
Não a Paris dos cartões-postais, essa cidade domesticada para turistas que compram miniaturas da Torre Eiffel como quem leva um osso falso de relíquia. Falo de outra Paris: a que respira absinto, fumaça, febre, luxúria cansada, igrejas úmidas, prostitutas com olhos de santas condenadas e poetas andando pelas ruas como cadáveres educados demais para cair no chão.
A Paris de Charles Baudelaire.
Talvez vocês já tenham percebido minha devoção por ele. Não é exatamente um segredo, embora eu conserve alguns segredos com a elegância de quem guarda facas dentro de gavetas forradas de veludo. O quadro pendurado no meu escritório denuncia essa presença. Ele está ali, olhando para mim com aquele semblante de quem atravessou a beleza até encontrar o pus. O retrato dele é uma decoração que vigia, interroga. Parece me perguntar, todas as noites, se eu ainda tenho coragem de transformar o tédio em abismo.
Tenho.
Ainda tenho.
E, se um dia eu perder essa coragem, espero que os fantasmas da literatura venham me arrastar pelos cabelos até alguma biblioteca subterrânea. Seria um fim menos indigno do que virar uma dessas criaturas que confundem arte com conteúdo leve. O mundo já está repleto de leveza demais. Leveza de vitrine, leveza de feed. A alma humana, quando reduzida a postagem bonitinha, começa a feder de um jeito muito específico.
Hoje, em meu diário de leituras, abro as portas para Baudelaire.
E abro como quem conduz o leitor até uma cripta onde as flores continuam perfumadas apesar da podridão. Baudelaire não é apenas um poeta francês do século XIX. Essa seria uma forma preguiçosa de apresentá-lo, e a preguiça intelectual, convenhamos, é uma das doenças mais resistentes da espécie humana. Baudelaire é uma ferida estética. Um marco. Uma ruptura. Um homem que olhou para a modernidade nascente e percebeu que ela não traria salvação, mas novos cenários para velhas misérias.
Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821, filho de François Baudelaire e Caroline Dufays. Perdeu o pai ainda criança, aos seis anos, e essa ausência parece ter deixado nele não apenas um luto, mas uma cavidade. Há perdas que tornam-se um quarto secreto da personalidade. Depois veio o padrasto, o coronel Jacques Aupick, figura de ordem, disciplina, moralidade, carreira, obediência. Em outras palavras: tudo aquilo que uma alma como a de Baudelaire naturalmente transformaria em inimigo.
Penso muito nisso.
Algumas pessoas nascem incompatíveis com a engrenagem. Não por birra juvenil, como adoram diagnosticar os burocratas da alma. Nascem assim porque há dentro delas uma espécie de nervo exposto, incapaz de aceitar a mentira bem vestida. Baudelaire cresceu em conflito com o mundo ao redor. Estudou em Lyon, depois no Lycée Louis-le-Grand, em Paris. Foi melancólico, solitário, indisciplinado. Bela combinação, se me perguntarem. A disciplina excessiva costuma fabricar bons funcionários, não grandes poetas. A humanidade, comoventemente previsível, continua achando que as almas mais intensas precisam de correção, quando na verdade precisam de linguagem.
Ele encontrou a linguagem.
Ou talvez tenha sido devorado por ela.
Hoje passei parte da madrugada sentada no meu escritório, com o quadro dele acima de mim, uma xícara de café escuro ao lado, livros empilhados sobre a mesa e o Rio de Janeiro rangendo lá fora como um animal magnífico e ferido. A luz do dia entrava pelas frestas com aquela insistência quase vulgar do sol carioca, mas eu a mantive à distância. Baudelaire, especialmente, deve ser lido como se lê uma carta proibida encontrada entre as roupas de um morto elegante. Sua leitura exige penumbra em momentos em que nem toda claridade merece intimidade.
Peguei meu exemplar de As Flores do Mal.
Só o título já é uma sentença.
Flores.
Mal.
Duas palavras que, sozinhas, pertencem a mundos aparentemente opostos. Juntas, tornam-se uma revelação. Baudelaire entendeu antes de muitos que a beleza não mora apenas no puro, no luminoso, no moralmente aceito. A beleza também brota do vício, da queda, do enjoo, da decadência, do pecado, daquilo que a sociedade tenta cobrir com luvas brancas e frases piedosas. Ele não inventou a podridão humana. Apenas retirou-lhe o véu e disse: olhem melhor. Há perfume aqui.
