
Hoje acordei com uma irritação antiga pousada no peito.
Não era tristeza. Tristeza tem uma educação fúnebre, senta-se à mesa, cruza as pernas e espera ser servida. O que havia em mim era mais áspero: uma espécie de impaciência com este país que carrega gênios literários como quem carrega relíquias dentro de um porão mofado, enquanto estende tapetes vermelhos para qualquer sombra estrangeira que venha embrulhada em capa bonita, tradução cara e meia dúzia de elogios importados.
O Brasil tem uma relação curiosíssima com seus próprios mortos: só os respeita quando alguém de fora aponta para o túmulo e diz que ali havia ouro. Antes disso, passa por cima da lápide, tira foto do café, posta uma frase de algum autor europeu mal traduzido e ainda se considera profundo. A tragédia não é ler estrangeiros. Leiam. Leiam tudo. Devorar o mundo é uma forma legítima de fome. A tragédia é desconhecer a própria casa e posar de herdeiro de castelos alheios.
Hoje, no meu diário de leituras, abri Augusto dos Anjos.
E, ao abrir Augusto, senti como se alguém tivesse destampado um frasco de formol dentro da alma brasileira.
Tenho em mãos um exemplar de sua obra completa. Um volume belo, pesado, bem impresso, desses que não parecem apenas livros, mas objetos de culto. É um desses livros que se depositam como se fossem urnas. A capa repousa sob meus dedos com a solenidade de uma pedra fria. As páginas têm aquele cheiro inconfundível de papel bom, tinta recente e promessa antiga. Um cheiro que, para mim, é quase erótico, se a palavra ainda puder ser resgatada da vulgaridade humana e devolvida ao seu altar correto: desejo por permanência, por matéria, por espírito aprisionado em celulose.
Preparei café antes da leitura. Forte, escuro, sem açúcar. Adoçar certas manhãs seria uma ofensa. Lá fora, o Rio de Janeiro respirava com seus pulmões de concreto: motores, vozes, calor, sirenes ocasionais, a cidade inteira fazendo seu número habitual de sobrevivência barulhenta. Dentro do meu quarto, porém, havia outro clima. Fechei a cortina. Acendi uma vela. Coloquei música baixa, quase imperceptível, só o bastante para que o silêncio não ficasse convencido demais de sua própria importância.
E então abri Eu.
Há títulos que são portas. Este é uma fenda.
Eu.
Não “nós”. Não “o mundo”. Não “as flores”. Não “os sonhos”. Apenas essa palavra miserável, imensa, contaminada: eu. A sílaba mais perigosa da língua quando dita por alguém que ousa descer até o próprio esgoto interior sem máscara, sem perfume, sem esperança barata. Augusto dos Anjos não escreveu um “eu” vaidoso. Escreveu um “eu” dissecado. Um eu posto sobre a mesa de anatomia, aberto, examinado, entregue aos vermes da ciência e aos fantasmas da metafísica.
Enquanto lia, pensei nos leitores brasileiros das redes sociais, esses turistas de feed que confundem literatura com decoração de personalidade. Muitos falam de sombra, mas só suportam a escuridão se ela vier estrangeira, legendada, filtrada e domesticada. Citam nomes de fora com a segurança artificial de quem decora senha de clube exclusivo, mas tropeçam no próprio quintal. Não conhecem Augusto. Não leem Cruz e Sousa com a reverência necessária. Ignoram Alphonsus, Hilda, Lúcio, Cornélio, tantos outros que abriram feridas neste idioma. Depois dizem amar poesia sombria. Que gracioso. É como dizer que ama cemitérios, mas sentir nojo de terra.
Sinto dizer, com a delicadeza de uma porta de cripta batendo no vento: se você é brasileiro, diz amar literatura sombria e não lê Augusto dos Anjos, precisa rever seus conceitos literários. Não como sugestão. Como exorcismo.
Augusto não é apenas um poeta sombrio. Essa palavra ficou pequena demais nas bocas de quem a usa para qualquer coisa com lua, sangue e um vestido preto estrategicamente iluminado. Augusto é outra substância. Ele é laboratório e sepultura. É microscópio apontado para a alma. É carne em decomposição pensando sobre Deus. É pessimismo com ossatura científica. É a náusea da existência vestida em métrica. Ele não ornamenta a morte; ele a coloca sentada diante de nós, remove seu véu e diz: observem, covardes, ela também é química.
Nasceu na Paraíba, no Engenho Pau d’Arco, em 1884. Sapé. Nome de terra, barro, vegetal, ruína. Morreu jovem, aos trinta anos, em Leopoldina, vítima de pneumonia, como se o próprio corpo tivesse decidido retirar do mundo aquele homem que já havia compreendido demais. Há algo cruelmente coerente nisso: um poeta obcecado pela matéria, pela falência orgânica, pela degradação da carne, sendo finalmente vencido por uma doença do ar. A respiração, essa concessão frágil que fazemos à vida, fechou-lhe as portas.
