Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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17/06/2026 05h00
A pequena bruxa que nasceu do meu traço

 

Ontem passei a tarde criando a Luninha no Krita.

Digo criando como quem diz invocando, porque há personagens que não são desenhados: são chamados. Surgem primeiro como uma coceira no fundo da imaginação, depois como uma silhueta insistente na beira do pensamento, até que, quando a mão finalmente toca a mesa digitalizadora, já não somos autores de nada. Somos apenas médiuns cansadas, tentando não estragar a aparição com nossa péssima mania humana de controlar o impossível.

O Krita abriu diante de mim como um altar luminoso.

A tela branca, sempre tão inocente em aparência, me encarava com aquela crueldade virginal dos lugares onde tudo ainda pode acontecer. Há algo profundamente perverso numa página em branco. Ela finge pureza, mas exige sangue. Seja em poesia, romance ou desenho, toda criação começa assim: um vazio bem-educado pedindo que alguém o profane.

Preparei café forte, acendi uma vela pequena e deixei a noite entrar pela janela antes mesmo que o céu escurecesse por completo. O Rio de Janeiro fazia sua ópera habitual: buzinas, passos apressados, motos rasgando a avenida, vozes subindo dos prédios como almas insatisfeitas. Uma cidade incapaz de morrer em silêncio, o que, admito, combina comigo mais do que deveria. Enquanto lá fora o caos batia panelas, aqui dentro eu ajustava pincéis, camadas, opacidade, textura. Pequenas ferramentas digitais para uma velha feitiçaria: dar corpo a uma sombra.

A ideia da Luninha nasceu de uma contradição.

E contradições, ao contrário de certas opiniões de internet, costumam ter profundidade.

Durante algum tempo, Luna Bela Morte foi vista apenas como figura sombria: a poetisa dos cemitérios, a mulher das velas, das páginas fúnebres, dos vestidos pretos, das frases que parecem sair de uma gaveta onde alguém guardou cartas, ossos e segredos. Não nego. Sou essa também. Sou feita de neblina europeia, de pedra antiga, de melancolia que atravessou oceanos e veio se misturar ao sal nervoso do Rio. Mas seria uma simplificação quase ofensiva achar que a escuridão não pode rir. Como se o sombrio fosse obrigado a andar eternamente sério, arrastando correntes metafóricas e citando desgraças em corredores úmidos. A humanidade inventa regras até para o abismo. Que espécie teimosa.

A Luninha surgiu justamente para quebrar essa solenidade.

Ela é pequena, fofa, gótica, quase impossível de levar a sério por muito tempo, e ainda assim carrega dentro de si todos os meus símbolos. É como se alguém tivesse pegado a minha alma, lavado em luar, reduzido a uma versão de HQ e colocado glitter preto nos ferimentos. Ela usa a escuridão como vestido de festa. Olha para fantasmas como quem vê bichinhos abandonados. Acha monstros interessantes, não repulsivos. Caminha pela floresta assombrada com a tranquilidade de quem foi criada por morcegos emocionalmente disponíveis.

E talvez seja isso que mais me comove nela.

A Luninha não nega Luna.

Ela traduz Luna para outro idioma.

Enquanto eu escrevo como quem abre sepulturas com as unhas, ela sorri para o cadáver e pergunta se ele quer chá. Enquanto meus poemas descem aos porões da alma humana com uma vela na mão e uma lâmina na outra, Luninha entra no mesmo porão carregando uma lanterna em forma de morcego e dizendo que o monstro parece solitário. É absurdo. É delicado. É quase ofensivamente terno. E, por isso mesmo, necessário.

No Krita, comecei pelo rosto.

Olhos grandes, expressivos, brilhando entre inocência e presságio. Eu queria que ela tivesse aquele olhar de quem viu coisas demais para ser apenas criança, mas ainda assim escolheu acreditar que até um demônio pode estar apenas mal compreendido. Um olhar azul, fundo, quase líquido, como se a lua tivesse caído dentro de duas xícaras de porcelana. Desenhei os cabelos escuros em ondas macias, mais leves que os meus, menos carregados de tragédia, como se a noite nela tivesse aprendido a brincar.

A cada linha, eu sentia uma espécie de desconforto doce.

Era estranho me ver convertida em fofura.

Existe um pudor sombrio nisso. Quem passa a vida vestindo a própria dor com veludo negro estranha quando a dor resolve usar laços. Mas a arte, essa criatura insolente, não pede nossa permissão. Ela nos revela por ângulos que evitamos. E a Luninha me revelou algo que eu talvez tenha escondido sob camadas demais de poesia: eu ainda guardo ternura.

Sim, que horror.

Ternura.

Essa palavra macia que parece entrar numa sala gótica derrubando castiçais.