E houve escândalo, naturalmente.
Sempre há escândalo quando alguém obriga a moral pública a olhar no espelho sem maquiagem.
Em 1857, quando lançou As Flores do Mal, Baudelaire foi acusado de ofender a moral e os bons costumes. Bons costumes: essa expressão deliciosa, sempre usada por gente que esconde o inferno em cômodos muito bem arrumados. A obra foi apreendida, poemas foram condenados, ele foi multado. A França, com toda sua pose civilizada, comportou-se como toda sociedade ameaçada por um artista verdadeiro: tentou domesticar o que não conseguia compreender.
Mas a literatura tem essa bela crueldade: às vezes, aquilo que o tribunal condena é justamente o que o tempo coroa.
Baudelaire foi mal compreendido por muitos de seus contemporâneos, embora tenha sido admirado por nomes como Victor Hugo e Gustave Flaubert. Depois de morto, como costuma acontecer com os inconvenientes geniais, foi finalmente reconhecido em sua grandeza. Inaugurou uma modernidade poética que só seria plenamente percebida depois. Sua maneira de ser, sua recusa, sua febre, sua relação com o vício, a cidade, o spleen, a beleza e o inferno cotidiano alimentaram a imagem dos chamados poetas malditos.
E aqui preciso confessar algo.
Tenho uma fraqueza pelos malditos.
Não pelos farsantes que encenam perdição para parecer interessantes em fotografias granuladas. Esses me cansam. Falo dos verdadeiros: aqueles que pagaram com a própria carne pela lucidez que carregavam. Os que não fizeram da sombra um acessório, mas uma consequência. Os que não visitaram o abismo para tirar retrato, mas porque não sabiam viver em outro lugar.
Baudelaire pertence a essa linhagem.
Sua vida teve boemia, dissipação, herança desperdiçada, ópio, haxixe, dívidas, escândalos e amores que mais pareciam pactos do que repouso. Em 1842, ao alcançar a maioridade, recebeu a herança do pai e mergulhou em uma existência que Paris assistia com fascínio e reprovação. Viveu na ilha de Saint-Louis, envolveu-se com Jeanne Duval, a chamada “dame créole”, uma presença que atravessou sua poesia como desejo, ferida, obsessão e abismo. Também surgem em sua órbita Madame Sabatier e Marie Daubrun, outras figuras femininas que, em sua obra, tornam-se mais uma espécie de símbolo do que parte da biografia.
Porque Baudelaire não amava como quem busca conforto.
Amava como quem procura um altar e encontra uma lâmina.
Talvez por isso eu o compreenda tanto.
O amor, em Baudelaire, raramente é limpo. E ainda bem. O amor limpo demais me provoca desconfiança. Parece produto vendido com embalagem nova. O amor verdadeiro, ou ao menos o amor interessante, carrega contradições: ternura e crueldade, adoração e posse, desejo e repulsa, perfume e febre. Baudelaire entendeu que o desejo humano não é uma pomba branca. É uma criatura híbrida, alada e enferma, arrastando luz e lama no mesmo corpo.
Com a leitura, aos poucos, o escritório se transformou no lugar onde mais me reconheço: uma pequena capela profana de livros, sombras, papéis, velas, canetas e silêncio. O quadro de Baudelaire parecia mais vivo à medida que a leitura avançava. Às vezes tenho a impressão de que certos mortos não permanecem nos cemitérios. Eles habitam objetos, frases, retratos, páginas. Baudelaire mora no meu escritório como uma presença incômoda, e eu gosto disso.
Abri no poema “Ao Leitor”.
Esse poema é uma bofetada com luva negra.
Baudelaire não começa As Flores do Mal oferecendo ao leitor uma entrada delicada. Ele começa acusando. Ele nos coloca no banco dos réus. Fala da tolice, do pecado, da mesquinhez, do vício que habita o corpo e o espírito. E então aparece aquele verso que me acompanha como uma criatura de estimação demoníaca: “É o Diabo que nos move”.
E isso não é uma simples provocação religiosa, mas sim uma espécie de diagnóstico da nossa alma.
