
Hoje voltei a uma torre antiga.
Não uma torre de pedra visível, dessas que os turistas fotografam com os olhos lavados de pressa e o espírito vazio de espanto. Falo de outra torre: aquela erguida dentro da memória, onde certas leituras permanecem debruçadas sobre o abismo, olhando ao mesmo tempo para o céu e para o mar, como se a alma fosse uma criatura dividida entre ascensão e queda.
Hoje voltei a Ismália.
Um poema que simplesmente invade nossa alma. Uma frase, uma imagem, uma música secreta entre palavras aparentemente simples, e então algo se desloca dentro de nós. Mais do que uma compreensão; um reconhecimento. Como se um quarto escuro, esquecido há anos na casa da nossa mente, tivesse recebido subitamente uma vela.
Foi assim comigo.
Antes de Alphonsus de Guimaraens se tornar, para mim, um nome envolto em névoa, sinos e violetas fúnebres, houve Ismália. Um poema curto, simples na superfície, desses que alguns leitores apressados, coitados, atravessariam como quem passa por uma lápide sem ler o nome. Mas sua simplicidade é uma armadilha delicada. Ismália parece pequena apenas para quem não sabe ouvir vertigens. Dentro dela há uma mulher partida entre mundos, entre altura e profundidade, entre a loucura e o êxtase, entre o desejo de tocar o inalcançável e a condenação de possuir um corpo ainda sujeito à gravidade.
Talvez por isso ela tenha me marcado tanto.
Porque todos nós, em alguma noite, já fomos Ismália.
Talvez não diante de uma torre literal, mas diante de nossos próprios delírios. Diante da imaginação chamando de cima e da realidade puxando pelos tornozelos. Diante da vontade de subir até a lua e, ao mesmo tempo, dissolver-se no mar. A loucura em Ismália não me parece apenas doença, embora muita gente adore aprisionar qualquer excesso da alma em diagnósticos simples, como se o espírito humano fosse um formulário administrativo. Ali, a loucura é também devaneio. É excesso de visão. É a alma incapaz de caber numa única direção.
E quem nunca se sentiu assim talvez tenha vivido pouco demais.
Ou pior: tenha vivido muito corretamente.
Passei a manhã com esse poema latejando dentro de mim. Acordei tarde, porque a manhã e eu mantemos uma relação diplomática instável. O sol já lambia as janelas do Rio de Janeiro com sua vulgaridade dourada, essa claridade insistente que parece acreditar que tudo deve ser revelado. Tolice. Existem verdades que só a penumbra sabe dizer sem deformar. Fiz café, deixei a casa ainda meio escura e caminhei até minha estante, onde os livros ficam como pequenos mausoléus cheios de vozes.
Puxei Alphonsus.
O nome dele já parece feito de igreja antiga, de eco em corredor de pedra, de cidade histórica respirando através de sinos. Alphonsus de Guimaraens. Um nome que não se diz; se acende. E, ao abrir o livro, senti novamente a presença daquela poesia que não grita, não se exibe, não arranca aplausos pelo colarinho. Ela vela. Ela reza. Ela enterra. Ela cobre a dor com um tecido roxo, negro, litúrgico, como se cada verso fosse uma flor colocada sobre um esquife.
Hoje, no meu diário de leituras, falo dele.
E falo também do modo como a literatura pode salvar.
Escrevo isso com cuidado, porque a palavra salvar foi tão maltratada por discursos fáceis que quase perdeu sua sombra. Não digo que um livro substitua mãos humanas, cuidado, escuta, tratamento, presença. A dor profunda não deve ser romantizada como se bastasse abrir uma página para que todos os monstros se ajoelhassem, educados e vencidos. A vida real, essa criatura sem senso estético, raramente é tão obediente.
Mas já vi livros interromperem quedas.
Já vi uma alma à beira do fim hesitar depois de encontrar uma frase. Já vi uma garota atravessar a própria depressão segurando volumes como quem segura pedras quentes contra o peito. Já vi pessoas se encontrarem porque amavam o mesmo livro, e o amor, esse animal problemático, às vezes precisa apenas de uma estante para farejar sua vítima. Já vi páginas funcionarem como pontes sobre abismos que ninguém mais enxergava.
