
Escrevo esta frase e sinto algo dentro de mim se abrir como uma porta antiga, daquelas que rangem não por ferrugem, mas por memória. Há portas que não deveriam ser tocadas. Há meses que não deveriam voltar. Junho, para mim, sempre retorna com as mãos sujas. Entra pela fresta da janela, senta-se à beira da cama, observa meu rosto sem pedir licença e sorri com a crueldade íntima de quem sabe exatamente onde doeu.
Junho é um animal.
Durante anos, ele me farejou.
Hoje, eu o coloquei dentro de um livro.
Fui dormir já era madrugada, como quase sempre. A claridade já tinha invadido o quarto com aquela arrogância tropical que o Rio de Janeiro chama de manhã. Humanidade inteira fingindo funcionalidade sob o sol, esse teatro cansativo. Eu, por outro lado, estava com a alma ainda suja da noite. Por alguns segundos fiquei imóvel, ouvindo o ruído distante da cidade: buzinas, vozes, motores, um cachorro latindo para algum fantasma que talvez fosse apenas um entregador. No Rio, até o cotidiano tem dentes.
Fui até o espelho sem acender a luz. Gosto de me olhar assim, parcialmente devolvida pela penumbra. O rosto surge menos como rosto e mais como aparição. Olhos cansados, pele pálida, cabelo escuro caindo sobre os ombros como uma cortina de luto. Passei os dedos pelas sardas, depois pela boca, como quem verifica se ainda pertence ao próprio corpo. Há dias em que a carne parece uma casa alugada por uma alma exausta. Hoje, estranhamente, ela parecia minha.
Talvez porque hoje eu tenha feito aquilo que tentaram me impedir de fazer: narrar.
Preparei café forte demais, amargo o bastante para acordar defuntos com problemas de autoestima. Bebi em silêncio, sentada junto à mesa onde os exemplares de Retrato Falado repousavam como pequenos caixões brancos. Passei a mão sobre a capa. O título me encarou de volta. Sempre me inquietou essa expressão: retrato falado. Um rosto feito por quem não viu a alma. Uma identidade desenhada por terceiros. Um esboço de culpa. Uma versão pública da mulher privada. A humanidade adora simplificar tragédias porque pensar dá trabalho, e trabalho moral, aparentemente, é uma praga que muitos evitam como se fosse boleto vencido.
O mundo sempre preferiu um rosto fácil.
A vítima perfeita.
A criminosa perfeita.
A mulher destruída no ângulo certo.
A manchete com sangue suficiente para vender indignação, mas não verdade.
O que escrevi não cabe nisso.
Retrato Falado nasceu do meu nojo. Da minha dor. Da minha recusa. Nasceu do mês em que fui arrancada de mim e, depois, obrigada a assistir outros tentando decidir quem eu era. Junho me deu a ferida. A escrita me deu a lâmina para abrir a ferida por dentro e retirar dela não apenas pus, mas sentido. A literatura é uma cirurgia sem anestesia: a gente corta, sangra, nomeia, costura com metáforas e, no fim, ainda agradecem se o resultado ficar bonito. Como se beleza fosse delicadeza. Não é. Beleza, às vezes, é uma fera deitada sobre ossos.
Passei parte da noite respondendo mensagens. Algumas chegaram como velas acesas: leitoras dizendo que se reconheceram na sinopse, que sentiram o peso daquela casa, que entenderam o silêncio antes da ruptura. Outras vieram com a curiosidade obscena dos que confundem literatura com interrogatório policial. Queriam saber o que era verdade, o que era invenção, quem era ele, se houve arrependimento, se houve justiça, se houve perdão.
Perdão.
Palavra curiosa. Tão limpa na boca dos outros. Tão confortável para quem nunca dormiu com o medo respirando ao lado.
Não respondi tudo. Há perguntas que não merecem minha energia. Há perguntas que são apenas facas usando roupa de civilidade. Fechei algumas janelas, silenciei notificações, deixei o celular virado para baixo como se fosse um inseto morto. A paz, às vezes, é esse pequeno luxo: não atender ao chamado do mundo.