Baudelaire sabia que o mal não precisa aparecer com chifres, enxofre e teatralidade barata; O mal trabalha em gestos pequenos, na covardia cotidiana, na preguiça moral, na hipocrisia social, na satisfação secreta que sentimos diante do que nos degrada. O Diabo baudelairiano não é apenas uma entidade, mas sim um mecanismo íntimo. É aquilo que nos manuseia por dentro enquanto fingimos autonomia. É o prazer subterrâneo da queda.
E então surge o pior dos monstros.
O tédio.
Ah, o tédio.
Esse cadáver sentado no trono da vida moderna.
Baudelaire compreendeu o tédio como poucos. Não o tédio banal de quem não tem o que fazer numa tarde sem graça. Falo do tédio metafísico, o spleen, esse peso cinzento que transforma o mundo em quarto fechado. O tédio de existir. O enjoo diante das repetições da vida. A sensação de que cada gesto humano já nasceu gasto, cada prazer já chega contaminado pela própria morte, cada manhã é apenas a continuação burocrática de uma condenação antiga.
Quem nunca sentiu isso talvez seja feliz.
Ou distraído.
Há pouca diferença, em certos casos.
A modernidade de Baudelaire nasce justamente dessa percepção: a cidade moderna não salva o homem de sua miséria. Apenas multiplica seus espelhos. Paris, para ele, não é apenas cenário. É um organismo. Um labirinto. É uma mulher, um cadáver, uma feira, um templo, um prostíbulo, um teatro, e um túmulo...
Ele transforma a multidão em solidão amplificada. O sujeito moderno caminha entre muitos e, ainda assim, permanece radicalmente só. Isso me toca de forma íntima, talvez porque o Rio de Janeiro também seja assim: uma cidade onde todos parecem próximos demais e, no entanto, cada alma sangra em seu próprio quarto.
À noite, quando caminho pelas ruas ou observo a cidade da minha janela, sinto essa mesma contradição. O barulho lá fora não dissolve a solidão. Apenas lhe dá trilha sonora. A cidade pulsa, ri, bebe, deseja, morre, recomeça. E eu, dentro da minha pele escura de pensamentos, escrevo. Escrever é minha forma de atravessar a multidão sem ser engolida por ela. Baudelaire fez isso com Paris. Eu tento fazer com as sombras que me cabem.
Mas voltemos ao veneno.
Baudelaire é marcado pela contradição. De um lado, carrega heranças românticas, a sensibilidade de Allan Poe e Gérard de Nerval, a atração pelo mistério, pelo sonho, pela noite interior. De outro, há nele um crítico feroz dos excessos sentimentais e retóricos do romantismo francês. Ele não aceita a emoção como ornamento fácil. Ele a contamina com inteligência. E quando a inteligência encontra a emoção sem domesticá-la, nasce uma poesia perigosa.
Talvez seja isso que mais admiro nele.
Baudelaire não se ajoelha diante da beleza, porque ele a interroga em seus versos:
Pergunta de onde vem seu perfume;
Pergunta que cadáver alimenta sua raiz;
Pergunta por que o vício pode brilhar;
Pergunta por que o grotesco seduz;
Pergunta por que o pecado, essa palavra tão abusada por sacerdotes e moralistas, tem às vezes mais verdade do que certas virtudes bem lavadas.
A beleza, para ele, não precisa ser inocente.
Eu também nunca acreditei nessa exigência ridícula.
A inocência é frequentemente uma estética da censura. Querem que a beleza seja limpa porque temem a beleza que denuncia. Mas a verdadeira beleza, aquela que permanece, não é dócil. Ela tem dentes. Ela se aproxima perfumada e, quando percebemos, já nos mordeu o espírito. Baudelaire sabia disso. Por isso suas flores não nascem em jardim de convento. Nascem no mal, na lama. Nascem na carne febril da cidade, onde os moralistas desviam o olhar e os poetas, se tiverem coragem, se ajoelham para colher.
Passei os dedos pelas páginas e pensei em minha própria escrita.
Toda autora carrega seus ancestrais secretos. Alguns estão no sangue. Outros, nos livros. Baudelaire é um dos meus mortos tutelares. Não porque eu deseje imitá-lo, seria uma vulgaridade, e o mundo já está abastecido demais de vulgaridades. Mas porque ele me autoriza, de alguma forma, a não suavizar. A não pedir desculpas por encontrar beleza na queda. A não fingir que o horror cotidiano é menos poético do que um castelo distante. A não arrancar os espinhos das flores apenas para que leitores delicados não furem os dedos.
