
Hoje é Dia Mundial do Rock.
Escrevo essa frase e quase consigo ouvir uma guitarra rasgando o ar como uma lâmina elétrica atravessando um vitral de igreja. Esta data chega com distorção. Com suor, couro, fumaça, palco, amplificadores, vozes roucas, cabelos em desordem e aquele tipo de batida que arromba o coração.
O rock nunca soube bater à porta.
Ainda bem.
Acordei tarde, como convém a uma criatura que mantém relações diplomáticas precárias com a manhã. A luz entrava pela janela do quarto com aquela insolência tropical que o Rio de Janeiro chama de dia. A cidade já estava acordada, ou pelo menos fingia estar, produzindo sua sinfonia habitual de motores, obras, buzinas, vozes atravessadas e motos possuídas por demônios mecânicos de péssimo gosto. O caos carioca não tem educação sonora. Ele não passa. Invade.
Fiz café forte. O tipo de café que parece ter sido filtrado através de uma lápide. Abri a janela por alguns segundos, tempo suficiente para sentir o bafo quente da rua, depois a fechei novamente, como quem sela uma cripta contra os vivos. Há momentos em que o mundo externo precisa ficar do lado de fora, esperneando com sua vulgaridade barulhenta, enquanto a alma faz seus rituais em silêncio.
Ou, no caso de hoje, em volume alto.
Antes mesmo de sentar à mesa, coloquei música. Não uma escolha delicada ou uma trilha de fundo para fingir produtividade. Rock não nasceu para decorar ambiente. Rock nasceu para perturbar a mobília interna do espírito. Nasceu para acordar aquilo que a educação social tenta enterrar vivo. Nasceu para dizer ao corpo: você ainda pulsa, apesar de tudo.
E eu gosto de tudo que prova que ainda pulso.
Hoje, enquanto o café esfriava sobre a mesa e meus livros me observavam com aquela paciência lúgubre dos objetos que sabem mais do que dizem, pensei na origem dessa data. O chamado Dia Mundial do Rock foi escolhido em homenagem ao Live Aid, aquele megaevento de 13 de julho de 1985, organizado para combater a fome na África e capaz de reunir nomes imensos da história do rock, como Queen e Led Zeppelin. Um desses momentos em que a música, essa velha feiticeira coletiva, se torna um gesto que vai além do simples entretenimento. Grito. Ajuntamento. Corrente elétrica atravessando multidões.
Há algo quase religioso nisso.
E digo “religioso” não no sentido dócil, ajoelhado, domesticado por bancos de madeira e moral alheia. Falo de rito. De transe. De comunhão profana. De milhares de corpos respondendo ao mesmo chamado sonoro, como se a humanidade, por algumas horas, lembrasse que antes de inventar burocracias, tribunais, aplicativos e reuniões inúteis, ela batia os pés no chão ao redor do fogo para não enlouquecer diante da noite.
O Live Aid foi isso em escala monstruosa: uma fogueira planetária acesa por guitarras.
Curioso, porém, é que apesar do nome grandioso, “mundial”, a comemoração acabou encontrando casa principalmente aqui no Brasil. Naturalmente. Este país tem uma habilidade peculiar para adotar rituais estrangeiros, deformá-los com afeto, cerveja, exagero, nostalgia e transformá-los em tradição. O Brasil é um laboratório de misturas. Às vezes isso gera beleza. Às vezes gera o tipo de bagunça que faria qualquer entidade organizada pedir transferência cósmica. Neste caso, gerou uma data bonita: um dia para celebrar o rock, suas bandas, suas lendas, seus clássicos e essa chama elétrica que insiste em não morrer.
Dizem que a ideia ganhou força depois de Phil Collins, durante o Live Aid, declarar que gostaria que aquele dia fosse lembrado como o dia mundial do rock. O público brasileiro, com essa vocação supersticiosa para transformar frase em celebração, adotou a data. E desde então, todo 13 de julho, as guitarras ganham uma espécie de licença poética para assombrar o país.
Hoje, em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba, o rock costuma sair dos fones, das salas, dos quartos escuros, das memórias e ocupar bares, palcos, festivais, tributos, eventos de rua. Clássicos do rock nacional dividem espaço com bandas de tributo e novos talentos que ainda tentam convencer o mundo de que nasceram para algo mais digno do que preencher planilhas. O que, sejamos honestos, já é uma missão espiritual bastante respeitável.