Mas existe. Está lá. Não como fraqueza, jamais. Ternura não é fraqueza. Ternura é uma forma de necromancia. Ela ressuscita partes nossas que o mundo tentou enterrar vivas. A Luninha nasceu dessa necromancia pequena e encantada: uma versão minha que ainda conversa com criaturas imaginárias, ainda acredita em amizades improváveis, ainda acha que um fantasma cansado merece uma xícara de café e não um exorcismo administrativo.

Depois vieram as roupas.

Preto, evidentemente. Não sejamos bárbaros.

Mas não o preto fúnebre da mulher que atravessa um cemitério carregando segredos demais. O preto da Luninha precisava ter leveza: babados, botas, mangas delicadas, uma estética entre boneca amaldiçoada e bruxinha de bolso. Um visual gótico, sim, mas atravessado por humor. Algo que pudesse caminhar entre túmulos sem perder a graça, como se o luto também tivesse aprendido coreografia.

 

 

A cada camada criada no Krita, eu pensava em como uma personagem de HQ exige outro tipo de respiração. Na literatura, posso esconder um abismo dentro de uma frase. No desenho, preciso fazer o abismo caber numa sobrancelha arqueada, numa mãozinha suspensa, num sorriso mínimo. É cruel. É fascinante. O traço não permite tantas desculpas. Uma curva errada e a personagem deixa de parecer mágica para parecer alguém que ouviu uma fofoca ruim no velório. E, sinceramente, velórios já têm constrangimentos suficientes.

Passei quase uma hora ajustando a expressão.

A Luninha não podia parecer apenas alegre. Alegria simples demais me irrita um pouco. Tem algo de panfleto motivacional, e já existem horrores demais no mundo sem precisarmos adicionar frases sobre gratidão em fonte cursiva. Eu queria uma alegria estranha, dessas que nascem depois de visitar a sombra e perceber que ela não é inimiga, apenas um cômodo sem janela. A Luninha sorri porque sabe que a noite não é ausência. É ambiente. É casa. É brinquedo, mistério, espanto.

Então desenhei o dragãozinho azul no braço.

Não apenas tatuagem. Familiar.

Ele é uma presença pequena, mas vibrante, como uma chama ciano enrolada na pele. Na minha versão adulta, a tatuagem carrega força, marca, identidade, um símbolo quase ritualístico. Na Luninha, ela ganha travessura. Torna-se companheiro. Um espiritozinho capaz de piscar quando ela se emociona, talvez soltar fumaça azul quando alguém fala besteira, o que, convenhamos, exigiria dele uma saúde pulmonar sobrenatural no mundo atual.

Depois pensei em Lupo, o lobo das costas.

Na Luna, o lobo é fera, guardião, instinto. Na Luninha, ele ainda é feroz, mas de um jeito protetor e quase cômico. Imaginei aquela cabeça lupina enorme, surgindo em forma de desenho animado atrás dela quando algum espectro tenta assustá-la. O pobre fantasma, esperando gritos, receberia uma encarada ofendida de um lobo mágico e talvez um sermão da Luninha sobre educação em ambientes assombrados. Essa é a beleza da HQ: ela permite que o terror dance com o ridículo sem perder a dignidade. Às vezes, o riso é apenas uma vela acesa dentro da cripta.

E então veio a pergunta inevitável: por que fazer isso?

Por que transformar Luna Bela Morte em uma personagem fofa de HQ?

A resposta mais simples seria: porque é divertido.

A resposta verdadeira é: porque eu precisava de uma chave nova para a mesma porta escura.

A literatura gótica me permite descer ao abismo com solenidade. A poesia me permite beijar a morte na boca e voltar com metáforas entre os dentes. Mas a Luninha me permite outra coisa: convidar o leitor para entrar na escuridão sem entregar-lhe imediatamente uma pá e um atestado de condenação emocional. Ela suaviza o limiar sem enfraquecer o mistério. É uma pequena sacerdotisa do susto gentil. Uma mascote da sombra. Uma versão minha capaz de falar com crianças interiores, leitores cansados, almas feridas e pessoas que, secretamente, sempre suspeitaram que caveiras também podem ser simpáticas se forem bem apresentadas.

Criá-la é como abrir uma janela num castelo antigo.

Não entra sol demais, graças aos deuses esquecidos. Mas entra ar.

E eu tenho aprendido que até os castelos precisam respirar.

Passei a noite refinando detalhes. A bota, as meias, as roupas, as mãos pequenas, a postura. Em cada escolha, eu tentava equilibrar dois mundos: o da autora sombria e o da criatura encantada. Se pesasse demais no terror, Luninha perderia sua graça. Se adoçasse demais, viraria decoração sem alma, dessas que vendem escuridão domesticada para prateleiras entediadas. Eu queria outra coisa. Queria uma personagem que parecesse capaz de tropeçar numa lápide, pedir desculpas ao morto e, em seguida, descobrir um portal demoníaco atrás do túmulo.

