, um carro atravessa o asfalto úmido. Depois, silêncio. Um silêncio incompleto, urbano, desses que ainda carregam motores distantes, aparelhos de ar-condicionado e alguém discutindo com a própria vida atrás de alguma parede.

Na tela, a entrevista permanece aberta.

Meu nome ocupa a página em letras grandes: Luna Bela Morte. Há fotografias minhas, velas, livros, ruínas, sombras cuidadosamente dispostas. Leio as respostas que concedi à Revista Conexão Literatura e sinto a estranha vertigem de observar uma mulher que sou eu, embora tenha sido obrigada a atravessar o vidro para existir diante dos outros.

Sempre fui íntima demais para o espetáculo.

Gosto das coisas que acontecem sem plateia: o instante em que uma frase encontra seu ritmo; o ruído de uma página sendo virada num quarto vazio; o cheiro dos livros antigos; a pausa antes de escrever uma palavra perigosa. Minha natureza pertence aos corredores silenciosos, às bibliotecas quase esquecidas, às conversas que não precisam ser exibidas para terem acontecido. Eu floresço melhor quando ninguém está olhando.

Contudo, escolhi escrever livros.

E um livro escondido é apenas um segredo condenado à própria elegância.

Foi preciso compreender uma crueldade bastante contemporânea: neste mundo, criar já não basta. É necessário aparecer ao lado daquilo que se criou, sorrir em fotografias, gravar vídeos, falar para uma câmera muda, oferecer fragmentos da própria intimidade ao altar das redes sociais e torcer para que o algoritmo, essa divindade sem rosto e com péssimo gosto literário, permita que algumas pessoas descubram que você existe.

O digital tornou-se uma espécie de cartório da existência. Se não há registro, postagem, story, comentário ou fotografia, talvez você nem tenha vivido. Se uma obra nasce longe das telas, o mundo a trata como se tivesse nascido morta.

Por isso apareço.

Digo isso com menos coragem do que parece.

Antes de publicar uma fotografia, observo meu rosto durante tempo demais. Aumento a imagem, diminuo, procuro nela uma falha que ninguém perceberia se eu mesma não a oferecesse como prova contra mim. Escrevo uma legenda, apago. Reescrevo. Fecho o aplicativo. Volto alguns minutos depois, como quem retorna à cena de um crime para verificar se deixou impressões digitais. Quando finalmente publico, sinto que depositei uma pequena parte de mim numa praça cheia de desconhecidos.

A timidez possui hábitos de carcereira. Ela nos convence de que a cela é um aposento privado.

Poucas pessoas imaginam o esforço necessário para eu permanecer diante de uma câmera. Meu corpo reconhece a lente como um olho que não pisca. A voz muda discretamente. As mãos procuram onde repousar. Cada gesto que, em silêncio, seria natural passa a exigir consciência. Sou capaz de escrever sobre mortos, maldições, casas corrompidas e criaturas que atravessam paredes. Ainda assim, pedir que eu grave um vídeo curto pode despertar um horror muito mais eficiente. Os fantasmas, ao menos, costumam respeitar a penumbra.

Há dias em que entro nas redes para divulgar um poema e saio delas com a sensação de ter caminhado por uma feira onde tudo está à venda: rostos, corpos, indignações, tragédias, opiniões emprestadas, felicidades alugadas por quinze segundos.

Os haters aguardam como insetos sob a luz. Alguns desejam ferir; outros desejam apenas ser percebidos enquanto ferem. A crueldade digital possui essa covardia esterilizada: não deixa cheiro nas mãos. Uma pessoa pode despejar veneno sobre outra durante o intervalo do almoço e, em seguida, pedir sobremesa.

Há também a futilidade incessante, a repetição de assuntos vazios, a fabricação industrial de relevâncias que morrerão antes do próximo amanhecer. Vejo meninas transformando a própria erotização em moeda para conquistar seguidores e curtidas. Não as observo do alto de qualquer altar moral. Conheço a máquina que as recompensa. Sei que muitas aprenderam cedo que o corpo recebe uma atenção que a inteligência precisa implorar para merecer. Minha repulsa pertence menos a elas do que ao sistema que converte desejo em estatística e juventude em vitrine. O algoritmo calcula mais a retenção do que a contemplação da beleza.

Mesmo assim, dividir espaço com tudo isso me cansa.