Pensei nisso enquanto escolhia o que ouvir.
Minha relação com o rock nunca foi casual. Não é uma preferência estética pendurada no armário ao lado de vestidos pretos, botas, anéis e perfumes noturnos. É mais profundo. O rock me atravessa porque entende algo que a literatura sombria também entende: a beleza nem sempre vem limpa. Às vezes ela chega com distorção, grito, maquiagem borrada, cruz invertida apenas como provocação adolescente ou como símbolo real de recusa, dependendo da inteligência de quem segura o microfone. Às vezes ela chega com dentes.
A música pesada sempre conversou com minha parte menos domesticável.
Aquela que não aceita sorrir para agradar;
Aquela que prefere uma verdade feia a uma mentira perfumada;
Aquela que olha para a noite e não pergunta onde está a saída, mas onde começa o ritual.
Quando eu era mais jovem, o rock foi uma espécie de quarto secreto. Enquanto muita gente aprendia a se encaixar, eu aprendia a me reconhecer no ruído. Havia algo libertador em ouvir guitarras fúnebres, vozes densas, teclados sombrios, baterias como passos de monstros em corredores industriais. A música me dizia, sem delicadeza alguma: você não está quebrada; talvez apenas pertença a outra frequência.
E isso, para uma alma deslocada, pode ser uma forma de sobrevivência.
O rock, sobretudo em suas vertentes mais escuras, tem essa capacidade de validar o estranho sem tentar curá-lo. Ele não diz: “venha ser normal”. Ele diz: “venha, temos amplificadores”. Uma proposta infinitamente mais honesta. A normalidade sempre me pareceu uma sala mal ventilada onde pessoas entediadas fingem satisfação. O rock abriu janelas, quebrou vidros, colocou fumaça no teto e convidou os fantasmas para dançar.
Naturalmente, aceitei.
Enquanto o dia avançava, fui separando algumas bandas que fazem parte da minha geografia noturna. Começo por Black Sabbath, porque há genealogias que precisam ser respeitadas. Sem o peso sabático, muita coisa que veio depois talvez ainda estivesse tentando descobrir como fazer a sombra soar como matéria. Depois vem Bauhaus, essa elegância cadavérica transformada em som, quase uma cripta dançante onde o gótico aprendeu a erguer o queixo.
Em seguida, The Sisters of Mercy, com aquela solenidade fria, quase litúrgica, que parece feita para caminhadas noturnas em cidades onde ninguém deveria estar acordado. London After Midnight, porque há uma teatralidade sombria ali que não tem vergonha de se mostrar. Alien Sex Fiend, com sua insanidade deliciosa, sua estética de pesadelo fluorescente, como se um manicômio tivesse descoberto sintetizadores e mau comportamento.
Depois, Killing Joke, uma banda que anuncia colapsos através de sua música. Há nelas uma energia de ruína coletiva, de profecia industrial, de mundo moderno rangendo sob o peso da própria estupidez. E como o mundo moderno oferece material abundante para esse tipo de trilha, convenhamos, eles continuam assustadoramente necessários.
Danzig entra como um altar de músculos, trevas e voz cavernosa. Alice Cooper, mestre do teatro macabro, prova viva de que o horror no palco pode ser inteligente, divertido e mais elegante do que muita solenidade artística de gente sem imaginação. W.A.S.P. chega com sua sujeira glam, sua insolência metálica, sua aura de rebelião suada e perigosa. Rob Zombie, por sua vez, parece ter construído uma discoteca dentro de um filme de terror barato, e eu digo isso como elogio. Um elogio com sangue falso, luz estroboscópica e caveiras de plástico bem posicionadas, que a humanidade ainda merece algum entretenimento antes do colapso final.
Marilyn Manson representa outra camada: provocação, grotesco, choque, decadência performática, essa tentativa de transformar o monstro social em espelho. Nem todo espelho é confortável. Alguns devolvem o rosto da cultura com a maquiagem escorrendo. E eu sempre respeitei artistas que entenderam o poder de incomodar a sala.
Moonspell me chama por outra via: a da melancolia ibérica, do peso noturno, da poesia escura envolvendo guitarras como neblina sobre ruínas. Mono Inc. traz essa grandiosidade gótica quase cerimonial, perfeita para quando a alma deseja vestir uma capa invisível e caminhar dramaticamente pelo corredor de casa, porque às vezes a vida doméstica precisa de trilha sonora digna. The 69 Eyes oferece o vampirismo urbano, sensual, noturno, com cheiro de couro, neon e beijos dados perto demais da perdição.