O humor nela não é enfeite.

É defesa.

É filosofia.

Rir do sobrenatural não diminui o mistério. Às vezes, aumenta. Porque o riso revela intimidade. Só ri da noite quem já deixou de vê-la como inimiga distante. A Luninha ri com os fantasmas porque pertence um pouco a eles. Ri com monstros porque sabe que todo monstro já foi, em alguma camada secreta, uma dor sem tradutor. Ri de si mesma porque, sem isso, qualquer estética gótica corre o risco de virar pose, e pose demais é uma forma particularmente tediosa de assombração.

Quando salvei o arquivo, já era madrugada.

O Krita fechou com a obediência silenciosa das máquinas, essas criaturas que fingem não ter alma para evitar impostos espirituais. Fiquei alguns minutos olhando a imagem final. Luninha me encarava de volta: pequena, sombria, fofa, mágica, insolente. Uma miniatura impossível da minha própria mitologia. Uma bonequinha noturna feita de tinta digital, humor e sombra.

Senti orgulho.

Mas não aquele orgulho barulhento, que exige plateia. Foi um orgulho baixo, quente, quase secreto. O tipo de emoção que se senta ao lado da gente no escuro e não pede explicação. Percebi que criar Luninha não era fugir da Luna profunda, trágica, poética, visceral. Era expandi-la. Era admitir que uma identidade artística não precisa ser um mausoléu fechado. Pode ser uma casa assombrada com vários quartos. Em um deles, escrevo sobre morte. Em outro, desenho uma bruxinha fofa conversando com um fantasma burocraticamente deprimido. Coerência, afinal, não é repetir sempre a mesma sombra. É reconhecer que todas as sombras pertencem ao mesmo corpo.

Talvez Luninha seja isso: minha sombra aprendendo a brincar.

E há algo de profundamente libertador nessa imagem.

Passei tanto tempo transformando dor em beleza que às vezes esqueço de transformar beleza em leveza. Nem tudo precisa sangrar para ser verdadeiro. Algumas coisas apenas brilham no escuro. Algumas criaturas nascem não para ferir o leitor, mas para pegar sua mão pequena e conduzi-lo, com uma risadinha suspeita, até a entrada da floresta encantada. Lá dentro haverá monstros, claro. Sempre há. Mas também haverá cogumelos luminosos, luas falantes, lobos guardiões, fadinhas góticas e fantasmas segurando canecas de café como se a eternidade fosse apenas mais um expediente mal pago.

A Luninha me devolveu uma espécie de infância que nunca foi exatamente inocente.

Uma infância de quem preferia monstros a princesas, cemitérios a shoppings, livros velhos a conversas rasas. Uma infância onde o medo não era inimigo, mas linguagem. Ao desenvolvê-la, sinto que estou costurando uma ponte entre a menina que conversava com sombras e a mulher que aprendeu a publicá-las. Entre a melancolia europeia que me moldou e o caos carioca que me tempera. Entre o veludo e o desenho animado. Entre a lápide e o meme. Sim, até isso. O século XXI é um circo pegando fogo, então ao menos que os morcegos sejam bem desenhados.

Hoje, criando Luninha, entendi que a minha obra não precisa escolher entre o abismo e o encanto.

Ela pode ter os dois.

Pode ter poemas que cheiram a túmulo molhado e uma personagem que chama um espectro de “amiguinho translúcido”. Pode ter dor, desejo, morte, memória, transformação, e ainda assim permitir que uma pequena bruxinha gótica atravesse a página fazendo piada com demônios desorganizados. Isso não diminui a escuridão. Humaniza-a. Ou talvez a monstruifique de um jeito mais honesto.

A noite agora está quieta.

A vela acabou. O café esfriou. Meus olhos ardem de tanto encarar tela, e minhas costas reclamam como se eu tivesse passado horas carregando um caixão, não desenhando uma personagem. O corpo humano, essa máquina dramática, adora transformar arte em dor cervical. Ainda assim, há uma paz incomum no quarto. A Luninha existe. Ainda não inteira, ainda não definitiva, mas viva o bastante para me observar do arquivo salvo, esperando sua próxima expressão, sua primeira tirinha, sua primeira aventura absurda no submundo fofo onde até os esqueletos talvez usem laços pretos.

Fecho este diário com a sensação de ter acendido uma lanterna dentro da minha própria estética.

Não abandonei as trevas.

Apenas encontrei nelas uma pequena criatura de olhos enormes, botas pretas e coração encantado.

Ela sorriu para mim.

E, pela primeira vez em muito tempo, a escuridão pareceu sorrir de volta.


As HQs de Luninha podem ser conferidas

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Publicado por Luna Bela Morte
em 17/06/2026 às 05h00
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