Foi professor. Estudou Direito no Recife. Leu Spencer, Haeckel, Schopenhauer, Taine. Carregou na cabeça aquele estranho casamento entre ciência, filosofia e desespero que marcou sua poesia como uma cicatriz. Ele olhou para o humano e não viu o boneco moral que a sociedade gosta de exibir nos domingos. Viu matéria em luta. Células. Instintos. Hereditariedade. Falência. Apodrecimento. Viu também uma alma esmagada pela consciência de ser corpo. E talvez seja aí que sua poesia se torne tão perturbadora: Augusto dos Anjos não separa o espírito da carne para nos confortar. Ele mistura ambos na mesma lama cósmica e nos obriga a cheirar.
Li durante horas.
O café esfriou. A vela afundou em si mesma. O dia lá fora mudou de cor. Gosto quando a leitura sequestra o tempo; é uma das poucas formas de desaparecimento que ainda considero elegantes. À medida que avançava pelos poemas, sentia o rosto do poeta se formando no quarto, não como retrato, mas como atmosfera. Magro, febril, cerebral, atravessado por uma lucidez que devia doer fisicamente. Existem inteligências que iluminam. A dele corroía.
E, estranhamente, eu me sentia acompanhada.
A solidão de quem lê Augusto não é vazia. É povoada por micróbios, cadáveres, ancestrais, ideias, fracassos evolutivos, restos de fé e uma espécie de ternura horrível pela condição humana. Sim, ternura. Por baixo daquele vocabulário agressivo, daquela dicção científica, daquele gosto pela podridão, há uma compaixão sem açúcar. Ele parece dizer: somos miseráveis, sim, mas ao menos sejamos honestos sobre a extensão da miséria. E honestidade, neste mundo de poses literárias e afetos terceirizados, já é quase uma forma de santidade invertida.
Pensei muito em Schopenhauer enquanto lia. A vontade como ferida, como impulso cego, como motor cruel da vida. Augusto parece ter entendido que existir é ser arrastado por forças que não pediram nossa opinião. Nascer já é entrar numa maquinaria de fome, desejo, dor, reprodução, perda e decomposição. O cristianismo prometeu salvação. O cientificismo prometeu explicação. Augusto olhou para ambos e, com aquele sorriso de caveira erudita que imagino nele, pareceu murmurar: nenhum de vocês resolve o fedor.
A grandeza dele está justamente aí.
Ele não nos entrega consolo.
Ele entrega precisão.
E precisão, quando aplicada à dor, torna-se lâmina.
Enquanto lia, tive vontade de sacudir alguns leitores pelo colarinho metafórico. Vocês querem poesia sombria? Então parem de procurar apenas castelos europeus e vampiros aristocráticos. Abram Augusto dos Anjos. Ali existe um horror muito mais íntimo: o horror de ser organismo. O horror de pensar com um cérebro condenado à falência. O horror de amar com uma carne que apodrece. O horror de buscar transcendência enquanto o corpo negocia diariamente com bactérias, secreções e ruínas. Isso, meus caros leitores de vitrine, é escuridão de verdade. O resto muitas vezes é figurino com pretensão.
Não me entendam mal. Eu amo castelos, vampiros, velas, cemitérios, ruínas, maldições e toda essa bela mobília do abismo. Minha vida seria muito menos divertida sem ela, e a diversão humana já é escassa, coitada. Mas existe uma diferença entre estética sombria e pensamento sombrio. A estética veste o cadáver. O pensamento pergunta por que ele ainda parece conosco.
Augusto pergunta.
E a resposta nunca chega limpa.
No fim da tarde, caminhei até minha estante e fiquei observando meus livros. Há algo de necrópole em uma biblioteca pessoal. Cada lombada guarda uma voz morta ou distante, esperando ser ressuscitada pelo toque. Puxei alguns volumes brasileiros, toquei nomes que muitos fingem conhecer e poucos realmente frequentam. Senti uma raiva funda, mas também uma missão. Talvez seja isso que me faça escrever meu diário de leituras: não apenas comentar livros, mas abrir passagens. Guiar quem ainda tem coragem, ou ao menos curiosidade, por corredores que o algoritmo não ilumina porque não sabe vender silêncio, densidade e morte sem transformar tudo em frase motivacional para gente sombria de shopping.
O algoritmo gosta do fácil.
A literatura verdadeira gosta de sangue difícil.
Augusto dos Anjos deveria estar em toda estante de quem se diz leitor do sombrio. Não como troféu, mas como ameaça. Um lembrete de que o Brasil produziu uma voz única, uma dessas aberrações magníficas que não cabem bem em escola nenhuma. Simbolista? Pré-modernista? Parnasiano deformado pela ciência? Filósofo da decomposição? Tudo isso e nada disso. A crítica adora gavetas porque tem medo de casas assombradas. Augusto é casa assombrada sem planta baixa.
Sua forma muitas vezes herdou rigores antigos, mas seu conteúdo explodiu as convenções como um cadáver que se recusa a permanecer bonito no caixão. Ele usou a arquitetura clássica para abrigar vermes. Usou vocabulário científico para cantar angústias metafísicas. Usou a língua como quem tenta forçar uma garganta doente a dizer o indizível. Em sua poesia, a palavra é como se fosse uma autópsia.