Depois vesti preto. Não por performance. Por precisão. O preto entende o corpo melhor que certas pessoas. Ele não exige explicação, não pede alegria, não simula inocência. Apenas cobre e revela. Escolhi uma roupa simples, unhas escuras, colar junto à garganta. Ao me olhar no espelho antes de sair, pensei que toda sobrevivente carrega algo de viúva: não necessariamente de alguém, mas de uma versão de si que não atravessou a noite.
A rua estava úmida, mesmo sem chuva. O ar tinha cheiro de pedra antiga, maresia e presságio. Caminhei até uma padaria com cafeteria pequena onde às vezes escrevo. O dono já me conhece e, graças ao raro milagre da discrição humana, não faz perguntas. Sentei no canto, de costas para a parede. Velho hábito. Quem já teve o perigo dentro de casa aprende a mapear saídas até em lugares seguros.
Abri o notebook.
A página em branco me fitou com sua crueldade virginal.
Escrever no dia de um lançamento é uma perversão particular. O livro acaba de nascer e já exige outro parto. A escrita nunca se satisfaz. Ela é uma criatura faminta, enfiando os dedos gelados nas minhas costelas, pedindo mais uma confissão, mais um cadáver, mais uma pequena morte. Escrevi algumas linhas para outro projeto, mas Retrato Falado continuava respirando ao meu lado. Eu sentia o livro como se ele tivesse corpo. Como se, do outro lado da mesa, uma mulher ensanguentada me observasse com os olhos duros de quem já não pede socorro.
Ela não queria ser salva.
Queria ser reconhecida.
Há uma diferença brutal entre as duas coisas.
Enquanto mexia o café, pensei na casa. Não na casa em si, mas no conceito de casa. Esse altar doméstico que vendem às mulheres como destino. Casa, lar, família, amor, proteção. Palavras com cortinas floridas, escondendo porões. Quantas mulheres foram ensinadas a chamar cárcere de compromisso? Quantas aprenderam a sorrir para visitas enquanto o inferno secava no azulejo do banheiro? O lar, quando apodrece, não perde o cheiro de lar. Esse é o horror. Ele continua com mesa posta, roupa dobrada, retrato na parede. O monstro não precisa bater à porta quando já tem a chave.
Voltei para casa.
No elevador, uma mulher me reconheceu.
Ela segurava uma sacola de mercado e tinha olhos de quem já chorou em silêncio para não acordar ninguém.
Disse apenas:
“Eu comprei seu livro.”
Nada mais.
Não perguntou. Não explicou. Não tentou me abraçar com aquele desespero social de quem quer transformar dor alheia em cena emocionante. Apenas disse aquilo e sustentou meu olhar. Eu respondi com um aceno. Foi o suficiente. Entre nós passou uma coisa sem nome, mas antiga como as fogueiras: o reconhecimento secreto das que atravessaram alguma forma de inferno e ainda aprenderam a pentear o cabelo pela manhã.
Quando entrei em casa, acendi uma vela.
Não por superstição, embora eu respeite a superstição muito mais do que respeito certas opiniões públicas. Acendi porque algumas noites exigem testemunhas. A chama tremeu perto dos livros empilhados. Abri uma garrafa de vinho e deixei o primeiro gole descansar na boca. Tinha gosto de fruta escura, ferro imaginário e despedida. Coloquei música baixa, algo denso, guitarras como névoa, voz feminina parecendo convocar mortos para uma dança lenta.
Então chorei.
Sem elegância.
Sem composição.
Sem frase bonita.
Chorei com o corpo inteiro, como se uma represa subterrânea tivesse decidido romper justamente hoje, no dia em que todos esperavam força, postura, imagem, celebração. Que espetáculo inútil é a expectativa alheia. Lancei um livro sobre sobrevivência e, ainda assim, meu corpo me lembrou que sobreviver não é estar curada. É apenas continuar aqui, respirando apesar do incêndio. A cura, quando existe, não chega como anjo. Chega como faxineira cansada, limpando um cômodo por vez, reclamando do estado da casa.
Chorei por aquela que fui.
Pela que sangrou.
Pela que caminhou sob a chuva.
Pela que foi julgada antes de ser ouvida.
Pela que precisou transformar a própria história em linguagem para não virar apenas boato.