Literatura não é remédio de farmácia.
É mais perigosa.
Ela não anestesia a ferida. As feridas só começam a fechar depois de serem chamadas pelo nome correto, e a literatura dá nome às feridas.
Quando dou presentes a alguém, quase sempre escolho um livro. Há quem ache isso previsível. Pobres criaturas, condenadas a presentear objetos que em três meses estarão esquecidos numa gaveta. Um livro, quando acertado, transforma-se num destino embalado. É uma chave disfarçada de papel. Uma assombração oferecida com laço.
Talvez o meu primeiro grande laço com a literatura brasileira tenha sido este: Ismália.
Antes dela, eu já amava livros, sombras, a elegância dos mortos europeus, as ruas antigas, as catedrais íntimas da melancolia. Mas Ismália me mostrou que a poesia brasileira também sabia erguer torres sobre o abismo. Que havia, neste país de sol exagerado e ruídos famintos, uma tradição de silêncio, morte, misticismo e beleza fúnebre. Não era preciso atravessar oceanos para encontrar fantasmas dignos. Eles estavam aqui. Em Minas. Nas ladeiras. Nas igrejas. Nos casarões. Na língua portuguesa carregando luto como um terço escuro entre os dedos.
Hoje pensei muito em Mariana.
A cidade histórica onde Alphonsus viveu durante tantos anos como juiz, vizinha de Ouro Preto, feita de pedra, memória, religião e tempo condensado. Mariana parece ter sido construída para transmitir ecos, e não para representar o cotidiano. Imagino suas ruas antigas à noite, as fachadas silenciosas, o peso das igrejas, o ar mineral, o passado respirando por frestas. Uma cidade assim não apenas abriga um poeta simbolista. Ela o molda. Ela o cerca de liturgia. Ela ensina ao ouvido humano que todo passo pode soar como procissão.
Abaixo, no diário, deixo aos leitores a imagem de uma pintura guardada no Museu Casa Alphonsus de Guimaraens, na Rua Direita, 35, em Mariana, Minas Gerais. Há algo comovente nisso: uma casa transformada em memória, uma vida convertida em visitação, objetos preservados contra a voracidade do esquecimento. Museus de escritores são cemitérios delicados. Neles, não se enterram apenas corpos ausentes, mas gestos. Uma mesa, uma cadeira, uma janela, um retrato. Tudo parece murmurar: ele esteve aqui. Escreveu aqui. Sofreu aqui. Foi humano aqui.
E talvez essa seja a parte mais dolorosa da literatura:
Antes do símbolo, houve uma pessoa;
Antes do mito, houve um corpo;
Antes da obra, houve uma ferida.

Retrato de Alphonsus de Guimaraes – Museus Estaduais de Minas Gerais – SECULT
Alphonsus nasceu em Ouro Preto, em 1870, e morreu em 1921. Estudou Direito em São Paulo e passou grande parte de sua vida em Mariana. Mas nenhuma informação biográfica explica completamente um poeta. Datas são ossos. A poesia é o fantasma que se move entre eles. E, no caso de Alphonsus, esse fantasma tem um nome que arde: Constança.
A morte da prima Constança, a quem ele amava, aos apenas dezessete anos, marcou sua vida como uma vela acesa dentro de um quarto fechado. Há amores que não se realizam em vida e, por isso mesmo, tornam-se mais poderosos na morte. Não porque sejam puros, como gostam de dizer os românticos de vitrine, mas porque ficam suspensos, interrompidos, preservados no instante brutal da perda. O amor que morre jovem nunca envelhece. Permanece terrível, luminoso, injusto.
A poesia de Alphonsus parece nascer desse luto.
Quase toda ela se inclina diante da mulher morta. Não como quem aceita, mas sim como quem reza e acusa ao mesmo tempo. Seus temas caminham por natureza, arte e religião, mas sempre retornam ao mesmo altar: a morte da amada. Tudo nele parece contaminado por essa ausência. O mundo inteiro se torna extensão do esquife. O céu, uma abóbada de igreja. As flores, oferendas. A noite, véu. A alma, uma viúva eterna.
E aqui está sua força.
