Luna Bela Morte
Scriptura aeternitatis obscurae.
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03/06/2026 05h00
A mulher que o fogo não conseguiu matar

 

Esta noite, o vento trouxe Portugal de volta.

Não o Portugal dos cartões-postais, das ruas fotografadas por turistas ou das varandas cobertas de flores. Trouxe o outro. O que vive escondido entre as pedras úmidas das vielas antigas. O que permanece enterrado sob a poeira dos anos e só desperta quando a memória decide abrir seus túmulos.

Passei parte da madrugada sentada diante da janela, observando as luzes dispersas do Rio de Janeiro cintilarem ao longe como pequenos cadáveres de estrelas. Há algo profundamente melancólico nas cidades que não dormem. Elas parecem pessoas tentando fugir de si mesmas.

Talvez por isso eu tenha me lembrado de quem fui.

Nem sempre fui Luna Bela Morte.

Antes dos livros. Antes dos leitores. Antes das fotografias sombrias e dos sonetos que hoje percorrem o mundo carregando fragmentos da minha alma.

Antes de tudo isso, existiu Luna Alfonso Bellamont.

Filha de uma névoa francesa e de um incêndio espanhol.

Uma criança que atravessou fronteiras cedo demais e encontrou abrigo nas ruas antigas de Portugal. Cresci entre bibliotecas silenciosas, jornais modestos e o perfume envelhecido dos livros que pareciam guardar segredos mais importantes do que aqueles que os vivos costumavam contar.

Mas nem toda história de amor conduz à luz.

Algumas conduzem ao fogo.

Durante muito tempo vivi dentro de um relacionamento que lentamente transformou minha existência numa espécie de inverno permanente.

Não foi uma destruição rápida.

Foi pior.

Foi lenta.

Como ferrugem.

Como água infiltrando-se nas paredes de uma casa antiga.

Dia após dia.

Palavra após palavra.

Humilhação após humilhação.

Existem prisões construídas sem grades. Prisões erguidas com culpa, medo e silêncio. Prisões tão eficientes que a própria vítima passa a acreditar que merece habitá-las.

Durante anos caminhei por corredores invisíveis.

E o mais terrível não era a dor.

Era o esquecimento.

O esquecimento de quem eu era.

O esquecimento da mulher que existia antes das feridas.

Hoje compreendo algo que naquela época eu desconhecia.

Algumas pessoas não desejam amar.

Desejam possuir.

Desejam apagar.

Desejam transformar o outro numa sombra obediente que reflita suas próprias misérias.

Mas existe algo curioso sobre as sombras.

Quando pressionadas contra a escuridão absoluta, elas acabam encontrando a própria forma.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo.

O fogo veio.

Consumiu certezas.

Consumiu ilusões.

Consumiu promessas.

Consumiu a mulher que eu acreditava ser.

E quando as chamas terminaram seu trabalho cruel, restaram apenas cinzas.

Foi então que algo nasceu.

Em 2023, atravessei o oceano.

Vim ao Brasil para uma visita breve.

Uma viagem.

Um desvio.

Uma pequena pausa.

Ao menos era o que eu pensava.

Mas o destino raramente pede autorização.

O Rio de Janeiro me encontrou.

As águas de Angra dos Reis me encontraram.

As luas tropicais me encontraram.

E, pela primeira vez em muitos anos, senti que respirava sem correntes.

Fiquei.

E permanecer foi o ato mais corajoso que já cometi.

Pouco a pouco, meu sotaque começou a dissolver-se como uma carta antiga esquecida sob a chuva.

Pouco a pouco, a mulher ferida começou a desaparecer.

Pouco a pouco, uma criatura nova abriu os olhos.

Foi nesse processo que compreendi algo essencial.

Eu precisava renomear minha própria existência.

Precisava criar uma identidade que carregasse não apenas minha história, mas também minha sobrevivência.

Assim nasceu Luna Bela Morte.

Não como personagem.

Mas como revelação.

Troquei nomes.

Troquei peles.

Troquei destinos.

E descobri que a verdadeira transformação nunca acontece quando encontramos a felicidade.

Ela acontece quando sobrevivemos ao inferno.

Hoje, quando observo o dragão azul tatuado em meu braço, quando termino mais um soneto à luz da madrugada, quando embalo livros para leitores espalhados pelo Brasil ou quando escuto o mar respirando sob a lua, lembro-me daquela mulher perdida que um dia caminhou entre ruínas.

Tenho ternura por ela.

Ela não sabia.

Não fazia ideia.

Mas estava atravessando as chamas que a transformariam numa fênix.

E toda fênix carrega uma verdade terrível.

Ela não renasce porque quer.

Ela renasce porque não existe outra escolha.

Hoje não sou a mulher que saiu de Portugal.

Também não sou a mulher que chegou ao Brasil.

Sou a soma das minhas cinzas.

Sou a cicatriz que aprendeu a florescer.

Sou a prova viva de que algumas feridas não nos matam.

Elas nos escrevem.

E talvez seja por isso que continuo produzindo poemas, romances e sonetos como quem realiza um ritual antigo.

Porque escrever nunca foi apenas arte para mim.

Escrever sempre foi sobrevivência.

Cada palavra que publico é uma cinza transformada em asa.

Cada livro é uma fogueira que se recusou a apagar.

Cada leitor que encontra abrigo em minhas páginas é uma confirmação silenciosa de que a dor pode ser convertida em beleza.

E que algumas mulheres não voltam das sombras.

Elas aprendem a governá-las.

Porque no fim, meus queridos...

A fênix não vence o fogo.

Ela se torna parte dele.

Publicado por Luna Bela Morte
em 03/06/2026 às 05h00
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