Deathstars me agrada pelo frio industrial, pela estética metálica, como se o futuro tivesse sido construído por vampiros cibernéticos com problemas emocionais. Gothminister carrega teatralidade, sombra, peso, uma espécie de culto elétrico para quem gosta de imaginar igrejas dominadas por sintetizadores e monstros bem vestidos. Lordi, claro, com sua monstruosidade carnavalesca, prova que às vezes o grotesco precisa apenas de riffs e máscaras absurdas para virar celebração.
In This Moment me atrai pelo ritual visual, pelo feminino sombrio, pela performance como possessão. Crucified Barbara traz aquela força crua, direta, de mulheres rasgando palco sem pedir autorização ao clube dos homens barulhentos, que já fez barulho demais na história e ainda assim continua achando que inventou o trovão. Lesbian Bed Death tem esse charme horror punk, vampiresco, teatral, um nome que por si só já parece ter saído de uma sessão dupla em cinema decadente. E a lista continua. Sempre continua. Toda alma noturna tem mais bandas do que sanidade disponível para organizá-las.
O que me fascina no rock é justamente sua multiplicidade.
Ele pode ser protesto, sedução, blasfêmia, catarse, espetáculo, luto, deboche, transe, rebelião, memória. Pode nascer de um porão, de uma garagem, de uma cidade industrial adoecida, de uma juventude entediada, de uma dor íntima, de uma fúria política, de uma vontade quase infantil de fazer barulho suficiente para que o mundo pare de fingir que está tudo bem.
Porque não está.
Nunca esteve.
O rock sempre soube disso.
Talvez por isso tantos moralistas tenham tentado culpá-lo por tudo. Pela juventude perdida, pela sexualidade, pela rebeldia, pela violência, pelo Diabo, pela queda dos bons costumes, pela maquiagem preta, pelas roupas rasgadas, pelas guitarras altas, pelos cabelos compridos, pela imaginação. Como se a humanidade precisasse de ajuda externa para ser caótica. Que presunção encantadora. O ser humano inventou guerras, tribunais injustos, fome, exploração, hipocrisia religiosa, burocracia e reunião de condomínio, mas aparentemente o problema era um adolescente ouvindo Black Sabbath.
A moral pública sempre teve um ouvido seletivo.
Escuta guitarras e grita escândalo.
Escuta injustiça e chama de tradição.
Talvez seja por isso que o rock permanece necessário. Ele não é apenas música. Mas sim um incômodo histórico. Uma recusa sonora. Um modo de dizer que a alma não foi feita para caber sem atrito nas instituições, nos horários, nas expectativas familiares, nos empregos de vidro, nas relações pasteurizadas, nas biografias educadas. O rock lembra ao corpo que ele tem sombra. Lembra à mente que ela tem ruído. Lembra à cidade que seus prédios repousam sobre cemitérios invisíveis.
Hoje, enquanto escrevia, percebi como minha literatura e minha música se alimentam da mesma substância. Escrevo como quem ouve uma guitarra grave ao fundo. Minhas frases muitas vezes nascem de um ritmo interno: lento, pesado, ritualístico, depois súbito, cortante, quase percussivo. Um bom parágrafo, para mim, precisa ter respiração de música. Precisa criar atmosfera, tensão, silêncio e explosão. Precisa saber quando sussurrar e quando derrubar a porta.
O rock me ensinou isso antes mesmo que eu percebesse.
Ensinou que intensidade não é descontrole, é direção.
Que teatralidade não é falsidade, é linguagem.
Que o sombrio não precisa ser imóvel.
Pode dançar.
Pode gritar.
Pode seduzir.
Pode rir com a boca manchada de vinho e cinza.
No fim da tarde, saí por alguns minutos. O céu tinha aquela cor indefinida de fim de dia carioca, uma mistura de ouro cansado, cinza urbano e promessa de noite. Na rua, ouvi de longe alguém tocando guitarra em algum apartamento. Mal dava para distinguir a música, mas reconheci a intenção: aquele som de quem ainda acredita que uma parede pode ser atravessada pelo volume certo. Sorri. Discretamente, porque sorrir demais em público pode atrair conversas, e conversas diurnas são um risco que evito com prudência de vampira alfabetizada.