A morte, em Alphonsus, abre duas portas.
Por uma delas entra a literatura gótica, macabra, romântica em sua raiz mais sombria, essa tradição que entende a beleza do corpo morto, do sepultamento, do amor interrompido, da donzela transformada em aparição. Pela outra, entra uma atmosfera mística, litúrgica, espiritualista, cheia de orações, sinos, cores roxas e negras, imagens de esquife, corpo frio, procissão e transcendência. O resultado não é um terror gritante, mas sim algo mais parecido com um assombro de capela. É uma tristeza que caminha devagar, com vela na mão.
Gosto disso.
Gosto de poetas que não têm pressa.
O mundo atual é histérico. Tudo precisa ser rápido, claro, resumido, mastigado, adaptado para distraídos. Até a dor, hoje, querem transformar em frase curta com fundo bonito. Que pobreza. Há tristezas que precisam de corredores longos. Há poemas que exigem que a gente caminhe dentro deles como quem atravessa uma igreja vazia ao anoitecer. Alphonsus é assim. Sua poesia não nos atropela. Ela nos envolve. Primeiro como neblina. Depois como luto. Por fim, como destino.
Voltei a Ismália no fim da tarde.
Não vou reproduzi-la aqui como quem joga joias na calçada. Porque esse é um daqueles poemas que devem ser lidos no silêncio, e não consumidos como petisco literário entre uma notificação e outra. Mas posso dizer o que ela faz comigo: ela transforma a imagem da loucura em uma geometria de desejo. A mulher sobe, sonha, vê luas, deseja duas impossibilidades. E nesse movimento há algo tão humano que chega a doer. Porque viver é desejar o incompatível. Queremos o céu e o mar. A altura e o mergulho. O corpo e a fuga do corpo. A lucidez e o delírio. A segurança e o abismo.
Ismália enlouquece porque talvez veja demais.
E ver demais sempre teve seu preço.
A sociedade tolera muito bem os sonhadores enquanto eles sonham dentro dos limites permitidos. Mas quando o sonho começa a ameaçar a arquitetura do mundo, chamam de loucura. O devaneio feminino, então, historicamente foi tratado como problema a ser corrigido, contido, medicado, encerrado em quarto, convento, casamento ou diagnóstico. Ismália, de algum modo, escapa. Terrivelmente, poeticamente, ela escapa. E seu gesto final, por mais trágico que seja, carrega a violência simbólica de quem já não aceita permanecer apenas em uma dimensão.
Esse é o desconforto do poema.
Ele é belo demais para ser apenas triste.
E triste demais para ser apenas belo.
A noite caiu enquanto eu anotava essas impressões. O Rio lá fora começou a vestir sua pele mais verdadeira: luzes tremendo nos prédios, motores rosnando, vozes subindo da rua como almas sem repouso. A cidade tem uma espécie de brutalidade viva que contrasta com Alphonsus. Mariana é sino. O Rio é sirene. Mariana parece guardar mortos em igrejas. O Rio os mistura ao trânsito, ao bar, ao mar, ao asfalto quente. E eu, criatura deslocada entre esses mundos, leio o poeta mineiro dentro do caos carioca, como quem coloca uma flor roxa sobre uma avenida sangrando neon.
Talvez seja isso que eu busque na literatura brasileira: essas geografias da alma.
O Nordeste febril e orgânico de Augusto dos Anjos. A Paris imaginária dos meus mortos malditos. A Minas litúrgica de Alphonsus. O Rio noturno que me devora e me dá matéria. Cada autor abre uma cidade dentro de mim. Cada poema acende um cemitério diferente. E, no fim, escrever é caminhar por todos eles carregando uma vela que insiste em não apagar, mesmo quando o vento da existência sopra como uma besta irritada.
Escolhi dois poemas para os leitores do meu diário: Ismália, obviamente, e Uma noite só tua, um dos que considero mais belos de Alphonsus. O primeiro por ter sido minha porta. O segundo por sua densidade de entrega, sombra e encantamento. São poemas que não foram escritos apenas com tinta, mas também com uma espécie de claridade enferma. Uma noite só tua tem esse perfume. É noite transformada em posse, em desejo, em sussurro de eternidade. Uma noite não como tempo, mas como altar.