Chorei também por prazer, e isso talvez pareça estranho aos delicados de estômago fraco. Mas há prazer em sobreviver. Um prazer sombrio, quase indecente. O prazer de perceber que o algoz não escreveu a última linha. O prazer de transformar a humilhação em livro, a culpa em cinza, a memória em território reconquistado. O prazer de olhar para Junho e dizer: você ainda fede a morte, meu velho, mas agora eu tenho flores negras o bastante para cobrir sua boca.
Mais tarde, sentei no chão da sala com os exemplares ao redor. A vela já estava menor. A noite avançava pela janela como uma rainha sem pressa. Peguei um dos livros e abri ao acaso. Li algumas frases. Não as mesmas de antes. Elas estavam diferentes agora que pertenciam ao mundo. Um texto muda quando deixa sua autora. Ganha dentes próprios. Encontra leitores que o interpretarão com fome, medo, repulsa, desejo, ternura. Alguns me amarão por ele. Alguns me odiarão. Alguns tentarão me reduzir novamente a um desenho grosseiro, como se eu não tivesse acabado de escrever justamente contra isso.
Mas hoje já não me importo da mesma maneira.
O julgamento público é uma praça barulhenta.
A verdade é um quarto escuro.
Eu sempre preferi quartos escuros.
Pensei na morte, como penso quase todos os dias. Não com vontade, mas com intimidade. A morte não me assusta como deveria. Talvez porque já tenha assistido algumas versões de mim serem enterradas sem cerimônia. Talvez porque a morte, ao contrário dos vivos, não finge bondade. Ela chega, toma, encerra. Os vivos, não. Os vivos interpretam, distorcem, perguntam o que você vestia, por que ficou, por que não gritou, por que gritou, por que reagiu, por que não morreu mais discretamente para facilitar a narrativa.
A morte é brutal.
A sociedade consegue ser pior porque ainda se acha civilizada.
E, no entanto, escrevo para os vivos. Que ironia elegante. Escrevo para esses seres contraditórios, frágeis, cruéis e belíssimos que tropeçam entre desejo e medo tentando fingir controle. Escrevo porque talvez uma mulher, em algum lugar, abra Retrato Falado e encontre não uma resposta, mas uma fresta. Talvez entenda que sua história não precisa caber no idioma do agressor. Talvez perceba que a vergonha é uma coleira colocada no pescoço errado. Talvez, por alguns minutos, respire.
Se isso acontecer, o livro já terá cumprido seu ritual.
Agora passa da meia-noite.
Junho ainda está aqui, sentado no canto, observando-me com olhos de bicho antigo. Mas hoje ele parece menor. Não vencido, porque nada tão profundo se vence com um lançamento, uma capa, uma noite de vinho e lágrimas. Mas deslocado. Retirado do trono. Transformado em capítulo.
E isso não é pouco.
Há uma espécie de alquimia em pegar aquilo que nos esmagou e obrigá-lo a servir à nossa voz. Não purifica. Não apaga. Não devolve a inocência, essa coisa superestimada que o mundo usa como moeda para decidir quem merece compaixão. Mas transforma. E transformação é a única vingança que me interessa de verdade.
Não quero ser santa.
Não quero ser mártir.
Não quero ser absolvida por gente que nunca suportaria cinco minutos dentro da minha pele.
Quero existir inteira, com meus abismos, meus desejos, minha boca escura, minha memória cortante, minhas noites de escrita e meus silêncios cheios de dentes. Quero continuar entrando na madrugada como quem entra numa catedral profana, acendendo palavras onde antes havia gritos. Quero que meus leitores mais fiéis saibam que, por trás de cada página, há uma mulher que treme, ri, sangra, dança, deseja, falha, levanta, escreve. Uma mulher que não nasceu da dor, embora a dor tenha tentado assiná-la.
Hoje lancei Retrato Falado.
Hoje devolvi ao mundo o rosto que ele tentou roubar de mim.
E se amanhã vierem me caçar com seus olhos limpos, suas frases fáceis, seus tribunais de bolso e suas pequenas fogueiras digitais, que venham.
A noite me conhece pelo nome.
A chuva já me absolveu uma vez.
E eu aprendi, finalmente, a caminhar sem pedir licença aos fantasmas.