Comprei vinho. Voltei para casa. Acendi uma vela.
A noite então se instalou como uma velha cúmplice.
Coloquei Bauhaus. Depois Black Sabbath. Depois Moonspell. Deixei as músicas atravessarem o quarto como entidades convocadas. Algumas vinham com passos lentos. Outras com botas sujas de lama. Outras com dentes. Meu escritório parecia menos um local de trabalho e mais uma pequena capela do ruído. Livros nas prateleiras, cadernos abertos, canetas espalhadas, a taça de vinho junto à mão, e aquela sensação familiar de que a arte, quando é verdadeira, não entra em nossa vida para deixá-la mais confortável. Mas sim para torná-la mais real.
E realidade, meus queridos, é uma coisa feroz.
Pensei no Live Aid novamente. Em 1985. Naquela multidão. Nas vozes atravessando continentes. Na música sendo usada como convocação coletiva. Há algo profundamente comovente em imaginar que, por um instante, o rock, tão acusado de decadência, tornou-se também instrumento de compaixão pública. Não que isso o purifique. Purificação é um conceito superestimado por gente que tem medo da lama. O interessante é justamente a contradição: a mesma música que escandaliza pode unir. A mesma guitarra que os moralistas chamam de infernal pode servir de ponte. O mesmo palco que parece templo da rebeldia pode se tornar altar de solidariedade.
A arte verdadeira sempre foi contraditória.
Por isso é viva.
O rock não precisa ser santo para ser necessário. Aliás, prefiro que não seja. Santidade demais costuma engessar. O rock é mais bonito quando permanece sujo, inquieto, sensual, dramático, irritante, excessivo, perigoso para móveis frágeis e consciências frágeis. Ele não veio para sentar com boa postura. Veio para jogar a cadeira longe e perguntar por que todos estavam fingindo conforto.
Essa pergunta me interessa.
Talvez por isso eu tenha passado tantos anos acompanhada por bandas que falam de morte, desejo, sombra, alienação, horror, decadência, rebelião, luto, noite. Elas não curaram minhas feridas, e ainda bem, porque certas feridas são arquivos. Mas deram a elas uma batida. Deram uma estética. Deram uma espécie de irmandade sonora. Quando ouvimos uma música e sentimos que ela nos compreende antes mesmo de nós sabermos explicar o que somos, acontece uma pequena possessão. Somos tomados por algo que nos devolve a nós mesmos.
Esse é o milagre sombrio do rock.
Não nos salva da escuridão.
Ensina-nos a amplificá-la.
E às vezes, amplificar a escuridão é a única forma de fazê-la parar de nos devorar em silêncio.
Agora passa da meia-noite. A cidade ainda rosna lá fora. Uma moto infernal acaba de atravessar a rua como se carregasse um exorcismo de péssima qualidade no escapamento. Respirei fundo, porque nem toda possessão merece resposta. O vinho está pela metade. A vela já se inclinou para um lado, cansada, mas insistente. Sobre a mesa, meu caderno aberto guarda anotações para um próximo texto. Meu corpo sente o peso do dia, mas minha alma está elétrica.
Talvez seja isso que o rock faz melhor.
Ele lembra que ainda existe eletricidade onde o mundo tentou instalar obediência.
Por isso celebro este dia.
Celebro Queen e Led Zeppelin naquele gesto histórico do Live Aid. Celebro Phil Collins e sua frase adotada com fervor por este país tropicalmente caótico. Celebro o Brasil que transformou 13 de julho em ritual de guitarras. Celebro as bandas clássicas, os tributos, os novos talentos, os palcos pequenos, os bares enfumaçados, os festivais, os adolescentes descobrindo um riff como quem encontra uma porta secreta, os adultos que ainda não se renderam à anemia espiritual da vida correta.
E celebro, sobretudo, o direito de ser barulho em um mundo que nos prefere obedientes.
Hoje é Dia Mundial do Rock.
Que as guitarras sejam velas acesas na cripta do cotidiano;
Que os tambores acordem os ossos dos conformados;
Que as vozes roucas atravessem as paredes da normalidade;
Que o baixo pulse como coração de monstro antigo.
E que, nesta noite, cada alma que se sentiu deslocada, estranha, maldita, inadequada ou simplesmente cansada da suavidade falsa do mundo encontre numa música a confirmação mais bela e brutal:
você não nasceu para caber no silêncio dos outros.
Você nasceu para descobrir o próprio volume.