Às vezes, depois de percorrer a tela, volto ao manuscrito e as palavras parecem ter recuado para o fundo de mim. Minha imaginação se esconde. O excesso de vozes deixa uma fuligem mental sobre as imagens que eu estava construindo. Uma notificação interrompe uma atmosfera. Um comentário cruel contamina uma tarde. Uma sequência de banalidades rouba aquela delicada inquietação da qual um conto poderia nascer.

A criatividade não morre pela ausência de ideias e pela exposição.

Esta é a parte que dificilmente confesso: em certos dias, temo que a necessidade de divulgar minha obra termine por deformar a mulher que a escreve. Tenho medo de começar a escolher frases pelo potencial de compartilhamento, imagens pelo alcance, temas pela capacidade de agradar a uma multidão impaciente. Tenho medo de olhar para um poema e perguntar quantas curtidas ele receberá antes de perguntar se ele possui uma verdade.

Pior: algumas vezes eu verifico.

Observo números. Conto visualizações. Percebo quando uma publicação alcança menos pessoas do que outra. Sinto a pequena fisgada da decepção e imediatamente me desprezo por tê-la sentido. Existe uma humilhação particular em permitir que uma estatística decida o valor emocional de algo que nasceu nas regiões mais profundas da alma.

Talvez esse seja o verdadeiro horror das redes: elas não nos obrigam somente a mostrar quem somos. Aos poucos, ensinam-nos a assistir a nós mesmos pelos olhos de uma plateia.

Fecho a página por alguns segundos. Meu reflexo aparece na tela escura, sobreposto à janela e às luzes distantes dos prédios. Ali estou eu: uma mulher sentada de madrugada, cercada por livros, tentando proteger a própria solidão enquanto constrói pontes até desconhecidos. A contradição chega a ser bela. Também é um pouco ridícula. Quase todas as tragédias humanas adquirem certo humor quando vistas às três da manhã.

Então abro novamente a entrevista.

As páginas escuras, ornamentadas por velas, livros e imagens do meu universo, devolvem-me algo que as redes frequentemente arrancam: contexto. Ali, minhas palavras não disputam atenção com uma dança de oito segundos, uma discussão fabricada ou mais uma urgência descartável. Posso falar sobre o início de minha vida literária, sobre Poesia para ser lida no cemitério, sobre a criação da Ordo Umbrae, sobre o medo, a solidão das cidades e a necessidade de transformar a dor em beleza antes que ela nos transforme em pedra.

Posso falar sobre leitura no Brasil sem reduzir uma ferida histórica a uma frase obediente. Posso apresentar o Halloween da Luna e O Grimório de Nyxara como partes vivas de uma mitologia, e não como produtos atirados diante de consumidores distraídos. Posso agradecer à revista e ao editor pelo espaço sem sentir que estou implorando alguns segundos de atenção.

Naquela entrevista, fui ouvida.

A diferença parece pequena até acontecer conosco.

Ser vista alimenta o ego. Ser compreendida alimenta a permanência.

Percebo agora que talvez eu tenha cometido uma injustiça ao tratar todo o mundo digital como um salão contaminado. Há corredores escondidos dentro dele. Há leitores procurando justamente aquilo que quase desaparece no ruído: densidade, estranheza, beleza, pensamento. Pessoas que ainda desejam permanecer diante de um texto por mais tempo do que leva para mover o polegar. Uma entrevista literária pode funcionar como uma dessas portas. Alguém entra por curiosidade, reconhece uma frase, encontra um livro e descobre que sua própria sombra também sabia ler.

 

Esses encontros não eliminam o desgaste. Amanhã, a câmera continuará parecendo um olho frio. As notificações continuarão mordendo as margens do meu silêncio. O algoritmo seguirá exigindo seus pequenos sacrifícios de tempo, presença e energia. Não pretendo romantizar a jaula apenas porque encontrei uma flor entre suas grades.

Mas esta madrugada me devolveu uma certeza menos frágil.

Eu não apareço porque desejo transformar minha vida em espetáculo. Apareço para impedir que minha obra seja enterrada pelo excesso de ruído. Mostro o rosto para conduzir alguém até os livros; e depois volto para a penumbra, onde consigo respirar. Minha presença digital é a maçaneta. A casa verdadeira permanece do outro lado.

Talvez as pessoas certas nunca sejam a multidão. Talvez sejam aquelas que reconhecem essa porta.

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Eu deixei a luz acesa. Não para todos.

Publicado por Luna Bela Morte
em 10/08/2026 às 07h40
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