A literatura que me interessa não é a que protege o leitor.
É a que o inicia.
E, convenhamos, toda iniciação exige desconforto.
Talvez por isso Baudelaire ainda assuste. Não pelo que há de escandaloso em termos de moral antiga, embora essa moral continue zanzando por aí como barata sobrevivente de incêndio. Ele assusta porque nos reconhece. Porque nos chama de hipócritas antes que possamos ajeitar a postura, nos mostra que o leitor não é uma criatura pura observando o mal de fora. O leitor participa. O leitor deseja. O leitor julga enquanto apodrece. O leitor sente repulsa e fascínio diante da mesma imagem.
E, no fundo, sabe.
Sabe que também caminha para o Inferno, mesmo quando finge consultar mapas do Paraíso.
Fechei o livro por alguns minutos e fiquei escutando a noite. O vento mexia levemente a cortina. Uma moto passou lá embaixo como um inseto furioso. Em algum apartamento vizinho, alguém ria alto demais. Sempre há alguém rindo alto demais quando estamos em comunhão com os mortos. A vida tem esse mau gosto insistente. Mas talvez seja justamente isso que torna a leitura mais intensa: o contraste entre a banalidade viva e a grandeza sepulcral dos livros.
E há aquelas motos que passam rasgando a noite com um barulho infernal, como se o próprio abismo tivesse aprendido a acelerar sobre duas rodas.
Ah, como eu odeio isso.
Não é som. É uma possessão mecânica atravessando a cidade, profanando o silêncio, assassinando qualquer tentativa honesta de paz.
Se o inferno tivesse trânsito, certamente teria esse escapamento.
Pensei então nos leitores do meu diário.
Vocês que me acompanham já sabem: não escrevo sobre livros como quem organiza prateleiras, mas sim como quem abre portas. Cada autor que trago aqui é um corredor. Alguns levam à beleza. Outros, ao desconforto. Os melhores levam aos dois, porque beleza sem desconforto costuma ser uma espécie de decoração. E decoração não salva ninguém do vazio.
Baudelaire é um desses corredores onde a vela treme.
Entrar nele é aceitar que a poesia pode ser perfume e doença, altar e prostíbulo, oração e blasfêmia. É aceitar que o mal não está apenas nos becos, nos vícios, nos corpos desejantes, nos escândalos que jornais fingem lamentar enquanto lucram com eles. O mal está também no espírito bem comportado, na virtude teatral, no julgamento fácil, na alma que se acredita limpa demais para ser examinada.
Baudelaire nos examina.
E sorri diante do resultado.
Mais tarde, caminhei até o quadro no meu escritório. Aproximei-me como quem consulta um oráculo empoeirado. Olhei para aquele rosto e pensei no homem por trás do mito: órfão, rebelde, boêmio, endividado, doente, brilhante, ferido, arrogante, sensível, condenado a viver com uma lucidez maior do que seu tempo estava disposto a suportar. Morreu em 1867, depois de anos de sofrimento físico e decadência. Mas há mortos que morrem apenas biologicamente. O restante deles continua trabalhando.
Baudelaire continua.
Trabalha em cada poeta que ousa aproximar beleza e corrupção;
Em cada artista que entende a cidade como labirinto espiritual;
Em cada escritor que recusa o sentimentalismo fácil;
Em cada leitor que, ao abrir As Flores do Mal, sente não apenas admiração, mas uma espécie de reconhecimento culpado.
Porque Baudelaire não fala apenas do mal dos outros...
Fala do nosso.
Essa é sua perversidade elegante. Sua eternidade.
Agora o dia avança, e o escritório está quase todo tomado pela sombra das cortinas. A vela diminuiu. O café acabou. O quadro permanece quieto. Na mesa, As Flores do Mal repousa fechado, mas não silencioso, porque esse livro continua falando depois que o fechamos. Fala na circulação do sangue, no modo como olhamos a janela, no pequeno enjoo que sentimos diante de nossa própria alma.
Baudelaire não termina, é uma leitura que se infiltra.
E eu gosto dos autores que se infiltram. Os que pedem licença demais geralmente não têm nada perigoso a oferecer.