À noite, voltei ao livro.
E nesse momento eu já lia com uma espécie de fome espiritual. A chama da vela vacilava, e por um instante imaginei o jovem Augusto escrevendo seus versos, talvez sem saber que um século depois uma mulher vestida de preto, no caos noturno do Rio de Janeiro, abriria sua obra como quem abre um relicário. Augusto dos Anjos é um desses autores que morrem cedo e continuam envelhecendo dentro de nós. Sua poesia amadurece no leitor como veneno lento.
Pensei na morte, naturalmente.
Penso nela quase todos os dias, mas hoje ela veio menos teatral. Não trouxe foice, véu, cemitério sob lua cheia. Veio microscópica. Veio como célula, bactéria, órgão, febre, pulmão. A morte augustiana não é apenas um fantasma que vem nos assombrar: é um processo. Ela não espera no fim da estrada; ela trabalha desde o início, paciente, metódica, íntima. Nascer é receber uma sentença com data ilegível. Viver é fingir que não lemos o documento.
E ainda assim escrevemos.
Esse talvez seja o gesto mais insolente.
Escrever contra a decomposição sabendo que ela vencerá. Ler mortos para adiar o silêncio. Amar livros que não nos salvam, mas nos tornam mais conscientes da queda. Existe um prazer melancólico nisso, um prazer que não pede absolvição. Enquanto eu lia Augusto, senti novamente essa estranha alegria escura: a de encontrar uma inteligência que não tenta me consolar com mentiras floridas. A beleza, para mim, sempre esteve mais próxima da verdade do que do conforto. E a verdade, quase sempre, cheira a terra úmida.
Fechei o exemplar tarde da noite.
A casa estava quieta. A cidade continuava distante, elétrica, vulgar e magnífica. Passei a mão sobre a capa do livro como quem fecha os olhos de um morto querido. Não por fim, mas por respeito. Esse livro não deve ser abandonado aberto, exposto ao ar comum; precisa ser encerrado como se fosse um rito.
Antes de dormir, anotei no meu caderno:
“Augusto dos Anjos não escreveu para agradar os vivos. Escreveu para lembrar aos vivos que eles já pertencem parcialmente aos mortos.”
Talvez seja isso.
Talvez por isso ele incomode tanto.
Porque sua poesia retira a maquiagem da existência. Mostra o rosto por baixo. E o rosto por baixo, leitor, não é bonito. É fascinante.
Continuem acompanhando meu diário de leituras. Não para receberem recomendações domesticadas como quem escolhe sobremesa em cardápio de cafeteria. Venham para serem guiados por um corredor mais estreito, onde a literatura brasileira respira com pulmões esquecidos, onde os gênios nacionais ainda murmuram atrás das estantes, cobertos de poeira, injustiça e grandeza.
Eu não estou aqui para repetir o que o feed já cospe em vocês.
Estou aqui para abrir covas luminosas.
E hoje, dentro de uma delas, encontrei Augusto dos Anjos outra vez.
Ele estava intacto.
Como só permanecem intactos aqueles que tiveram coragem de apodrecer em público.

Augusto dos Anjos
Alguns poemas do autor:
A idéia
De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!
Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...
Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica
Asa de Corvo
Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte — a costureira funerária —
Cose para o homem a última camisa!
Eterna mágoa
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
Sabe que sofre, mas o que não sabe
E que essa mágoa infinda assim não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
Soneto
Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,
Leva-me o esp’rito dessa luz que mata,
E a alma me ofusca e o peito me maltrata,
E o viver calmo e sossegado tolhe-me!
Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-me
N’asa da Morte redentora, e à ingrata
Luz deste mundo em breve me arrebata
E num pallium de tênebras recolhe-me!
Aqui há muita luz e muita aurora,
Há perfumes d’amor - venenos d’alma -
E eu busco a plaga onde o repouso mora,
E as trevas moram, e, onde d’água raso
O olhar não trago, nem me turba a calma
A aurora deste amor que é o meu ocaso!
Soneto
N’augusta solidão dos cemitérios,
Resvalando nas sombras dos ciprestes,
Passam meus sonhos sepultados nestes
Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.
São minhas crenças divinais, ardentes
- Alvos fantasmas pelos merencórios
Túmulos tristes, soturnais, silentes,
Hoje rolando nos umbrais marmóreos.
Quando da vida, no eternal soluço,
Eu choro e gemo e triste me debruço
Na lájea fria dos meus sonhos pulcros.
Desliza então a lúgubre coorte,
E rompe a orquestra sepulcral da morte,
Quebrando a paz suprema dos sepulcros.
O lamento das coisas
Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!
É a dor da Força desaproveitada
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
jazem ainda na estática do Nada!
É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...
E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!
O morcego
Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
VERSOS ÍNTIMOS
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Vozes de um túmulo
Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!
Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!
No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta,
Hoje, porém, que se desmoronou
A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!