E eu sempre desconfiei que a noite fosse mesmo um altar:
É nela que os vivos deixam cair suas máscaras;
É nela que os mortos se tornam mais próximos;
É nela que a escrita me encontra.
Quando a casa fica silenciosa, quando a cidade diminui apenas o suficiente para que seus ruídos virem mar distante, sento-me à mesa, acendo o meu abajur de caveira (e também uma vela para os mortos) e sinto que algo antigo se aproxima. Não sei se é inspiração. Essa palavra é clara demais. Prefiro chamar de visita. A escrita me visita. Às vezes entra dócil. Às vezes arromba. Às vezes senta-se diante de mim e exige que eu sangre uma memória que eu pensava já ter sepultado. Com Alphonsus, a visita vem vestida de luto. Não grita. Apenas coloca uma flor sobre a mesa e espera.
Hoje, essa flor tinha o nome de Ismália.
Pensei novamente na frase: a literatura salva.
Salva como?
Não como os sermões prometem. Não como as propagandas fingem. Não salva retirando-nos da dor, mas fazendo da dor uma linguagem habitável. Salva porque nos mostra que alguém, antes de nós, atravessou uma noite parecida e deixou sinais na parede. Salva porque transforma solidão em linhagem. Salva porque, ao lermos um poema escrito há mais de cem anos, descobrimos que nossos abismos não são inéditos. E isso, estranhamente, consola.
Não estamos sozinhos.
Estamos acompanhados por mortos brilhantes.
Há uma beleza quase obscena nisso.
Fechei o livro já perto da madrugada. A vela estava baixa. O café esquecido havia se tornado uma poça fria e amarga. Meu corpo pedia descanso, esse pequeno capricho biológico que interrompe até as melhores assombrações. Mas antes de sair da mesa, voltei à imagem de Ismália: uma mulher no alto, suspensa entre duas luas, duas seduções, dois destinos. Fiquei pensando se ela caiu ou se, de algum modo incompreensível, conseguiu finalmente estar em ambos os lugares.
Talvez a poesia exista para isso.
Para realizar simbolicamente o que a realidade nos nega.
Na vida, somos esmagados por escolhas. Na poesia, podemos ser céu e mar por um instante. Podemos amar mortos, conversar com ausências, transformar trauma em canto, fazer da cidade uma catedral, da loucura uma escada, da morte uma linguagem. Podemos não ser salvos no sentido ingênuo da palavra, mas somos expandidos. E ser expandido, para uma alma sufocada, já é uma forma de sobrevivência.
Alphonsus me deu isso.
Ou melhor: Ismália me deu a primeira chave.
Depois vieram outros autores, outras sombras, outros corredores. Mas aquela torre permaneceu. Até hoje, quando leio o poema, sinto a mesma vertigem inaugural. A sensação de que a literatura brasileira não era apenas matéria escolar, nome em prova, busto em praça, nota de rodapé em livro didático. Era abismo. Era magia. Era morte cantando baixo em português.
E eu, que sempre tive uma inclinação perigosa por tudo que canta baixo dentro da morte, obedeci ao chamado.
Hoje deixo esse diário como quem deixa uma vela diante de uma janela antiga.
Aos leitores que me acompanham, ofereço Alphonsus de Guimaraens não como obrigação acadêmica, mas como travessia. Leiam Ismália com calma. Leiam como quem sobe uma torre dentro de si. Leiam sem a pressa miserável de quem quer apenas dizer que conhece. Permitam que a imagem trabalhe; que a loucura abra seus espelhos; que a morte da amada, em sua obra, revele não apenas perda, mas transfiguração.
Porque é isso que os grandes poetas fazem.
Não nos livram da morte.
Eles nos ensinam a escutar o que ela sussurra quando todos os vivos se calam.
E, se um dia vocês sentirem que a realidade ficou estreita demais, talvez entendam por que Ismália ainda nos chama.
Ela não está apenas no poema;
Está em toda alma que olha para cima, vê uma lua impossível, olha para baixo, vê outra lua afogada, e percebe que desejar apenas uma seria viver pela metade.
- - -
ISMÁLIA
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
(Alphonsus de Guimaraens)