Se hoje escrevo este diário de leitura, é porque desejo que vocês não apenas leiam Baudelaire, mas sejam lidos por ele. Que entrem nessa obra sem a bobagem de esperar conforto. Que atravessem seus poemas como quem caminha por uma galeria de espelhos manchados. Que sintam o perfume e o mofo. Que percebam a flor e a raiz podre. Que compreendam, enfim, que a verdadeira poesia sombria não é aquela que coloca a morte como cenário.
Mas sim aquela que percebe a morte respirando dentro da beleza.
Baudelaire fez isso.
E por isso seu retrato permanece no meu escritório, como um santo invertido da minha devoção literária.
Ele me lembra que a arte não nasceu para nos tornar aceitáveis, mas sim para nos tornar inevitáveis.
E hoje, enquanto o Rio se dissolve em ruídos, desejos, sirenes e sombras, eu olho para ele e sinto que algumas almas, quando descem ao inferno com elegância suficiente, não retornam trazendo redenção...
Retornam trazendo flores.
Flores do mal.
As únicas que nunca murcham completamente.

Charles Baudelaire
Sed non satiata
Bizarra divindade, escura como as noites,
Em mesclado perfume de almíscar e havana,
Obra de algum obi, o Fausto da savana,
Ventre de ébano, bruxa em negras meias-noites,
Eu prefiro ao constance, ao ópio ou ao nuits,
O elixir dessa boca onde o amor se engalana;
Quando a ti meus desejos vão em caravana,
Teus olhos, a cisterna onde eu bebo aos açoites.
Por estes grandes olhos negros em fervor
Por ti, demo sem pena! A mim, menos calor;
Não sou o Estige a nove vezes te abraçar,
E aí! eu sem poder, Megera libertina,
Para quebrar teu brio e então te encurralar,
No inferno de teu leito a virar Proserpina!
Remorso póstumo
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
Num negro mausoléu de mármores, e não
Tiveres por alcova e morada senão
Uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
Quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
E esses flancos sensuais de morna lassidão,
Impedir de querer e arfar seu coração
E teus pés de seguir a trilha aventurosa,
O túmulo que tem seu confidente em mim
– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta –,
Na insônia sepulcral destas noites sem fim,
Dir-te á: “De que te serviu cortesã incompleta,
Não ter tido o que em vão choram os mortos sós?”
– E o verme te roerá como um remorso atroz.
Spleen
Quando, pesado e baixo, o céu como tampa
Sobre a alma soluçante, assolada aos açoites,
E que deste horizonte, a cercar toda a campa
Despeja-nos um dia mais triste que as noites;
Quando se transformou a Terra em masmorra úmida,
Por onde essa esperança, assim como um morcego,
Vai tangendo paredes ante uma asa túmida
Batendo a testa em tetos podres, sem apego;
Quando a chuva estirou os seus longos filames
Como as grades de ferro em uma ampla cadeia,
E um povoado mudo de aranhas infames
Até os nossos cérebros estende as teias,
Súbito, os sinos saltam com ferocidade
E atiram para o céu um gemido fremente,
Tal aquelas errantes almas sem cidade
Que ficam lamentando-se obstinadamente.
– E féretros sem fim, sem tambor ou pavana,
Lentos desfilam dentro mim; e a Esperança,
Vencida, chora, a Angústia, feroz e tirana,
A negra flâmula em meu curvo crânio lança.
As Litânias de Satã
Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,
Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,
E que, vencido, sempre te ergues mais brutal,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,
Charlatão familiar das humanas insânias,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que, mesmo ao leproso, ao pária infame, ao réu
Ensinas pelo amor as delícias do Céu,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que da morte, tua velha e forte amante,
Engendraste a Esperança – a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que faz ao pé da forca o povo desvairar,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que sabes onde é que em terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras preciosas,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu cujo claro olhar conhece os arsenais
Onde dorme sepulto o povo dos metais,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar na orla dos edifícios,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que, magicamente, abrandas como mel
Os velhos ossos do ébrio moído num tropel,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que ao homem que é fraco e sofre deste o alvitre
De poder misturar ao enxofre o salitre,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Tu que, abrindo a alma e o olhar das raparigas, a ambos
Dás o culto da chaga e o amor pelos molambos,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Do exilado bordão, lanterna do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!
Pai adotivo que és dos que, furioso, o Mestre,
O Deus Padre, expulsou do paraíso terrestre,
Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!